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"Por que o Santo Padre viaja tanto?"

Por: Rafael Navarro-Valls
Catedrático da Universidade de Navarra
Secretário geral da Academia Espanhola
de Jurisprudência e Legislação
O Mundo, 6.VI.03
Cortesia: http://www.interrogantes.net

Com a viagem à Croácia que começou ontem e que termina no domingo, João Paulo II realiza sua viagem número 100 fora da Itália. Nessas viagens visitou 145 países. Como há alguns nos quais esteve várias vezes -por exemplo a Espanha, em cinco ocasiões-, na realidade, as visitas a países é de 210. O número total de quilômetros percorridos é de 1.157.721, sem contar seus 142 deslocamentos dentro da Itália.

Não houve na História da Humanidade um líder público que tenha viajado tanto. Tem razão George F. Will, quando diz que «neste princípio de século secularizado, o homem mais popular (e mais viajante) do mundo fala em um altar». Dado que o número de católicos superou já a cifra de 1 bilhão de pessoas, poderia se pensar que o Papa itinerante responde, com seu tenaz viajar, a este 17,4% da população mundial que olhe para Roma procurando nele uma orientação para seus problemas espirituais e morais.

Mas a verdade é que a geografia das peregrinações papais nem sempre coincide com os países de maioria católica. Muitas vezes parece que seu andar pelos caminhos do mundo escrutina mais ao futuro de uma longínqua evangelização que à presente. Um exemplo é a Ásia. É este um continente especialmente difícil para o cristianismo, a diferença da África, onde a ação missionária só encontrou religiões tribais, não organizadas. A razão é que na Ásia deveu enfrentar-se com grandes religiões, algumas delas anteriores ao cristianismo e que com freqüência se identificam com o poder político e com a cultura nacional: hinduísmo, budismo, confucionismo, sintoísmo. Em sua viagem número 63 às Filipinas, João Paulo II olhava o continente asiático com perspectiva de séculos ao dizer «que o terceiro milênio da era cristã devia ser o da evangelização da Ásia, assim como o primeiro foi da Europa, e o segundo da América e África». Talvez isto explique que no fim de agosto inicie outra viagem a Ásia, com a Mongólia como destino, que tem uma ínfima quantidade de católicos; ou que recentemente tenha visitado o Azerbaijão (que tem apenas 200 católicos).

Por outra parte, o planejamento das viagens de João Paulo II não se realiza com a prudência com a que os líderes políticos planejam as suas viagens. Notemos no exemplo do presidente dos EUA que mais vezes viajou à África. A excursão de 12 dias de Clinton por seis países da África sub-saariana foi, em seu momento, e desde que Carter estivesse ali em 1978, a primeira que um presidente americano fazia ao continente mais necessitado do Terceiro Mundo. Três vezes o tempo que todos seus antecessores juntos dedicaram ao continente mais necessitado em matéria de direitos humanos. Em troca, desde sua eleição nesse mesmo ano, João Paulo II viajou treze vezes à África, visitando 40 de seus 52 países.

Uma manhã de janeiro de 1980, um menino de 11 anos perguntou a João Paulo II em uma paróquia romana: «Santo Padre, por que está sempre viajando pelo mundo?» Esta inocente pergunta, na realidade, aponta a algumas perplexidades que nos adultos expõe este Papa peregrino: por que esta viagem aqui e agora?; valia a pena percorrer tantos quilômetros para estar aqui só um dia?; não é Roma melhor lugar para um Papa doente e ancião, que um deserto africano, um planalto americano ou uma multidão entusiasmada de jovens em um aeroporto militar? E, sobretudo, que rastro deixará esta visita depois da ida do Papa? A resposta de João Paulo II ao menino romano foi rápida: «O Papa viaja tanto, porque nem todo mundo está aqui (em Roma)». Quer dizer, como apostila um estreito colaborador do Papa: «Nem todos os problemas do mundo estão configurados pelos parâmetros culturais, intelectuais e morais que aqui existem». Daí que «se não todo mundo estiver aqui» -parece dar a entender João Paulo II- «farei o possível para que o Papa esteja perto de todo o mundo, quer dizer, viajarei para estar com cada um». Isto explica a sensação de proximidade que os assistentes aos encontros com o Papa costumam ter, além da lonjura física ou a fugacidade de sua passagem no veículo papal. Se «a causa de Deus for a causa do homem» -como está acostumado a repetir-, não é estranho que, também em suas viagens, seja o diálogo a grande arma de João Paulo II.

