28 de janeiro de 2026 Doar
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Grupo de leigos que acompanha vítimas de abuso em Portugal critica ‘visão sacralizada do padre’

Grupo VITA apresenta relatório de atividades | Agência ECCLESIA/PR

A “visão sacralizada” da “figura sacerdotal” é um dos desafios para a prevenção e denúncia de casos de abusos de menores e vulneráveis em Portugal, segundo o Grupo VITA, que acompanha vítimas de abusos na Igreja local.

“A percepção dos sacerdotes como figuras divinas ou moralmente superiores reforça a desigualdade de poder e dificulta a denúncia de comportamentos abusivos”, diz a entidade em seu Relatório de Atividades IV, apresentado ontem (27).

Para o VITA, “esta visão sacralizada pode levar fiéis – especialmente crianças e adultos vulneráveis – a acreditar que o sacerdote ‘não pode falhar’, criando um ambiente onde o questionamento é visto como desrespeito”. Consequentemente, diz o relatório, “vítimas e testemunhas podem sentir medo, culpa ou vergonha de denunciar, receando represálias sociais ou espirituais”.

“Esta idealização contribui para a perpetuação do silencia e para a invisibilidade da violência”, acrescenta o documento.

O relatório cita também como um desafio a “assimetria de poder”, isto é, “desequilíbrios significativos entre crianças e adultos, bem como nas estruturas eclesiais, onde a autoridade espiritual e hierárquica é fortemente valorizada”.

“Estes desequilíbrios criam contextos em que a obediência é incentivada e a contestação é desencorajada, aumentando a probabilidade de abusos de poder”, diz, ressaltando que esta assimetria está ligada ao “abuso de consciência, espiritual e/ou sexual”, porque a autoridade pode ser “instrumentalizada para manipular, silenciar ou controlar”.

O Grupo VITA recomenda a “reconfiguração da figura sacerdotal” e considera que “a desconstrução da percepção do sacerdote como figura intocável ou divinizada é essencial para prevenir abusos e promover relações mais saudáveis”.

“Ações de sensibilização dirigidas às comunidades podem ajudar a reforçar a ideia de que o sacerdote é um agente pastoral com responsabilidades humanas, éticas e legais, e não uma autoridade absoluta”, diz o relatório, ressaltando que essa reconfiguração “favorece uma cultura de proximidade, responsabilidade e igualdade, onde o questionamento é legítimo e a prestação de contas é vista como parte integrante da missão pastoral”.

Para a entidade, é preciso reduzir as “assimetrias de poder”, o que “exige a implementação de práticas que promovam relações mais horizontais entre crianças e adultos, bem como entre diferentes níveis da hierarquia eclesial”.

Outros desafios e propostas

O Grupo VITA elencou em seu relatório uma lista com outros desafios para a prevenção e denúncia de casos de abusos de menores e vulneráveis. Um desses desafios, sendo a entidade, é a “descredibilização das vítimas e sobreviventes”, o que se manifesta por “dúvidas, minimização ou culpabilização, criando um ambiente hostil à revelação”.

O relatório também fala da “ausência de estruturas uniformizadas” nas dioceses e congregações, o que “fragiliza a confiança das vítimas e sobreviventes e dificulta a coordenação nacional”; “falta de prestação de contas”; persistência de “constrangimentos na articulação com algumas Comissões Diocesanas, que continuam a atuar de forma pouco integrada e com níveis distintos de maturidade organizacional”; demora nas respostas “às vítimas e sobreviventes” e “ao Grupo VITA”; a prevalência de “uma abordagem que enfatiza a condição de ‘vítima’” e não valoriza o “papel ativo dos sobreviventes no seu próprio processo de recuperação”; o fato de o conceição de “adulto vulnerável” ser “subjetivo e pouco uniformizado”; a necessidade de passar de “uma abordagem reativa – centrada na resposta após a ocorrência – para uma cultura de prevenção primária”; o fato de se confundir “prevenção da violência sexual com debates sobre sexualidade ou ideologia de gênero”.

