A Igreja Católica comemora hoje (2), da de finados, todos os fiéis defuntos. Rezar e celebrar missas por quem já morreu é uma tradição da Igreja. Na missa pelos mortos, o fiel “deve buscar acima de tudo a salvação da alma do fiel falecido” e, “com confiança, entregar aquela alma à misericórdia de Deus, suplicar o perdão dos seus pecados, o alívio das penas devidas às suas faltas”, disse à ACI Digital o padre Anderson Alves, da diocese de Petrópolis (RJ). Portanto, não se trata apenas de agradecer pela vida da pessoa que morreu ou consolar os entes queridos que ficaram.

“Quem o faz com fé, já tem o consolo da mesma fé. Os sacerdotes buscam, nesse momento, fortalecer a fé pascal dos fiéis. Certamente podem agradecer a Deus pelas boas obras do fiel. Mas devem também suplicar o perdão das suas falhas e pecados, confiantes na misericórdia divina”, acrescentou o sacerdote, que é diretor espiritual do seminário diocesano Nossa Senhora do Amor Divino e professor de Filosofia e Teologia Moral na Universidade Católica de Petrópolis (UCP).

O padre Alves destacou que “a Igreja é um mistério de comunhão” e a missa pelos mortos “pretende fortalecer a comunhão”, pois, por ela, “os falecidos necessitados de purificação são auxiliados; e os seus amigos e parentes vivos são confortados, são fortalecidos na fé no mistério pascal de Cristo, que ilumina o mistério da morte do cristão”. “O cristão acredita nas palavras de Jesus: ‘Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente’ (Jo 11, 25-26). A vitória de Cristo sobre a morte é o início da vida eterna do cristão”, acrescentou.

Segundo o sacerdote, rezar pelos mortos “supõe, evidentemente, a crença católica no juízo particular, que ocorre logo após a morte do fiel”. “A morte é a separação de corpo e alma. O corpo vai para o sepulcro e a alma sobrevive, por graça de Deus, independentemente do corpo. Essa alma é julgada pela verdade divina. As almas que estiverem na perfeição da caridade, alcançam imediatamente a comunhão com Deus, chamado então de Céu. As que morrerem com uma caridade imperfeita, ou seja, com alguns apegos ao pecado e às realidades terrestres, precisarão de uma última purificação, num estágio chamado então de ‘purgatório’. As nossas orações e o sacrifício da missa ajudam a purificar esses nossos irmãos”, disse.

O Catecismo da Igreja Católica diz em seu parágrafo 1.051 que, “ao morrer: cada homem recebe, na sua alma imortal, a sua retribuição eterna, num juízo particular feito por Cristo, Juiz dos vivos e dos mortos”. Portanto, disse o padre Alves, “é melhor evitar a afirmação de que o fiel falecido ‘já está no céu’”.

Para ele, pode ser que quem faça esta afirmação tenha “o intuito de consolar maior do que o de recordar a doutrina completa da Igreja”. “Talvez esteja movido pelos sentimentos da ocasião, ou talvez não tenha recebido um conhecimento exato da doutrina católica. A Escatologia é uma disciplina teológica que estuda esses temas e foi muito descuidada nos últimos anos, infelizmente, nas faculdades e seminários católicos”, disse.

O sacerdote destacou que “só podemos dizer” que o morto “já está no céu” em relação aos “santos canonizados pela Igreja”. “É certo que no início da Igreja, por um período, o santo era declarado como tal por aclamação popular. E um fiel pode ter a convicção de que algum falecido já esteja no céu. Muitos tiveram essa crença, por exemplo, durante o funeral de João Paulo II e Bento XVI e declaravam ‘santo súbito’. Mas só podemos ter a certeza de que um irmão esteja mesmo no Céu quando a Igreja declara a sua santidade, após um processo de canonização, algo que já ocorreu com João Paulo II e esperamos ocorrer logo com Bento XVI”, disse.

