MEDITAÇÕES
E ORAÇÕES DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II
VIA SACRA 2000
ORAÇÃO
INICIAL
O Santo Padre:
Em nome do Pai e do Filho
e do Espírito Santo.
R. Amen.
"Se alguém quiser
vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me"
(Mt 16, 24).
Noite de Sexta-feira Santa.
Há vinte séculos
que a Igreja se reúne nesta noite para recordar e reviver os acontecimentos
da última etapa do caminho terreno do Filho de Deus. Hoje, como nos demais
anos, a Igreja que está em Roma concentra-se no Coliseu, para seguir
os passos de Jesus que, "carregando às costas a cruz, saiu para
o lugar chamado Crânio, que em hebraico se diz Gólgota" (Jo
19, 17).
Encontramo-nos aqui animados
pela convicção de que a via-sacra do Filho de Deus não
foi um simples caminhar para o lugar do suplício. Acreditamos que cada
passo do Condenado, cada gesto e palavra d'Ele, e tudo o mais que foi vivido
e realizado por quantos tomaram parte neste drama, continua incessantemente
a falar-nos. Cristo, mesmo no seu sofrimento e na sua morte, desvenda-nos a
verdade acerca de Deus e do homem.
Neste Ano Jubilar, queremos
reflectir mais intensamente no conteúdo daquele acontecimento, para que
fique gravado, com uma força nova, nas nossas mentes e nos nossos corações
e daí brote a graça duma autêntica participação.
Participar significa ter
uma parte.
E que significa ter uma parte na cruz de Cristo?
- Significa experimentar, no Espírito Santo, o amor que a cruz de Cristo
encerra.
Significa reconhecer, à luz desse amor, a própria cruz.
Significa retomá-la aos próprios ombros e, por força sempre
daquele amor, caminhar...
Caminhar pela vida fora, imitando Aquele que "suportou a cruz, desprezando
a ignomínia, e está agora sentado à direita do trono de
Deus" (Heb 12, 2).
Alguns momentos
de silêncio.
Oremos:
Senhor Jesus Cristo,
enchei os nossos corações com a luz do vosso Espírito,
para que, acompanhando-Vos no vosso último caminho,
conheçamos o preço da nossa redenção
e nos tornemos dignos de participar
nos frutos da vossa paixão, morte e ressurreição.
Vós que viveis e reinais pelos séculos dos séculos.
R. Amen.
PRIMEIRA ESTAÇÃO
JESUS É CONDENADO À MORTE
V. Adoramus te, Christe,
et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.
"Tu és o rei
dos judeus?" (Jo 18, 33).
- "A minha realeza não é deste mundo; se a minha realeza
fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que Eu não fosse entregue
aos judeus; mas a minha realeza não é daqui" (Jo 18, 36).
Pilatos acrescentou:
"Logo Tu és rei?"
Jesus respondeu:
- "Tu o dizes! Eu sou rei! Para isso nasci e para isto vim ao mundo, a
fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a
minha voz".
Pilatos replicou:
"Que é a verdade?"
Dito isto, o Procurador romano considerou encerrado o interrogatório.
Foi ter com os judeus e comunicou-lhes: "Não acho n'Ele culpa alguma"
(cf. Jo 18, 37-38).
O drama de Pilatos está
contido na pergunta: Que é a verdade?
Não era uma pergunta filosófica sobre a natureza da verdade, mas
uma pergunta existencial que dizia respeito à relação da
própria pessoa com a verdade. Era uma tentativa de fugir à voz
da consciência, que instava para que reconhecesse a verdade e a seguisse.
O homem, que não se deixa guiar pela verdade, é capaz de sentenciar
inclusivamente a condenação dum inocente.
Os acusadores intuem esta
fragilidade de Pilatos e por isso não cedem. Com determinação,
reclamam a morte de cruz. As meias-medidas, a que recorre Pilatos, não
o ajudam. Não é suficiente a pena cruel da flagelação,
infligida ao Acusado. Quando o Procurador apresenta à multidão
Jesus flagelado e coroado de espinhos, usa uma frase que, no seu modo de ver,
deveria quebrar a intransigência da praça. Apontando para Jesus,
diz: "Ecce homo! Eis o homem!"
Mas, a resposta foi: "Crucifica-O, crucifica-O!"
Pilatos procura então fazê-los raciocinar: "Tomai-O vós
e crucificai-O; eu não encontro n'Ele culpa alguma" (cf. Jo 19,
5-7).
Está cada vez mais
convencido de que o Réu é inocente, mas isto não lhe basta
para proferir uma sentença de absolvição.
Os acusadores recorrem ao último argumento: "Se O libertares, não
és amigo de César; todo aquele que se faz rei, é contra
César" (Jo 19, 12).
