9 de jan de 2026 às 16:25
O papa Leão XIV condenou o enfraquecimento do multilateralismo internacional e o aumento do uso da força num discurso a diplomatas acreditados junto à Santa Sé hoje (9) no Vaticano.
Ele disse que os Estados devem respeitar os direitos humanos fundamentais, como a liberdade religiosa e a liberdade de expressão, e cumprir o direito internacional humanitário, no discurso mais longo de seu pontificado até o momento.
“A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está a alastrar. Foi quebrado o princípio, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, que proibia os países de recorrerem à força para violar fronteiras alheias”, disse ele hoje a embaixadores e outros representantes diplomáticos junto à Santa Sé no Palácio Apostólico. Atualmente, 184 Estados mantêm relações diplomáticas com a Santa Sé.
“Já não se procura a paz como um dom e um bem desejável em si mesmo”, disse o papa. “Mas procura-se a paz através das armas, como condição para afirmar o próprio domínio. Isto compromete gravemente o Estado de direito, que é a base de toda a coexistência civil pacífica”.
Leão XIV exortou que a preocupação com o bem comum dos povos tenha precedência sobre “a defesa de interesses partidários” em meio à escalada das tensões, falando em particular para a Venezuela, para a qual reafirmou um apelo “ao respeito pela vontade do povo venezuelano e ao empenho na defesa dos direitos humanos e civis de todos”.
O papa estruturou seu discurso, parte da saudação anual de Ano Novo ao corpo diplomático, dentro da obra de filosofia cristã de santo Agostinho de Hipona, De Civitate Dei (A Cidade de Deus).
“A Cidade de Deus não propõe um programa político, mas fornece reflexões valiosas sobre questões fundamentais da vida social e política, como a busca por uma coexistência mais justa e pacífica entre os povos”, disse Leão XIV. “Agostinho também alerta sobre os graves perigos para a vida política decorrentes de falsas representações da história, de um nacionalismo excessivo e da distorção do ideal do estadista”.
Ele disse que A Cidade de Deus, escrita no século V d.C., é extremamente relevante para os dias atuais, marcados por migrações em larga escala e pelo "profunda reestruturação dos equilíbrios geopolíticos e dos paradigmas culturais".
Direitos humanos violados
Leão XIV lamentou o que chamou de "curto-circuito" dos direitos humanos ao redor do mundo hoje, especialmente o direito à vida.
“À luz destes desafios, é necessário reiterar com veemência que a salvaguarda do direito à vida constitui o fundamento imprescindível de todos os outros direitos humanos”, disse o papa. “Uma sociedade só é saudável e avançada quando tutela a sacralidade da vida humana e se empenha ativamente em promovê-la”.
Ele criticou a restrição do direito à liberdade de expressão, à liberdade de consciência, à liberdade religiosa e ao direito à vida em favor de “outros direitos considerados novos”, resultando “na perda de vigor do próprio sistema de direitos humanos, o que abre caminho à força e à opressão”.
“Isso ocorre quando cada direito se torna autorreferencial e, sobretudo, quando perde a sua conexão com a realidade das coisas, a sua natureza e a verdade”, disse Leão XIV.
Perseguição aos cristãos
O papa Leão XIV disse que a perseguição aos cristãos é uma das crises de direitos humanos mais disseminadas da atualidade, com cerca de 380 milhões de fiéis ao redor do mundo sofrendo níveis elevados ou extremos de discriminação, violência e opressão.
Ele falou sobre as vítimas da violência com motivação religiosa em Bangladesh, no Sahel, região ao sul do deserto do Saara, na Nigéria, e os que foram mortos ou feridos no ataque terrorista à paróquia de Santo Elias em Damasco, Síria, em junho do ano passado.
O papa denunciou "um modo sutil de discriminação religiosa contra os cristãos" que ocorre em países de maioria cristã na Europa e nas Américas.
“Onde às vezes, por razões políticas ou ideológicas, se veem limitados na possibilidade de anunciar as verdades evangélicas, especialmente quando defendem a dignidade dos mais frágeis, dos nascituros, dos refugiados e dos migrantes, ou promovem a família”, disse Leão XIV.
O papa pediu respeito pela liberdade de outras comunidades religiosas e a rejeição de todos os tipos de antissemitismo.
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O significado das palavras
Leão XIV falou sobre os debates acerca do significado das palavras e como eles estão ligados aos ataques à liberdade de expressão.
