3 de fev de 2026 às 16:09
Numa missa que acontecerá em breve em Manhattan, Nova York, EUA, o bispo Ronald Hicks se tornará o 11º arcebispo de Nova York. Mas na cerimônia de posse, na próxima sexta-feira (6), na catedral de São Patrício, o nativo de Chicago também será o mais novo membro de uma linhagem de outro tipo.
O arcebispo-eleito Hicks está prestes a se tornar o quarto auxiliar do cardeal Blase Cupich, de Chicago, a ser nomeado para uma importante diocese americana nos últimos 13 meses.
Os outros três bispos que se encaixam no perfil são o arcebispo de Milwauke, Jeffrey Grob; o arcebispo de Omaha, Michael McGovern; e o arcebispo de Cincinatti, Robert Casey; todos empossados no ano passado.
Junto com o arcebispo nomeado Hicks, o cardeal Cupich promoveu cada um deles a um cargo importante em toda a arquidiocese depois de sua chegada a Chicago em 2015, como vigário-geral e chanceler; todos, menos o arcebispo McGovern, foram bispos-auxiliares. Uma vez concluída a instalação em Nova York, os quatro representarão cerca de 12% de todos os arcebispos de rito latino dos EUA, o escalão superior da liderança da Igreja no país.
O número significativo de arcebispos que trabalharam sob a liderança do cardeal Cupich, membro de longa data do Dicastério para os Bispos e um dos bispos mais progressistas do país, e que foram por ele nomeados, ressalta a considerável influência que o cardeal de Chicago exerceu no cenário episcopal dos EUA na última década.
“O cardeal Cupich tem se mostrado muito empenhado em levar a sério seu papel no dicastério, e estamos colhendo os frutos disso”, disse Michael Heinlein, comentarista católico e biógrafo do antecessor do cardeal Cupich em Chicago, o cardeal Francis George, que morreu em 2015.
A considerável e significativa “árvore genealógica”, ou rede episcopal, que se formou em torno do cardeal Cupich, não só assegura o legado do bispo de 76 anos como um dos mais importantes religiosos americanos de sua geração, mas também levanta questões sobre como sua influência vai perdurar na hierarquia americana mesmo depois do término de seu ministério ativo.
Além da participação de dez anos do cardeal Cupich no Dicastério para os Bispos, órgão que avalia potenciais bispos e faz recomendações ao papa, sua influência foi ampliada por sua suposta estreita relação com o papa Francisco. O papa argentino via o bispo de Chicago como seus “olhos e ouvidos” nos EUA.
Essa relação permitiu ao cardeal Cupich influenciar nomeações que iam além daquelas envolvendo seus antigos subordinados, como a nomeação do cardeal Robert McElroy para a arquidiocese de Washington.
A influência do Cardeal Cupich também se manifestou no número considerável de bispos auxiliares nomeados para Chicago no período em que lá esteve.
Desde que se tornou membro do Dicastério para os Bispos em 2016, a arquidiocese teve um número expressivo de nomeações em 2018, 2020 e no ano passado, totalizando 11 bispos auxiliares. Em comparação, as arquidioceses de Los Angeles e Nova York juntas tiveram só dez novos bispos auxiliares nomeados no mesmo período.
O fenômeno proporcionou um momento de descontração na reunião da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA (USCCB, na sigla em inglês) em Baltimore, em novembro do ano passado, quando os bispos presentes começaram a rir ao ouvirem cinco bispos auxiliares de Chicago serem nomeados consecutivamente na apresentação dos novos bispos. Os bispos auxiliares de Chicago foram quase a metade dos 13 novos bispos apresentados na reunião.
A Santa Sé tem recorrido frequentemente aos bispos auxiliares do cardeal Cupich para preencher vagas diocesanas. Mas alguns clérigos de Chicago, como o bispo Louis Tylka, de Peoria, também ascenderam diretamente à liderança diocesana. O bispo Tylka foi nomeado para a diocese em Illinois em 2020, depois de ter sido presidente do conselho de sacerdotes da arquidiocese de Chicago desde 2015, cargo que ocupou desde então.
Redes Episcopais
Observadores da Igreja disseram ao jornal National Catholic Register, da EWTN, que, quando se trata de influenciar as nomeações episcopais nos EUA, o cardeal Cupich não tem igual nos dias de hoje. Sua rede episcopal é mais ampla e abrange cargos mais importantes do que qualquer outro bispo dos EUA em exercício.