A ameaça é
clara. Pilatos, intuindo o perigo, cede definitivamente e profere a sentença,
acompanhada do gesto teatral de lavar-se as mãos: "Estou inocente
do sangue deste justo. Isso é convosco" (Mt 27, 24).
E assim Jesus, o Filho de Deus vivo, o Redentor do mundo, foi condenado à
morte de cruz.
Ao longo dos séculos,
a negação da verdade gerou sofrimento e morte.
São os inocentes que pagam o preço da hipocrisia humana.
As meias-medidas não são suficientes. Nem basta lavar as mãos.
A responsabilidade pelo sangue do justo permanece.
Foi por isso que Jesus rezou, tão ardentemente, pelos seus discípulos
de todos os tempos: "Pai, santifica-os na verdade. A tua palavra é
a verdade" (Jo 17, 17).
ORAÇÃO
Cristo, que aceitais uma
condenação injusta,
concedei-nos, a nós e a todos os nossos contemporâneos,
a graça de sermos fiéis à verdade
e não permitais que caia sobre nós
e sobre quantos hão-de vir depois de nós
o peso da responsabilidade
pelo sofrimento dos inocentes.
Jesus, justo Juiz, a Vós
a honra e a glória pelos séculos sem fim.
R. Amen.
Todos:
Pater noster,
qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.
Stabat Mater dolorosa
iuxta crucem lacrimosa,
dum pendebat Filius.
SEGUNDA ESTAÇÃO
JESUS RECEBE A CRUZ AOS OMBROS
V. Adoramus te, Christe,
et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.
A cruz. Instrumento de morte
infame.
Não era lícito condenar um cidadão romano à morte
de cruz: era humilhante demais. No momento em que Jesus de Nazaré pegou
na cruz para levá-la ao Calvário, a história da cruz conheceu
uma inversão do seu valor:
De sinal de morte infame e reservada à classe inferior dos homens, a
cruz passa a ser uma chave; doravante, com a ajuda desta chave, o homem abrirá
a porta das profundezas do mistério de Deus.
Por obra de Cristo, que aceita a cruz como instrumento do seu despojamento,
os homens saberão que Deus é amor.
Amor sem limites: "Amou
de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que
n'Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 16).
Esta verdade sobre Deus
foi revelada por meio da cruz.
E não podia revelar-se de outro modo?
- Talvez sim. Deus, porém, escolheu a cruz.
O Pai escolheu a cruz para o seu Filho, e Este tomou-a aos ombros, levou-a até
ao monte Calvário e sobre ela ofereceu a sua vida.
"Na cruz, há o sofrimento,
na cruz, há a salvação,
na cruz, há uma lição de amor.
Ó Deus, quem uma vez Vos compreendeu,
nada mais deseja, nada mais procura" (Cântico quaresmal polaco).
A Cruz é sinal dum
amor sem limites!
ORAÇÃO
Cristo, que aceitais a cruz das mãos dos homens,
para fazer dela o sinal
do amor salvífico de Deus pelo homem,
concedei-nos, a nós e a todos os nossos contemporâneos,
a graça da fé neste amor infinito,
para que, transmitindo ao novo milénio
o sinal da cruz,
sejamos autênticas testemunhas da Redenção.
Jesus, sacerdote e vítima, a Vós
o louvor e a glória para sempre.
R. Amen.
Todos:
Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.
Cuius animam gementem,
contristatam et dolentem
pertransivit gladius.
TERCEIRA ESTAÇÃO
JESUS CAI PELA PRIMEIRA VEZ
V. Adoramus te, Christe,
et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.
"Deus carregou sobre
Ele os pecados de todos nós" (cf. Is 53, 6).
"Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um seguia
o seu caminho; o Senhor carregou sobre Ele a iniquidade de todos nós"
(Is 53, 6).
Jesus cai sob a cruz. Acontecerá
o mesmo por três vezes ao longo do caminho, relativamente breve, da "via
dolorosa".
Cai exausto. O corpo sangrando pela flagelação, a cabeça
coroada de espinhos. Tudo isso faz com que Lhe faltem as forças.
Por isso cai, e a cruz com o seu peso esmaga-O contra o chão.
Convém voltar às
palavras do profeta, que prevê esta queda séculos antes. É
como se a contemplasse com seus próprios olhos: vendo o Servo do Senhor
no chão sob o peso da cruz, o profeta mostra a verdadeira causa da sua
queda. É que "Deus carregou sobre Ele os pecados de todos nós".
Foram os pecados que lançaram por terra o divino Condenado.
Foram eles que determinaram o peso da cruz, que Ele carrega aos seus ombros.
Foram os pecados que causaram a sua queda.
Cristo, a custo, levanta-Se para retomar o caminho. Os soldados, que O escoltam,
não cessam de forçá-Lo com seus gritos e golpes.