Seu otimismo antropológico explica que nos grandes conflitos da Humanidade insista na negociação e o diálogo. O exemplo das duas guerras do Golfo e sua oposição aos conflitos bélicos demonstra que o Papa é um homem ao que nada parece deter em sua obstinação de cumprir até o final sua missão, e de ajudar aos conflitos pelo diálogo e a negociação. Como diz o "Le Monde" «nenhuma consideração, nem médica nem política, parece reter um Papa mais disposto do que nunca a estar ali onde sua presença é desejada».

Mas o que fica de cada viaje do Papa? Esta mesma pergunta fiz a um próximo colaborador do Santo Padre faz alguns dias. Seu ponto de vista é que, por um lado, está o que João Paulo II faz e diz. Por outro, o que com sua presença acontece em cada lugar, quer dizer, o que meu interlocutor chamava «o programa exclusivo de Deus». Um exemplo. Em Kisangani, junto à beira do rio Congo, em uma noite de um mormaço e ao final de uma jornada exaustiva, essa pessoa perguntou a um jovem missionário a quem a malária, o trabalho e as dificuldades materiais conferiam a aparência de um velho: « Valia a pena que o Papa viesse aqui por algumas horas? O que ficará quando voltar a Roma?». «Não posso fazer um balanço -respondeu o interlocutor- de quanto Deus queira fazer aqui. Mas embora só ficasse o bem que tem feito a minha alma estar com o Papa, ficaria justificado sua viagem até Kisangani».

Há outras coisas que tampouco se vêem inicialmente. Um tribunal do Missouri tinha condenado a morte Darrell Mijasse. A execução da sentença se atrasou aos 10 de fevereiro de 1999, para evitar a coincidência com a visita do Papa a São Luis. O Papa não tocou publicamente neste assunto. Entretanto, quando João Paulo II saudou o governador do Estado, que não é católico, sussurrou-lhe que tivesse clemência. Quando o Papa estava de volta a Roma, o governador comunicou à imprensa o indulto.

Enquanto há 30 anos ainda se pensava poder prognosticar o fim da religião e o início de uma era totalmente profana, hoje se comprova em todas partes um novo impulso religioso, uma abertura para a religião. As viagens de João Paulo II são causa ou efeito deste renascer religioso? Penso que ambas as coisas de uma vez. De outro modo não se explica que tenha sido o único Papa que por duas vezes se apresentou à comunidade internacional na Assembléia Geral das Nações Unidas. O primeiro a ser recebido na Casa Branca, no Parlamento Europeu, na Catedral de Canterbury ou na UNESCO. Acaba de receber o doutorado Honoris Causa pela maior Universidade da Europa. Visitou a Sinagoga de Roma e a Mesquita de Damasco. esteve em cárceres, leprosários e instituições para doentes incuráveis de AIDS. Desde o monte Nebo, o Papa pôde contemplar a terra prometida «com os olhos de Moisés». Por duas vezes foi acolhido no estádio do Maracanã do Rio, em Santiago Bernabéu ou em Nou Camp. E sempre sua presença e suas palavras moveram multidões atentas. Pense-se que as maiores concentrações de jovens que se produziram no Oriente e Ocidente tiveram como protagonista o Papa: Roma (agosto 2000), com 2 milhões e meio de jovens, e Manila, (janeiro 1995) com quatro milhões. Pelo resto, é notável sua capacidade de estar sem ferir. É sabido, por exemplo, que ao descer do avião está acostumado a beijar a terra em que chega. Em 1989, com ocasião da viagem a Dili (Timor Leste), colônia portuguesa ocupada pela Indonésia, ficou um dilema do que seus acompanhantes não sabiam como sair. Se beijasse a terra era reconhecer a independência, se não a beijasse era admitir a invasão, com forte desilusão para a população local. Beijou um crucifixo estendido sobre a terra.

Quando lhe insistem para que diminua o ritmo de trabalho e de viagem e que descanse mais, está acostumado a responder com bom humor: «Já descansarei na Vida Eterna». É consciente de que o tempo que lhe resta é pouco. Desde aí seu desejo de aproveitá-lo ao máximo. Faz alguns dias dizia: «Cada vez me dou mais conta de que se aproxima o momento em que terei que me apresentar diante de Deus». E acrescenta: «O dom da vida é muito precioso para que dele nos cansemos». Talvez por isso ultimamente está acostumado a recordar a lenda que, quando era menino, via em um relógio de sol da velha rua Koscielna em que vivia: «O tempo se vai, a eternidade espera».Eis aqui outra possível explicação de porquê o Santo Padre viaja tanto.


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