Cortes prolongados de energia e escassez de alimentos em várias cidades de Cuba causaram protestos no domingo (17). O leigo católico Osvaldo Gallardo e o padre Alberto Reyes narraram a difícil situação enfrentada pelos seus compatriotas em diferentes cidades de Cuba.

“Em Cuba houve apagões ao longo da história da Revolução Cubana [desde a década de 1950], porque o sistema nunca teve um desenvolvimento econômico sustentado que tornasse possível uma rede elétrica ideal”, disse o leigo católico Osvaldo Gallardo à ACI Prensa, agência em espanhol do grupo ACI, ontem (18).

A infraestrutura de produção de energia eléctrica em Cuba é formada por oito antigas centrais termoeléctricas e outros equipamentos, todos sofrendo o impacto da escassez de óleo diesel necessário ao seu funcionamento.

Osvaldo Gallardo, ativista pela liberdade religiosa que viveu mais de 40 anos em Cuba e atualmente mora em Miami, EUA, disse que o problema é agravado pela fome, pois “não há alimentos para distribuir à população”.

“A cota de comida que o governo fornece para sustentar as famílias durante um mês está cada vez mais diminuída. Há zonas do país aonde ainda não chegou nada e há outras onde deram duas libras (equivalente a pouco menos de um quilo) de arroz e duas libras de açúcar”.

No final de fevereiro, pela primeira vez, o governo cubano pediu assistência ao Programa Mundial de Alimentos (PMA) por causa das “dificuldades na distribuição de leite subsidiado a crianças menores de sete anos”.

Gallardo comentou que, embora existam lojas que vendam alimentos em dólares, nem todos têm acesso a uma remessa familiar do exterior ou a uma renda fixa que lhes permita alimentar-se “razoavelmente bem”.

“A maioria do povo cubano não tem nada para comer neste momento, embora a propaganda do regime afirme que está garantindo o essencial”, acrescentou.

No domingo, 17 de março, centenas de cubanos saíram às ruas para expressar o seu descontentamento com a escassez e o aumento dos preços dos produtos básicos. As primeiras manifestações surgiram em Santiago de Cuba, a segunda cidade mais importante do país, onde os apagões elétricos se estendem por até 13 ou 14 horas.

As redes sociais, especialmente o X, foram o principal meio de divulgação destes protestos em diferentes pontos do país.

 

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O padre Alberto Reyes, morador de Esmeralda, disse à ACI Prensa ontem (18) que a população de sua cidade sente “o mesmo incômodo geral que todo o país”.

“As pessoas não param de falar, as pessoas não param de reclamar, mas Esmeralda até agora tem sido uma cidade muito submissa, reclamando internamente e não fazendo nada externamente”, lamentou.

Segundo o padre, a situação tornou-se desesperadora na ilha. “É desesperador porque vivemos entre a falta de energia elétrica e de alimentos. Isto é, o pouco que há para comer não pode ser cozinhado. Isso imobiliza totalmente, porque não se consegue fazer nada. As pessoas estão em um ponto de desespero e não aguentam mais”, disse ele.

O presidente Miguel Díaz-Canel disse no dia 17 de março em sua conta na rede social X que "várias pessoas expressaram sua insatisfação com a situação do serviço de eletricidade e distribuição de alimentos". Ele acrescentou que "esse contexto está sendo explorado pelos inimigos da Revolução para fins de desestabilização".

Gallardo criticou o discurso político de Díaz-Canel, garantindo que “já não tem validade” e “ninguém em Cuba acredita nele”.

Segundo o padre Reyes, o “divórcio entre o governo e o povo” é cada vez mais perceptível. “É como se o governo não estivesse interessado no povo. O governo é o grande ausente nisso tudo. Sai um ministro ou outro tentando acalmar, mas não tem ninguém aqui para dizer: 'vamos ver, a situação é essa, vamos fazer alguma coisa'. As pessoas estão totalmente esgotadas”, explicou ele.

Segundo Gallardo, embora o governo não tenha negado os problemas, não explicou a sua origem nem a sua real dimensão. “Afirmam que é um problema que estão tentando resolver, que a culpa é do bloqueio e que está sendo distribuído o mínimo e o essencial, mas isso não é verdade”, disse.

Para o leigo cubano e para o padre Reyes, as condições são propícias para revoltas sociais, como a que ocorreu em 11 de julho de 2021.

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“O clima está tenso e a situação é propícia para essas revoltas. O problema é que a repressão é tão forte que, quando cai a noite, começam a reprimir imediatamente, cortando a Internet e sufocando o protesto”, disse Gallardo

O padre Reyes concluiu que tudo depende “da faísca se espalhar e se generalizar”. “Isso pode acontecer a qualquer momento”.