Passado pouco tempo, o cortejo parte de novo.
Jesus cai e levanta-Se.
Deste modo, o Redentor do mundo fala, sem palavras, a todos aqueles que caem.
Exorta-os a levantarem-se.
"Ele suportou os nossos pecados no seu corpo, sobre o madeiro da cruz,
a fim de que, mortos para o pecado, vivêssemos para a justiça:
pelas suas chagas fomos curados" (cf. 1 Ped 2, 24).
ORAÇÃO
Cristo, que caís sob o peso das nossas culpas
e Vos levantais para nossa justificação,
nós Vos pedimos: ajudai-nos a nós
e a todos aqueles que são oprimidos pelo pecado
a pormo-nos novamente de pé
e a retomarmos o caminho.
Dai-nos a força do Espírito,
para levar convosco a cruz da nossa fragilidade.
Jesus, esmagado pelo peso das nossas culpas, a Vós
o nosso louvor e o nosso amor para sempre.
R. Amen.
Todos:
Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.
O quam tristis et afflicta
fuit illa benedicta
Mater Unigeniti!
QUARTA ESTAÇÃO
JESUS ENCONTRA SUA MÃE
V. Adoramus te, Christe,
et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.
"Não tenhas
receio, Maria, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber
no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus.
Será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor
Deus dar-Lhe-á o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre
a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim" (Lc 1, 30-33).
Maria recordava estas palavras.
No segredo do seu coração, frequentemente repensava nelas.
Quando encontrou o Filho no caminho da cruz, pode ser que lhe tenham vindo à
mente precisamente estas palavras. Com uma força particular.
"Reinará... o seu reinado não terá fim...", dissera
o mensageiro celeste.
Quando, agora, contempla o Filho condenado à morte que leva a cruz onde
há-de morrer, Ela poderia, humanamente falando, interrogar-se: Então
como irão cumprir-se aquelas palavras? De que modo reinará Ele
sobre a casa de David? E como será possível não ter fim
o seu reinado?
Humanamente, seriam compreensíveis
tais perguntas.
Maria, porém, recorda a resposta que dera então depois de ter
ouvido o anúncio do Anjo: "Eis a escrava do Senhor; faça-se
em mim segundo a tua palavra" (Lc 1, 38).
Agora vê que aquela sua resposta se está realizando como palavra
da cruz. Sendo mãe, Maria sofre profundamente. Todavia neste momento
responde como o tinha feito então, na anunciação: "Faça-se
em mim segundo a tua palavra".
Deste modo, maternalmente, abraça a cruz juntamente com o divino Condenado.
No caminho da cruz, Maria manifesta-se como Mãe do Redentor do mundo.
"Ó vós
todos que passais pelo caminho, olhai e vêde se existe dor semelhante
à dor que me atormenta" (Lam 1, 12).
É a Mãe Dolorosa que fala,
a Serva obediente até ao fim,
a Mãe do Redentor do mundo.
ORAÇÃO
Ó Maria, Vós que percorrestes
o caminho da cruz juntamente com o Filho,
sentindo vosso coração de mãe despedaçado pela dor,
mas sempre recordada do vosso fiat
e intimamente confiante de que Aquele
para quem nada é impossível
saberia dar cumprimento às suas promessas,
implorai para nós e para as futuras gerações
a graça do abandono ao amor de Deus.
Fazei com que em presença do sofrimento, do desprezo, da prova,
ainda que prolongada e dura,
nunca duvidemos do seu amor.
A Jesus, vosso Filho,
honra e glória para sempre.
R. Amen.
Todos:
Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.
Quæ mærebat
et dolebat,
pia Mater, dum videbat
Nati pœnas incliti.
QUINTA ESTAÇÃO
SIMÃO DE CIRENE LEVA A CRUZ DE JESUS
V. Adoramus te, Christe,
et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.
Obrigaram Simão (cf.
Mc 15, 21).
Procederam assim os soldados romanos, porque temiam que o Condenado, exausto,
não chegasse com a cruz ao Gólgota. E não poderiam executar
a sentença da crucifixão que pesava sobre Ele.
Procuravam um homem que O ajudasse a levar a cruz.
O olhar deles caiu sobre Simão. Obrigaram-no a carregar aquele peso.
Pode-se facilmente imaginar que ele não estivesse de acordo e se opusesse.
Levar a cruz com um condenado podia ser considerado um acto ofensivo para a
dignidade dum homem livre.
Embora contra vontade, Simão pegou na cruz para ajudar Jesus.
Num cântico quaresmal,
ressoam estas palavras: "Sob o peso da cruz, Jesus acolhe o Cireneu".
