Dom Salvatore Cordileone, arcebispo de São Francisco, Califórnia, EUA, escreveu sobre a liturgia que adotará na Missa das Américas no próximo domingo. O texto foi publicado originalmente no jornal National Catholic Register, da ETWN, grupo a que pertence a ACI Digital. A seguir, publicamos o texto praticamente na integra.

 

 

 

Para católicos bem catequizados a resposta é clara: em toda missa, Jesus Cristo faz seu sacrifício no Calvário de dois mil anos atrás presente a nós em nosso próprio tempo e espaço, tornando-se substancialmente presente sob as aparências do pão e do vinho, unindo-nos a Ele (e, portanto, uns aos outros) como Corpo de Cristo através do sacramento da Sagrada Eucaristia. Adoramos a Deus unindo-nos a Cristo no sacrifício que Ele fez por nós.

Ao aludir à constituição dogmática do Concílio Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum concilium, o papa Bento XVI recordou-nos a todos que a Eucaristia é “a fonte e o ápice da nossa fé”: “O amor que celebramos no sacramento não é algo que podemos guardar para nós mesmos. Por sua própria natureza, exige ser compartilhado com todos. O que o mundo precisa é do amor de Deus: é preciso encontrar Cristo e crer nele. A Eucaristia é assim a fonte e o ápice não só da vida da Igreja, mas também da sua missão: «uma Igreja autenticamente eucarística é uma Igreja missionária» (Sacramentum caritatis, 84)”.

Por que tantos católicos, mesmo católicos que vão à missa, não entendem ou acreditam na presença real de Cristo na missa? É por causa de um simples fato, duro e doloroso que não podemos mais evitar e sobre o qual devemos urgentemente concordar: muitos católicos que vão à missa não experimentam mais essa verdade sacramental sobre a eucaristia ritualisticamente em sua participação no culto dominical. Ou seja, a forma como a missa é celebrada muitas vezes não reflete com precisão a realidade teológica do que realmente está acontecendo.

Não devemos nos enganar: a Igreja está passando por uma crise cuja magnitude ela não conheceu antes. Isso exigirá muitas mãos para consertar, mas também exigirá uma atenção clara nas questões centrais: como convertemos os corações e mentes das pessoas nos bancos das igrejas? Como podemos evangelizar uma cultura, como somos chamados a fazer, quando não estamos evangelizando com sucesso a próxima geração que frequenta a missa na maioria dos domingos?

Há muitas respostas para este problema e muitas coisas novas que precisamos fazer, incluindo uma melhor catequese nas paróquias, entre os pais e nas escolas católicas. Precisamos difundir, em particular, mais escolas fundamentadas na Verdade, no Belo e no Bem, o modelo católico clássico que continua a mostrar a capacidade de transmitir a fé sem ter sido interrompido pelo banho ácido da cultura em que vivemos, e o pior ainda estar por vir. O que é classicamente católico funciona e o crescimento do movimento clássico de educação católica nos EUA dá muita esperança de uma Igreja renovada com o poder de evangelizar através de uma catequese sólida.

Mas a catequese primária para os católicos é a liturgia e, mais uma vez, é aquilo que é classicamente católico que funciona – funciona hoje como funcionou por gerações antes.

Como os católicos por gerações reconheceram a Presença Real? Eles encontravam Jesus Cristo na missa todos os domingos, vendo a realidade sobrenatural com os olhos da fé. Se a maneira pela qual adoramos a Deus não comunica efetivamente o cerne do que é a missa, medidas auxiliares, por mais úteis que sejam, não serão suficientes para conter o colapso da fé em andamento aqui nos Estados Unidos e em todo o Ocidente. A catequese com livros didáticos não funcionará muito bem a menos que as pessoas vejam o que é ensinado na forma como a missa é celebrada todos os domingos.

Essa é uma razão pela qual a carta apostólica Traditionis custodes do papa Francisco corre o risco de desencadear a guerra litúrgica a que ele procurou pôr fim. A unidade em Cristo é o que mais importa. Mas levar a sério o desafio de ajudar os fiéis a realmente encontrar Jesus na Missa é o cerne de uma liturgia que nos una no Senhor.

Assim, com a ajuda do Instituto Bento XVI, tenho assumido nos últimos anos este desafio de introduzir e promover a bela e nova música sacra em ambas as formas do rito romano.

Enquanto os oponentes da missa em latim gostam de uma mensagem que o papa Francisco nos deu, quantos estão aceitando o outro desafio que ele estabeleceu para restaurar a reverência e a dignidade litúrgica em toda a Igreja?

O próprio papa Francisco denunciou os abusos litúrgicos generalizados, fenômeno pelo qual não podemos culpar tanto o Concílio Vaticano II quanto aquele obscuro “espírito do Vaticano II” interpretado individualmente, pode-se dizer até egoisticamente, em muitos lugares.

