No mundo do trabalho “há um descarte prévio das mulheres, por medo que elas engravidem, uma mulher é menos segura porque ela pode engravidar. Isto é pensado para a admissão e quando ela começa a pegar peso, se se pode mandá-la embora, é melhor. Esta é a mentalidade e devemos lutar contra isso”, disse o papa Francisco.

Francisco recebeu hoje (9) os diretores e funcionários do Instituto Nacional de Seguros de Acidentes de Trabalho (INAIL), a quem agradeceu o seu trabalho na proteção da dignidade das pessoas.

Segundo o papa, a dignidade dos trabalhadores nem sempre é protegida, e muitas vezes, em caso de acidentes, “o fardo é colocado nos ombros da família”.

O papa disse que nos últimos meses também aumentou o número de casos de acidentes de trabalho das mulheres, “o que nos lembra que a proteção plena das mulheres no local de trabalho ainda não foi alcançada”.

“Sem proteção, a sociedade se torna cada vez mais escrava da cultura do descarte. Ela acaba cedendo à visão utilitária da pessoa, em vez de reconhecer sua dignidade”.

Para Francisco, “a terrível lógica que difunde o descarte é resumida na frase: ‘Vale se produz’. Isso é terrível: vale se produz, se não produzir não vale nada. Assim, somente aqueles que conseguem permanecer na engrenagem da atividade contam, e as vítimas são colocadas de lado, consideradas um peso e confiadas ao bom coração das famílias”.

“Entre as consequências de não investir em segurança no trabalho está o aumento de acidentes. Diante dessa mentalidade, devemos lembrar que a vida não tem preço. A saúde de uma pessoa não pode ser trocada por umas libras a mais ou pelo interesse individual de alguém", disse o papa Francisco.

Ele também disse que “um aspecto da cultura do descarte é a tendência de culpar as vítimas. É um sinal da pobreza humana na qual corremos o risco de fazer declinar as relações, se perdermos a hierarquia correta de valores, que tem a dignidade da pessoa humana no topo”.

Para o papa, “cuidar da qualidade do trabalho, assim como dos lugares e dos transportes, é fundamental se “quisermos promover a centralidade da pessoa; quando o trabalho é degradado, a democracia é empobrecida e os laços sociais são diminuídos”.

Francisco disse ainda que a “clara separação entre a vida familiar e os ambientes de trabalho tem tido consequências negativas não só para a família, mas também para a cultura do trabalho”.

“Reforçou a ideia de que a família é o lugar do consumo e a empresa o lugar da produção. Fez as pessoas acreditarem que o cuidado é assunto exclusivo da família e que não tem nada a ver com o trabalho”, disse.

Segundo o papa, “correu-se o risco de aumentar a mentalidade de que as pessoas valem o que produzem, de modo que fora do mundo da produção perdem valor, identificando-se exclusivamente com o dinheiro”.

“Quando uma pessoa clama por socorro, se encontra em apuros e corre o risco de ser abandonada à margem da sociedade, é fundamental o empenho rápido e eficaz de instituições como a de vocês, que põem em prática os verbos da parábola evangélica: ver, ter compaixão, estar perto, enfaixar as feridas, tomar conta”.

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O papa também exortou os presentes a “a olhar face a face todas as formas de inabilidade que se apresentam. Não só as físicas, mas também as psicológicas, culturais e espirituais”.

“O abandono social tem repercussões na maneira como cada um de nós olha e percebe a nós mesmos. Ver significa olhar para pessoas que são únicas e não são números, tirando-as da lógica dos números”.

O papa disse que se trata de "sentir de perto o sofrimento do outro. É o contrário da indiferença, que leva a olhar para outro lado, a seguir sempre em frente sem se deixar tocar por dentro. Compaixão e ternura são atitudes que refletem o estilo de Deus”.

Ele também falou da importância da proximidade e disse que “quanto mais a pessoa se sente frágil, mais ela merece a proximidade”.

“Enfaixar as feridas pode significar tomar tempo e remover qualquer tentação burocrática. A pessoa que sofreu uma lesão pede para ser acolhida antes de ser indenizada. E qualquer compensação econômica adquire todo o seu valor no acolhimento e compreensão da pessoa”, disse.

É preciso “assumir com a família a dramática situação de quem é forçado a deixar o emprego por causa de um acidente; atende-lo de forma integral”, disso o papa.

“Isso requer também criatividade, para que a pessoa se sinta acompanhada e apoiada pelo que é e não com falsa pena”, disse.

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"A indiferença é sinal de uma sociedade desesperada e medíocre", concluiu Francisco.

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