16 de jan de 2026 às 16:21
A Guerra Cristera no México foi um confronto armado direto entre um Estado que buscava a secularização forçada e uma sociedade que se recusava a renunciar à sua identidade católica. Esse episódio sangrento deixou um legado de mártires e uma ferida histórica que marcou a complexa relação entre Igreja e Estado no México moderno.
O precedente: a Constituição de 1917
As raízes do conflito estão na Constituição de 1917, que incorporou artigos anticlericais destinados a submeter a Igreja ao controle absoluto do Estado:
Artigo 3 : Proibia todas as “corporações religiosas”, assim como os ministros de culto, de administrar escolas primárias.
Artigo 5.º : Impedia o estabelecimento de ordens monásticas e votos religiosos.
Artigo 24 : Restringia o culto público exclusivamente ao interior dos templos, "sempre sob a supervisão da autoridade".
Artigo 27 : Esse artigo retirou das igrejas a capacidade legal de ter bens, que passaram a ser propriedade da nação.
Artigo 130 : Negava personalidade jurídica às igrejas, proibia os ministros religiosos de participarem na política e dava poder aos Estados para limitar o número de sacerdotes.
O gatilho: a Lei Calles
Em 1926, o então presidente do México, Plutarco Elías Calles, radicalizou a situação com a Lei sobre Crimes e Delitos Relacionados ao Culto Religioso e à Disciplina Externa, também conhecida como Lei da Tolerância Religiosa ou Lei Calles. Essa reforma do Código Penal estabeleceu penas severas.
Entre suas restrições mais rigorosas estavam:
Proibição de culto público fora dos templos : "Todos os atos religiosos de culto público devem ser celebrados precisamente dentro dos templos, que estarão sempre sob a vigilância de uma autoridade".
Proibição de vestimentas religiosas: Sacerdotes que usassem batina ou qualquer insígnia religiosa fora dos templos eram punidos com multas e prisão.
Proibição de ministros religiosos estrangeiros: padres que não nasceram no México eram multados e deportados.
Dissolução de “ordens monásticas ou conventos”: Seu estabelecimento foi proibido, dissolvendo os conventos existentes.
Censura aos sacerdotes: Ministros religiosos estavam proibidos de fazer “críticas às leis fundamentais do país, às autoridades em particular ou ao Governo em geral”.
A resposta da Igreja foi drástica, sem precedentes e disciplinada entre todos os arcebispos e bispos mexicanos: em 31 de julho de 1926 — com a rejeição pela Santa Sé da Lei Calles e de "qualquer ato que possa significar ou ser interpretado pelos fiéis como uma aceitação da própria lei" — o culto público foi suspenso em todo o México.
A eclosão
“É de fato a suspensão do culto que pode marcar o início da guerra Cristera, da Cristiada”, diz o historiador franco-mexicano Jean Meyer nas primeiras páginas do primeiro volume de sua obra La Cristiada.
Meyer cita uma carta de alguns cristeros ao seu pároco, que, preso pelas autoridades, os exortou a se render: “Sem a sua permissão ou ordem, lançamo-nos nessa luta abençoada pela nossa liberdade, e sem a sua permissão e sem a sua ordem, continuaremos até vencermos ou morrermos”.
Assim, em várias partes do país, fiéis espontaneamente pegaram em armas.
A disposição para se engajar em resistência armada contra o governo não era unânime. "Os bispos inegavelmente pregavam a resistência", diz Meyer, mas ao mesmo tempo "disseram que não queriam nenhuma resistência além da resistência passiva e pacífica".
Embora houvesse muitos bispos que, de algum modo, apoiavam pastoralmente os Cristeros, "os inimigos da ação armada eram mais numerosos", diz ele.
A situação entre os padres também não era uniforme. Uma lista compilada pelo historiador franco-mexicano indica 100 padres “ativamente hostis aos Cristeros”, enquanto 40 eram “ativamente favoráveis aos Cristeros”. Cinco padres são registrados como “combatentes”, enquanto 65 eram considerados “neutros”.
Entre os “padres que abandonaram paróquias rurais e padres das cidades” havia 3,5 mil, enquanto os padres “executados pelo governo” foram 90.
Segundo o historiador, foram “o povo, os índios de quem diplomatas e governantes falam” que reagiram, e fizeram isso “violentamente”, porque “a Igreja era algo mais do que um edifício de pedras empilhadas, e a sensibilidade popular havia sido afetada em sua própria existência, já que o profano e o sagrado estão inextricavelmente misturados”.
“O povo, a grande maioria ou muitos camponeses — que foram os que mais lutaram na guerrilha nos Estados de Jalisco, Guanajuato, Michoacán, Colima e outros Estados centrais do México— não tinham muita teologia, nem faziam muitas especulações, nem muitas distinções entre as coisas, mas era algo, digamos, do coração e do sentimento religioso (...), do amor pela sua fé”, disse o administrador apostólico de Cancún-Chetumal, Pedro Pablo Elizondo Cárdenas, à ACI Prensa, agência em espanhol do grupo EWTN.
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Alguns dos personagens principais
É difícil fazer uma seleção específica das figuras-chave e daqueles que deram a vida nas mãos das tropas federais anticlericais, especialmente considerando que a Conferência Episcopal Mexicana (CEM) estima que existam “mais de 200 mil mártires que deram a vida defendendo sua fé”.
Mas para compreender a magnitude da Guerra Cristera, é necessário identificar alguns dos atores que articularam o movimento, assim como as figuras que personificaram a resistência espiritual contra a perseguição federal:
A resistência Cristera foi coordenada pela Liga Nacional para a Defesa da Liberdade Religiosa — conhecida como A Liga — que, embora tenha conseguido obter dois milhões de assinaturas em busca de uma reforma fracassada da Constituição de 1917 e de um boicote relativamente bem-sucedido, lançou-se na guerra sem estar “preparada para enfrentar a situação”, segundo Meyer.