Estas palavras deixam entrever uma mudança total de perspectiva: o divino
Condenado aparece como Alguém que, de certo modo, "dá de
presente" a cruz.
Porventura não foi Ele que disse: "Quem não tomar a sua cruz
para Me seguir, não é digno de Mim" (Mt 10, 38)?
Simão recebe um presente.
Tornou-se "digno" d'Ele.
Aquilo que, aos olhos da multidão, podia ofender a sua dignidade, na
perspectiva da redenção conferiu-lhe, pelo contrário, uma
nova dignidade.
O Filho de Deus fê-lo participante, de modo singular, na sua obra salvífica.
Será que Simão
sabe disto?
O evangelista Marcos identifica Simão de Cirene como sendo "pai
de Alexandre e Rufo" (15, 21).
Se os filhos de Simão de Cirene eram conhecidos na primitiva comunidade
cristã, pode-se pensar que também o pai, precisamente quando levava
a cruz, tenha acreditado em Cristo. Passou livremente da imposição
à disponibilidade, como se tivesse ouvido intimamente estas palavras:
"Quem não Me segue com a sua cruz, não é digno de
Mim".
Levando a cruz, foi iniciado
no conhecimento do evangelho da cruz.
Desde então, este
evangelho tem falado a muita gente, a cireneus sem conta, chamados no decurso
da história a levar a cruz juntamente com Jesus.
ORAÇÃO
Cristo, que conferistes a Simão de Cirene
a dignidade de levar a vossa cruz,
acolhei-nos também a nós sob o seu peso,
acolhei todos os homens
concedendo a cada um a graça da disponibilidade.
Fazei que não desviemos o olhar daqueles
que são oprimidos pela cruz da doença,
da solidão, da fome, da injustiça.
Fazei que, levando a carga uns dos outros,
nos tornemos testemunhas do evangelho da cruz,
testemunhas de Vós,
que viveis e reinais pelos séculos dos séculos.
R. Amen.
Todos:
Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.
Quis est homo qui non fleret,
Matrem Christi si videret
in tanto supplicio?
SEXTA ESTAÇÃO
A VERÓNICA LIMPA O ROSTO DE JESUS
V. Adoramus te, Christe,
et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.
Nos Evangelhos, não
aparece mencionada Verónica. Entre as várias mulheres que serviam
Jesus, o nome dela não é referido.
Pensa-se, por isso, que o nome possa exprimir sobretudo o que a mulher fez.
Com efeito, segundo a tradição, no caminho para o Calvário,
uma mulher passou por entre os soldados que escoltavam Jesus e, com um véu,
enxugou o suor e o sangue do rosto do Senhor. Aquele rosto ficou gravado no
véu: um reflexo fiel, uma verdadeira imagem, uma "vera icone".
Desta expressão derivaria o nome de Verónica.
Se assim fosse, este nome, que recorda o gesto realizado pela mulher, encerraria
simultaneamente a verdade mais profunda dela mesma.
Um dia, perante a crítica dos presentes, Jesus tomou a defesa duma mulher
pecadora, que tinha derramado um perfume sobre os pés d'Ele, enxugando-os
depois com os cabelos. À objecção então levantada,
Ele responde: "Porque afligis esta mulher? Ela praticou para comigo uma
boa obra (...). Derramando este perfume sobre o meu corpo, fê-lo preparando-Me
para a sepultura" (Mt 26, 10.12). As mesmas palavras poder-se-iam aplicar
a Verónica.
Fica assim patente o profundo significado do acontecimento.
O Redentor do mundo dá a Verónica uma autêntica imagem do
seu rosto.
O véu, onde fica
impresso o rosto de Cristo, torna-se uma mensagem para nós. De certo
modo, diz: Eis como toda a boa obra, todo o gesto de amor para com o próximo
reforça, em quem o pratica, a semelhança com o Redentor do mundo.
Os actos de amor não
passam. Cada gesto de bondade, de compreensão, de serviço deixa
no coração do homem um sinal indelével, que o torna cada
vez mais semelhante Àquele que "Se despojou a Si mesmo, tomando
a condição de servo" (Fil 2, 7).
Assim se forma a identidade, o verdadeiro nome da pessoa.
ORAÇÃO
Senhor Jesus Cristo!
Vós que aceitastes
o gesto de amor desinteressado duma mulher
e fizestes com que, em troca,
as gerações a recordassem com o nome do vosso rosto,
concedei que as nossas obras
e as de todos quantos virão depois de nós,
nos tornem semelhantes a Vós
e ofereçam ao mundo o reflexo
do vosso infinito amor.
Jesus, esplendor da glória do Pai, a Vós
louvor e glória para sempre.
R. Amen.
Todos:
Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.
Quis non posset contristari,
Christi Matrem contemplari,
dolentem cum Filio?
