O reitor do santuário basílica Nosso Senhor do Bonfim, em Salvador (BA), padre Edson Menezes, disse que a participação de um homem que se identifica como mulher e de representantes de diferentes religiões no rito do lava-pés da missa da Ceia do Senhor, na Quinta-feira Santa (28) foi “um modo de inclusão” e um convite a que se tome consciência de que “somos todos irmãos”.

O padre Menezes disse à ACI Digital que a inciativa foi motivada na Campanha da Fraternidade 2024, que tem como tema “Fraternidade e Amizade Social”, conceito criado pelo papa Francisco em sua encíclica Fratelli tutti. O lema da campanha era: “Vós sois todos irmãos e irmãs”.

“A partir do lema ‘somos todos irmão’, eu tive essa iniciativa de convidar representantes de diferentes religiões, de classes sociais, de raças, de etnias para mostrar concretamente que aquele ato era um ato convidativo para que nós tomemos consciência de que somos todos iguais, somos todos irmãos. Foi essa a motivação e a justificativa”, disse.

O rito do lava-pés imita o gesto de Jesus na Última Ceia que celebrou com seus 12 discípulos mais próximos narrado no Evangelho segundo São João. “Depois de lavar os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto, sentou-se à mesa e perguntou-lhes: Entendeis o que vos fiz? Vós me chamais Mestre e Senhor; e dizeis bem, porque eu o sou. Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros”, diz o evangelho (Jo 13, 12-14).

A cerimônia é parte integrante da missa vespertina da Quinta-feira Santa.

ACI Digital procurou o arcebispo de Salvador, cardeal Sérgio da Rocha, para saber sua opinião sobre o ocorrido. Por orientação de sua assessoria de imprensa, ACI Digital enviou perguntas ao cardeal. “Como o cônego Edson Menezes já concedeu entrevista, para nós o seu pedido já foi contemplado”, respondeu por email a assessoria, depois de ter passado as perguntas ao cardeal.

Respondendo se tinha tido algum contato com o arcebispo de Salvador, cardeal Sérgio da Rocha, ou recebido alguma orientação sobre a escolha das pessoas para o rito do lava-pés, o reitor da basílica do Bonfim disse que não. “A gente tem a liberdade de definir como vamos fazer os atos. Contudo, tendo certa prudência de não ferir as normas e eu acho que não foi ferida norma nenhuma, é um modo de inclusão, de falar da necessidade de inclusão”, disse.

O reitor disse à ACI Digital que, “normalmente”, são escolhidos para o rito do lava-pés “doze homens, que representam os doze apóstolos” e há paróquias “que escolhem pessoas de idades diferentes”.  “O papa escolheu ir a um presídio e lavar os pés de mulheres. Então, depende muito do modo como aquele padre conduz a ação pastoral”, acrescentou.

Por isso, disse, a escolha das pessoas para o rito do lava-pés neste ano na basílica do Bonfim “não é uma coisa que surgiu de uma hora para outra”, porque “nós aqui temos esse propósito de acolher bem a todos”. “A igreja do Bonfim é uma igreja que tem uma vocação especial de acolher o diferente, de convivência com o diferente. Aqui, nós convivemos com o sincretismo religioso de modo muito pacífico, muito respeitoso. Então, o nosso propósito é esse, de respeitar a todos, de acolher a todos, de olhar a todos como irmãos”, disse.

Em matéria intitulada “Quinta-feira Santa: Missa da Ceia do Senhor é marcada por emoção e ineditismo”, o site da basílica do Bonfim diz que entre os participantes estavam o jornalista e motivador cultural Clarindo Silva; Vitor, refugiado da Venezuela que foi acolhido pela Obra Social da basílica; o indígena Rireybamba Tracajá; Adilson de Oliveira, do espiritismo; Doné Hildalice, do condomblé; Márcia Pinheiro, da religião baha’i; pastor Paulo Britho, representando o protestantismo; reverendos Bianca e Bruno, da igreja anglicana; Sheik Abdul, do islã. O site destacou “a primeira mulher trans a participar deste rito na Colina Sagrada, a ativista e empreendedora Brenda Souza”.

Sobre a participação de Brenda, o padre Edson Menezes disse que “nem sempre essas pessoas são valorizadas, têm sua dignidade reconhecida”. “Existe muito preconceito. Por isso, eu resolvi chamá-la”.

Quem pode participar do rito do lava-pés

Em 2016, o papa Francisco modificou o rito do lava-pés na missa da Ceia do Senhor da Quinta-feira Santa e permitiu que entre os doze escolhidos podem participar qualquer membro do povo de Deus e não só homens.

Em carta enviada ao então prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos (atualmente, dicastério), o cardeal Robert Sarah, o papa Francisco disse que a intenção é “melhorar as modalidades da sua concretização, para que expressem plenamente o significado do gesto realizado por Jesus no Cenáculo, o seu entregar-se ‘até ao fim’ pela salvação do mundo, a sua caridade sem limites”. 

O papa diz na carta que a decisão de “fazer uma mudança nas rubricas do Missal Romano” foi tomada “depois de atenta ponderação”. “Por conseguinte, disponho que seja modificada a rubrica segundo a qual as pessoas previamente escolhidas para o lava-pés devam ser homens ou rapazes, de modo que doravante os Pastores da Igreja possam escolher os participantes no rito entre todos os membros do Povo de Deus. Recomenda-se ainda que aos escolhidos seja fornecida uma explicação adequada do mesmo rito”.

O decreto da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, de 6 de janeiro de 2016, diz que “pareceu adequado ao Sumo Pontífice Francisco mudar a regra que se lê no Missale Romanum (p. 300, n° 11) que diz: ‘Os homens designados, conduzidos pelos ministros…’ na forma seguinte: ‘As pessoas escolhidas entre o povo de Deus, conduzidas pelos ministros,…’ (e, consequentemente, no Caeremoniale Episcoporum, n° 301 e n° 299b: ‘assentos para as pessoas designadas’)”.

“Deste modo os pastores poderão escolher um pequeno grupo de fiéis que sejam representantes da variedade e da unidade de cada porção do povo de Deus. Tal grupo poderá ser constituído por homens e mulheres, e de modo conveniente, por jovens e idosos, pessoas sãs ou doentes, clero, consagrados ou leigos”, acrescenta o decreto.