A Fraternidade Sacerdotal São Pio X anunciou hoje (2) que planeja ordenar bispos em 1º de julho, mesmo sem autorização da Santa Sé. A medida acarreta excomunhão automática de todos os bispos participantes e promete agravar uma ruptura de décadas com Roma.

A Fraternidade São Pio X (FSSPX), que celebra exclusivamente a missa tridentina e mantém divergências doutrinais com decisões e reformas do Concílio Vaticano II (1962-1965), não consagra bispos desde 1988, quando o fundador da fraternidade, o arcebispo Marcel Lefebvre, consagrou quatro bispos sem a aprovação de Roma. A ação contrariou diretamente o direito canônico e levou à excomunhão automática deles e do arcebispo.

Embora o papa Bento XVI tenha revogado as excomunhões de 1988 em 2009, a Santa Sé diz que a FSSPX existe num estado de “irregularidade institucional” ou “comunhão imperfeita” com a Santa Sé, carecendo de uma estrutura canônica formal e reconhecida. Divergências doutrinárias em curso são a razão declarada para a ausência de uma estrutura canônica estável.

A Fraternidade São Pio X (FSSPX) disse hoje que seu superior-geral, padre Davide Pagliarani, solicitou uma audiência com o papa Leão XIV em agosto do ano passado para apresentar, “de maneira filial”, a situação atual da FSSPX, inclusive sua necessidade de bispos.

A declaração da sociedade diz: “Depois de ter amadurecido longamente sua reflexão em oração, e tendo recebido da Santa Sé, nos últimos dias, uma carta que não responde de modo algum aos nossos pedidos, o padre Pagliarani, em consonância com o parecer unânime de seu conselho”, decidiu prosseguir com a consagração de novos bispos.

A FSSPX só tem dois bispos em exercício: Bernard Fellay, ex-superior geral da fraternidade, e Alfonso de Galarreta. Richard Williamson foi expulso em 2012 por desobediência persistente e oposição aberta aos superiores da fraternidade e à sua política em relação a Roma. Ele morreu no ano passado. Bernard Tissier de Mallerais morreu em 2024.

Tanto Bento XVI quanto o papa Francisco tentaram regularizar a FSSPX gradualmente, com o papa Bento XVI buscando o diálogo, que foi interrompido em 2017. O papa Francisco concedeu faculdades para confissões e casamentos, mantendo as questões doutrinárias em aberto.

Observadores dizem que prosseguir com as ordenações depois de buscar explicitamente e não receber a concordância de Roma sinaliza uma clara divergência de opiniões que provavelmente endurecerá as posições de ambos os lados, tornando qualquer solução canônica futura mais difícil.

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Eles dizem que a medida desafia implicitamente o modo como a Santa Sé está lidando com a liturgia, a doutrina e o movimento tradicionalista no mundo, em um momento em que os debates sobre a liturgia antiga já estão intensos.

“As excomunhões voltaram a ser consideradas, obviamente porque são automáticas”, disse Joseph Bevan, leigo sênior da FSSPX e autor do livro Traddy Daddy — Memórias e Reflexões do Pai de uma Família Católica, lançado no ano passado. Ele disse acreditar que tal desenvolvimento era “inevitável”, dizendo que discussões vêm ocorrendo desde julho do ano passado, sem nenhum progresso. “Quem pode culpá-los?”, disse ele à EWTN News. “Roma está protelando e criando obstáculos”.

Mas um canonista romano, falando em condição de anonimato à EWTN News, disse ter esperança de que, como as ordenações ainda não ocorreram, uma solução possa ser encontrada nesse ínterim, e o anúncio de hoje possa pressionar ambas as partes a chegar a uma resolução.

A Sala de Imprensa da Santa Sé não respondeu a um pedido de comentários.

Em sua mensagem de hoje, Pagliarani enfatizou que a motivação da FSSPX continua sendo o serviço à Igreja e a preservação da tradição, citando sua reflexão de 2024 sobre o 50º aniversário da declaração do arcebispo Marcel Lefebvre, que formalmente estabeleceu a posição da FSSPX.

“A Fraternidade São Pio X não busca primordialmente a sua própria sobrevivência”, disse Pagliarani naquela ocasião. “Ela busca o bem da Igreja universal e, por essa razão, é uma obra da Igreja, respondendo às necessidades de uma era tragicamente sem precedentes… Sem qualquer espírito de rebeldia, amargura ou ressentimento, prosseguimos com nossa missão de formar sacerdotes, guiados pelo magistério atemporal”.

O comunicado conclui dizendo que mais esclarecimentos sobre a situação atual e a decisão de hoje seriam esperados nos próximos dias.