Maria,
mãe animada pelo Espírito Santo
1. Como coroamento da reflexão
sobre o Espírito Santo, neste ano a Ele dedicado no caminho rumo ao grande
Jubileu, elevamos o olhar para Maria. O consentimento por ela expresso na Anunciação,
há dois mil anos, representa o ponto de partida da nova história
da humanidade. Com efeito, o Filho de Deus encarnou e começou a habitar
no meio de nós, quando Maria declarou ao anjo: «Eis a escrava do
Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38).
A cooperação
de Maria com o Espírito Santo, manifestada na Anunciação
e na Visitação, exprime-se numa atitude de constante docilidade
às inspirações do Paráclito. Consciente do mistério
do seu Filho divino, Maria deixava-se guiar pelo Espírito para se comportar
de modo adequado à sua missão materna. Como verdadeira mulher
de oração, a Virgem pedia ao Espírito Santo que completasse
a obra iniciada na concepção, para que o Menino crescesse «em
sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos homens» (ibid., 2,
52), Sob este aspecto, Maria apresenta-se como um modelo para os pais, mostrando
a necessidade de recorrer ao Espírito Santo para encontrar a via justa
na difícil tarefa educativa.
2. O episódio da
apresentação de Jesus no templo coincide com uma intervenção
importante do Espírito Santo. Maria e José tinham ido ao templo
para «apresentar» (cf. ibid., 2, 22), isto é, para oferecer
Jesus, segundo a lei mosaica que prescrevia o resgate dos primogénitos
e a purificação da mãe. Vivendo profundamente o sentido
deste rito, como expressão de sincera oferta, eles foram iluminados pelas
palavras de Simeão, pronunciadas sob o impulso especial do Espírito.
A narração
de Lucas sublinha de maneira expressa a influência do Espírito
Santo na vida deste ancião. Ele recebera do Espírito a garantia
de não morrer sem ter visto o Messias. E precisamente, «impelido
pelo Espírito, veio ao templo» (ibid., 2, 27), no momento em que
Maria e José levavam para lá o Menino. É, pois, o Espírito
Santo que suscita o encontro. É Ele que inspira ao velho Simeão
um cântico que celebra o futuro do Menino, que veio como «luz para
iluminar as nações» e «glória para o povo de
Israel» (ibid., 2, 32). Maria e José maravilham-se destas palavras
que ampliam a missão de Jesus a todos os povos.
É ainda o Espírito
que faz com que Simeão pronuncie uma profecia dolorosa: Jesus será
«sinal de contradição» e «uma espada trespassará
a alma» de Maria (ibid., 2, 34.35). Através destas palavras, o
Espírito Santo prepara Maria para a grande provação que
a espera, e confere ao rito da apresentação do Menino o valor
de um sacrifício oferecido por amor. Quando Maria recebeu o seu Filho
dos braços de Simeão, compreendeu que O recebia para O oferecer.
A sua maternidade envolvê-la-ia no destino de Jesus e toda a oposição
a Ele haveria de se repercutir no seu coração.
3. A presença de
Maria junto da Cruz é o sinal de que a Mãe seguiu até ao
fim o itinerário doloroso, traçado pelo Espírito Santo
pela boca de Simeão.
No Calvário, das
palavras que Jesus dirige à Mãe e ao discípulo predilecto,
emerge outra característica da acção do Espírito
Santo: Ele assegura fecundidade ao sacrifício. As palavras de Jesus manifestam
precisamente um aspecto «mariano» desta fecundidade: «Mulher,
eis aí o teu filho» (Jo 19, 26). Nestas palavras, o Espírito
Santo não aparece expressamente. Mas a partir do momento que o evento
da Cruz, como a inteira vida de Cristo, se desenrola no Espírito Santo
(cf. Dominum et vivificantem, 40-41), precisamente no Espírito Santo
o Salvador pede à Mãe que consinta ao sacrifício do Filho,
para se tornar a mãe de uma multidão de filhos. A esta suprema
oferta da Mãe de Jesus, Ele assegura um fruto imenso: uma nova maternidade
destinada a estender-se a todos os homens.
Da Cruz o Salvador queria
derramar sobre a humanidade rios de água viva (cf. ibid., 7, 38), isto
é, a abundância do Espírito Santo. Mas desejava que esta
efusão de graça estivesse ligada ao rosto de uma mãe, a
sua Mãe. Maria aparece já como a nova Eva, mãe dos vivos,
ou a Filha de Sião, mãe dos povos. O dom da Mãe universal
estava incluído na missão redentora do Messias: «Depois,
Jesus, sabendo que tudo estava consumado...», escreve o Evangelista após
a dupla declaração: «Mulher, eis aí o teu filho»
e «Eis aí a tua mãe» (ibid., 19, 26-28).
Desta cena pode-se intuir
a harmonia do plano divino em relação ao papel de Maria na acção
salvífica do Espírito Santo. No mistério da Encarnação
a sua cooperação com o Espírito tinha desempenhado um papel
essencial; também no mistério do nascimento e da formação
dos filhos de Deus o concurso materno de Maria acompanha a actividade do Espírito
Santo.
4. À luz da declaração
de Cristo no Calvário, a presença de Maria na comunidade à
espera do Pentecostes assume todo o seu valor. São Lucas, que chamara
a atenção para o papel de Maria na origem de Jesus, quis ressaltar
a sua presença significativa na origem da Igreja. A comunidade é
composta não só de Apóstolos e Discípulos, mas também
de mulheres, entre as quais Lucas nomeia unicamente «Maria, a mãe
de Jesus» (Act 1, 14).
A Bíblia não
nos oferece outra informação sobre Maria após o drama do
Calvário. Mas é muito importante saber que Ela participava na
vida da primeira comunidade e na sua oração assídua e unânime.
Sem dúvida, ela esteve presente na efusão do Espírito,
no dia do Pentecostes. O Espírito que já habitava em Maria, tendo
realizado nela maravilhas de graça, agora desce de novo ao seu coração,
comunicando dons e carismas necessários para o exercício da sua
maternidade espiritual.
5. Maria continua a exercer
na Igreja a maternidade que lhe foi confiada por Cristo. Nesta missão
materna, a humilde escrava do Senhor não se põe em concorrência
com o papel do Espírito Santo; ao contrário, ela é chamada
pelo mesmo Espírito a cooperar com Ele de modo materno. Ele desperta
continuamente na memória da Igreja as palavras de Jesus ao discípulo
predilecto: «Eis aí a tua mãe», e convida os crentes
a amarem Maria como Cristo a amou. Todo o aprofundamento do vínculo com
Maria permite ao Espírito uma acção mais fecunda para a
vida da Igreja.
JOÃO PAULO II
Quarta-feira 9 de Dezembro
de 1998