21 de jan de 2026 às 12:22
Cerca de 10 mil pessoas reuniram-se no último domingo (18) na praça Vauban, em Paris, em frente ao Palácio dos Inválidos, para a Marcha pela Vida anual.
A multidão, composta em grande parte por jovens, visivelmente engajada e sem demonstrar qualquer hesitação, reuniu-se para defender a dignidade da vida humana num momento de grandes desafios legislativos para a França.
A marcha ocorreu dois anos depois da inserção do aborto na Constituição francesa e poucos dias antes de um debate no Senado da França sobre a chamada legislação de "fim de vida", projeto de lei que normalizaria a eutanásia e o suicídio assistido, colocando a França entre os países com as legislações mais permissivas sobre o fim da vida no mundo. Para muitos participantes, essa convergência conferiu à marcha uma dimensão histórica.
Enquanto ativistas pró-vida, em sua maioria jovens católicos, lotavam a praça para defender o que consideravam uma questão de civilização, a hierarquia católica francesa chamava a atenção por sua ausência. Só estava presente o bispo emérito de Toulon-Fréjus, Dominique Rey, apoiador da missa tradicional anterior à reforma do Concílio Vaticano II que renunciou a pedido do papa Francisco em 2025, aos 72 anos.
Essa ausência, constante ao longo dos anos, convida a uma reflexão mais profunda sobre como os líderes da Igreja se envolvem ou deixam de se envolver em questões morais públicas em um momento em que a fé passa por uma renovação de gerações, impulsionada por uma juventude ávida por âncoras morais.
Uma mobilização jovem e intransigente
Atrás de uma faixa com os dizeres “Tratar e apoiar, nunca suprimir”, uma multidão tomou as ruas da capital francesa na tarde do último domingo, dando o tom para uma manifestação pacífica e determinada. Estudantes, famílias jovens e manifestantes de primeira viagem estavam ao lado de ativistas veteranos. Organizadores estimam que a idade média dos participantes era de gente na casa dos 20 anos, e a participação chegou a vários milhares — número alcançado apesar do apoio institucional limitado e da cobertura mínima da mídia.
“Sair às ruas parece essencial para nós”, disse Marie-Lys Pellissier, porta-voz de 24 anos de idade da Marcha pela Vida na França, ao jornal National Catholic Register, da EWTN. “É o único momento do ano em que podemos expressar publicamente nossa oposição ao aborto e à eutanásia e propor soluções concretas. No resto do tempo, a mídia nunca nos dá a palavra”.
Se a marcha atraiu um grupo predominantemente jovem, disse ela, é porque essas questões confrontam as gerações mais jovens de modo precoce e direto, deixando pouco espaço para neutralidade ou indiferença. Formados num contexto de relativismo moral e cada vez mais permissivo, muitos jovens participantes sentem-se compelidos a tornar visível a sua oposição indo às ruas.
Neste ano foi marcante a proeminência de mulheres, muitas delas jovens, dispostas a falar abertamente sobre suas próprias experiências com o aborto. Algumas testemunharam publicamente sobre abortos passados e as consequências de longo prazo que sofreram, buscando desafiar a narrativa dominante que apresenta o aborto como uma libertação. Entre elas estava Emilie Quinson, que recentemente discursou no Parlamento Europeu sobre a realidade do aborto e a falta de alternativas oferecidas às mulheres que enfrentam gravidez não-planejada. Quinson disse que fez três abortos no passado, sofreu traumas profundos e, depois, criou cinco filhos — experiência que agora considera central para seu testemunho público.
O silêncio dos pastores
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Na França contemporânea, posicionar-se publicamente sobre o aborto ou questões sobre o fim da vida tornou-se cada vez mais custoso. O aborto é agora considerado um direito constitucional, e o crime de “obstrução ao aborto” reduziu consideravelmente o espaço para oposição. Esse contexto dá particular peso à escolha de muitos jovens de se manifestar em defesa da vida. Essa disposição para correr tais riscos, por vezes em detrimento das suas carreiras, não encontra eco no mesmo modo na hierarquia eclesiástica, que frequentemente demonstra grande cautela nestas questões, inclusive em suas homilias.
“Todos os anos, escrevemos aos bispos para convidá-los para a Marcha pela Vida, anunciar a data e pedir que compareçam”, disse Pellissier. “Alguns nunca respondem. Outros nos dizem que estão rezando por nós. E às vezes nos dizem, muito francamente, que não é a prioridade deles”.
Ela disse que muitas dioceses continuam relutantes até mesmo em anunciar o evento. Os organizadores também ficaram impressionados com o fato de que, antes do debate no Senado da França sobre a eutanásia, a Conferência Episcopal Francesa (CEF) publicou um artigo de opinião coletivo opondo-se à legislação proposta, sem mencionar a Marcha pela Vida uma única vez.
Este ano, o bispo emérito Rey de Toulon-Fréjus foi, mais uma vez, o único membro do episcopado francês a participar da marcha. Pellissier disse que, nos últimos cinco ou seis anos, os bispos Rey e Marc Aillet de Bayonne foram os únicos bispos a comparecer pessoalmente. O arcebispo emérito de Paris, Michel Aupetit, só compareceu à marcha depois de deixar o cargo, detalhe que destaca o quão desconfortável é para os bispos em exercício estarem publicamente presentes na Marcha pela Vida.
Essa falta de comprometimento é ainda mais incompreensível para esses jovens ativistas, visto que a Santa Sé sempre adotou uma posição inequívoca sobre essas questões bioéticas. Em seu discurso de Ano Novo a diplomatas, o papa Leão XIV reafirmou a firme doutrina da Igreja sobre a vida, denunciando o aborto como uma prática que “interrompe uma vida nascente” e condenando a eutanásia como “forma ilusória de compaixão”, enquanto exortou autoridades públicas a apoiar as mães, as famílias e os vulneráveis, em vez de suprimir a vida. “A mensagem é clara”, disse Pellissier. “Os bispos são apoiados pela clareza da Santa Sé e pela doutrina da Igreja. Eles não precisam inventar nada — basta que abracem essa posição e estejam conosco”.
A nova geração pede clareza.
Baseando-se em anos de experiência com a causa pró-vida, Pellissier disse que a clareza sobre questões relativas à vida é uma das principais razões pelas quais um número crescente de jovens está sendo atraído de volta para a Igreja. Os catecúmenos de hoje, disse ela, não buscam uma fé amenizada ou evasiva, mas sim uma fé capaz de abordar as questões morais que estruturam a sociedade contemporânea. Em vários casos que presenciou, debates sobre aborto ou eutanásia serviram como um ponto de contato inicial com o cristianismo, um encontro intelectual e moral que posteriormente abriu caminho para a conversão.
“Os jovens devem pedir aos seus bispos que se unam a nós no futuro”, disse Pellissier. “Precisamos dizer-lhes: Vocês são os nossos pastores. Precisamos de vocês nessas questões sociais”.
Ela disse que as questões que envolvem o início e o fim da vida não são secundárias, mas antropológicas, pois tocam os fundamentos da sociedade e pertencem diretamente à missão de doutrina da Igreja. Num momento de renovação discreta, porém profunda, da fé católica no país, a questão levantada pela Marcha pela Vida deste ano não é só por que tão poucos bispos compareceram, mas se a liderança da Igreja reconhece o momento histórico que está vivendo e a responsabilidade que tem para com os que redescobrem a fé apesar da aprovação cultural, e não por causa dela.
Nesta época de profunda confusão moral, as Igrejas nacionais não podem dar-se ao luxo de parecer mais hesitantes quanto às suas próprias doutrinas do que os jovens que as estão acolhendo.







