28 de janeiro de 2026 Doar
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Assessor da Comissão da CNBB diz que baixos nascimentos no Brasil ‘chamam à reflexão e à ação’

Shutterstock/Imagem ilustrativa | Studio Romantic

O Brasil registrou em 2024 menos nascimentos pelo sexto ano consecutivo e maior número de mortes, segundo a última pesquisa Estatísticas do Registro Civil do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Esses indicadores nos chamam à reflexão e à ação”, disse o assessor da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), padre Rodolfo Chagas Pinho, à ACI Digital. “A vida humana é sempre um bem e a família é seu ambiente natural de cuidado e acolhida”.

Segundo o IBGE, o país teve 2,38 milhões de nascimentos ocorridos em 2024, uma queda de 5,8% em relação a 2023, que eram de 2,52 milhões. Já o número de mortes teve um aumento de 4,6% em relação a 2023, que eram de 1,3 milhões. Esta quantidade de mortes só fica apenas 0,6% abaixo de 2022, período em que o país sofria com a pandemia de covid-19.

A baixa natalidade ocorreu em todas as grandes regiões do país, segundo a pesquisa. No Sudeste foi -6,3%, no Norte -6,2%, no Sul -6,0%, no Nordeste -5,3% e no Centro-Oeste -4,7%. O Estado com maior queda de nascimentos foi o Acre com -8,7%, seguido de Rondônia com -8,6% e Piauí com -8,2%. O Estado com a menor redução de nascimento foi Paraíba com -1,9%, seguido de Alagoas com -2,4% e Goiás com -3,0%.

Em relação a quantidade de mortes no país, a estatística mostrou que em 2024, 90,9% das mortes foram por causas naturais; 6,9%, por causas externas e 2,2% não foi possível obter o tipo de morte. O crescimento no número de mortes foi verificado em todas as regiões do país. O Sul teve 7,4%; o Centro-Oeste 6,2%; o Sudeste 4,0% e o Nordeste 3,8%.  O Estado com maior mortes foi o Distrito Federal com 11,6%. Depois o Rio Grande do Sul com 7,6%; Santa Catarina e Goiás ambos com 7,5% e Paraná com 7,0%. O único Estado com queda das mortes foi Roraima com -5,7%.

Segundo padre Rodolfo Chagas, “a queda continuada da natalidade e o aumento da mortalidade exigem resposta multisetorial”. Para o padre, são “medidas públicas que apoiem a maternidade e paternidade acesso à saúde materno-infantil, creches, licenças compatíveis, políticas de emprego decente, iniciativas que reduzam a pobreza e a insegurança, e uma atenção pastoral renovada às famílias”.

“Não é inesperado, nem necessariamente incoerente que muitas pessoas” católicas, “que se declaram pró-vida não estejam, na prática, “abertas à vida” no sentido demográfico”, disse padre Rodolfo Chagas. “A lacuna costuma ser explicada por fatores materiais, culturais e pela forma como se articula a linguagem pública”.

“Para a Comissão, a resposta mais eficaz não é apenas reafirmar o princípio, mas combinar defesa moral da vida com ações concretas que reduzam os obstáculos para que a escolha de gerar filhos seja também uma escolha possível e digna”, disse o assessor. “Em muitos contextos “ser pró-vida” refere-se sobretudo à defesa legal e moral da vida do nascituro. Isso é um posicionamento sobre um tema concreto — não implica automaticamente disposição pessoal a ter mais filhos” porque “alguém pode apoiar a vida enquanto princípio e, ao mesmo tempo, considerar prudente ou responsável limitar o tamanho da própria família dadas suas circunstâncias”.

Empecilhos estruturais, culturais e pessoais

“A Comissão Vida e Família da CNBB entende que existem vários empecilhos estruturais, culturais e pessoais que hoje dificultam que as famílias se abram mais à vida”, disse padre Rodolfo Chagas.

