O papa Leão XIV criticou hoje (4) o uso de linguagem "incompreensível, pouco comunicativa ou anacrônica" na proclamação do Evangelho e pediu à Igreja que encontre "métodos criativos" que alcancem os corações.

Na audiência geral, o papa disse que quando a proclamação da Palavra de Deus se desconecta das “esperanças e os sofrimentos dos homens”, ela se torna “ineficaz”.

“Em todas as épocas, a Igreja é chamada a repropor a Palavra de Deus com uma linguagem capaz de se encarnar na história e de alcançar os corações”, disse Leão XIV a peregrinos reunidos na Aula Paulo VI, no Vaticano, para ouvir sua catequese.

Ele citou seu antecessor, o papa Francisco, que disse na exortação apostólica Evangelii gaudium, publicada em 2013, que “sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outros modos de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo atual”.

O papa prosseguiu hoje com a análise da constituição dogmática do Concílio Vaticano II, Dei verbum, e disse que a Sagrada Escritura é “um espaço privilegiado de encontro em que Deus continua a falar aos homens e mulheres de todos os tempos, a fim de que, ouvindo-o, possam conhecê-lo e amá-lo”.

Segundo ele, a Bíblia revela a "condescendência misericordiosa" de Deus para com a humanidade e o Seu "desejo de se aproximar".

"Deus nunca mortifica o ser humano e as suas potencialidades”, disse Leão XIV.

 

Ele alertou contra as “leituras fundamentalistas ou espiritualistas” da Bíblia, que acabam por trair seu significado ao negligenciar duas dimensões essenciais.

Por um lado, disse o papa, cai-se no erro de defender a inspiração divina das Sagradas Escrituras a ponto de considerar os autores humanos "quase como simples instrumentos passivos do Espírito Santo".

Mas, no extremo oposto, ele diz ser “redutora” uma leitura que negligencia sua origem divina e acaba por compreendê-la "como mero ensinamento humano, como algo a estudar simplesmente do ponto de vista técnico, ou como um texto só do passado".

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Mais recentemente, disse Leão XIV, a reflexão teológica reavaliou a contribuição dos hagiógrafos para a escrita dos textos sagrados. Assim, o concílio Vaticano II, na Dei verbum , fala de Deus como o principal “Autor” da Sagrada Escritura, mas também reconhece os hagiógrafos como “verdadeiros autores” dos livros sagrados.

Assim, disse o papa, se as Escrituras são a Palavra de Deus expressa em palavras humanas, “qualquer abordagem sua que negligencie ou negue uma destas duas dimensões é parcial”.

Assim, uma interpretação correta dos textos sagrados não pode desconsiderar o contexto histórico em que surgiram ou os gêneros literários empregados.

Em particular, quando proclamada no contexto da liturgia, a Escritura — disse Leão XIV — “tenciona falar aos crentes de hoje, tocar a sua vida presente com as suas problemáticas, iluminar os passos a dar e as decisões a tomar”.

Isso só é possível quando o crente “lê e interpreta os textos sagrados sob a orientação do mesmo Espírito que os inspirou”, disse ele.

O Evangelho não pode ser reduzido a mera mensagem filantrópica ou social

A Sagrada Escritura, disse o papa, alimenta a “vida” e a “caridade” dos fiéis, como diz santo Agostinho: “Quem pensa ter compreendido as Escrituras divinas [...], se mediante essa compreensão não consegue levantar o edifício da dupla caridade, de Deus e do próximo, ainda não as entendeu”.

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Por fim, o Leão XIV disse que a origem divina das Escrituras implica que o Evangelho, confiado ao testemunho dos batizados e presente em todas as dimensões da vida e da realidade, as transcende. “A mensagem do Evangelho não pode ser reduzida a uma mera mensagem filantrópica ou social”, concluiu, “mas é o anúncio jubiloso da vida plena e eterna que Deus nos concedeu em Jesus”.