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Texto original do Terceiro Segredo de Fátima e explicação do Cardeal Ratzinger
"Depois
das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa
Senhora um pouco mais ao alto um Anjo com uma espada de fogo na mão
esquerda; centelhando emitia chamas que parecia que iam incendiar
o mundo; mas se apagavam a contato com o esplendor que Nossa Senhora
irradiava com sua mão direita, disse com forte voz: Penitência! Penitência! Penitência! E vimos em uma imensa luz que é Deus: 'algo semelhante a como as pessoas se vêem em um espelho quando passam diante dele' a um Bispo vestido de Branco 'tivemos o pressentimento de que fosse o Santo Padre' . Também a outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma montanha íngreme, cujo cume havia uma grande Cruz de madeiras toscas como se fosse de carvalho com a casca, o Santo Padre, antes de chegar a ela, atravessou uma grande cidade em meio a ruínas e meio tremulante com passo vacilante, pesaroso de dor e pena, rezando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado em cima do monto, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz, foi morto por um grupo de soldados que dispararam vários tiros de arma de fogo e flechas; e do mesmo modo morreram uns após os outros os homens e mulheres de diversas classes e posições. Sob os dois braços da Cruz havia dois Anjos cada um deles com uma jarra de cristal na mão, nas quais recolhiam o sangue dos Mártires e regavam com ele as almas que se aproximavam de Deus".
O comentário
Teológico do Prefeito da Congregação para a Doutrina
da Fé está dividido em três partes: Revelação
pública e revelações particulares, seu lugar
teológico; A estrutura antropológica das revelações
privadas; Uma tentativa de interpretação do segredo
de Fátima. 1) "O
termo 'revelação pública' designa a ação
reveladora de Deus destinada a toda a humanidade, que encontrou sua
expressão literária nas duas partes da Bíblia:
o Antigo e o Novo Testamento. Chama-se 'revelação' porque
nela Deus deu-se a conhecer progressivamente aos homens, até
o ponto de tornar-se ele mesmo homem, para atrair para si e para reunir
em si todo o mundo por meio de seu Filho encarnado, Jesus Cristo. 2) A "revelação
particular" , ao contrário, "refere-se a todas as
visões e revelações que tem lugar uma vez terminado
o Novo Testamento; é esta categoria dentro da qual devemos
colocar a mensagem de Fátima. A autoridade
das revelações particulares - prossegue o Cardeal Ratzinger
- é essencialmente diversa da única revelação
pública: esta exige nossa fé". A revelação
particular, ao contrário, "é uma ajuda para a fé,
e se manifesta como crível precisamente porque remeta à
única revelação pública". Citando
o teólogo flamenco E. Dhanis, o prefeito para a Fé afirma
que "a aprovação eclesiástica de uma revelação
particular contém três elementos: mensagem em questão
não contém nada que vá contra a fé e os
bons costumes; é lícito torná-lo público
e os fiéis estão autorizados a dar-lhe em forma prudente
a sua adesão". "Uma mensagem assim pode ser uma ajuda
válida para compreender e viver melhor o Evangelho no momento
presente; por isto não se deve descartar. É uma ajuda
que é oferecida, mas que não é obrigatório
fazer uso da mesma". O Cardeal
Ratzinger sublinha também que "a profecia no sentido da
Bíblia não quer dizer predizer o futuro, mas explicar
a vontade de Deus para o presente o qual mostra o reto caminho para
o futuro". A parte
mais importante do Comentário Teológico está
dedicado a "uma tentativa de interpretação do segredo
de Fátima". Do mesmo modo que a palavra chave da primeira
e da Segunda parte do "segredo" é a de "salvar
almas", a "palavra chave deste 'segredo' é o tríplice
grito: 'Penitência! Penitência! Penitência!'. Vem
a mente o começo do Evangelho: "paenitemini et credite
evangelio" (Mc 1,15). Compreender os sinais dos tempos significa
compreender a urgência da penitência, da conversão
e da fé. Esta é a resposta adequada ao momento histórico,
que caracterizava por grandes perigos e que serão descritos
nas imagens sucessivas. Me permito inserir aqui uma lembrança
pessoal: em uma conversa comigo, Irmã Lúcia me disse
