Enquanto os cardeais se reúnem esta semana num consistório extraordinário convocado pelo papa Leão XIV entre ontem (7) e hoje (8), um padre tradicionalista francês enviou um memorando aos membros do Sagrado Colégio Cardinalício propondo a criação de uma jurisdição eclesiástica específica para supervisionar a celebração da missa no rito anterior à reforma do Concílio Vaticano II, num esforço para resolver a crise litúrgica que tem marcado a Igreja nos últimos anos.

A carta, datada de 24 de dezembro do ano passado e divulgada pela jornalista americana Diane Montagna, foi escrita pelo padre Louis-Marie de Blignières, fundador da Fraternidade de São Vicente Ferrier em 1979 e figura importante do  movimento Ecclesia Dei pós-1988, que participou do diálogo com o papa são João Paulo II depois das consagrações episcopais ilícitas do arcebispo Marcel Lefebvre.

De Blignières, de 76 anos de idade, disse que seu objetivo é sugerir “uma solução eclesial que possa fornecer um quadro estável para esses fiéis que estão em plena comunhão com a hierarquia católica e ligados ao antigo rito latino”.

Em termos práticos, de Blignières propõe a criação de uma nova estrutura eclesial — como uma administração apostólica pessoal ou um ordinariato — semelhante a uma diocese, mas não vinculada a um território específico. Em vez de ser organizada por geografia, reuniria sacerdotes e fiéis ligados à liturgia latina tradicional sob uma única autoridade, independentemente de onde se encontrem.

 

De Blignières falou sobre modelos canônicos existentes, particularmente os ordinariatos militares, que exercem o que o direito canônico chama de “jurisdição cumulativa”. Sob esse arranjo, os sacerdotes e fiéis ligados ao rito tradicional pertenceriam à nova jurisdição, embora permanecessem membros de suas dioceses locais. Os bispos diocesanos, portanto, não seriam preteridos, mas dividiriam a responsabilidade pastoral com os bispos designados para supervisionar a estrutura proposta.

Segundo a carta, isso permitiria que bispos familiarizados com os livros litúrgicos de 1962 supervisionassem ordenações, confirmações e outros ritos específicos da liturgia tradicional, ao mesmo tempo que aliviaria os bispos diocesanos que pudessem se sentir despreparados ou relutantes em lidar com essas questões. Para os fiéis, isso ofereceria clareza e continuidade num contexto que muitas vezes tem sido marcado por incertezas e conflitos.

“Há mais de 60 anos que este grupo existe e cresce, mas carece do apoio de um quadro jurídico adaptado às suas necessidades legítimas”, escreveu De Blignières. “A criação de jurisdições eclesiásticas específicas impulsionaria a estabilidade, a paz e a unidade”.

A proposta surge em meio a tensões renovadas depois do motu proprio Traditionis custodes, publicada pelo papa Francisco em 2021, que restringiu significativamente a celebração da missa tridentina e reverteu o regime mais permissivo estabelecido pelo motu proprioSummorum pontificum, publicado pelo papa Bento XVI em 2007.

A implementação da Traditionis custodes tem variado bastante entre as dioceses. Em alguns lugares, os bispos buscaram soluções pragmáticas para preservar a coexistência. Em outros, as comunidades tradicionais e as celebrações litúrgicas foram drasticamente reduzidas ou suprimidas. Os críticos da situação atual argumentam que essa aplicação desigual contribuiu para a instabilidade pastoral e aprofundou as divisões dentro da Igreja.

 

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De Blignières formulou sua proposta não como um desafio à autoridade papal, mas como uma tentativa de oferecer um caminho construtivo a seguir. Em sua visão, a ausência de uma solução jurídica estável desde o fim da reforma litúrgica pós-conciliar deixou as comunidades apegadas ao rito antigo num estado recorrente de vulnerabilidade.

Na sequência das consagrações episcopais ilícitas realizadas por Lefebvre em 1988, a Santa Sé criou a comissão pontifícia Ecclesia Dei para facilitar a reconciliação das comunidades ligadas à liturgia em uso antes da reforma pós-conciliar.

Ao longo das décadas seguintes, várias propostas foram apresentadas para fornecer um arcabouço canônico mais estável para essas comunidades. Uma dessas soluções foi adotada em 2002 com a criação da administração apostólica pessoal São João Maria Vianney em Campos (RJ), à qual foi concedida a faculdade de celebrar os sacramentos segundo o rito romano de 1962. Outras iniciativas, como petições de associações leigas como a Una Voce, nos EUA, não resultaram em estruturas comparáveis ​​em outros lugares.

O padre Matthieu Raffray, superior do Distrito Europeu do Instituto do Bom Pastor e figura pública popular entre os jovens, falou sobre a proposta a Montagna, descrevendo-a como uma contribuição construtiva e não como uma exigência. Em sua visão, a proposta busca ir além do que ele chama de oposição “estéril”, oferecendo uma solução institucional capaz de preservar a comunhão eclesial, reconhecendo, ao mesmo tempo, a realidade pastoral específica das comunidades ligadas ao vetus ordo.

Outras figuras da Igreja, no entanto, disseram ter reservas.

O padre Pierre Amar, sacerdote da diocese de Versalhes, perto de Paris, e bastante conhecido nas redes sociais, disse que, embora uma jurisdição dedicada seja "uma solução", em sua opinião "não é a melhor", dizendo que poderia "isolar os tradicionalistas dentro de uma estrutura, onde o contato e a interação são uma fonte de enriquecimento para todos".

 

 

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A carta foi enviada a vários cardeais conhecidos por seu interesse em questões litúrgicas — 15 por correio e cerca de 100 por e-mail — mas não diretamente ao papa Leão XIV. Seu autor a apresentou explicitamente como uma contribuição para a reflexão antes do consistório, e não como um pedido formal.