Vaticano, 11 de jan de 2026 às 11:20
O cardeal Joseph Zen Ze-kiun fez uma crítica contundente à sinodalidade no consistório extraordinário de cardeais de quarta e quinta-feira passadas (7 e 8), condenando o processo como uma «manipulação blindada» que é um «insulto à dignidade dos bispos».
O bispo emérito de Hong Kong também descreveu a «referência contínua ao Espírito Santo» durante o Sínodo sobre a Sinodalidade 2021-2024 como «ridícula e quase blasfema».
O cardeal de 93 anos fez as suas observações durante um dos dois períodos de discussão livre durante o consistório de 7 e 8 de janeiro, que reuniu 170 dos 245 membros do colégio cardinalício na primeira grande reunião do papa Leão XIV com o sagrado colégio desde a sua eleição.
Em comentários apaixonados, divulgados pela primeira vez a 9 de janeiro pelo Relatório do Colégio Cardinalício, o bispo emérito criticou o papa Francisco por contornar o colégio dos bispos, ao mesmo tempo em que insistia ser esse um meio adequado para «compreender o ministério hierárquico».
O cardeal questionou a capacidade de qualquer papa ouvir todo o povo de Deus e se os leigos representam o povo de Deus. Ele perguntou se os bispos escolhidos para participar no processo sinodal tinham sido capazes de realizar um trabalho de discernimento.
«A manipulação blindada do processo é um insulto à dignidade dos bispos, e a referência contínua ao Espírito Santo é ridícula e quase blasfema», disse Zen. «Eles esperam surpresas do Espírito Santo. Que surpresas? Que ele repudie o que inspirou na tradição de dois mil anos da Igreja?»
O cardeal também observou aparentes incoerências no documento final do sínodo, declarado como parte do magistério da Igreja, que no entanto, dizia que não estabelecia quaisquer normas; que, embora enfatizasse a unidade do ensino e da prática, dizia que estes podiam ser aplicados de acordo com «contextos diferentes»; e que cada país ou região «pode procurar soluções mais adequadas à sua cultura e sensíveis à sua tradição e necessidades».
O cardeal também apontou o que chamou de “muitas expressões ambíguas e tendenciosas no documento” e perguntou se o Espírito Santo garante que “não surgirão interpretações contraditórias”.
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Zen questionou abertamente se os resultados do que o documento chama de «experimentação e teste» dessas «novas formas de ministerialidade» serão submetidos ao secretariado do sínodo e, em caso afirmativo, se o secretariado será «mais competente do que os bispos para julgar os diferentes contextos» da Igreja em vários países ou regiões.
«Se os bispos se consideram mais competentes, as diferentes interpretações e escolhas não conduzem a nossa Igreja à mesma divisão (fratura) encontrada na Comunhão Anglicana?», perguntou o cardeal.
Em relação à Igreja Ortodoxa, Zen disse acreditar que os seus bispos «nunca aceitarão» o que ele chamou de «sinodalidade bergogliana», pois, para eles, a sinodalidade é «a importância do Sínodo dos Bispos».
O papa Francisco, disse ele, «explorou a palavra sínodo, mas fez desaparecer o sínodo dos bispos, uma instituição criada por Paulo VI». Aparentemente a observação de Zen foi uma referência à forma como o último papa reformulou a instituição, dando papel formal e direito de voto a não-bispos, e tornando a instituição não mais um simples órgão consultivo dos bispos.
A Sala de Imprensa da santa Sé e os cardeais escolhidos para falar com a imprensa não fizeram nenhuma menção às observações de Zen durante o consistório.
Em declarações à imprensa, foi dito que não houve críticas ao papa Francisco durante a reunião de dois dias, embora o cardeal Stephen Brislin, arcebispo emérito da Cidade do Cabo, África do Sul, tenha falado de uma «divergência» de opinião.
O consistório foi uma reunião à porta fechada, à qual a imprensa não teve acesso, e os cardeais foram orientados a manter o sigilo sobre os trabalhos.


