5 de jan de 2026 às 16:17
A importância vital da música sacra para a liturgia, a necessidade de todo fiel estar vigilante e preparado para a morte, julgamento, o inferno e o paraíso, os novíssimos do homem, na designação tradicional da teologia, e o reconhecimento de que só a Realeza de Cristo trará a verdadeira paz estiveram entre as principais mensagens que o cardeal Robert Sarah levou aos EUA no fim do ano passado.
A visita do cardeal Sarah aos EUA teve como foco o lançamento de seu livro, The Song of the Lamb: Sacred Music and Heavenly Liturgy (A Canção do Cordeiro: Música Sacra e Liturgia Celestial), escrito em parceria com o músico Peter Carter.
Em duas palestras proferidas em 21 e 22 de novembro do ano passado na Universidade Princeton, na qual Carter é diretor de música sacra do Instituto Aquinas, o cardeal Sarah disse que, num momento em que, por décadas, a liturgia da Igreja tem sido “instrumentalizada com muita frequência”, é importante entender o que é a liturgia e por que a música sacra é uma parte central do culto divino.
Dizendo que a liturgia “se tornou politizada” nas últimas décadas, o prefeito emérito do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos defendeu os que legitimamente destacaram os abusos, denunciando como “errado” o fato de algumas autoridades da Igreja terem “perseguido e excluído” esses críticos.
Falando sobre a hermenêutica de Bento XVI sobre a continuidade entre a liturgia reformada e a pré-reformada, e a ênfase do papa alemão em que “o que as gerações anteriores consideravam sagrado permanece sagrado e grandioso para nós também”, o cardeal Sarah disse que o abuso litúrgico prejudica a natureza e o propósito duplo da liturgia: “prestar a Deus Todo-Poderoso a adoração que Lhe é devida” e reconhecer que a liturgia “não se trata do que fazemos”, mas sim do que o Senhor “faz por nós e em nós”.
Por meio da adoração oferecida pela Igreja em seus ritos litúrgicos, “somos santificados”, disse o cardeal Sarah, razão pela qual “a participação plena, consciente e efetiva na liturgia é essencial”. Por participação, ele disse que não se referia a muitas ações externas, mas sim a sintonizar “nossas mentes, corações e almas” com o “significado dos ritos sagrados, cânticos e orações da liturgia da Igreja”.
“É assim que nos conectamos com a ação salvadora de nosso Senhor Jesus Cristo nos ritos litúrgicos”, disse ele. “É por isso, meus amigos, que a liturgia é sagrada”.
A liturgia, disse o cardeal, “não é algo que você ou eu possamos inventar ou mudar, mesmo que nos consideremos especialistas ou até mesmo bispos”.
“Não”, disse Sarah.” Devemos ser humildes perante a sagrada liturgia, tal como nos foi transmitida pela Tradição da Igreja”.
Depois de falar sobre a essência da liturgia e a importância “crucial” da música dentro dela, ele distinguiu música litúrgica e sacra, e aquela que não é nenhuma das duas, dizendo que era “até escandaloso às vezes” tocar ou cantar em igrejas músicas que não fossem de gênero litúrgico ou sacro. Citando Bento XVI, ele disse: “No que diz respeito à liturgia, não podemos dizer que uma música é tão boa quanto outra”.
A música está em seu sangue, disse o cardeal guineense, dizendo que aprendeu com seus pais e com os missionários franceses que evangelizaram sua aldeia que diferentes tipos de música pertencem a diferentes lugares e que a música litúrgica é separada para a adoração a Deus e “por isso é corretamente chamada de sacra”. Ele disse que, como africano, a música usada na liturgia não precisa ser “exatamente a mesma que a música da própria cultura” e que nem mesmo precisa ser em seu próprio idioma. Ele aprendeu o significado dos cantos e os cantava devotamente “por causa da tradição católica maior na qual eles nos inseriram”.
Sua comunidade “recebeu” a música litúrgica que cantavam, disse o cardeal, dizendo que aqueles que compunham música sacra faziam isso tendo “primeiro recebido, conhecido e vivido dentro e a partir da própria tradição”.
A música sacra “tem uma objetividade inerente”, disse ele, e essa objetividade está enraizada na tradição litúrgica da Igreja. “Ou seja, o que é cantado na liturgia pode verdadeiramente ser considerado o Cântico do Cordeiro, louvando e glorificando o Deus Todo-Poderoso e suplicando-Lhe pelas necessidades do Seu povo”.
"Penso que se a música que cantamos na liturgia sagrada estiver conforme esse critério, podemos verdadeiramente chamá-la de sacra e, em conformidade com as estipulações pertinentes dos livros litúrgicos, com o canto gregoriano sempre ocupando o lugar de destaque".
O cardeal concluiu encorajando os que preparam e celebram a sagrada liturgia, por vezes enfrentando oposição, e exortando-os a formar outros na tradição litúrgica e musical da Igreja. A música sacra, disse ele, “não é um acréscimo agradável à liturgia; é um componente essencial dela”.
“Fomos criados para cantar os louvores de Deus Todo-Poderoso por toda a eternidade”, disse o cardeal Sarah. “Ao fazer isso da melhor e mais bela maneira possível na sagrada liturgia desta vida, preparamos a nós mesmos e aos outros para a eternidade — aliás, ao fazer isso, somos capazes de viver com ainda mais fidelidade nossa vocação sobrenatural nas circunstâncias diárias de nossa vocação particular aqui e agora”.