Enrique Gorostieta foi um general de carreira e brilhante estrategista que ascendeu ao posto de principal líder militar da Guerra Cristera. Suas cartas mostram uma "fé cega em Deus". Ele foi assassinado em 2 de junho de 1929.
Beato Anacleto González Flores: Conhecido como "mestre Cleto" e também apelidado de "Sócrates de Guadalajara", em alusão à sua origem no Estado de Jalisco, foi um leigo que liderou esforços pacíficos para enfrentar a perseguição do governo federal e foi martirizado em 1º de abril de 1927. Ele é padroeiro dos leigos mexicanos.
São José Sánchez del Río , são Joselito, que foi para a guerra dizendo à sua mãe que “nunca foi tão fácil ganhar o Céu como agora”, e “não queria perder essa oportunidade”. Ele foi capturado, torturado e martirizado. Antes de morrer, pediu que a seguinte mensagem fosse levada aos seus pais: “Viva Cristo Rei, e nos veremos no Céu”.
Beato Padre Miguel Agustín Pro: A fotografia de sua execução em 23 de novembro de 1927, mostrando o padre jesuíta com os braços estendidos em forma de cruz diante do pelotão de fuzilamento, é um dos símbolos mais fortes da perseguição religiosa sofrida pelos fiéis na primeira metade do século XX.
Os santos mártires dos Cavaleiros de Colombo: Entre os mortos por ódio à fé na perseguição religiosa perpetrada pelo governo federal, destacam-se seis sacerdotes como membros da fraternidade Cavaleiros de Colombo, que teve um papel fundamental, tanto econômica quanto socialmente, no apoio à liberdade religiosa naquele período trágico no México, que chegou a levar ao sacrifício da própria vida.
Esses são os santos sacerdotes Luis Bátis Sáinz, José María Robles Hurtado, Mateo Correa Magallanes, Miguel de la Mora de la Mora, Rodrigo Aguilar Alemán e Pedro de Jesús Maldonado Lucero. Todos foram canonizados em 21 de maio de 2000, pelo papa são João Paulo II, junto com outros 19 mártires mexicanos, como são Cristóvão Magalhães.
Uma pintura com esses 25 mártires, à qual foi adicionada a imagem de são José Sánchez del Río nos últimos anos, pode ser vista no Templo Expiatório de Cristo Rei, antiga Basílica de Guadalupe, na Cidade do México.
Acordos de 1929 e o fim das hostilidades
Oficialmente, a Guerra Cristera terminou em 21 de junho de 1929, com os chamados Acordos entre o arcebispo mexicano Leopoldo Ruiz y Flores, como delegado apostólico do papa Pio XI; o bispo de Tabasco, Pascual Díaz; e o então presidente do país, Emilio Portes Gil, sucessor de Plutarco Elías Calles.
No entanto, os Acordos não significaram modificações à Constituição de 1917 ou à Lei Calles", mas sim estabeleceram um modus vivendi pelo qual o governo federal se comprometia a não aplicar as leis para perseguir fiéis, enquanto os bispos retomavam os cultos e os cristeros depunham as armas.
Mas a perseguição estava longe de terminar. Meyer escreve que “para os Cristeros, seu modo de vida logo se tornou um modo sinistro de morrer, sofrendo como uma provação pior que a própria guerra e carregando como uma cruz, um mistério incompreensível ao qual se submeteram por amor ao papa e a Jesus Cristo, o Rei”.
"Todos os antigos cristeros dizem: Morreram mais pessoas depois dos acordos", diz ele.
“Na capital da República, adotou-se a política de assegurar e repetir que tudo estava terminado, mas nas memórias da Secretaria de Guerra aparecem relatos de campanhas até 1941, e os generais discutem os meios ou maneiras de reduzir os rebeldes, às vezes muito perigosos, aqui ou ali”, escreve o historiador franco-mexicano em outro trecho do primeiro volume de La Cristiada .
Esse período é geralmente considerado a “segunda Cristiada”, mas Meyer diz que “se a primeira fase (1926-1929) da Cristiada já era uma guerra dos pobres, a segunda foi uma guerra dos miseráveis, sem recursos, sem ajuda”.
O longo caminho rumo à liberdade religiosa no México
Foi só em 1992 — depois de duas visitas do papa são João Paulo II ao México, em 1979 e 1990 — que as relações entre Igreja e Estado foram formalmente restabelecidas no país, e uma Constituição reformada de 1917 e a nova e atual “Lei das associações religiosas e do culto público” permitiram o reconhecimento da personalidade jurídica da Igreja.
Só a partir de então, por exemplo, a Igreja pôde ter templos no México, mas todos os construídos antes de 1992 — inclusive a basílica de Guadalupe — pertencem ao Estado.
A legislação atual ainda proíbe associações religiosas e ministros de ter ou operar “estações de rádio, estações de televisão ou qualquer tipo de telecomunicações”, e “operar qualquer meio de comunicação de massa”. A lei só permite a publicação de “materiais religiosos impressos”.
Uma exortação da Conferência Episcopal Mexicana
Em sua mais recente mensagem ao Povo de Deus, a CEM fez uma exortação para que se “honre a memória” da “resistência cristera”.
A conferência episcopal disse que o centenário “não pode ser uma mera comemoração nostálgica”, mas “um exame de consciência e um compromisso renovado”.
“Nossos mártires nos perguntam hoje: Estamos preparados para defender nossa fé com o mesmo radicalismo? Perdemos nosso senso do sagrado? Nos acostumamos a uma cultura que quer relegar a fé à esfera privada?”, disse a CEM.





