O bispo de Orihuela-Alicante, Espanha, dom José Ignacio Munilla, disse que a afirmação "não queremos converter o jovem a Cristo" feita pelo bispo-auxiliar de Lisboa, Portugal, dom Américo Aguiar, sobre a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) foi "muito inadequada, além de contrária ao Evangelho”.

“Nós não queremos converter o jovem a Cristo nem à Igreja Católica nem nada disso, absolutamente”, disse dom Américo Aguiar em entrevista à TV portuguesa RTP, em 6 de julho. “Nós queremos é que seja normal que o jovem cristão católico diga e testemunhe que o é; que o jovem muçulmano, judeu ou de outra religião também não tenha problemas em dizer que o é e o testemunhe; aquele jovem que não confessa religião nenhuma se sinta à vontade e não se sinta estranho porque é assim ou é de outra maneira, e que todos entendamos que a diferença é uma riqueza. E o mundo será objetivamente melhor se nós formos capazes de colocar no coração de todos os jovens esta certeza da Frateli tutti, de todos irmãos, que o papa tem feito um enorme esforço para colocar no coração de todos”, acrescentou.

Durante o seu programa Sexto Continente, hoje (14), na Rádio María Espanha, dom Munilla dedicou quase 40 minutos para analisar a fundo a polêmica que surgiu por causa da recente afirmação de dom Aguiar, que em 30 de setembro será criado cardeal.

Dom Munilla disse que, "obviamente, o que elas [as declarações] sublinhavam" era o desejo de que a JMJ fosse uma ocasião de encontro entre jovens católicos, cristãos de outras confissões, de outros credos e até ateus.

Mas, o bispo ressaltou que a declaração “produziu uma grande surpresa” e lembrou que dom Aguiar a esclareceu à ACI Digital, afirmando que a JMJ “nunca foi, não é, nem deverá ser um evento para proselitismos” e que sua intenção era sublinhar que “a Igreja não impõe, propõe”.

O bispo espanhol considerou que, para além das precisões, a frase original foi "muito inadequada, além de contrária ao Evangelho", pois o apelo à conversão e a crer no Evangelho "se identifica com o ministério público de Jesus".

Diante da polêmica, dom Munilla fez uma reflexão que intitulou “JMJ Lisboa 2023 – Proselitismo - Chamada à conversão - Fratelli Tutti”, porque o que foi gerado pelas palavras de dom Aguiar “está mostrando a necessidade de um esclarecimento desses conceitos”.

"Não ao proselitismo"

Em primeiro lugar, dom Munilla lembrou que o frequente convite do papa Francisco a dizer “não ao proselitismo” foi feito pela primeira vez em referência a algumas palavras específicas de Bento XVI: “A Igreja cresce pelo testemunho, não pelo proselitismo”.

Então, quando se usa este termo, pretende-se sublinhar “a pretensão de que alguém passe a ter a tua fé a ponto de o fazer de forma obsessiva e não respeitando a liberdade dessa pessoa”, afirmou.

O bispo destacou que “não é o mesmo dizer ‘não’ ao proselitismo e dizer ‘não’ ao chamado à conversão”.

Quando o papa pede para evitar o proselitismo, disse o bispo de Orihuela-Alicante, refere-se a uma pregação que não dá a devida importância ao testemunho, que não respeita os tempos das pessoas, que as "enrole" e não as escuta.

Também cairia no proselitismo quando a caridade é subordinada à pertença religiosa, porque "o coração do homem deve ser acessado na gratuidade".

Esta atitude provém de uma falta de confiança de que “quem converte é o Espírito Santo”, disse o bispo. Ele destacou que que a Igreja proíbe severamente “que a conversão seja induzida por meios indiscretos, coercivos”.

Para dom Munilla, é preocupante que essa rejeição ao proselitismo seja promovida “sem explicação suficiente”, porque “muitos estão chegando a crer que o proselitismo é simplesmente um apelo à conversão”.

