“A caridade é a origem e a meta do caminho cristão”, disse o papa Francisco durante o encontro com os Centros de Assistência e Caridade de Lisboa hoje (4), no Centro Paroquial do bairro Serafina. “A vossa presença, realidade concreta de ‘amor em ação’, ajuda-nos a não esquecer a rota, o sentido daquilo que estamos fazendo sempre”, disse Francisco no evento que ocorreu no âmbito da Jornada Mundial da Juventude JMJ Lisboa 2023.

Deixando as páginas do seu discurso, o papa perguntou: “Eu, quando estendo a mão a uma pessoa necessitada, a um doente, a uma pessoa marginalizada, depois de estender a mão, faço isso em seguida (limpando), para que não me 'contagie'? Tenho nojo de pobreza, da pobreza dos outros? Procuro sempre a vida destilada, aquela que existe na minha fantasia, mas que não existe na realidade?”.

Francisco falou da necessidade de um amor concreto: “Quantas vidas destiladas inúteis, que passam pela vida sem deixar marca”.

Assim que o papa chegou, cumprimentou uma criança em uma cadeira de rodas e passou vários minutos com as crianças e os idosos. Estiveram presentes no encontro os representantes do Centro Paroquial Serafina, da Casa Familiar Ajuda de Berço e da Associação Acreditar.

Após a música de abertura e as boas-vindas, o papa fez o seu discurso. “Juntos” é a palavra-chave, disse o papa. “Viver, ajudar e amar juntos: jovens e adultos, sãos e doentes… juntos”, acrescentou.

Não somos uma doença ou um problema

O papa ouviu os testemunhos, inclusive daqueles que atendem pacientes com câncer. “É verdade! Não devemos deixar-nos «definir» pela doença ou pelos problemas, porque nós não somos uma doença, não somos um problema”, disse ele ao se referir ao testemunho que ouviu antes.

“Cada um de nós é um presente, é um dom, um dom único com os seus limites, mas um dom precioso e sagrado para Deus, para a comunidade cristã e para a comunidade humana. E, assim como somos, enriquecemos o conjunto e deixamo-nos enriquecer pelo conjunto!”, acrescentou Francisco.

A Igreja não é um museu de arqueologia

Em segundo lugar, o papa exortou a ações concretas, citando são João XXIII, “a Igreja não é um museu de arqueologia”.

A Igreja “é o antigo fontanário da aldeia que dá água às gerações de hoje, como a deu às do passado. O fontanário serve para matar a sede das pessoas que chegam com o peso da viagem ou da vida. E são concretização, portanto, atenção ao “aqui e agora”, como vocês já estão fazendo, com o cuidado nos detalhes e sentido prático, belas virtudes típicas do povo português”.

Imediatamente depois, o papa Francisco deixou as páginas de seu discurso preparado: “São muitas as coisas que eu gostaria de dizer-lhes agora, mas acontece que meus refletores não estão funcionando e eu não consigo ler bem”, disse ele, provocando risos entre os presentes.

“Vou dá-lo a vocês para que o publiquem depois, e não forçar a vista ou ler mal, isso não pode ser feito”, disse o papa.

O amor é concreto e suja as mãos

O papa disse que não existe "amor abstrato, não existe. O amor platônico está em órbita". "Amor concreto é aquele que suja as mãos".

E perguntou: "Eu, quando estendo a mão a uma pessoa necessitada, a um doente, a uma pessoa marginalizada, depois de estender a mão, faço isso em seguida (limpando), para que não me 'contagie'? Tenho asco de pobreza, da pobreza dos outros? Procuro sempre a vida destilada, aquela que existe na minha fantasia, mas que não existe na realidade?” 

“Quantas vidas destiladas -continuou o papa- inúteis, que passam pela vida sem deixar marca, porque sua vida não tem peso!"”.

Em seguida, o papa disse que estas associações de caridade são uma realidade – que, por exemplo, apoiam crianças com câncer ou idosos abandonados – e estão deixando uma marca e inspiram outras pessoas. “Não poderia existir Jornada Mundial da Juventude sem levar em conta esta realidade”.

Francisco exortou a seguir em frente e não desanimar: " e se desanimarem, tomem um copo de água e sigam adiante”. O papa parou para saudar os idosos, brincar com as crianças e apertar a mão dos funcionários e voluntários dos centros de caridade.

O cônego Francisco Crespo, pároco do Centro Social Paroquial de São Vicente de Paulo, agradeceu ao papa Francisco em nome das associações reunidas: Centro Paroquial Serafina, Casa Familiar Ajuda de Berço e Associação Acreditar.

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O centro social nasceu em 1959 com o objetivo de ajudar uma população carente e desprotegida. Com o apoio da comunidade, de doadores e do Estado, desenvolveram vários serviços sociais para quase 800 pessoas, como creche, centro juvenil e atendimento a famílias carentes.

Embora a vida das pessoas tenha melhorado, reconhecem que ainda há muito a fazer. Inspiram-se no exemplo de são Vicente de Paulo e procuram seguir a sua mensagem de amor e serviço ao próximo. Agradecem a visita do papa Francisco e lhe desejam bênçãos em sua missão de guiar e apascentar o rebanho.

Antes do encontro com os representantes dos Centros de Assistência e Caridade, o papa confessou três jovens da Jornada Mundial da Juventude, às 9h45 (hora de Portugal).

No final do encontro, após a oração do Pai Nosso, a bênção final e a interpretação de um hino, o papa Francisco voltou à Nunciatura Apostólica de Lisboa onde almoçou com o patriarca de Lisboa, cardeal Manuel Clemente, acompanhado de dez jovens de vários países, entre eles, um brasileiro.

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