O padre Anderson Alves disse ainda que “é fato que a alma não perde a sua memória, não fica adormecida, sem consciência”. Por isso, “se um fiel falece em santidade”, ele “pode encontrar-se com outros santos, inclusive seus parentes, no Céu”; e, “se falece e vai para o purgatório, pode se recordar de outros fiéis vivos e falecidos”.

“O fato é que nós esperamos que todos se salvem, embora saibamos por fé que nem todos se salvem. A Igreja nos dá a certeza dos santos, mas não tem um catálogo dos condenados. Podemos esperar, portanto, encontrar nossos parentes e falecidos no céu e, enquanto vivemos, podemos rezar por isso e trabalhar pela salvação deles, para que esse desejo se realize. Se será realizado, só Deus o sabe”, disse.

Receba as principais de ACI Digital por WhatsApp e Telegram

Está cada vez mais difícil ver notícias católicas nas redes sociais. Inscreva-se hoje mesmo em nossos canais gratuitos:

Falta uma catequese sobre a morte

Para o padre Anderson Alves, atualmente, “falta uma catequese, uma meditação, uma reflexão maior sobre o tema dos chamados novíssimos (que falam das realidades últimas): a morte, o juízo particular, o inferno, o céu e o purgatório”.

“Infelizmente o discurso eclesial se secularizou muito nos últimos anos; tendemos a falar de política, de questões sociais, de meio ambiente, de violências, ofensas e mortes, de tantos temas nas nossas assembleias, que praticamente nos esquecemos de falar da nossa maior certeza: que todos morreremos um dia”, disse.

Ele lembrou que, “depois da morte, seremos julgados e receberemos o que tivermos buscado na nossa vida: uma vida eterna com Deus, um uma vida eterna sem Deus”. “Não há meio termo, esses são os dois únicos destinos eternos do homem”, porque “o purgatório é um estado provisório”, ressaltou.

“A cada momento, em cada ato humano, escolhemos livremente o nosso destino eterno. Isso não deve nos aterrorizar, mas deve nos tornar muito conscientes, muito responsáveis e zelosos para com o nosso tempo, com a nossa alma, com a caridade, que cobre uma multidão de pecados”, declarou.

O sacerdote recordou as palavras de santo Tomás de Aquivo, que definiu o pecado como “‘aversio a Deo et conversio ad creaturas’ (aversão a Deus e conversão às criaturas)”. “Em cada ato humano estamos escolhendo: se nos convertemos a Deus ou às criaturas. E como não podemos servir a dois senhores, se nos convertemos a Deus, não teremos criaturas como o nosso fim último. Se nos convertemos às criaturas e abandonamos a Deus, corremos o risco de nos perdermos para sempre. Devemos então nos recordar das palavras de Jesus: ‘O que adiante um homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?’ (Mc 8, 36)”, disse.

Respondendo se a Igreja mudou sua posição sobre a morte e passou a valorizar mais a manutenção e a promoção da vida do que a preparação para a vida eterna, o padre disse que não. “Pode ter ocorrido certa mudança circunstancial no discurso eclesial, como citei anteriormente, que pode dar a entender tal mudança. Mas não é possível manter a vida para sempre. Nossa maior certeza, é que somos mortais, que o nosso tempo está se esgotando, que o mais importante é decidirmos por Deus, afastando-nos do amor idolátrico pelas criaturas”.

“Evidentemente, o homem é composto de corpo e alma e temos o dever moral de cuidar do nosso corpo e da nossa alma. Devemos buscar cuidar da nossa vida, da nossa saúde, para podermos servir a Deus por muitos anos sobre essa vida, colaborando com a salvação de muitos. Também devemos ter caridade e cuidar da vida dos nossos irmãos”, disse.

Ao mesmo tempo, destacou o padre, “o nosso grande desejo deve ser o de ver a Deus, com o nosso corpo”. “A Igreja não poderá jamais deixar de promover a vida da alma. Como santo Tomás de Aquino dizia, seguindo santo Agostinho: ‘Como a alma é a vida do corpo, a caridade é a vida da alma’. E disse também são João da Cruz: ‘Ao entardecer da vida, seremos julgados pelo amor’. É isso o único que realmente conta”, concluiu.