Em Traditionis custodes, o papa Francisco escreveu: “Estou triste pelos abusos na celebração da liturgia por todos os lados. Junto com Bento XVI, deploro que ‘em muitos lugares as prescrições do novo Missal não sejam observadas na celebração, mas cheguem a ser interpretadas como autorização ou mesmo exigência de criatividade, o que leva a distorções' ”.

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O papa Francisco observou que os princípios estabelecidos pelos Padres conciliares pedem que “os ritos sejam cuidadosamente revistos à luz da sã tradição e que recebam um novo vigor para atender às circunstâncias e necessidades atuais”.

É com esse espírito que nos reuniremos no dia 15 de janeiro, às 11h, na cidade de Nova York (13hs no horário de Brasília), na antiga catedral de São Patrício, coração da fé de gerações de imigrantes católicos neste país, para celebrar a Missa das Américas.

A música da missa, composta pelo compositor residente do Instituto Bento XVI, de São Francisco, Califórnia, Frank La Rocca, é uma dupla homenagem à Nossa Senhora sob seus títulos de Nossa Senhora da Imaculada Conceição (padroeira dos Estados Unidos) e Nossa Senhora da Guadalupe (padroeira do México e de todas as Américas).

Em 2019, a Missa das Américas fez uma turnê internacional de unidade com celebrações em Tijuana, Houston, Dallas, Guelph (Canadá) e Allentown (Nova Jersey). Sua última celebração na forma extraordinária (missa tradicional) realizada na Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição em Washington, DC, atraiu mais de 3,5 mil fiéis e 165 mil visualizações no site da Basílica. Devotos de Nossa Senhora de Guadalupe, amantes da missa tradicional e estudantes da Universidade Católica da América estavam todos unidos pela beleza e poder desta Missa.

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Em um esforço para demonstrar como realmente é o ritual da missa quando celebrado com fidelidade aos princípios estabelecidos na constituição dogmática do Vaticano II sobre a sagrada liturgia Sacrosanctum concilium e em continuidade com a tradição recebida, a Missa das Américas na antiga catedral de São Patrício em 15 de janeiro será em latim (com as leituras e as orações dos fiéis em inglês), dará lugar de destaque ao canto gregoriano (ao lado da polifonia sagrada) e será celebrada ad Orientem, com todos nós adorando Deus juntos. Aqueles que não estiverem fisicamente presentes poderão assistir à missa na EWTN, que transmitirá a Missa das Américas ao vivo.

Quando estive em Roma em janeiro de 2020 para a visita ad limina dos bispos, apresentei ao papa Francisco uma cópia da partitura desta missa, que representa um exemplo do tipo de adaptação da tradição no mundo contemporâneo que ele pediu.

Como os frades franciscanos da Califórnia fizeram com a arquitetura da igreja missionária, o compositor Frank La Rocca integrou a cultura local (incluindo hinos populares mexicanos como La Guadalupana) na música da missa, elevando a cultura local e particular à tradição sagrada, o que é atemporal. Esta é a verdadeira inculturação, como a Igreja sempre compreendeu e viveu, e como pretendia o Vaticano II. Trata-se de sacralizar o profano, purificá-lo e elevá-lo à tradição sagrada, não “emburrecer” a liturgia ao nível da cultura popular de forma a espelhá-la e dela se tornar praticamente indistinguível.

Na audiência com o Santo Padre que nós bispos em visita ad limina participamos em 27 de janeiro de 2020, o papa Francisco falou de Nossa Senhora de Guadalupe como mestiça, o que ele sugeriu ser apropriado para a Mãe do Filho de Deus, pois o Filho de Deus também é, em certo sentido, mestiço: humano e divino. Maria nos une a todos, como as boas mães fazem, em uma família, por meio de Seu Filho Jesus.

Nesse processo de unificação e comunicação, a beleza sagrada é parte integrante, não um luxo adicional. A beleza escapa de nossas barreiras cognitivas, colocando-nos na presença do Deus que nos ama.

O papa Bento XVI nos encorajou a interpretar o Vaticano II à luz da continuidade, da reforma e do enriquecimento mútuo que é possível quando ritos antigos e novos podem influenciar um ao outro. Traditionis custodes do papa Francisco chama aqueles que estão inclinados a formas mais tradicionais de culto, e a todos os católicos, para celebrar a forma atual da missa com maior beleza e reverência, com um sentido de continuidade.

Isto é o que milhares vão testemunhar em 15 de janeiro: uma beleza que une. Um novo exemplo da antiga e viva tradição católica. Uma reverência que mostra que o próprio Cristo veio para o meio de nós mais uma vez, sacrificando-se para nos atrair para Deus. Devotos de Nossa Senhora de Guadalupe, curiosos, amantes da missa latina e católicos em geral se reunirão para experimentar o amor sacrificial de Deus.

Na renovação de que precisamos, a liturgia é fundamental: liturgia reverente, sagrada, solene, que encarna as verdades da fé e nos aproxima da Presença Real de Deus entre nós. Nesta grande tarefa, a beleza sagrada não é um complemento opcional, mas uma parte integrante da adoração que precisamos agora.

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