Jan 16, 2026 / 16:29 pm
Nos meses de setembro e outubro, os monges beneditinos do mosteiro de San Salvador de Leyre, em Navarra, Espanha, vão à floresta colher zimbro, ingrediente essencial de um gim que preserva uma tradição milenar.
Ao pé da serra do Errando, fica o complexo monástico do século IX, berço do antigo reino de Pamplona e um dos mais antigos da Europa, reconhecido por sua importância histórica e patrimônio arquitetônico.
Dentro de suas grossas paredes vivem 17 monges espanhóis que levam uma vida contemplativa, marcada pelo silêncio e pela oração, fiéis ao famoso princípio ora et labora (reza e trabalha) dos beneditinos, que têm que se sustentar do próprio mosteiro e não viver de esmolas.
Entre eles está o frade Eduardo Oliver, de 30 anos, que descobriu sua vocação na Jornada Mundial da Juventude em Madri, em 2011. “Viver aqui era um desejo que acabou se tornando quase uma necessidade”, diz ele à ACI Prensa.
O dia deles começa às 5h30 da manhã e gira em torno da liturgia das Horas, oração comunitária, oração pessoal e trabalho. “Nós mesmos cuidamos do mosteiro, atendendo a todas as necessidades, desde costura e culinária até contabilidade e cuidados com os idosos”, diz ele.
Recuperando a receita medieval original
Os monges revitalizaram uma destilaria medieval no mosteiro, onde era produzido o tradicional Licor de San Benito. “Faz parte da nossa tradição e tínhamos que continuar a restaurá-la, com a ideia de retornar às nossas raízes e à nossa essência”, diz o frade Eduardo.
Por um ano e meio, eles se dedicaram a pesquisar as receitas medievais que os monges usavam para criar licores de ervas com propriedades curativas. “No confisco dos mosteiros, foram feitos inventários de tudo o que existia na época, e também estudamos todos os volumes onde se conservam os tratados de santa Hildegarda sobre plantas”, diz ele.
O jovem monge fala sobre o quanto gostou daquela fase inicial de pesquisa e documentação. "Gostei muito de descobrir como os monges antigos trabalhavam e, sobretudo, o modo como todos nós nos envolvemos", diz ele.
Além da pesquisa histórica, o projeto exigiu a instalação de um laboratório e o cumprimento das normas sanitárias, assim como o cuidado com o design e a rotulagem das embalagens.
“A família se constrói dia a dia, e este é um projeto que nos inclui a todos”, diz o frade Eduardo. “Os mais jovens se dedicam à maceração das ervas, e os mais velhos ficam responsáveis por etiquetar e armazenar os frascos. É também um trabalho muito gratificante para os noviços e postulantes: uma dinâmica em que todos têm seu lugar e todos se integram naturalmente, do mais velho ao mais novo”.
Os monges de Leyre conseguiram recuperar a receita original do licor e encontraram todas as ervas necessárias para a sua produção nas florestas que rodeavam o mosteiro. Isso, diz o frade, deve-se a um decreto emitido por Carlos Magno no século VIII, o Capitulare de Villis vel Curtis Imperii, espécie de guia administrativo para as propriedades do império que estipulava quais ervas deveriam ser plantadas nos mosteiros.
O novo projeto de um gim artesanal
Na floresta, os monges encontraram zimbro, a planta usada para fazer gim, e então decidiram embarcar num novo projeto e criar o seu próprio gim.
“O processo é muito artesanal e manual, não é nada industrializado e requer muita precisão, desde os gramas que você precisa usar de cada planta até o número de dias que devem macerar”.
Cada planta deve ser colhida numa época específica do ano. “O zimbro, por exemplo, é colhido no fim do verão, mas algumas raízes são colhidas antes da primavera”, diz o frade Eduardo. “Depois, elas precisam ser mergulhadas em álcool; algumas requerem até 30 dias de maceração, e a cada dia as viramos, observando como evoluem. É um processo longo, mas também muito tranquilo, contemplativo e silencioso, o que se encaixa bem ao nosso modo de vida”.
“Por meio de tentativas e erros, transmitimos as receitas de geração em geração, e cada um de nós contribuiu com a sua pequena parte”, diz o monge. “Mas não é algo que começamos do zero; em vez disso, recuperamos uma tradição, somos os guardiões de um legado”.
O lançamento da primeira garrafa do gim Monasterio de Leyre ocorreu em outubro passado, coincidindo com a visita do rei e da rainha da Espanha e da princesa Leonor ao mosteiro. "Eles sempre vêm a Leyre porque é o berço dos antigos reis de Navarra e, aproveitando a visita, oferecemos-lhes as primeiras garrafas como presente", diz o frade Eduardo.
Desde então, o gim e o licor Leyre são vendidos em algumas paróquias e também podem ser adquiridos na loja do mosteiro, que também oferece visitas guiadas e hospedagem. "São edições muito limitadas, produzidas em pequenos lotes, porque não se destinam à produção em massa; fazer isso significaria abrir mão justamente da nossa essência", diz ele.
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