Jan 12, 2026 / 16:17 pm
A cidade de Cancún, no México, vai sediar o primeiro Congresso Cristero, organizado por ocasião dos 100 anos do início da Cristiada no México, período em que fiéis pegaram em armas contra a repressão religiosa perpetrada pelo governo federal mexicano.
O congresso será realizado na igreja de San José Luís Sánchez del Río, em Cancún, e terá a presença do padre mexicano Juan Razo García; de Uriel Esqueda, líder da campanha da plataforma Actívate, que defende a liberdade religiosa no México; e o padre Javier Olivera Ravasi, doutor em filosofia e história e apologista do projeto Que No Te la Cuenten (QNTLC).
O evento tem o apoio e a participação do administrador apostólico de Cancún-Chetumal, Pedro Pablo Elizondo Cárdenas.
O bispo Elizondo Cárdenas disse à ACI Prensa, agência em espanhol do grupo EWTN, na última quinta-feira (8), que os Cristeros tinham um desejo profundamente enraizado de defender sua fé. Para eles, disse Cárdenas, “a fé católica faz parte do seu ser, da sua vida, da sua essência, da sua tradição, da sua família”.
“Eles não podem ser concebidos sem essa fé”, disse ele, dizendo que “era algo vital” e “mais do que algo teórico”.
Perseguição religiosa no México
Depois de décadas de pressão contra a Igreja, a Constituição de 1917 no México estabeleceu um dos precedentes mais graves de perseguição religiosa no país, desconsiderando os direitos e o estatuto jurídico da Igreja e estabelecendo restrições significativas ao culto.
Menos de uma década depois, as restrições do governo federal mexicano tornaram-se mais drásticas e, em 31 de julho de 1926, entrou em vigor a lei sobre crimes e delitos em matéria de culto religioso e disciplina externa, promulgada pelo então presidente do México, Plutarco Elías Calles, sendo por isso popularmente conhecida como lei Calles.
Quando a lei Calles entrou em vigor, os bispos mexicanos decidiram suspender os cultos públicos naquele mesmo dia. Muitos fiéis mexicanos pegaram em armas espontaneamente em várias partes do país contra o governo federal e em defesa de sua fé, no que ficou conhecido como Guerra Cristera.
Formalmente, a Guerra Cristera terminou em 21 de junho de 1929, embora a perseguição e os assassinatos de cristeros tenham continuado por mais alguns anos.
Segundo a Conferência Episcopal Mexicana (CEM), “cerca de 200 mil mártires deram a vida defendendo sua fé: crianças, jovens, idosos, camponeses, operários, profissionais, padres, religiosos e leigos”.
Entre os mártires mais conhecidos da perseguição religiosa no México estão são José Sánchez del Río, assassinado aos 14 anos de idade; o beato padre Miguel Agustín Pro e o beato Anacleto González Flores, padroeiro dos leigos mexicanos.
Foi só em 1992, com uma reforma constitucional e a entrada em vigor da Lei das Associações Religiosas e do Culto Público, que as autoridades mexicanas reconheceram a personalidade jurídica da Igreja.
O grito de “Viva Cristo Rei!”
Pedro Pablo Elizondo Cárdenas disse que o agora famoso grito de “Viva Cristo Rei!”, que identifica os cristeros, surgiu como um “teste” feito por “soldados federais quando prendiam alguém por professar a fé”.
Soldados interrogavam o fiel, perguntando "Quem vive?", disse o bispo, para descobrir "se ele [o fiel] havia pegado em armas ou não, se estava defendendo a fé ou se não tinha nada que estar ali".
A pessoa interrogada, disse Cárdenas, tinha duas opções: “Podia dizer: Viva o exército federal! ou Viva Cristo Rei!. Era como um dilema que o próprio exército lhe apresentava para que confessasse”.
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“Então, a princípio, era uma confissão de fé, e esse grito se tornou um slogan, um lema, um grito de guerra”, disse o bispo. “Viva Cristo Rei era como eles se encorajavam mutuamente. Viva Cristo Rei e viva a Virgem de Guadalupe!”.
Cárdenas disse que, embora entre bispos e padres da época "houvesse muita discussão teológica" sobre se era possível guerrear e defender a fé com armas, "outros, como as pessoas mais simples e humildes, não tiveram outra escolha senão pegar em armas em defesa da sua fé".
“O povo, a grande maioria ou muitos camponeses — que foram os que lutaram com mais afinco na batalha de guerrilha nos Estados de Jalisco, Guanajuato, Michoacán, Colima e outros estados centrais —, não tinham muita teologia, nem faziam muitas especulações, nem muitas distinções entre as coisas, mas era algo, digamos, do coração e do sentimento religioso (...), do amor pela sua fé”.
Essa fé, disse o bispo, “incorporava muitos valores, valores evangélicos, valores familiares, valores matrimoniais, valores de vida, valores de todas as virtudes evangélicas (...) que para eles valiam a pena defender com suas próprias vidas”.
O perigo de um “Estado anticlerical e anticatólico”
Elizondo Cárdenas disse que, depois do conflito no México, “foram estabelecidas as leis e os critérios do Estado laico, a separação entre Igreja e Estado”, lamentando que “na prática, historicamente, esse Estado laico e não-denominacional tenha sido mal interpretado como se fosse, na verdade, um Estado anticlerical e anticatólico”.
Assim, ele disse que nem nas escolas nem nos ambientes estatais "o nome de Deus pode ser mencionado", tentando reduzir "essa prática da fé católica ao templo e à sacristia".
Outra área afetada, disse o bispo, foi "a liberdade de expressão, já que bispos e padres, até mesmo leigos, não têm a faculdade ou permissão (...) para poder expressar sua fé e falar sobre sua fé na mídia".
Cárdenas disse que no México “houve tentativas de aprovar leis de censura para silenciar a Igreja em sua expressão”.
Um “laicismo saudável”, disse ele, consiste em “saber respeitar as crenças, a liberdade de crer ou não crer”, valorizando o “direito ao pensamento, à consciência, à religião, ao culto”, inclusive as celebrações públicas.
“Sim, existe tolerância, e sim, existe abertura e liberdade”, disse o bispo, falando sobre peregrinações em massa como a que leva cerca de 13 milhões de pessoas à Cidade do México em dezembro, mas disse que há quem queira “restringir ainda mais essa liberdade”, com “preconceito ou medo de que a religião ganhe mais força pública e se torne inimiga de algum partido político”.
O poder da Igreja, disse o bispo mexicano, “não é terreno, não é político, não tem outros interesses de natureza temporal ou econômica (...) mas é espiritual e moral”.
“É isso que algumas pessoas não entendem muito bem, e veem como um partido político de oposição”, disse ele.
Falar sobre a Guerra Cristera de modo justo
Cem anos depois do início da Guerra Cristera, para Elizondo Cárdenas é importante "lembrar com justiça, porque o governo, a cultura e a sociedade mexicanas apagaram essa passagem da revolução Cristera da história".
Atualmente, disse ele, é necessário "estudar, escrever, fazer conferências, fazer filmes etc, porque foi um evento histórico".
Para obter mais informações e se inscrever no primeiro Congresso Cristero em Cancún, é possível escrever via WhatsApp neste link ou visitar as páginas do evento nas redes sociais.
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