8 de jan de 2026 às 13:55
Alguns cardeais e fiéis devotos ao rito romano tradicional expressaram preocupação com o fato de a liturgia parecer estar sendo deixada de lado no consistório extraordinário que está sendo realizado no Vaticano, depois de os cardeais votarem por priorizar outros assuntos da pauta.
Em seu discurso de abertura ao consistório ontem, o papa Leão XIV reafirmou aos cardeais participantes que eles terão a oportunidade de "se engajar numa reflexão comunitária" sobre quatro temas já previamente anunciados para constarem da agenda do encontro.
Segundo ele, esses temas eram a exortação apostólica Evangelii gaudium, do papa Francisco, publicado em 2013 , “ou seja, a missão da Igreja no mundo de hoje”; a Praedicate evangelium, constituição apostólica publicada pelo papa argentino que reformou a Cúria Romana; o Sínodo e a sinodalidade, “como instrumento e estilo de cooperação”; e a liturgia, “fonte e ápice da vida cristã”.
Mas Leão XIV disse que “devido a restrições de tempo, e para incentivar uma análise verdadeiramente aprofundada, só dois deles serão discutidos especificamente”.
Em seguida, foi solicitado aos cardeais que esclareçam quais dois dos quatro temas gostariam que fossem especificamente debatidos e, segundo Matteo Bruni, porta-voz da Santa Sé, “uma grande maioria” decidiu que os temas seriam “evangelização e a atividade missionária da Igreja, a partir da releitura da Evangelii gaudium”, e “o Sínodo e a sinodalidade”.
Bruni disse a jornalistas em entrevista coletiva ontem (7) à noite que os 170 cardeais participantes foram divididos em 20 grupos, que por sua vez foram divididos em dois blocos. Onze grupos eram compostos por cardeais em Roma, como cardeais da Cúria e os que já concluíram seu serviço e não são mais eleitores. Os nove grupos restantes eram cardeais eleitores de igrejas locais (arcebispos e bispos de dioceses), cardeais eleitores que são núncios e cardeais eleitores que já concluíram seu serviço, mas permanecem eleitores por terem menos de 80 anos de idade.
Bruni disse que, “por questões de tempo”, os secretários cardeais do segundo bloco ficaram encarregados de relatar a decisão dos cardeais. “Eles tinham três minutos para falar sobre o trabalho realizado nos grupos e os motivos que levaram à escolha dos dois temas”.
O papa disse em seu discurso de abertura que preferia ouvir o segundo bloco, já que normalmente não recebe conselhos desses cardeais. "Naturalmente, é mais fácil para mim buscar aconselhamento daqueles que trabalham na Cúria e vivem em Roma", disse ele.
Mas a decisão de não fazer da liturgia um tema central foi decepcionante para alguns cardeais e fiéis tradicionais.
A liturgia tem sido, há muito tempo, uma questão particularmente sensível, especialmente para fiéis de mentalidade tradicional, depois das recentes e abrangentes restrições ao modo mais antigo do rito latino no pontificado do papa Francisco. Esses fiéis viveram as restrições não como uma mera mudança disciplinar, mas como um julgamento sobre sua fidelidade, espiritualidade e pertencimento à Igreja, o que muitos descreveram como profundamente doloroso e divisivo.
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O site italiano de tradição religiosa Messa in Latino escreveu ontem (7) que havia contatado alguns cardeais importantes, porém anônimos, que disseram estar "desencorajados e decepcionados".
Luigi Casalini, editor do site, perguntou hoje (8) ao jornal National Catholic Register, da EWTN: “A quem o Papa delegou essa escolha e segundo quais critérios esses cardeais das nove igrejas locais foram selecionados para remover — na prática — dois tópicos?”
Ele também perguntou “por que cardeais sensíveis ao assunto” aparentemente “não fizeram nenhuma tentativa de pressionar” para que a liturgia fosse incluída como um tópico central de discussão, “mesmo antes do consistório”.
O consistório, disse ele, “parece estar em perfeita continuidade com os sínodos e o pensamento de Francisco”.
Bruni tentou tranquilizar os jornalistas falando ontem (7) à imprensa.
"Os outros dois temas ainda serão abordados de algum modo, porque a missão não exclui a liturgia", disse Bruni. "Pelo contrário, em muitos aspectos, não significa exclusão. Significa que eles ainda serão abordados dentro dos outros temas ou de algum outro modo”.
“Como disse o papa e como observou em seus discursos de abertura e encerramento [ontem], os temas não podem ser separados uns dos outros, porque na missão e na evangelização há liturgia”, disse ele.
Casalini disse estar ansioso pelos dois debates livres de hoje para ver “se o tema da liturgia será retomado”.





