Na Audiência Geral de hoje (11), o papa Francisco continuou seu ciclo de catequese sobre a evangelização e o zelo apostólico. Ele propôs o exemplo do testemunho de santa Josefina Bakhita, uma mulher “livre e capaz de amar” inclusive aqueles que a escravizaram.

Abaixo, a catequese completa do papa Francisco:

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

No caminho de catequeses sobre o zelo apostólico – refletimos sobre o zelo apostólico – hoje deixemo-nos inspirar pelo testemunho de Santa Josefina Bakhita, uma santa sudanesa. Infelizmente, há meses que o Sudão é dilacerado por um terrível conflito armado, do qual pouco se fala hoje; oremos pelo povo sudanês, para que possa viver em paz! Mas a fama de Santa Bakhita ultrapassou todas as fronteiras e chegou a todos aqueles a quem é negada a identidade e a dignidade.

Nascida no Darfur - o martirizado Darfur! - em 1869, foi raptada da sua família com sete anos e feita escrava. Os seus raptores chamavam-lhe “Bakhita”, que significa “felizarda”. Teve oito donos, um vendia-a a outro. Os sofrimentos físicos e morais que padeceu na infância deixaram-na sem identidade. Sofreu maldades e violências: no seu corpo trazia mais de cem cicatrizes. Mas ela própria testemunhou: “Como escrava, nunca desesperei, porque sentia uma força misteriosa que me sustentava”.

Diante disto, pergunto-me: qual é o segredo de Santa Bakhita? Sabemos que muitas vezes a pessoa ferida, por sua vez, fere; o oprimido torna-se facilmente opressor. No entanto, a vocação dos oprimidos é libertar-se a si próprios e aos seus opressores, tornando-se restauradores de humanidade.

Só na debilidade dos oprimidos se pode revelar a força do amor de Deus, que liberta ambos. Santa Bakhita exprime muito bem esta verdade. Um dia, o seu tutor dá-lhe um pequeno crucifixo, e ela, que nunca tinha possuído nada, conserva-o ciosamente como um tesouro.

Fitando-o, experimenta uma libertação interior, porque se sente compreendida e amada e, portanto, capaz de compreender e amar: este é o início. Sente-se compreendida, sente-se amada e, por conseguinte, capaz de compreender e amar os outros.

Com efeito, dirá: “O amor de Deus sempre me acompanhou de modo misterioso... O Senhor amou-me tanto: é preciso amar todos... É preciso compadecer-se!”. Esta é a alma de Bakhita! Na verdade, com-padecer significa tanto padecer com as vítimas de tanta desumanidade presente no mundo, como também compadecer-se de quem comete erros e injustiças, não justificando, mas humanizando. Esta é a carícia que ela nos ensina: humanizar! Quando entramos na lógica da luta, da divisão entre nós, dos maus sentimentos, uns contra os outros, perdemos a humanidade. E muitas vezes pensamos que precisamos de humanidade, que devemos ser mais humanos. E esta é a tarefa que Santa Bakhita nos ensina: humanizar, humanizar-nos a nós mesmos e humanizar os outros.

Santa Bakhita, que se tornou cristã, é transformada pelas palavras de Cristo, que meditava diariamente: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!» (Lc 23, 34). Por isso, dizia: “Se Judas tivesse pedido perdão a Jesus, também ele teria encontrado misericórdia”. Podemos dizer que a vida de Santa Bakhita se tornou uma parábola existencial do perdão. Como é bom dizer de uma pessoa: “Foi capaz, foi sempre capaz de perdoar”. E ela foi sempre capaz de o fazer, aliás: a sua vida é uma parábola existencial do perdão. Perdoar, porque assim seremos perdoados. Não vos esqueçais disto: o perdão, que é a carícia de Deus para todos nós!

O perdão libertou-a. O perdão recebido, primeiro através do amor misericordioso de Deus, e depois o perdão oferecido, fizeram dela uma mulher livre, alegre, capaz de amar.

Bakhita pôde viver o serviço não como escravatura, mas como expressão do dom livre de si. E isto é muito importante: fez-se voluntariamente serva – foi vendida como escrava – e em seguida escolheu livremente fazer-se serva, carregar sobre os seus ombros os fardos dos outros!

Com o seu exemplo, Santa Josefina Bakhita indica-nos o caminho para nos libertarmos finalmente das nossas escravidões e medos. Ajuda-nos a desmascarar as nossas hipocrisias e egoísmos, a superar ressentimentos e conflitos. E encoraja-nos sempre.

Caros irmãos e irmãs, o perdão não tira nada, mas acrescenta – o que acrescenta o perdão? Dignidade: o perdão não te tira nada, mas acrescenta dignidade à pessoa, faz-nos afastar o olhar de nós mesmos e fitar os outros, para os ver frágeis como nós, mas sempre irmãos e irmãs no Senhor. Irmãos e irmãs, o perdão é a nascente de um zelo que se torna misericórdia e chama a uma santidade humilde e jubilosa, como a de Santa Bakhita.