“A vida dele foi um sinal do Céu aqui na terra”, disse Antônio Carlos Tavares de Mello, o Tônio, pai adotivo de Jean José Tavares de Mello (2012-2026) que morreu no dia 1º de janeiro, aos 13 anos. Jean resistiu a várias tentativas de aborto, foi abandonado no hospital e como consequência dos fármacos tomados pela mãe, nasceu com anencefalia. Os médicos prognosticavam três meses de vida. Tônio e quem conviveu com Jean José na Comunidade Católica Jesus Menino (CCJM), consideram um milagre os 13 anos que ele viveu.

“Muitas mulheres grávidas que eu levei ao quarto dele, que tinham desejo de aborto desistiram depois de ter contato com o Jean”, contou Tônio à ACI Digital. Fundador da CCJM e pai adotivo de 45 filhos, ele diz que “muitos jovens mudaram sua opinião sobre eutanásia e aborto. Um jovem foi estudar neurologia depois que conheceu o Jean. Temos muitos testemunhos importantes de conversão”.

Jean nasceu em 27 de setembro de 2012, em Rio das Ostras (RJ). Segundo registros hospitalares, sua mãe usou vários medicamentos abortivos e tentou esconder a gravidez comprimindo a barriga com cintas.

“Foi uma gravidez de tentativas de aborto durante todos os nove meses, até ela chegar ao hospital para o parto”, contou Tônio. “Ela sentiu as contrações dirigindo e ao sair do carro teve o bebê no pátio do hospital. Ninguém precisou puxar o Jean, ele mesmo veio para dizer ‘eu quero viver, eu preciso viver’”.

A história de Jean chegou até Tônio por meio de uma médica que assistiu ao programa Parábolas de Corações Especiais, da TV Canção Nova. Ao ouvir o testemunho do fundador da comunidade, ela decidiu ligar para oferecer o bebê abandonado. Tônio conta que, ao chegar ao hospital, encontrou Jean em um quarto arrumado, num bercinho azulado, mas sozinho, abandonado, fazendo fisioterapia.

“Mas meu coração já dizia, o Jean é meu filho e vou levar o bebê”, continuou Tônio. “E ao pegá-lo no colo, falei: Jean, agora que eu conheci a sua história, você vai entrar dentro do meu coração. Não tenho útero, mas tenho coração, e vou te gerar para o resto da minha vida. Que você viva um minuto, um dia, dez dias, um ano, dez anos, não importa, o que importa é que eu agora sou o seu pai”.

Depois de três semanas de trâmites legais, o Tônio recebeu a guarda provisória de Jean. No dia 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, o menino foi levado à casa da comunidade. Diante do sacrário, Tônio o apresentou a Jesus e consagrou a sua adoção. Jean passou a viver na sede da CCJM, em Petrópolis, com estrutura de UTI domiciliar, médicos, enfermeiros e especialistas.

A Comunidade Católica Jesus Menino é uma Associação Privada de Fiéis da diocese de Petrópolis, fundada em 1990. Seu carisma é “acolher, amar e cuidar de crianças, jovens e adultos com deficiência que foram abandonados ou não puderam permanecer com suas famílias, oferecendo a eles um verdadeiro lar, não apenas um abrigo”, diz o seu site.

A história de Jean José na ONU

Segundo Tônio, o caso de Jean foi apresentado em uma conferência médica na Organização das Nações Unidas (ONU) por uma das médicas que o acompanhou. Diante de especialistas de vários países, ela contou a história de Jean e muitos diziam que era impossível que ele vivesse por tanto tempo. “E a resposta da médica foi: De fato, é impossível, acontece porque estamos diante de um milagre. E alguns, ao conversarem com ela, saíram convencidos de que estavam diante de um milagre, a vida do Jean”, contou Tônio.  

Rodrigo Moco, professor e psicólogo voluntário da CCJM, acompanhou o Tônio em uma viagem aos EUA em 2023 para falar na ONU sobre o caso do Jean e participar da Marcha pela Vida, em Washington, D.C. Ele conta à ACI Digital que ficou impactado com uma conversa que teve com a Jeane Mancini, responsável pela organização da marcha. Ao falar sobre a história do Jean, “ela disse que era importante que essa história fosse contada no Capitólio, pois ela entendia que essa história era capaz de mudar as leis nos estados norte-americanos”.