O Grupo VITA ressalta ainda que “a percepção de que os abusos são um problema ‘resolvido’ ou circunscrito a épocas anteriores cria uma falsa sensação de segurança”.

Segundo o relatório, “combater” essa narrativa “é essencial para manter o compromisso com a proteção”. “É necessário sublinhar que o risco continua a existir e que a vigilância, a formação e o acompanhamento devem ser contínuos. O reconhecimento da atualidade do problema reforça a urgência de agir e de consolidar uma cultura de proteção permanente”, diz.

Dados sobre abusos na Igreja em Portugal

O Grupo VITA foi criado em 22 de maio de 2023 pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), depois da divulgação, em fevereiro daquele mesmo ano, do relatório final da Comissão Independente (CI) para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica em Portugal. Segundo o documento, de 1950 a 2022 há pelo menos 4.815 vítimas no país.

Em seu site, o VITA diz ser “m grupo isento, autónomo e independente, que visa acolher, escutar, acompanhar e prevenir as situações de violência sexual de crianças e adultos vulneráveis no contexto da Igreja Católica em Portugal, numa lógica de intervenção sistêmica”.

O relatório apresentado ontem apresenta um balanço do trabalho do grupo. Segundo os dados, “desde o início de suas funções”, o VITA recebeu 850 chamadas telefônicas e foi contatado por 154 vítimas e sobreviventes e “um agressor do sexo masculino”.

O grupo revelou que, das “86 vítimas e sobreviventes escutadas” pelo VITA, a maioria é do sexo masculino e solteira, com uma média de 55 anos de idade. A maior parte reside na área metropolitana de Lisboa ou na região Norte do país. “Trata-se, em geral, de uma população escolarizada, metade encontra-se profissionalmente ativa e cerca de 20% está reformada”, diz o relatório.

Os casos de abusos aconteceram entre 1955 e 2023, sendo a maior incidência nas décadas de 1960, 1970 e 1980. “Cerca de 30% das vítimas e sobreviventes revelaram os abusos apenas agora e, em aproximadamente 20% dos casos, a primeira revelação foi feita diretamente ao Grupo VITA”.

Os abusos, segundo o relatório, duraram de 1 a 10 anos “para cerca de 45% das vítimas e sobreviventes, sendo que metade destes casos se concentrou no intervalo de 1 a 2 anos”. E a idade mais frequente da primeira ocorrência do abuso é entre 10 e 11 anos.

Segundo o relatório, “a quase totalidade das vítimas e sobreviventes identifica o agressor como sendo do sexo masculino e associado a contextos da Igreja”. O documento diz ainda que, na maioria dos casos, o agressor “é sacerdote (91,8%).

Entre as estratégias usadas pelo agressor, o relatório cita, “sobretudo, abuso de autoridade, aproveitamento da relação de confiança e familiaridade, bem como engano, confusão e surpresa”. Entre os motivos para não ter revelado o fato na época em que aconteceu, estão “sentimentos de vergonha, medo, culpa e receio de não serem acreditados”.

Pedidos de compensação financeira

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Em abril de 2024, a CEP e a Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP) aprovaram a atribuição de compensação financeira a vítimas de abusos sexuais contra crianças e vulneráveis na Igreja em Portugal. A apresentação formal dos pedidos teve início em 1º de junho e terminou em 31 de março de 2025. As conferências solicitaram ao Grupo VITA colaboração neste processo.

Segundo o relatório apresentado ontem, foram recebidos, até o momento, 95 pedidos de compensação financeira por parte de vítimas de abusos no contexto da Igreja. Desses, 11 “foram arquivados liminarmente”.

Foram entrevistadas 75 pessoas enove pedidos mais recente “estão em fase de agendamento”. “Até ao momento, 91% dos pareceres foram já enviados à comissão responsável pela fixação das compensações”, diz o relatório.

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