4 de fev de 2026 às 12:11
Do final de janeiro até maio, diversas mulheres de Mogi das Cruzes (SP) realizam uma missão especial: ir de casa em casa rezando e preparando a festa do Divino Espírito Santo, celebrada em Pentecostes. São as rezadeiras. “A gente costuma dizer que as rezadeiras vão anunciar a Boa-nova na casa em que entram, elas são anunciadoras da Palavra de Deus”, disse à ACI Digital a coordenadora das rezadeiras, Aparecida Marlene Miguel de Barros, de 74 anos.
“A gente também costuma dizer que a rezadeira pratica a obra de misericórdia quando visita as famílias, os doentes”, acrescentou. Segundo ela, o grupo é formado em sua maioria por mulheres, mas há também homens, os rezadores.
A festa do Divino Espírito Santo de Mogi das Cruzes “é a maior e mais antiga celebração religiosa da cidade, reunindo milhares de fiéis em manifestações de fé, cultura e solidariedade”, diz o site da Associação Pró-Divino, entidade responsável pela festa.
Este ano, a festa está em sua 413ª edição e acontecerá de 14 a 24 de maio, com o tema “Divino Espírito Santo, fazei de nós mensageiros da vossa paz”.
Mas, as atividades envolvendo a festa do Divino começam bem antes dos dez dias de comemoração em maio. No dia 24 de janeiro aconteceu o retiro das rezadeiras e rezadores e, no dia 25, a missa de envio, celebrada pelo bispo de Mogi das Cruzes, dom Pedro Luiz Stringhini, na catedral de Sant’Ana.
Segundo os organizadores, a missa “é um dos momentos mais simbólicos da festividade, quando as rezadeiras recebem a bênção para seguir em missão, levando orações, cânticos e a mensagem do Divino às comunidades”.
Em sua homilia, dom Pedro traçou um paralelo entre a missão das rezadeiras e o Evangelho do dia (Mt 4,12-23), em que Jesus chamou os apóstolos Simão, mais tarde chamado Pedro, André, Tiago e João, que estavam pescando. “Rezadeiras e rezadores são pescadores pela oração. Para pescar o peixe não precisa da isca? A oração é uma grande isca”, disse o bispo.
Uma tradição nascida dos devotos do Divino
Aparecida Barros está à frente das rezadeiras desde 2010. Ela contou à ACI Digital que tudo “começou em 1974, com uma senhora chamada dona Rita, que obteve, na época, a autorização do bispo para levar a imagem do Divino às casas”. Mais tarde, “em 1989, rezava-se o terço do Divino”, com os “sete dons mais as Ave-Marias, uma para cada dom”.
“Já em 1993, uma outra senhora, envolvida demais com a festa, dona Amália Manna de Deus, aprendeu a rezar a Coroa do Divino numa viagem que ela tinha feito a Minas [Gerais]. Ela apresentou ao bispo da época e ele autorizou que a reza fosse oficialmente rezada do jeito que ela trouxe de Minas”. As rezadeiras rezam a Coroa do Divino nas visitas às casas.
Atualmente, segundo Aparecida, há 42 grupos de rezadeiras, “são mulheres, em massa, mas temos alguns rezadores também”. Cada grupo tem um determinado número de auxiliares. “Então, ao todo, eu tenho hoje 166 [pessoas], entre rezadeiras, rezadores e auxiliares”.
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No ano passado, segundo os organizadores, “o trabalho de evangelização alcançou números expressivos: 1.195 casas visitadas, 16.818 pessoas evangelizadas”.
Em sua missão, as rezadeiras levam um kit, recebido no retiro. “Esse material é tudo o que elas vão precisar nas visitas, tem os livretos, a flâmula – porque cada casa recebe uma flâmula para colocar na porta –, água benta, uma fita com o tema da festa que as rezadeiras a medalha delas”, disse Aparecida.
As rezadeiras carregam ainda dois cofres, uma para receber donativos e outro para que as pessoas depositem seus pedidos. “Todos os pedidos vão nessa caixinha e, no último dia da festa, que é o dia de Pentecostes, o bispo abençoa esses pedidos e eles são incinerados. São uns quatro a seis latões bem grandes com pedidos”, contou Aparecida, recordando ter ouvido de um bispo, certa vez, que “a fumaça branca que subia aos céus eram os pedidos sendo feitos e atendidos por Deus”.
Visitas às casas
Aparecida Barros contou que as rezadeiras têm uma lista com as casas que costumam visitar. “Geralmente, a dona da casa liga para marcar a visita, porque depende da disponibilidade dela. Mas, se porventura alguma não entrar em contato, a rezadeira liga para saber quando pode ir”, disse a responsável, destacando ser “muito raro” que uma casa não queira mais receber as rezadeiras.
Ela destacou ainda que esse número de casas visitadas “não tem limite”. Então, se alguma família nova desejar receber as rezadeiras, “elas podem entrar em contato com a Associação Pró-Divino, que serão atendidas”.
As visitas são marcadas por cânticos, orações, a Coroa do Divino Espírito Santo, aspersão de água benta nas pessoas e na casa. Muitas vezes, contou Aparecida, tudo começa antes mesmo de entrar nas casas. “Muitas pessoas já param no portão e ficam esperando, porque a gente já vem cantando, como se fosse uma procissão mesmo de Pentecostes”.
Para a responsável, mais do que uma preparação para a festa do Divino, este ´um momento para “receber o Espírito Santo em nossas casas”. “Quando a gente recebe a imagem do Divino entrando na casa, a gente sente mesmo a presença do Espírito Santo”, disse.
Aparecida disse ainda que, mesmo com o fim da festa do Divino, “se alguém precisar, as rezadeiras vão à casa”. “Não tem essa de acabou a festa, acabou a reza”.
Segundo ela, “é tudo um movimento de fé”, tanto dos devotos que acolhem a imagem do Divino Espírito Santo em suas casas quanto das rezadeiras e rezadores. “O que os motiva a seguir com essa missão é a fé, só a fé mesmo”, disse.
Aparecida também vê “um futuro muito brilhante” para essa tradição em Mogi das Cruzes. Segundo ela, “agora está vindo um número de crianças que acompanham as avós, as mães”, por isso, estão pensando em “formar essa meninada para ser rezador também”. “Agora, eu tenho uma meninada de 8, 12, 14, 15, 16 anos”, contou.




