Jan 7, 2026 / 16:26 pm
Questões importantes estão na agenda do primeiro consistório extraordinário do pontificado do papa Leão XIV, que ocorre entre hoje (7) e amanhã (8).
Mas o tempo alocado para discuti-los será curto e não está claro o quanto será alcançado na reunião, que vai durar só um dia e meio e será estruturada em torno de grupos de trabalho.
A reunião a portas fechadas se concentrará em quatro temas interligados: o papel do Colégio de Cardeais no governo de Leão XIV, o futuro da sinodalidade, a reforma da Cúria e liturgia.
Não está claro quantos membros do colégio sagrado estarão presentes, mas o arcebispo-emérito de Hong Kong, cardeal Joseph Zen, estará entre os participantes , tendo obtido permissão de autoridades de Hong Kong. O papa Leão XIV recebeu o cardeal em audiência privada hoje de manhã.
A Santa Sé falou sobre o encontro como uma reunião estritamente consultiva, a portas fechadas, focada na oração, reflexão e troca aberta de ideias para apoiar o papa em sua “alta e exigente responsabilidade” de governar a Igreja universal.
O consistório foi concebido como um momento de “discernimento comum” e fraternidade entre o bispo de Roma e os cardeais, explicitamente para ajudar a moldar a fase inicial do pontificado de Leão XIV e suas prioridades depois do Jubileu da Esperança, que terminou na festa da Epifania do Senhor.
A discussão sobre o papel interno do Colégio de Cardeais na governança da Igreja vai girar em torno da frequência e da maneira como os cardeais serão reunidos e consultados, algo explicitamente destacado nas discussões pré-conclave do ano passado.
Os cardeais, cuja principal função é aconselhar o papa, e elegê-lo, estavam preocupados com a falta de consulta no pontificado do papa Francisco, que se mobilizou quase exclusivamente diante de seu chamado "gabinete pessoal", conhecido como o Conselho de Cardeais C9, mas consultava poucos outros cardeais.
O cardeal Timothy Radcliffe disse ontem (6) ao jornal britânico The Daily Telegraph que, sobre esses consistórios extraordinários, “muitos cardeais acreditam que deveria haver pelo menos um por ano”. Ele disse ter esperança de que o encontro desta semana traga de volta à Igreja os que se afastaram devido à abordagem do papa Francisco, que morreu em abril do ano passado. É vital, disse ele ao jornal, que os cardeais estejam felizes.
“Uma Igreja infeliz não pode pregar o Evangelho”, disse ele.
Apesar das preocupações com sua estrutura, o consistório extraordinário promete, portanto, maior consulta e um estilo de governança mais colegiado. Pode também servir para esclarecer o tipo de aconselhamento que Leão XIV espera de seus cardeais.
Como parte dessa reflexão sobre a autocompreensão da Igreja, os cardeais também foram exortados a reler a Evangelii gaudium, exortação apostólica publicada pelo papa Francisco em 2013, sendo um dos pontos de discussão declarados um “ímpeto renovado e alegre na proclamação do Evangelho”.
Um segundo tema fundamental será a sinodalidade e como ela pode funcionar como um instrumento eficaz de cooperação com o Romano Pontífice. Os cardeais examinarão como continuar, modificar ou “reequilibrar” os processos sinodais enfatizados sob o pontificado de Francisco, especialmente em relação às conferências episcopais e aos escritórios centrais da Santa Sé.
Um terceiro tema central será a Praedicate evangelium, constituição apostólica publicada pelo papa Francisco em 2022 que reformou a Cúria Romana. Os cardeais deverão dedicar especial atenção à relação entre as Igrejas universal e particular e ao funcionamento prático dos dicastérios da Cúria sob o papa Leão XIV.
Espera-se, portanto, que a reunião explore se são necessários ajustes, esclarecimentos ou novas normas de implementação, à medida que Leão XIV passa de "herdar" as estruturas da era Francisco para moldá-las ativamente à luz de sua própria visão de governança.
Por fim, há relatos que sugerem que a questão mais ampla da liturgia será um quarto tema distinto, com alguns veículos de comunicação italianos falando explicitamente de uma busca pela “paz litúrgica”, especialmente depois da turbulência que se seguiu ao motu proprio Traditionis custodes, publicado pelo papa Francisco em 2021, que restringiu severamente o rito romano tradicional anterior à reforma do Concílio Vaticano II.
Ao que parece, o papa deseja uma discussão teológica, histórica e pastoral da liturgia tendo a constituição apostólica Sacrosanctum concilium, do Vaticano II, como referência, a fim de superar a polarização em torno da reforma pós-conciliar e do rito litúrgico mais antigo, e articular um caminho mais unificado para o futuro. Os cardeais devem, portanto, discutir a liturgia por meio de uma “reflexão teológica, histórica e pastoral aprofundada, a fim de preservar a tradição sólida e, ao mesmo tempo, permanecer abertos ao progresso legítimo”.
Programação oficial
A programação oficial completa do consistório extraordinário, publicada ontem (6) pelo Relatório do Colégio de Cardeais, será estruturada nos moldes de um sínodo recente — com os cardeais divididos em grupos de trabalho que, depois apresentarão relatórios.
Essa estrutura se distancia dos formatos tradicionais de consistório e lembra o último consistório extraordinário realizado em 2022. Essa estrutura sinodal visa orientar as discussões sobre temas-chave, embora alguns cardeais tenham criticado o formato em 2022, dizendo que ele não proporcionou um debate aberto e coletivo.
A mesma possibilidade existe para esta reunião, com só dois segmentos de 45 minutos planejados para intervenções abertas, onde os cardeais podem participar de discussões livres diante de todo o colégio.
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O consistório teve com o registro dos membros do Colégio de Cardeais no átrio da Aula Paulo VI hoje às 12h30, horário local, seguido de uma saudação do decano do Colégio de Cardeais, cardeal Giovanni Battista Re. O papa fará seu discurso de abertura, depois do qual haverá uma apresentação sobre como o trabalho em grupo será feito.
A primeira sessão tem duração de cerca de três horas e consiste em grupos de trabalho, relatórios desses grupos e, para concluir, um discurso do papa Leão XIV às 19h.
Depois da missa das 7h30 amanhã, no altar da Cátedra, na basílica de São Pedro, o trabalho em grupo recomeça às 9h45, depois da oração comunitária e de uma breve apresentação. Haverá um intervalo às 11h, seguido pelos relatórios dos grupos, e, em seguida, a primeira discussão aberta de 45 minutos ocorre depois da oração do Ângelus, ao meio-dia.
Depois do almoço com Leão XIV no átrio da Aula Paulo VI, terá início a terceira e última sessão. O trabalho em grupo começará depois das orações, às 15h30, e se estenderá até às 17h, seguido da apresentação dos relatórios dos grupos. A última discussão aberta ocorrerá das 18h às 18h45. O consistório extraordinário será encerrado com um discurso do papa e o cântico Te Deum. A Santa Sé organizou uma entrevista coletiva amanhã ao fim do consistório.
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