O povo da Nicarágua, em sua maioria católico, celebrou a Semana Santa de 2024, apesar de o governo de Daniel Ortega ter feito uma operação em grande escala ao colocar 4 mil policiais para controlar, entre outras coisas, que as procissões ocorressem apenas dentro do igrejas.

Uma das grandes manifestações de fé aconteceu na Sexta-feira Santa, 29 de março, quando mais de 12 mil pessoas participaram “da Via Sacra Penitencial na Catedral de Manágua”, segundo a arquidiocese local; que também publicou vídeos e fotos sobre as demais celebrações no Facebook.

Dias antes, o governo enviou um grande contingente policial para controlar as mais de 400 paróquias da Igreja do país, onde a fé ainda é forte apesar da perseguição do governo de Daniel Ortega, ex-guerrilheiro de esquerda que soma mais de 30 anos no poder do país, e de sua mulher e vice-presidente, Rosario Murillo. Ortega era um dos líderes da Frente Sandinista de Libertação Nacional que derrubou a ditadura de Anastasio Somoza em 1979.

 

A repressão do governo da Nicarágua

Na Quinta-feira Santa, 28 de março, o jornalista nicaraguense Emiliano Chamorro publicou na rede social X que nesta Semana Santa aconteceu uma nova modalidade de repressão.

“A numerosa vigilância da polícia sandinista opera com os seus membros vestidos à paisana, misturados com os pagadores de promessas e paroquianos para tentar passar despercebidos, mas as suas habilidades e os seus telefones nas mãos prontos para fotografar os participantes, permitiu que a população os identifique”, denunciou. “Somente os policiais de trânsito que fecham as ruas se apresentam de uniforme. O número de agentes disfarçados tem sido muito grande porque o regime, apesar de restringir a liberdade religiosa ao proibir procissões, não quer que circulem imagens de sua polícia uniformizada reprimindo a população".

 

No Sábado Santo, 30 de março, o Movimento Autoconvocado Carazo por uma Nicarágua Livre disse que a polícia estava estacionada “na porta principal da paróquia de São Tiago Apóstolo, no município de Jinotepe. Não achem que eles são devotos ou católicos, são, ao contrário, demônios enviados pelas forças do mal que infelizmente governam o país”.

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“Do lado de fora há paramilitares e policiais sandinistas. Além disso, há fanáticos do regime dentro do templo”, lamentaram.

Em 26 de março, Terça-feira Santa, a jornalista e pesquisadora Martha Patricia Molina informou na rede social X que, dias antes, o bispo de León, dom René Sócrates - o único bispo católico a votar nas eleições de 2021, que foram descritas por muitos como fraudulentas - havia ordenado oito diáconos, em uma missa com a presença de um comissário de polícia.

“Assim que começou a celebração da Eucaristia, o comissário Fidel Domínguez chegou em tom altivo e desafiador. Sentaram-no no segundo banco, onde ele permaneceu imóvel. Ele nem se moveu para dar a paz”, denunciou Molina.

“Alguns dizem que ele chegou para escutar a homilia do bispo. No final da missa, o bispo limitou-se a dizer que a procissão do Domingo de Ramos seria do átrio ao altar-maior sem mencionar que foi o próprio Domínguez quem nos dias anteriores proibiu tudo isso. Espero que o senhor Domínguez diga aos seus amos Ortega-Murillo que as pessoas vão à missa para rezar e pedir a Deus, ninguém com a intenção de destruir o que chamam de revolução”, acrescentou a pesquisadora.

Martha Patricia Molina é autora do relatório Nicarágua: Uma Igreja Perseguida?, um texto de mais de 300 páginas, que em sua última atualização relata pelo menos 667 ataques contra a Igreja Católica. Antes da Semana Santa, a advogada também havia especificado que, entre a Quaresma e a Semana Santa, o governo de Ortega proibiu 4,8 mil procissões.

A manifestação de fé na Nicarágua é uma batalha que o governo “já perdeu”

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Em 31 de março, o padre colombiano Walter Zapata disse à NTN24 de Bogotá, Colômbia: “Minha alma se enche quando vejo os fiéis da Nicarágua com esse compromisso, decisão, força e essa história desafiadora em sua fé, sua vida e sua esperança”.

“Dói-me a alma que estes governos ateus queiram ofuscar celebrações tão bonitas como a Semana Santa”, acrescentou

O advogado e ativista nicaraguense Juan Diego Barberena comentou que apesar das proibições, a Semana Santa na Nicarágua foi vivida “em parte com medo, mas também com devoção” e que expressar a fé no país é uma batalha que o governo “já perdeu”.