A realeza de Cristo e a verdadeira paz
Receba as principais de ACI Digital por WhatsApp e Telegram
Está cada vez mais difícil ver notícias católicas nas redes sociais. Inscreva-se hoje mesmo em nossos canais gratuitos:
Em homilia na capela da Universidade Princeton, na solenidade de Cristo Rei, o cardeal Sarah falou sobre o tema do papel da música sacra na liturgia, falando sobre como ela “eleva nossos corações e mentes a Deus Todo-Poderoso em adoração a Ele”. Ele disse que a música sacra “amplia e abre nossos corações para que Ele possa entrar neles novamente, purificando-nos, curando-nos e fortalecendo-nos para o Seu serviço por meio da graça que Ele nos oferece através da sagrada liturgia e dos sacramentos que ela celebra”.
Ele disse que “Cristo é o Rei da paz entre as nações do mundo”, enfatizando que “sem Ele, e sem submeter-se à Sua verdade, à Sua lei de amor abnegado”, pode haver “pouca esperança de paz duradoura” nos assuntos privados ou na política.
O sofrimento de Cristo na Cruz mostrou que a Sua paz e o Seu Reino não eram deste mundo, disse o cardeal Sarah, dizendo que a paz que Ele veio trazer “transcende até mesmo o pior sofrimento que este mundo pode infligir”.
Ele disse que a natureza da Paz de Cristo está na humildade e na oração de são Dimas, o ladrão crucificado ao lado de Cristo, que pediu a Jesus que se lembrasse dele quando entrasse em Seu reino. Jesus respondeu: “Hoje mesmo estarás Comigo no Paraíso”. Ele não o resgata de seu destino terreno, mas isso mostra que, independentemente da extensão do sofrimento pessoal, cada pessoa deve fazer a mesma oração “com toda a humildade”.
“Pois é ao aceitarmos nossos sofrimentos e ao buscarmos acima de tudo o reino de Deus (cf. Mt 6,33) que Nosso Senhor nos abrirá o caminho para o Paraíso”, disse o cardeal Sarah. O Reino de Cristo não é deste mundo, disse, e “a paz que Ele veio trazer não é fundamentalmente política”.
Embora tenha enfatizado a importância de orar pela paz no mundo, o cardeal disse que a paz é sempre frágil e não pode durar, sendo necessário, portanto, trabalhar pela verdadeira paz, que se conquista através da submissão de indivíduos, grupos e Estados ao “governo salvador de nosso Salvador, Jesus Cristo, Rei do Universo”.
Sejam vigilantes e prudentes
Esses temas foram abordados na homilia do cardeal Sarah na missa tradicional em latim celebrada na Solenidade de Cristo Rei do ano passado, na paróquia de São João Batista, em Allentown, Nova Jersey. Na homilia, ele exortou os fiéis a não se deixar desanimar pelo estado atual da Igreja e pelas “muitas queixas” a seu respeito, que “não são infundadas”.
“Alegrem-se com a graça que Deus nos concede”, disse ele, sobretudo na sagrada liturgia, que purifica e fortalece cada alma em sua vocação particular, disse o cardeal.
Sarah disse que, ao fim do ano litúrgico, a Igreja, “como uma mãe sábia […] chama corretamente nossa atenção para as quatro últimas coisas — a morte, o juízo, o Céu e o Inferno”, pois elas “são realidades, e nós as ignoramos, ou fingimos que não existem, para nossa própria perdição”.
O cardeal exortou os fiéis presentes a não se deixarem levar por uma “armadilha do diabo” em relação às conversas sobre o fim dos tempos. Isso pode levar à paranoia e à obsessão, tornando algumas almas incapazes de cumprir suas vocações. A quem estiver vivo quando o mundo acabar, “Deus dará a graça necessária de clareza de entendimento de que precisamos naquele momento, contanto que permaneçamos fiéis a Ele”, disse Sarah.
O cardeal falou sobre a exigência do Senhor de vigilância aos Seus discípulos como a resposta correta. Isso não é obsessão nem paranoia, disse ele, mas “é prudência e sabedoria”. Assim como é prudente preparar-se bem para uma viagem, também é necessária prudência em relação às quatro últimas coisas, disse. “Muitas pessoas vivem como se o dia da sua morte nunca fosse chegar”, disse Sarah, dizendo: “Esse é o truque mais insidioso do diabo”, pois transmite a ideia de que “não podemos nos preparar para ela e para o julgamento que cada um de nós enfrentará no momento da nossa morte”.
“Devemos ser prudentes e estar preparados para prestar contas de nossas vidas — e, se necessário, caso tenhamos nos desviado, devemos nos arrepender, buscar a misericórdia e o perdão de Deus e fazer penitência enquanto podemos”, exortou o cardeal Sarah. Deus é misericordioso com aqueles que se arrependem e voltam suas vidas para Ele, e Ele igualmente “respeitará nossa livre rejeição a Ele”, disse ele.
Sarah disse que é importante ter a mesma confiança que são Paulo apóstolo demonstrou em sua oração na Carta aos Colossenses: levar uma vida digna do Senhor, agradando-Lhe plenamente, frutificando em toda boa obra, e ao mesmo tempo sendo prudente e vigilante em meio às tribulações do mundo. “Pois, se formos fiéis a Cristo e às doutrinas de Sua Igreja, não temos nada a temer. Na verdade, temos a promessa da vida eterna”, disse o cardeal Sarah.