SÉTIMA ESTAÇÃO
JESUS CAI PELA SEGUNDA VEZ
V. Adoramus te, Christe,
et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.
"Eu sou um verme, e
não um homem,
o opróbrio dos homens e a abjecção da plebe" (Sal
21/22, 7).
Acorrem à mente estas palavras do Salmo, ao contemplarmos Jesus que cai,
pela segunda vez, sob a cruz.
Eis caído no pó
da terra o Condenado!
Esmagado pelo peso da sua cruz.
As forças vão-No abandonando cada vez mais.
Embora com dificuldade, mas levanta-Se, para continuar o caminho.
Que nos diz a nós,
homens pecadores, esta segunda queda?
Parece exortar, ainda mais que a primeira, a levantarmo-nos,
a levantarmo-nos outra vez no nosso caminho da cruz.
Cyprian Norwid escreveu:
"Não atrás de si próprio com a cruz do Salvador,
mas atrás do Salvador com a própria cruz".
Uma máxima breve, mas muito expressiva. Explica em que sentido o cristianismo
é a religião da cruz.
Dá a entender que
todo o homem encontra, aqui na terra, Cristo que leva a cruz e cai sob ela.
Cristo por sua vez, no caminho do Calvário, encontra todo o homem e,
embora caindo sob o peso da cruz, não cessa de anunciar a boa nova.
Há dois mil anos
que o evangelho da cruz fala ao homem.
Vinte séculos são passados com Cristo a levantar-Se da queda para
Se encontrar com o homem que cai.
Ao longo destes dois milénios,
muitos experimentaram que cair não significa o fim do caminho.
Encontrando o Salvador, ouviram-No encorajar-lhes:
"Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que a minha
força se revela totalmente" (2 Cor 12, 9).
Revigorados, levantaram-se e transmitiram ao mundo a palavra da esperança
que brota da cruz.
Hoje, cruzando o limiar do novo milénio, somos chamados a aprofundar
o conteúdo deste encontro.
É necessário que a nossa geração transmita aos séculos
futuros a boa nova de que podemos levantar-nos em Cristo.
ORAÇÃO
Senhor Jesus Cristo,
que caís sob o peso do pecado do homem
e Vos levantais para o assumir como vosso, cancelando-o,
concedei-nos a nós, homens frágeis,
a força para levarmos a cruz diária
e nos levantarmos das nossas quedas
a fim de transmitirmos às gerações que hão-de vir
o Evangelho da vossa força salvadora.
Jesus, sustentáculo da nossa fraqueza, a Vós
o louvor e a glória para sempre.
R. Amen.
Todos:
Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.
Pro peccatis suæ gentis,
vidit Iesum in tormentis,
et flagellis subditum.
OITAVA ESTAÇÃO
JESUS ADMOESTA AS MULHERES DE JERUSALÉM
V. Adoramus te, Christe,
et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.
"Filhas de Jerusalém,
não choreis por Mim; chorai antes por vós mesmas e pelos vossos
filhos, pois dias virão em que se dirá: "Felizes as estéreis,
os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram".
Hão-de então dizer aos montes: "Caí sobre nós",
e às colinas: "Cobri-nos". Porque se tratam assim a madeira
verde, o que acontecerá à seca?" (Lc 23, 28-31).
São as palavras de
Jesus às mulheres de Jerusalém que, compadecidas, choravam pelo
Condenado.
"Não choreis
por Mim, mas por vós mesmas e pelos vossos filhos". Por certo, naquele
momento era difícil compreender o sentido destas palavras. Continham
uma profecia, que bem depressa se tornaria realidade.
Pouco tempo antes, Jesus tinha chorado por Jerusalém, preanunciando a
sorte horrível que haveria de lhe tocar.
Parece que Ele agora Se refere àquela previsão, quando diz: "Chorai
pelos vossos filhos..."
Chorai por eles, porque
serão precisamente eles as testemunhas e vítimas da destruição
de Jerusalém, daquela Jerusalém que "não soube reconhecer
o tempo em que foi visitada" (cf. Lc 19, 44).
Enquanto seguimos Cristo
no caminho da cruz, se por um lado sentimos despertar em nossos corações
a compaixão pelo seu sofrimento, por outro não podemos esquecer
aquela admoestação:
"Se tratam assim a madeira verde, o que acontecerá à seca?"
Para a nossa geração que deixa para trás um milénio,
mais do que chorar por Jesus martirizado, é hora de "reconhecer
o tempo em que é visitada". Já resplandece a aurora da ressurreição.
"É este o tempo favorável; este é o dia da salvação"
(2 Cor 6, 2).
