28 de jan de 2026 às 14:29
As irmãs terciárias capuchinhas da Sagrada Família anunciaram sua saída da Nicarágua depois de um "discernimento congregacional", dizendo que os objetivos que as levaram ao país centro-americano "foram cumpridos". Elas negaram terem sido expulsas.
“Em vista das informações falsas que circulam nas redes sociais, desejamos esclarecer o motivo do encerramento de nossa presença em Totogalpa, Nicarágua”, disseram as freiras num comunicado à imprensa divulgado no último sábado (24).
“Depois de um período de discernimento congregacional, reconheceu-se que os objetivos que nos trouxeram a estas terras foram cumpridos”, diz o texto assinado pela irmã Maribelle Umaña Machado, superiora provincial da província de Nossa Senhora de Guadalupe. “Portanto, foi tomada a decisão de encerrar nossa presença pastoral, confiando que a semente plantada continuará crescendo nas mãos desta comunidade paroquial”.
Denúncias de assédio
Jornalistas renomados, como Miguel Mendoza, nicaraguense radicado em Miami, Flórida, EUA, disseram que elas tinham sido forçadas a deixar a Nicarágua sob pressão do presidente Daniel Ortega e de sua mulher e co-presidente, Rosario Murillo, “pondo fim a mais de 30 anos de trabalho pastoral, evangelizador e social na cidade indígena Chorotega de Totogalpa, no departamento de Madriz”.
Em sua conta na rede social Facebook, Mendoza disse que “a decisão foi oficialmente confirmada no último sábado (24), numa reunião na casa pastoral da paróquia de Santa Maria Madalena, onde foi relatado que as freiras devem deixar o país permanentemente”.
Por décadas, as irmãs terciárias capuchinhas da Sagrada Família têm ajudado a comunidade local com catequese, formação de líderes leigos, auxílio em desastres como o ocorrido devido ao furacão Mitch, que atingiu a Nicarágua em 1998, e colaboração com a Cáritas. Segundo Mendoza, no ano passado elas viveram “sob constante assédio, o que as levou a receber um ultimato” e ao medo de “confisco de seus bens”.
Martha Patricia Molina, pesquisadora nicaraguense exilada e autora do relatório Nicarágua: Uma Igreja Perseguida, disse à ACI Prensa, agência em espanhol da EWTN, na última segunda-feira (26) que as freiras “publicaram que, depois de um período de discernimento, estão indo embora”.
“Todas dizem a mesma coisa”, diz ela.
“Eles não as colocaram em um avião ou ônibus, mas elas estão sendo forçadas a partir, e parece que depois de 35 anos vivendo bem na Nicarágua, elas decidem partir por vontade própria, quando na verdade são o Departamento de Migração e o Ministério do Interior que as colocaram nessa situação”, diz ela. “Elas são forçadas a publicar essas declarações”.
A pesquisadora disse à ACI Prensa, no início deste ano que, entre 2018 e o fim do ano passado, 43 propriedades foram confiscadas da Igreja, e o regime perpetrou 1.030 ataques contra católicos, além de ter proibido 18.808 procissões.
Nos últimos anos, congregações femininas como as missionárias da Caridade (2022) — conhecidas como as irmãs de santa madre Teresa de Calcutá —, as irmãs Dominicanas da Anunciação (2023) e as religiosas da Cruz do Sagrado Coração de Jesus, entre outras, foram forçadas a deixar a Nicarágua.
Molina publicou um comentário em sua conta na rede social Facebook sobre a saída das freiras, junto com várias fotografias, inclusive sua declaração, na qual ela diz: “Congregações religiosas estão sendo assediadas e várias delas estão sendo coagidas e extorquidas. Algumas congregações cedem às ameaças, enquanto outras não conseguem e são FORÇADAS a encerrar sua presença pastoral”.
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Declaração da arquidiocese de Manágua
A arquidiocese de Manágua, Nicarágua, chefiada pelo cardeal Leopoldo Brenes, falou sobre a partida das irmãs terciárias capuchinhas da Sagrada Família e agradeceu-lhes pelo serviço prestado “na paróquia de Totogalpa, por mais de vinte anos na diocese irmã de Estelí”.
Estelí é uma diocese com sé vacante, ou seja, está sem bispo desde 2021. Seu administrador apostólico, ou chefe temporário, é monsenhor Rolando Álvarez, que também é bispo de Matagalpa, expulso pelo regime em janeiro de 2024. Hoje, ele vive exilado em Roma.
Em seu comunicado, a arquidiocese diz que se comunicou com as freiras, que disseram oficialmente que sua saída da província eclesiástica se deve a decisões autônomas de sua congregação e não a razões externas à sua comunidade.
As freiras negam "perseguição" por parte do regime
A ACI Prensa contatou as irmãs terciárias capuchinhas da Sagrada Família e, na última segunda-feira (26), recebeu uma resposta da irmã Elia Julia Rosales, secretária provincial da Província de Nossa Senhora de Guadalupe, que disse: “Em relação ao conteúdo que circula nas redes sociais e em alguns meios de comunicação, desejamos reiterar claramente que nossa posição oficial é a expressa no AVISO OFICIAL e no comunicado 08/2026, de 24 de janeiro de 2026”.
“NÃO é verdade que as irmãs terciárias capuchinhas da Sagrada Família foram forçadas a deixar a Nicarágua devido a pressões externas”, diz a freira, reafirmando o que foi dito na declaração de sua congregação a sobre a partida de Totogalpa: os objetivos de sua missão “foram cumpridos”.
“Quaisquer declarações sobre expulsão, ultimatos, assédio, confiscos, venda forçada de bens ou outras expressões semelhantes não correspondem à nossa comunicação oficial”, diz a freira.
A freira diz que “no que diz respeito à abordagem de perseguição, queremos ser igualmente claras: em nossa experiência e no âmbito desta decisão, não vivemos nem relatamos nenhuma situação de perseguição”.
Respondendo sobre o destino das freiras que deixaram Totogalpa, a irmã Rosales disse que "por razões de prudência e segurança, não fornecemos informações operacionais ou sensíveis sobre o número de freiras, nacionalidades, itinerários, transferências ou destinos específicos em qualquer país onde tenhamos presença".
“Não comentamos declarações feitas por terceiros”, conclui ela. “Só remetemos aos nossos canais oficiais”.







