VATICANO - Enquanto o sínodo da sinodalidade tem início em Roma em meio a várias questões abertas, uma resposta-chave foi recebida esta semana com a publicação das regras de envolvimento para os cerca de 450 participantes da reunião em Roma. Os regulamentos para a 16ª assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos foram publicadas na quarta (4), ao concluir o primeiro dia de trabalho, pelo cardeal Mario Grech, organizador do encontro sinodal.


Sim à confidencialidade, não ao segredo pontifício durante o sínodo


O regulamento não contém o sempre temido “segredo pontifício”. Ainda assim, a promessa de privacidade e confidencialidade é, talvez, ainda mais estrita do que qualquer segredo pontifício. Em regulamentos anteriores, conhecidos como Ordines Synodi, o segredo pontifício se referia aos discursos e pontos de vistas de terceiros, mas cada um podia falar dos seus próprios. O regulamento atual enfatiza que “cada um dos participantes está obrigado à confidencialidade e discrição tanto em relação às próprias intervenções quanto às dos outros participantes”. Além disso, essa “obrigação continua em vigor depois que a assembleia sinodal tiver terminado”.


A publicação do regulamento ocorreu na quarta (4), junto com os discursos introdutórios do papa Francisco, do cardeal Mario Grech, secretário-geral do sínodo, do relator-geral do sínodo, cardeal Jean Claude Hollerich SJ, e de Sua Beatitude Sidrak, líder da Igreja Copta Católica. Embora o material do retiro espiritual tenha sido distribuído aos jornalistas com boa antecedência, os discursos iniciais só foram distribuídos depois de pronunciados, embora tenham sido transmitidos ao vivo.


O papa Francisco estabeleceu um precedente, que falou de improviso dirigindo-se diretamente aos jornalistas. Ele ressaltou que escutar o Espírito Santo “requer “um certo jejum da opinião pública”, tentando dissipar a ideia de que os bispos têm medo de expressar seus pensamentos. Em vez disso, o papa instou os jornalistas a reconhecer que “a prioridade é escutar”.


Isso sublinha uma ansiedade oculta quanto a uma agenda orquestrada pela mídia, ou, no mínimo, influências externas, que frequentemente mascaram uma vulnerabilidade nas discussões e dúvidas acerca da nova metodologia do sínodo.


O Sínodo da Sinodalidade 2023 terá um relatório final, não um documento


Ao contrário de encontros prévios não se planeja um documento final; o regulamento estipula um relatório que contenha os principais pontos discutidos. Os círculos menores vão votar sobre seus relatórios buscando maioria simples, enquanto o relatório final precisará da aprovação de dois terços da assembleia. Qual será o processo se o relatório final não atingir o consenso requerido para publicação continua ambíguo. 


A metodologia inovadora do sínodo: Mesas redondas


O formato inovador do sínodo, com mesas redondas de 11 indivíduos, visa impulsionar o diálogo sob a premissa da igualdade diante de Deus, com temas pré-determinados e questionários para guiar as discussões e experts para fortalecer os argumentos.


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A sinodalidade como método tem o papel central, ainda que com resultados potenciais pouco claros. A abordagem do papa Francisco, de manter todas as portas abertas sem preconceitos que as fechem, tem seus próprios desafios. O método pode revelar resultados imprevistos. 


Essa imprevisibilidade também marca o processo sinodal com apreensões. Em janeiro, tratando de preocupações dos bispos, os cardeais Grech e Hollerich escreveram uma carta para os bispos de todo o mundo, afirmando o papel fundamental dos bispos.


O cardeal Grech almejou refrear a ânsia por mudanças no começo do sínodo. Ele argumentou que a Igreja é convocada a encarnar e transmitir o amor de Deus por toda a humanidade, transcendendo controvérsias teológicas e eclesiológicas.


Numa tentativa de desviar as expectativas de vários grupos de pressão tanto dentro como fora da Igreja, o cardeal Hollerich concentrou-se na metodologia dizendo: “Somos chamados a aprender a gramática da sinodalidade. Assim como a gramática de nossas línguas evolui com o tempo, assim o faz a gramática da sinodalidade: ela muda com o tempo. Assim, discernir os sinais de nosso tempo deveria nos ajudar a revelar a gramática contemporânea da sinodalidade. E na gramática, as regras fundamentais permanecem inalteradas”. 