A cada um de nós,
Cristo dirige estas palavras do Apocalipse: "Eis que estou à porta
e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua
casa, cearei com ele e ele comigo. Ao que vencer, conceder-lhe-ei que se sente
comigo no meu trono, assim como Eu venci e Me sentei com meu Pai no seu trono"
(3, 20-21).
ORAÇÃO
Cristo, que viestes a este mundo
para visitar todos aqueles que esperam a salvação,
fazei que a nossa geração
reconheça o tempo em que é visitada
e participe nos frutos da vossa redenção.
Não permitais que, sobre nós
e sobre as pessoas do novo século,
se deva chorar por termos recusado
a mão do Pai misericordioso.
Jesus, nascido da Virgem, Filha de Sião, a Vós,
honra e glória pelos séculos sem fim.
R. Amen.
Todos:
Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.
Tui Nati vulnerati,
tam dignati pro me pati
pœnas mecum divide.
NONA ESTAÇÃO
JESUS CAI PELA TERCEIRA VEZ
V. Adoramus te, Christe,
et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.
De novo vemos Cristo tombado
por terra, sob o peso da cruz. A multidão observa, curiosa, se ainda
terá forças para Se levantar.
S. Paulo escreve: "Ele
que era de condição divina não reivindicou o direito de
ser equiparado a Deus. Mas despojou-Se a Si mesmo, tomando a condição
de servo, tornando-Se semelhante aos homens. Tido pelo aspecto como homem, humilhou-Se
a Si mesmo, feito obediente até à morte e morte de cruz"
(Fil 2, 6-8).
Parece que a terceira queda exprime precisamente isto:
o despojamento, a kenosis do Filho de Deus,
a humilhação sob a cruz.
Aos discípulos, Jesus tinha dito que não viera para ser servido,
mas para servir (cf. Mt 20, 28).
No Cenáculo, quando Se ajoelhara por terra e lavou-lhes os pés,
Ele quis de algum modo habituá-los a esta sua humilhação.
Caindo a terceira vez por terra no caminho da cruz, grita-nos também
em voz alta o seu mistério.
Ouçamos a sua voz!
Este Condenado no chão, sob o peso da cruz, já perto do lugar
do suplício, diz-nos: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida"
(Jo 14, 6). "Quem Me segue não andará nas trevas, mas terá
a luz da vida" (Jo 8, 12).
Não nos confunda
o facto de ver um Condenado que cai por terra, exausto, sob a cruz.
Este sinal visível da morte, que se vai aproximando, esconde em si a
luz da vida.
ORAÇÃO
Senhor Jesus Cristo,
que, pela vossa humilhação sob a cruz,
revelastes ao mundo o preço da sua redenção,
concedei às pessoas do terceiro milénio
a luz da fé,
para que, reconhecendo em Vós
o Servo que sofre por amor de Deus e do homem,
tenham a coragem de seguir o mesmo caminho
que, através da cruz e do despojamento,
leva à vida que não tem fim.
Jesus, sustentáculo da nossa fraqueza, a Vós
louvor e glória para sempre.
R. Amen.
Todos:
Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.
Eia, Mater, fons amoris,
me sentire vim doloris
fac, ut tecum lugeam.
DÉCIMA ESTAÇÃO
JESUS É DESPOJADO DAS SUAS VESTES E DÃO-LHE A BEBER VINAGRE E
FEL
V. Adoramus te, Christe,
et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.
"Mas, provando-o, não
quis beber" (Mt 27, 34).
Não quis calmantes, que Lhe teriam obnubilado a consciência durante
a agonia.
Queria estar consciente enquanto agonizava na cruz, cumprindo a missão
recebida do Pai.
Isto ia contra os métodos
usados pelos soldados encarregados da execução. Tendo eles de
cravar o condenado na cruz, procuravam aturdir-lhe a sensibilidade e a consciência.
No caso de Cristo, não podia ser assim. Jesus sabe que a sua morte na
cruz deve ser um sacrifício de expiação.
Por isso quer conservar a consciência desperta até ao fim.
Privado dela, não poderia abraçar, de forma completamente livre
e na sua medida plena, o sofrimento.
Sim, Ele deve subir à
cruz, para oferecer o sacrifício da Nova Aliança.
Jesus é sacerdote. Deverá entrar com o próprio sangue nas
moradas eternas, depois de ter efectuado a redenção do mundo (cf.
Heb 9, 12).
Consciência e liberdade:
são atributos imprescindíveis para um agir plenamente humano.
O mundo conhece muitos meios para debilitar a vontade e ofuscar a consciência.
É preciso defendê-las zelosamente de todas as violências.
Mesmo o esforço, legítimo, de aturdir a dor há-de ser realizado
sempre no respeito da dignidade humana.
É necessário
compreender profundamente o sacrifício de Cristo,
é preciso unir-se a este sacrifício para não ceder,
para não permitir que a vida e a morte percam o seu valor.