Apostolado: "Só Cristo pode nos salvar"

Em um segundo bloco de sua reflexão, dom Munilla abordou a questão do apostolado, destacando que a mensagem de Jesus Cristo “ide por todo o mundo e anuncie o Evangelho” não é “uma questão de gosto”.

“O Evangelho nos diz que é importante acolher Jesus Cristo para que o homem possa receber a salvação de Deus. Só Cristo pode nos salvar”, enfatizou, embora “aqueles que não foram culpados de não conhecer Jesus Cristo possam ser salvos”.

O bispo ilustrou esta explicação com a nota doutrinal da Congregação para a Doutrina da Fé intitulada Sobre alguns aspectos da Evangelização, de 2007.

Esta nota rejeita que se coloque em dúvida “a legitimidade de propor aos outros o que consideramos ser uma verdade revelada por Jesus Cristo e que eles deveriam conhecer”, disse dom Munilla.

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Consequentemente, o respeito à liberdade religiosa e à pluralidade "nunca pode se tornar a desculpa para a indiferença entre a verdade e a bem", porque "a urgência do convite de Cristo a evangelizar diz respeito a todos nós", disse.

O bispo citou como exemplo a “parresia” dos apóstolos, que seguiam evangelizando, mesmo sendo presos ou violentados. “Eram espancados para que parassem de pregar e continuavam”, disse.

Por isso, o bispo exortou a não confundir proselitismo com apostolado porque “é uma confusão que deixa o Evangelho em silêncio. É como deixar o Evangelho invalidado”.

“Má compreensão” de Fratelli tutti

Em terceiro lugar, o bispo de Orihuela-Alicante expôs como, em sua opinião, "por trás dessa confusão também há uma má compreensão de Fratelli tutti", encíclica publicada pelo papa Francisco em outubro de 2020.

Dom Munilla fala sobre o significado de fraternidade a que se refere a encíclica e que se propõe como ponto de partida para a colaboração em um mundo entre crentes de diferentes confissões e não crentes.

Para o bispo espanhol, a má compreensão da afirmação “somos irmãos porque no fundo temos um Pai comum” está proporcionando um relativismo que leva a afirmar que “todas as religiões são basicamente iguais”. Consequentemente, “a proclamação explícita do Evangelho é desnecessária”.

Dom Munilla destacou que devem ser distinguidos três níveis de significado na expressão "Deus é pai de todos".

Em primeiro lugar, refere-se à criação “que é o nível em que fala Fratelli tutti”; um segundo, de caráter providencial, que alude ao fato de que Deus se manifesta “a favor de todos, não só dos batizados”; e um terceiro, ligado à Redenção que está no plano sobrenatural.

Dom Munilla esclareceu que a Redenção “deve ser livremente acolhida para poder participar da filiação divina de Jesus Cristo. Isso não é recebido pela criação. Todo mundo, não”.

“Se isso não for bem compreendido, então se diz: ‘Oh, Fratelli tutti! Deus é pai de todos e todos somos irmãos. Então pare de pregar, de proclamar o Evangelho”, disse.

O bispo também afirmou que “é muito importante superar essa visão igualitária. Não, todas as religiões não são iguais. Jesus Cristo é o revelador do Pai. E a pluralidade estará bem na medida em que for o ponto de partida para nos conduzir à plena unidade em Deus”.

“Jesus Cristo não foi um moderador de pluralismos, mas um mestre da verdade”, disse o bispo.

Como medir o sucesso de uma JMJ

Por fim, dom Munilla disse que “o chamado à conversão é próprio do Evangelho” e quem recebe este anúncio e o aceita “torna-se um alto-falante”.

Por isso, e fazendo uma ligação com a origem da polêmica sobre a qual procurou esclarecer conceitos, o bispo destacou que “uma Jornada Mundial da Juventude é avaliada principalmente por dois parâmetros: o número de conversões e as vocações que surgem”.

“Queremos tornar Cristo conhecido no mundo. Por isso se fizeram as Jornadas Mundiais da Juventude, para que Cristo seja conhecido e Cristo seja amado”, disse.

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