“Não existe nada comparável a isso no momento”, disse Jayd Henricks, ex-funcionário da USCCB e atual líder de um apostolado católico.
Historicamente, redes episcopais como a do cardeal Cupich são comuns.
Nos EUA, algumas das redes mais importantes se concentraram em figuras como o cardeal Justin Rigali, arcebispo de longa data de St. Louis e da Filadélfia, que foi secretário da então Congregação para os Bispos em Roma por uma década antes de se tornar um bispo ordinário nos EUA.
O cardeal Francis Spellman, de Nova York, também era conhecido como um importante mecenas, conforme detalhado por George Marlin e Brad Miner em seu livro sobre os arcebispos da Big Apple, Filhos de São Patrício.
“Os padres leais e competentes, conhecidos como rapazes de Spelly, foram promovidos, e muitos se tornaram padres ordinários em todo o país”, escreveram eles, citando 15 dessas figuras, entre eles sete arcebispos.
Em seu artigo de 2022, intitulado Poder, Preferência e Patronagem: Um Estudo Explicativo sobre Bispos Católicos e Redes Sociais, os cientistas sociais católicos Stephen Bullivant e Giovanni Sadewo falaram sobre por que as "redes episcopais" se formam e como elas funcionam.
A dupla disse que, considerando tanto a relação de obediência entre padre e bispo quanto a dinâmica relacional do processo de seleção de bispos, certos bispos influentes exercem uma influência significativa e desproporcional na promoção de candidatos preferidos aos quadros do episcopado. Esses bispos não só “empregam a esperança ou mesmo a promessa de promoção como meio de incentivar ou recompensar a lealdade”, mas também tendem a promover “certos tipos” de padres com os quais dividem qualidades específicas, desde origem étnica e visão teológica até status de classe e personalidade.
Como resultado, o episcopado é marcado por “facções ou grupos identificáveis de bispos, unidos por laços mútuos de preferência e favor, que atuam, formal ou informalmente, em conjunto, e que apoiam e promovem os protegidos uns dos outros”.
Bullivant e Sadewo destacaram possíveis problemas dessa dinâmica, desde nepotismo e acobertamento de crimes até atividades homossexuais clandestinas. O caso mais alarmante envolveu o ex-cardeal Theodore McCarrick, que criou uma rede de privilégios e cumplicidade mútua que o protegeu da responsabilização por graves atos de abuso sexual até sua queda em desgraça em 2018.
Bullivant e Sadewo disseram que fazer parte de uma “rede episcopal” não diz necessariamente nada sobre se um bispo é bom ou não, já que essa dinâmica é onipresente na hierarquia.
“Bispos santos e heróicos são... tanto um produto de redes quanto ex-bispos destituídos”, escreveram os estudiosos.
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Imitadores ou independentes?
Mas o que se pode dizer sobre os arcebispos que trabalharam sob o comando do cardeal Cupich? Dada a reputação do cardeal Cupich como um prelado progressista, conhecido por defender que o testemunho pró-vida da Igreja se estenda ao atendimento material dos pobres e marginalizados e por restringir devoções mais tradicionais, muitos naturalmente perguntam se esses homens partilham dos mesmos traços.
Não necessariamente, segundo um líder católico local que trabalhou com cada um deles. Segundo a fonte, que pediu anonimato para falar abertamente, arcebispos nomeados pelo cardeal Cupich “são mais conservadores” em várias questões sociais e eclesiais do que o próprio cardeal-arcebispo.
Em particular, a fonte citou o apoio antigo e apaixonado dos arcebispos Grob e McGovern aos centros de apoio à gravidez como em contraste com o cardeal Cupich. O líder católico local também apontou o entusiasmo do bispo Hicks pelo Movimento Nacional de Renascimento Eucarístico como um fator distintivo e disse que o arcebispo-eleito de Nova York busca “imprimir sua própria marca nas coisas”.
Em vez de preferir candidatos a bispo que concordem com ele em todas as questões sociais e eclesiais, a fonte disse que o cardeal Cupich busca algo mais naqueles que indica.
“Ele gosta de caras que mantêm os trens funcionando no horário”, disse o líder católico local, referindo-se a clérigos que são administradores competentes.