ORAÇÃO
Senhor Jesus,
que aceitastes, com total devotamento, a morte de cruz
pela nossa salvação,
a nós e a todas as pessoas do mundo, fazei-nos
participantes do vosso sacrifício na cruz,
para que a nossa existência e a nossa actividade
tomem a forma duma participação
livre e consciente
na vossa obra de salvação.
Jesus, Sacerdote e Vítima, a Vós
honra e glória para sempre.
R. Amen.
Todos:
Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.
Fac ut ardeat cor meum
in amando Christum Deum,
ut sibi complaceam.
DÉCIMA PRIMEIRA
ESTAÇÃO
JESUS É PREGADO NA CRUZ
V. Adoramus te, Christe,
et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.
"Trespassaram as minhas
mãos e os meus pés; posso contar todos os meus ossos" (Sal
21/22, 17-18).
Cumprem-se as palavras do profeta.
Tem início a execução.
As marteladas dos algozes esmagam contra o madeiro da cruz as mãos e
os pés do Condenado.
No carpo das mãos, são espetados os pregos com prepotência.
Aqueles pregos terão o condenado suspenso durante os tormentos inexprimíveis
da agonia.
No seu corpo e na sua alma sensibilíssima, Cristo sofre indizivelmente.
Juntamente com Ele, são
crucificados dois verdadeiros malfeitores, um à sua direita e o outro
à sua esquerda. Cumpre-se a profecia: "Foi contado entre os pecadores"
(Is 53, 12).
Quando os algozes levantarem
a cruz, começará uma agonia que há-de durar três
horas. É preciso que se cumpra também esta palavra: "Eu,
quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim" (Jo 12, 32).
O que é que "atrai" neste Condenado que agoniza na cruz?
Certamente a vista dum sofrimento tão intenso desperta compaixão.
Mas a compaixão é demasiado pouco para levar a vincular a própria
vida com Aquele que está pregado na cruz.
Como se explica que tão
pavorosa vista tenha atraído, de geração em geração,
inumeráveis multidões de pessoas que fizeram da cruz o distintivo
da sua fé?
Multidões de homens e mulheres que, ao longo dos séculos, viveram
e deram a vida com os olhos fixos naquele sinal?
A partir da cruz, Cristo
atrai com a força do amor,
daquele Amor divino que não se esquivou ao dom total de Si mesmo;
daquele Amor infinito, que levantou da terra sobre a árvore da cruz o
peso do corpo de Cristo, para compensar o peso da culpa antiga;
daquele Amor ilimitado, que colmou toda a ausência de amor e permitiu
que o homem encontrasse novamente refúgio nos braços do Pai misericordioso.
Que Cristo, elevado na cruz,
nos atraia também a nós, homens e mulheres do novo milénio!
À sombra da cruz, "caminhemos na caridade, porque Cristo também
nos amou e Se entregou por nós, oferecendo-Se a Deus como sacrifício
de agradável odor" (cf. Ef 5, 2).
ORAÇÃO
Cristo erguido ao alto,
Amor crucificado,
enchei os nossos corações do vosso amor,
para reconhecermos na vossa cruz
o sinal da nossa redenção
e, atraídos pelas vossas chagas,
vivermos e morrermos convosco,
que viveis e reinais com o Pai e o Espírito Santo
agora e pelos séculos sem fim.
R. Amen.
Todos:
Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.
Sancta Mater, istud agas,
crucifixi fige plagas,
cordi meo valide.
DÉCIMA SEGUNDA
ESTAÇÃO
JESUS MORRE NA CRUZ
V. Adoramus te, Christe,
et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.
"Perdoa-lhes, ó
Pai, porque não sabem o que fazem" (Lc 23, 34).
No auge da Paixão, Cristo não esquece o homem, especialmente não
esquece aqueles que são a causa directa do seu sofrimento. Ele sabe que,
mais do que qualquer outra coisa, o homem precisa de amor; precisa da misericórdia
que naquele momento se está derramando sobre o mundo.
"Em verdade te digo:
Hoje estarás comigo no paraíso" (Lc 23, 43).
Jesus responde assim ao pedido que Lhe fez o malfeitor crucificado à
sua direita: "Jesus, lembra-Te de mim quando estiveres no teu reino"
(Lc 23, 42).
A promessa duma nova vida: eis o primeiro fruto da paixão e morte iminente
de Cristo. Uma palavra de esperança para o homem.
Ao pé da cruz, estava
a Mãe e, junto dela, o discípulo, João evangelista. Jesus
diz: "Mulher, eis aí o teu filho"; e ao discípulo: "Eis
aí a tua mãe" (Jo 19, 26-27).