que lhe era cada vez mais claro que o objetivo de todas as aparições
era o de fazer crescer sempre mais na fé, na esperança
e na caridade. Todo o resto era somente para conduzir a isto". 3) Depois,
o prefeito da Congregação para a Fé passa a vista
às "imagens" do segredo. "O anjo com a espada
de fogo à direita da Mãe de Deus lembra imagens análogas
às do Apocalipse. Representa a ameaça do juízo
que incumbe sobre o mundo. A perspectiva de que o mundo poderia ser
reduzido a cinzas em um mar de chamas, hoje não é considerada
absolutamente pura e fantasia: o próprio homem preparou com
suas invenções a espada de fogo". "A
visão mostra depois a força que se opõe ao poder
de destruição: o esplendor da Mãe de Deus, e
proveniente sempre dele, a chamada à penitência. Deste
modo é sublinhado a importância da liberdade do homem:
o futuro não está determinado de um modo imutável,
e a imagem que as crianças viram não é um filme
antecipado do futuro, do qual nada poderia mudar. Em realidade, toda
visão tem lugar somente para chamar a atenção
sobre a liberdade e para dirigi-la em uma direção positiva.
(...) Seu sentido é o de mobilizar as forças da mudança
para o bem. Por isso estão totalmente fora de lugar as explicações
fatalísticas do "segredo" que dizem que o atentador
do 13 de maio de 1981 teria sido definitivamente um instrumento da
Providência. (...) A visão fala mais dos perigos e do
caminho para salvar-se dos mesmos". Passando
às seguintes imagens, "o lugar da ação -
explica o cardeal Ratzinger - aparece descrito em três símbolos:
uma montanha escarpada, uma grande cidade em meio a ruínas,
e finalmente uma grande cruz de troncos rústicos. Montanha
e cidade simbolizam o lugar da história humana: a história
como custosa subida para o alto, a história como lugar da humana
criatividade e da convivência, mas que ao mesmo tempo como lugar
das destruições, nas quais o homem destrói a
obra de seu próprio trabalho (...) Sobre a montanha está
cruz, meta e ponto e orientação da história.
Na cruz a destruição se transforma em salvação;
levanta-se como sinal da miséria da história e como
promessa para a mesma". "Aparecem depois aqui pessoas humanas: o Bispo vestido de branco ('tivemos o pressentimento de que fosse o Santo Padre'), outros Bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas e, finalmente, homens e mulheres de todas as classes e estratos sociais. O Papa parece que precede aos outros, tremendo e sofrendo por todos os horrores que o redeiam. Não somente as casas da cidade estão em meio a ruínas, mas que seu caminho passa no meio dos corpos dos mortos. O caminho da Igreja se descreve assim como uma via crucis, como caminho em um tempo de violência, de destruições e de perseguições. Nesta
imagem, não se pode ver representada a história de todo
um século. Do mesmo modo em que os lugares da terra estão
sinteticamente representados nas duas imagens da montanha e da cidade,
e estão orientados para a cruz, também os tempos são
representados de forma compacta". "Na
visão podemos reconhecer o século passado como século
dos mártires, como século dos sofrimentos e das perseguições
contra a Igreja, como o século das guerras mundiais e de muitas
guerras locais que encheram toda a sua Segunda metade e fizeram experimentar
novas formas de crueldade. No 'espelho' desta visão vemos passas
os testemunhas de fé de decênios". O prefeito
da Congregação da Doutrina da Fé afirma também
que na via crucis deste século "a figura do Papa tem um
papel especial. Em sua fadigosa subida à montanha podemos encontrar
indicados com segurança juntos diversos Papas, que começando
por Pio X até o Papa atual compartilharam os sofrimentos deste
século e se esforçaram para avançar entre eles
pelo caminho que leva à cruz. Na visão também
o Papa é morto no caminho dos mártires. Não poderia
o Santo Padre, quando depois do atentado de 13 de maio de 1981 fez-se
levar o texto da terceira parte do 'segredo', reconhecer nele seu
próprio destino? Teria estado muito próximo das portas
da morte e ele mesmo explicou ter sido salvo com as seguintes palavras:
'foi uma mão materna a que guiou a trajetória da bala
e o Papa agonizante deteve-se no umbral da morte' (13 de maio de 1994).