O sínodo não é um parlamento, mas e os votos?


Durante a missa de abertura na quarta (4) e em várias outras ocasiões, o papa Francisco reiterou que o sínodo não é um parlamento; as decisões não devem ser decididas por votos; em vez disso há um discurso divino a ser escutado.


Essencialmente há uma preocupação do papa de que a opinião pública possa fazer sombra ao processo sinodal, com as informações disseminadas potencialmente influenciando as intervenções dos participantes do sínodo, prejudicando assim o processo de discernimento do sínodo.


Os tópicos e agendas quentes do sínodo


O papa recordou o Sínodo sobre a Família, em que a opinião pública, moldada por preocupações mundanas, clamava pela comunhão dos divorciados. Ele ressaltou que o Sínodo sobre a Amazônia enfrentou pressões semelhantes em relação à ordenação de homens casados, os viri probati. Agora com as especulações girando em torno de “o que eles vão fazer?”, “talvez a ordenação de mulheres”, conjecturas de círculos externos pintam os bispos como hesitantes em falar sobre o que está acontecendo no sínodo.


O retiro espiritual para os participantes do sínodo, ocorrido entre 1º e 4 de agosto, começou com uma meditação do padre Timothy Radcliffe, que disse: “Durante nossa jornada sinodal, podemos nos preocupar com nossas realizações tangíveis. A mídia pode julgar que é uma empreitada inútil, só palavras. Eles vão levar em conta se decisões audazes serão feitas e quatro ou cinco assuntos quentes”.


Esses temores ecoam os que havia durante e depois do Concílio Vaticano II. Bento XVI, conversando com bispos suíços em 9 de novembro de 2007, recordou-se: “Quando visitei a Alemanha nos anos 1980 e 1990, me pediram entrevistas, e as perguntas eram previsivelmente sobre a ordenação de mulheres, contracepção, aborto e outro temas recorrentes”.


“Entrar nessas discussões retrata a Igreja meramente como uma entidade moralista com convicções antiquadas, obscurecendo a magnificência da fé”, disse o então papa.


Dubia sobre o sínodo e o que se pode esperar


O papa Francisco mais uma vez reiterou nesse contexto que “o sínodo não é um parlamento”. Mesmo assim, essa reunião sinodal idealmente vai estar ligada às respostas às dubia dos cinco cardeais dadas pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, endossadas pelo papa. Face às perguntas relativas a possíveis alterações, reinterpretações na doutrina e na disciplina sacramental para os divorciados em segunda união, o dicastério se absteve de responder com um simples “sim” ou “não”, mas deu respostas abrangentes e argumentadas sobre análises de situação. 


Pode haver preocupação sobre o debate público e a abordagem da mídia, mas essa preocupação também aponta para outras agendas. O cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do dicastério, enfatizou que “se reinterpretar implica um melhor entendimento, então, essa é a função da Igreja”.


A questão de como determinar uma “melhor” interpretação continua controvertida, indo além da mera mudança de regras gramaticais descritas pelo cardeal Hollerich.

Por enquanto, pode bem ser que não seja a doutrina da Igreja que está sendo examinada, mas antes sua percepção. 


A inquietude do cardeal Zen sobre a tática e a agenda do sínodo


Esse sentimento é generalizado, tanto que o cardeal Joseph Zen, bispo emérito de Hong Kong, enviou uma longa carta na qual expressa preocupação e alega que os organizadores são habilidosos na “arte da manipulação”.


Zen criticou a metodologia do sínodo, ressaltando que iniciar com círculos menores traz desafios, uma vez que é na assembleia geral que as controvérsias principais emergem e demandam solução. O Sínodo da Sinodalidade não deveria evitar, discussões honestas e acaloradas, escreveu Zen, uma vez que o diálogo aberto e robusto, muito como foi no Concílio Vaticano II, é necessário para que o Espírito Santo realmente opere no encontro.


No fim, as dubia e a carta do cardeal Zen se tornaram parte da própria vida do sínodo. Sob o papa Francisco, a reunião passou de ser um evento para se tornar um processo. Agora, o desafio para os bispos e decidir se eles deveriam discutir suas ideias livremente na sala de reunião. Alguns vão fazer isso lançando um pouco de luz em um processo obscuro. Outros preferirão manter confidencialidade absoluta, tornando impossível entender o clima da assembleia sinodal.