Henricks sugeriu que parte da razão pela qual as escolhas do cardeal Cupich podem não dividir todas as suas ênfases teológicas e pastorais é porque o cardeal é “sui generis”, o que significa que não há outros candidatos para cargos importantes nos EUA que sejam do mesmo molde ideológico.
E, claro, muitos desses arcebispos já haviam sido identificados como candidatos à liderança antes da chegada do cardeal Cupich a Chicago. Sob o comando do mais conservador Cardeal George, por exemplo, o então arcebispo designado Hicks foi escolhido como decano de formação no seminário de Mundelein, o arcebispo Grob foi enviado para obter seu doutorado em direito canônico e o arcebispo McGovern serviu como vice-chanceler.
Isso não significa que as preocupações teológicas e pastorais não entrem em jogo para o cardeal Cupich quando ele escolhe se apoia ou não um clérigo.
Em particular, a fonte em Chicago disse que o cardeal veta os chamados "guerreiros culturais", termo pejorativo usado para descrever aqueles que se posicionam publicamente contra mudar a moral cristã, apoiado por progressistas, na sociedade em geral, e geram "imprensa negativa" para a Igreja. Por exemplo, o "exorcismo menor" feito pelo bispo de Springfield, Illinois,Thomas Paprocki, em 2013, em resposta à legalização do chamado "casamento gay" em Illinois, foi destacado como o tipo de ação que "não é vista com bons olhos" pelo cardeal Cupich e que impediria o avanço de um candidato.
“Ele gosta de homens que, em geral, mantêm um perfil discreto”, disse a fonte. “Pessoas que vão liderar a Igreja, administrar os sacramentos, evangelizar, mas que não sejam alvos da mídia em busca de declarações. Eles respondem às coisas, mas não fazem delas um grande problema.”.
Heinlein fez uma observação semelhante sobre o que os quatro arcebispos aprovados pelo cardeal Cupich têm em comum.
“Não acho que seja ideológico dizer que não são figuras que desejam promover a divisão”, disse ele.
Influência no futuro
Sem dúvida, o cardeal Cupich teve um papel preponderante na formação da hierarquia americana atual, realidade que ficará ainda mais evidente quando seu antigo vigário-geral se tornar arcebispo de Nova York.
Mas sua extensa rede de contatos também sugere que o cardeal, que completará 77 anos em março, continuará influenciando os assuntos eclesiásticos dos EUA num futuro próximo, mesmo que o papa Leão XIV aceite em breve a carta de renúncia obrigatória que o cardeal Cupich apresentou ao completar 75 anos.
Para começar, Bullivant e Sadewo observaram como os clérigos em ascensão tendem a depender de seu patrono episcopal para obter formação em "arte episcopal", visto que há poucos homens com experiência real no governo de uma diocese.
A fonte em Chicago espera que esse tipo de relacionamento continue entre o cardeal Cupich e o arcebispo-eleito Hicks, mesmo depois da chegada desse último à Big Apple.
"Não me surpreenderia se ele estivesse ao telefone o tempo todo perguntando ao cardeal Cupich: O que você faria?", disse a fonte, referindo-se aos desafios administrativos em Nova York, desde questões de pessoal até o fechamento de paróquias.
A provável ligação contínua que o cardeal Cupich manterá com seus antigos auxiliares poderá ser significativa caso ele pretenda influenciar os assuntos eclesiásticos americanos a partir de sua aposentadoria.
Por exemplo, o cardeal poderia continuar sua longa campanha para que a USCCB deixe de descrever a oposição ao aborto como uma “prioridade preeminente” em suas orientações para o ano eleitoral. Vale ressaltar que todos os ex-auxiliares do cardeal Cupich mencionados neste artigo assinaram uma carta de 2021, coescrita pelo cardeal, que pedia à conferência episcopal a suspensão das discussões sobre a proibição da participação de políticos pró-aborto na Eucaristia.
“Ele dá muita importância a obter consenso, principalmente se a iniciativa for dele”, observou Heinlein.
A presença de membros da rede do cardeal Cupich na hierarquia também pode ajudar a proteger o nome e o legado do cardeal. Um exemplo desse tipo de dinâmica já pode ter ocorrido quando o arcebispo Grob se esquivou de comentar a controversa decisão do cardeal Cupich de conceder um prêmio arquidiocesano ao senador Dick Durbin, defensor do aborto. Durbin acabou recusando o prêmio devido à repercussão negativa.