Para Rodrigo, a expansão da CCJM a mais de 20 países “se deve ao testemunho do Jean, que é o que mais impacta as pessoas, onde as portas mais se abrem, as pessoas mais se sensibilizam”.

Ele também relata um episódio vivido com alunos da Rede Jesuíta de Educação, na qual trabalhava. Durante uma visita à comunidade, como parte do programa de voluntariado da escola, um grupo se recusou a tirar uma foto com a bandeira do “Brasil sem aborto”, alegando que apoiavam o aborto em alguns casos, entre eles, em caso de anencefalia. Nesse momento, Tônio os convidou a visitar o Jean. O encontro mudou a postura dos jovens. Um deles disse: “isso é um milagre”. “A partir dali, a visão de fé e de vida do grupo se transformou”, contou Rodrigo.

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Jean José, uma janela para o céu

“Jean José é uma luz que brilha ainda mais no céu”, disse Fábio, consagrado da CCJM que que conviveu três anos com ele, à ACI Digital. Para Fábio, Jean era “um sorriso, a clareza, a pureza santificante nesse pouco tempo de convívio”.

“Uma criança com diagnóstico de anencefalia nos reconhecia plenamente pela voz, pelo gesto, pela atitude e pela vivência dos sacramentos perante a Igreja. Dando retorno com um simples olhar que projetava uma janela para o céu, através da sua alma, com simples sorriso brilhava como estrela que trazia reflexo nos nossos corações”, disse Fábio.

Jean José foi batizado, recebeu a primeira comunhão e o sacramento da crisma quando dom Gregório Paixão, OSB, era bispo de Petrópolis. Rodrigo contou que no momento da crisma, Jean olhou para dom Gregório e o bispo falou: “Naquele momento o céu me olhou”.

“Parafraseando, eu percebo que a vida do Jean foi uma estadia do céu entre nós. O céu esteve conosco durante esses 13 anos e enquanto estava no velório com ele a sensação era exatamente essa. Não a sensação de dor, de tristeza comum dos velórios, mas era uma serenidade, um sentimento de consolação muito forte pois estávamos diante de um santo que partia”, disse Rodrigo Moco.

A história do Jean José foi parar no documentário Human Life, dirigido por Gustavo Brinholi e Luiz H. Marques, que estreou no Brasil em 2019. “Cada gesto dele era a comprovação física da realidade de que a vida vale a pena em qualquer circunstância”, disse Brinholi à ACI Digital.

“O discurso que levei através do filme Human Life, eu vivi na pele, podendo abraçar o Jean, beijar, sem receber um abraço de volta, mas sentindo na presença dele esse desejo de Cristo, esse desejo de Deus de falar conosco através das limitações que todos nós temos”.

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“Onde mostrei o filme, EUA, Espanha, Argentina, Alemanha, Suíça, no Brasil, muita gente se interessou pela história dele. Na época ele tinha seis anos e todos ficavam emocionados em saber que ele estava vivo vencendo. Testemunhei o espanto que todos tinham ao saber da história dele e ficavam comovidos com a história do Jean”, contou Brinholi.

Os últimos dias de Jean

Nos meses anteriores à morte, Jean dormia mais do que o normal e ficava mais recolhido. Tônio percebeu que a morte dele estava se aproximando. Na noite de Ano Novo, decidiu Ficar ao lado do filho adotivo. Pouco depois da virada do ano, à 1h15, Jean morreu.

Tônio ficou com ele no quarto, ao lado do sacrário, rezando e agradecendo.

“Coloquei minha cabeça no peito dele e falei: muito obrigado por tudo aquilo que você me ensinou. Foi você que me acolheu no teu coração, foi você que foi o meu mestre, meu maior professor e formador. Me leve ao céu contigo”, disse Tônio.

Jean chegou à comunidade em 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, e morreu em 1º de janeiro, Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus. Para Tônio, essas datas revelam a ação de Deus na história da comunidade e na missão que Jean cumpriu.