Que 'uma mão materna' tenha desviado a bala mortal mostra mais
uma vez que não existe um destino imutável, que a fé
e a oração são poderosas, que podem influenciar
na história e, que ao final, a oração é
mais forte que as balas, a fé mais potente que as divisões".
A conclusão
do segredo, prossegue o cardeal Ratzinger, "lembra imagens que
Lúcia pode ter visto em livros piedosos, e cujo conteúdo
deriva de antigas intuições de fé. É uma
visão consoladora, que quer tornar maleável pelo poder
salvador de Deus uma história de sangue e lágrimas.
Os anjos recolhem sob os braços da cruz o sangue dos mártires
e regam com ela as almas que se aproximam de Deus. O sangue de Cristo
e o sangue dos mártires estão aqui considerados juntamente:
o sangue dos mártires flui dos braços da cruz. Seu martírio
se realiza de maneira solidária com a paixão de Cristo
e se converte em uma só coisa com ele". "A
visão da terceira parte do segredo tão angustiosa em
seu início, conclui com uma imagem de esperança: nenhum
sofrimento é vão e, precisamente uma Igreja sofredora,
uma Igreja de mártires, converte-se em sinal orientador para
a busca de Deus por parte do homem (...) do sofrimento dos testemunhas
deriva uma força de purificação e de renovação,
porque é atualização do próprio sofrimento
de Cristo e transmite no presente sua eficácia salvífica". O que
significa em seu conjunto (em suas três partes), o "segredo"
de Fátima?, foi perguntado por último ao Cardeal Ratzinger.
"Antes de tudo devemos afirmar como o cardeal Sodano: 'os acontecimentos
aos que se refere a terceira parte do 'segredo' de Fátima parecem
pertencer já ao passado'. Na medida
em que se refere a acontecimentos concretos já pertencem ao
passado. Quem tinha esperado impressionantes revelações
apocalípticas sobre o fim do mundo ou sobre o curso futuro
da história ficará desiludido. Fátima não
nos oferece este tipo de satisfação de nossa curiosidade,
o mesmo que a fé cristã não quer e não
pode ser um mero alimento para nossa curiosidade. O que fica de válido
já vimos de imediato ao início de nossas reflexões
sobre o texto do 'segredo': a exortação à oração
como caminho para a 'salvação das almas' e, no mesmo
sentido, a chamada à penitência e à conversão". "Gostaria
ao final de voltar ainda sobre outra palavra chave do 'segredo', que
com razão fez-se famosa: "meu Coração Imaculado
triunfará", o que quer dizer isto? Que o coração
aberto a Deus, purificado pela contemplação de Deus,
é mais forte que os fuzis e que qualquer outro tipo de arma.
O fiat de Maria, a palavra de seu coração, mudou a história
do mundo porque ela introduziu no mundo o Salvador, porque graças
a este 'sim' Deus pode se tornar homem em nosso mundo e assim permanece
agora e para sempre. O maligno tem poder neste mundo, o vemos e o
experimentamos continuamente; ele tem poder porque nossa liberdade
se deixa afastar continuamente de Deus". "Mas desde que o próprio Deus tem coração humano e desse modo dirigiu a liberdade do homem para o bem, para Deus, a liberdade para o mal já não tem a última palavra. Desde aquele momento cobram todo seu valor as palavras de Jesus: "padecereis tribulações no mundo, mas tende ânimo, eu venci ao mundo" (Jo, 16,33). A mensagem de Fátima nos convida a confiar nesta promessa". |