“Precariedade do emprego, informalidade e baixos salários reduzem a confiança dos casais na possibilidade de sustentar filhos; alto custo de moradia, alimentação, educação e saúde; deficiências em oferta de creches públicas e pré-escolas acessíveis; licença parental insuficiente e pouco incentivada para partilha entre mãe e pai; jornada de trabalho extensa ou sem flexibilidade; projetos de vida que priorizam estudos, carreira, mobilidade geográfica e consumo; percepção de insegurança pública, violência urbana e imprevisibilidade social que inibem decisões familiares; preocupações com futuro ambiental, mudanças climáticas e sustentabilidade como elementos que influenciam decisões reprodutivas; saúde mental (ansiedade, depressão) que afeta planejamento familiar; necessidade de articular defesa da vida com justiça social, já que, proteger a vida também é promover condições materiais e sociais para vivê-la bem; vulnerabilidade especial de famílias pobres, mães solo, adolescentes e trabalhadores informais”.

Declínio da taxa de fecundidade

Os dados do Censo Demográfico de 2022 sobre Fecundidade no Brasil divulgados pelo IBGE em 27 de junho, também revelaram que as brasileiras estão tendo menos filhos: 1,55 filho por mulher. Um número abaixo do chamado "nível de reposição" para manter a população estável ao longo das gerações, que é de 2,1 filhos por mulher. Entre as religiões, a menor Taxa de Fecundidade Total (TFT) foi a das mulheres Espíritas: 1,01%; a segunda menor é das mulheres da Umbanda e Candomblé: 1,25%; as mulheres de outras religiosidades: 1,39%, as sem religião: 1,47% e as católicas: 1,49%. O único grupo com maior TFT e acima da média foi o das mulheres Evangélicas: 1,74%.

Os resultados ainda mostraram que as mulheres estão cada vez mais adiando a maternidade ou não tendo filhos. Em 2010, a idade média de fecundidade era de 20 a 24 anos. Em 2022, essa idade passou para 25 a 29 anos. Em 2010, o percentual das brasileiras de 50 a 59 anos que não tiveram filhos eram de 11,8%. Em 2022 subiu para 16,1%.

Alto índice de infertilidade

“No quadro demográfico do Brasil, a infertilidade aparece como um entre vários fatores”, disse padre Rodolfo Chagas. Mas “os principais determinantes do declínio de nascimentos continuam sendo mudanças de comportamento reprodutivo, econômicas e socioculturais”.

“Ainda assim, a Comissão considera parte da situação e atua no preventivo para ajudar casais afetados e diminuir o impacto dessa condição, principalmente na opção da fecundidade da adoção”, disse.

A Igreja pode e deve estimular o desejo por filhos

“A Igreja pode e deve estimular o desejo por filhos articulando anúncio teológico com ações concretas, pois a vida é sempre um bem”, disse o assessor da Comissão da CNBB

Para ele, “a ação da Igreja deve combinar linguagem teológica e pastoral com medidas concretas que reduzam os obstáculos materiais e culturais à parentalidade”, promovendo à abertura da vida “sem coagir; estimular discernimento e apoio, não imposição”.

“Como Igreja sinodal é necessário ouvir e acompanhar casais, sobretudo jovens, grávidas, mães solos e casais inférteis. Preservar a doutrina sobre a vida e a família, ao mesmo tempo em que se oferece acolhimento prático. Pode-se criar grupos de apoio a casais grávidos e mentoria de pais: par de famílias experientes acompanha casais jovens nos primeiros anos”, disse o sacerdote.

Ele ainda destacou que a Comissão Vida e Família da CNBB propõe “integrar o tema da vocação familiar em catequese, preparação para o matrimônio. Sugerimos oferecer acolhimento especializado para casais inférteis: grupos de escuta, acompanhamento espiritual, encaminhamento a especialistas. Impulsionamos a implantar “mesas paroquiais” sobre parentalidade: encontros periódicos com psicólogos, assistentes sociais, médicos convidados. Incentivamos a desenvolver módulos sobre planejamento familiar responsável, fé e sexualidade para escolas católicas, pastorais da juventude e programas de formação de agentes. Pode-se ainda promover campanhas de prevenção de fatores de risco (tabagismo, obesidade, exposição ambiental) que afetam fertilidade e gestação”.

“Convidamos as dioceses, as paróquias e as instituições católicas a intensificarem ações de apoio às famílias, a colaborar com autoridades públicas na formulação de políticas que favoreçam a vida e a anunciar, com coragem, a beleza da vocação à família”, disse o padre Rodolfo Chagas ressaltando que a Comissão Vida e Família da CNBB “continuará acompanhando os desdobramentos e se colocando à disposição para diálogo com as esferas públicas e com a sociedade civil”.

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