“Redescobrir o significado das palavras é talvez um dos primeiros desafios do nosso tempo”, disse ele. “Quando as palavras perdem a sua correspondência com a realidade e a própria realidade se torna sujeita a opiniões e, em última análise, incomunicável”.
“É importante notar que o paradoxo deste enfraquecimento da palavra é com frequência reivindicado em nome da própria liberdade de expressão”, disse o papa. “No entanto, se olharmos bem, é verdade o contrário: a liberdade de palavra e de expressão é garantida precisamente pela certeza da linguagem e pela certeza de que cada termo está ancorado na verdade”.
Leão XIV disse ser doloroso ver o espaço para a verdadeira liberdade de expressão diminuir rapidamente, especialmente no Ocidente.
“Se desenvolve uma nova linguagem, ao estilo de Orwell, que, na tentativa de ser cada vez mais inclusiva, acaba por excluir aqueles que não se adaptam às ideologias que a animam”, disse ele citando o escritor inglês, autor do romance 1984.
Uma consequência disso, disse Leão XIV, é que a liberdade de consciência, outro direito humano fundamental, é cada vez mais posta em dúvida pelos Estados.
A liberdade de consciência, que “estabelece um equilíbrio entre o interesse coletivo e a dignidade individual”, protege os indivíduos “para recusar obrigações de natureza legal ou profissional contrárias aos princípios morais, éticos ou religiosos profundamente consolidados na sua esfera pessoal”, como o serviço militar, o aborto ou a eutanásia.
“A objeção de consciência não é uma rebelião, mas um ato de fidelidade a si mesmo”, disse ele.
A vida e a família
O papa Leão XIV exortou os Estados a proteger a instituição da família como “a vocação ao amor e à vida”, manifestada na “união exclusiva e indissolúvel entre a mulher e o homem”, e implicando um “imperativo ético fundamental: colocar as famílias em condições de acolher e cuidar plenamente da vida nascente”.
Falando sobre a crescente prioridade de aumentar as taxas de natalidade, ele enfatizou a vida como um dom a ser valorizado e disse: "À luz dessa profunda visão da vida como dom a ser cuidado e da família como sua responsável guardiã que se impõe a rejeição categórica de práticas que negam ou instrumentalizam a origem da vida e o seu desenvolvimento", como o aborto e a barriga de aluguel.
Ele disse que a Santa Sé também está preocupada com projetos que visam financiar internacionalmente o acesso ao aborto em países onde ele é proibido e “considera deplorável que recursos públicos sejam destinados à eliminação da vida, em vez de serem investidos no apoio às mães e às famílias”.
Para os doentes e idosos, “a sociedade civil e os Estados também têm a tarefa responder concretamente às situações de fragilidade, oferecendo soluções para o sofrimento humano, tais como os cuidados paliativos, e promovendo políticas de autêntica solidariedade, em vez de encorajar maneiras ilusórias de compaixão, como a eutanásia”, disse o papa.
Leão XIV falou sobre a dignidade inalienável de cada pessoa e que os migrantes, enquanto pessoas, têm “direitos inalienáveis que devem ser respeitados em todos os contextos”.
“Renovo o desejo da Santa Sé para que as ações que os Estados empreendem contra a ilegalidade e o tráfico de seres humanos não se tornem pretexto para prejudicar a dignidade dos migrantes e refugiados, disse ele.
Orgulho e amor próprio
Leão XIV disse que, em A Cidade de Deus, de santo Agostinho, o santo interpreta os eventos e a história segundo um modelo de duas cidades. A cidade de Deus é caracterizada pelo amor incondicional de Deus e pelo amor ao próximo, especialmente aos pobres, enquanto a cidade terrena "está centrada no amor orgulhoso de si mesmo (amor sui), na ânsia de poder e glória mundanos que levam à destruição".
“Se santo Agostinho destaca a coexistência da cidade celestial e da cidade terrena até o fim dos tempos, a nossa época parece mais inclinada a negar o direito de cidadania à cidade de Deus”, disse o papa.
“Contudo, como observa Agostinho, «grande é a insensatez do orgulho nestes indivíduos que colocam na vida presente o fim do bem e que pensam tornar-se felizes por si mesmos» (XIX, 4.4)”, disse Leão XIV. “O orgulho ofusca a própria realidade e a empatia para com o próximo. Não é por acaso que na origem de todo conflito está sempre uma raiz de orgulho”.



