A Província Centro-Americana da Companhia de Jesus (Jesuítas) disse que são "falsas e infundadas" as acusações contra a Universidade Centro-Americana (UCA) de Manágua, Nicarágua, expropriada na terça-feira (15) pelo governo, acusada de ser um "centro de terrorismo”.

“São totalmente falsas e infundadas as graves acusações contra a Universidade Jesuíta da Nicarágua contidas no ofício emitido pelo Décimo Distrito de Audiências Criminais, Circunscrição de Manágua, em 15 de agosto de 2023, no qual é descrita como um 'centro de terrorismo', e é acusada de ter 'traído a confiança do povo nicaraguense' e de 'ter transgredido a ordem constitucional, a ordem legal e o ordenamento que rege as Instituições de Ensino Superior no país'”, disse a província jesuíta em comunicado divulgado ontem (16).

 

A expropriação da casa de estudos foi anunciada na terça-feira (15) por meio de um e-mail enviado pela UCA à comunidade universitária, no qual também foi divulgado o teor do ofício do Judiciário.

Desde 2018 a Igreja vem sendo perseguida pelo governo do presidente Daniel Ortega, ex-líder guerrilheiro de esquerda que soma 30 anos no poder no país.

A Província Jesuíta da América Central diz que "o confisco de fato da UCA é o preço a pagar pela busca de uma sociedade mais justa, por proteger a vida, a verdade e a liberdade do povo nicaraguense, de acordo com seu lema: A verdade vos fará livres (João 8,32)”.

Também diz que a "agressão não é um evento isolado", mas "faz parte de uma série de ataques injustificados contra a população nicaraguense e outras instituições educativas e sociais da sociedade civil".

Os ataques do presidente Daniel Ortega, ex-líder guerrilheiro de esquerda que soma 30 anos no poder no país, estão “gerando um clima de violência e insegurança e agravando a crise sociopolítica do país”.

“Trata-se de uma política governamental que viola sistematicamente os direitos humanos e parece visar a consolidação de um Estado totalitário”, diz a Companhia de Jesus.

A Companhia de Jesus diz que desde abril de 2018, “em consequência da sua postura em defesa da vida das pessoas que estavam sendo reprimidas pelas forças estatais e parapoliciais, a UCA tem sido objeto de constante cerco, perseguição e assédio por parte das instituições governamentais da Nicarágua”.

Os primeiros sinais destes ataques se manifestaram “em mecanismos como a não emissão das certidões necessárias para o seu funcionamento por parte do Ministério do Interior” e outros organismos.

Pedido dos jesuítas ao governo da Nicarágua

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No comunicado, os jesuítas dizem que "é necessário e essencial" que a UCA possa "exercer o seu direito inalienável de legítima defesa contra as referidas acusações".

Eles também pediram que "a medida drástica, inesperada e injusta adotada pelo órgão judicial seja imediatamente revertida e corrigida" e que "cessem as crescentes agressões do governo contra a universidade e seus membros".

Também fizeram um chamado para “buscar uma solução racional em que prevaleçam a verdade, a justiça, o diálogo e a defesa da liberdade acadêmica”.

Os jesuítas se solidarizam com a comunidade universitária e o povo da Nicarágua

A Ordem disse que a UCA e os padres jesuítas residentes na Nicarágua têm seu “total apoio”.

A Ordem responsabiliza o governo por quaisquer danos que possam ocorrer contra os "estudantes, funcionários docentes e administrativos e demais trabalhadores da universidade e do patrimônio cultural do referido país que decorram de tal acusação injustificada e da ordem de apreensão".

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“Reiteramos o compromisso da Companhia de Jesus com o povo nicaraguense em prol de uma educação inclusiva de qualidade, inspirada no Evangelho de Jesus Cristo. Agradecemos à comunidade universitária da UCA pela coragem, entrega e comprometimento. Ao mesmo tempo, reconhecemos as manifestações de solidariedade nacional e internacional diante da situação injusta que a UCA atravessa”, acrescenta o texto.

“Deus é quem tem a última palavra sobre a história e a terá também sobre a Nicarágua”, dizem os jesuítas da América Central.

Sobre a Universidade Centro-Americana

Criada em 1960 e ligada à Companhia de Jesus, a UCA é a primeira universidade privada da Nicarágua. Ao longo da sua história, formou mais de 12 gerações de profissionais e foi o berço de figuras que se opuseram à ditadura de Somoza, que vigorou no país até 1979. Também acompanhou o processo de regresso à democracia nos anos 90 e denunciou as injustiças e a repressão durante os protestos na Nicarágua em 2018.

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