"E, desde aquela hora, o discípulo recebeu-A em sua casa" (Jo
19, 27).
É o testamento para as pessoas que o coração d'Ele mais
estima.
O testamento para a Igreja.
Quando está para morrer, Jesus quer que o amor materno de Maria abrace
a todos aqueles por quem Ele oferece a vida, ou seja, a humanidade inteira.
Logo em seguida, Jesus exclama:
"Tenho sede" (Jo 19, 28). Frase que traduz a secura terrível
que abrasa todo o seu corpo.
É a única palavra que fala directamente do seu sofrimento físico.
Depois Jesus acrescenta:
"Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?" (Mt 27, 46; cf. Sal 21/22,
2). Ele está rezando com as palavras do Salmo. A frase, não obstante
o seu teor, mostra a sua profunda união com o Pai.
Nos últimos momentos da sua vida sobre a terra, Jesus dirige o pensamento
para o Pai. Doravante o diálogo desenrolar-se-á apenas entre o
Filho que morre e o Pai que aceita o seu sacrifício de amor.
Ao chegar a hora nona, Jesus
exclama: "Tudo está consumado" (Jo 19, 30).
A obra da redenção foi levada a termo.
A missão, que O trouxe à terra, atingiu o seu objectivo.
O resto pertence ao Pai:
"Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito" (Lc 23,
46).
Dito isto, expirou.
"O véu do templo
rasgou-se em dois..." (Mt 27, 51).
O "Santo dos Santos" no templo de Jerusalém abre-se no momento
em que entra lá o Sacerdote da Nova e Eterna Aliança.
ORAÇÃO
Senhor Jesus Cristo,
Vós que na hora da agonia
não ficastes indiferente à sorte do homem
mas juntamente com o vosso último respiro
confiastes amorosamente à misericórdia do Pai
os homens e mulheres de todos os tempos
com as suas fraquezas e os seus pecados,
enchei-nos a nós e às gerações futuras
do vosso Espírito de amor,
para que a nossa indiferença não inutilize em nós
os frutos da vossa morte.
Jesus crucificado, sabedoria e força de Deus, a Vós
honra e glória pelos séculos sem fim.
R. Amen.
Todos:
Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.
Vidit suum dulcem Natum
morientem desolatum
dum emisit spiritum.
DÉCIMA TERCEIRA
ESTAÇÃO
JESUS É DESCIDO DA CRUZ E ENTREGUE A SUA MÃE
V. Adoramus te, Christe,
et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.
O quam tristis et afflicta
Fuit illa benedicta
Mater Unigeniti.
Repuseram nas mãos
da Mãe o corpo sem vida do Filho. Os Evangelhos não falam do que
Ela sentiu naquele momento.
Parece até que os Evangelhos, com o seu silêncio, quiseram respeitar
a sua dor, os seus sentimentos, as suas recordações. Ou, simplesmente,
não se consideraram capazes de os exprimir.
Apenas a devoção plurissecular nos conservou a imagem da "Pietà",
gravando assim na memória do povo cristão a expressão mais
dolorosa daquele inefável vínculo de amor que desabrochou no coração
da Mãe no dia da anunciação
e foi amadurecendo enquanto esperava o nascimento do divino Filho.
Aquele amor manifestou-se na gruta de Belém,
foi posto à prova já durante a apresentação no Templo,
ganhou profundidade com os sucessivos acontecimentos, guardados e meditados
no seu coração (cf. Lc 2, 51).
Agora, este vínculo íntimo de amor deve transformar-se numa união
que supera os confins da vida e da morte.
E assim será até
ao fim dos séculos:
as pessoas detêm-se diante da "Pietà" de Miguel Ângelo,
ajoelham em frente da imagem da Benfeitora Aflita (Sm_tna Dobrodziejka), na
igreja dos franciscanos de Cracóvia,
diante da Mãe das Sete Dores, Padroeira da Eslováquia,
veneram Nossa Senhora das Dores em tantos santuários do mundo.
Eles aprendem assim aquele amor difícil que não foge diante do
sofrimento, mas abandona-se confiadamente à ternura de Deus, para Quem
nada é impossível (cf. Lc 1, 37).
ORAÇÃO
Salve, Regina, Mater misericordiæ;
vita, dulcedo et spes nostra, salve.
Ad te clamamus...
illos tuos misericordes oculos ad nos converte
et Iesum, benedictum fructum ventris tui,
nobis post hoc exilium ostende.
Alcançai-nos a graça da fé, da esperança e da caridade,
para que, como Vós, também nós
saibamos perseverar junto da cruz
até ao último respiro.
Ao vosso Filho, Jesus, nosso Salvador,
com o Pai e o Espírito Santo,
toda a honra e glória pelos séculos dos séculos.
R. Amen.
Todos:
Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.
Fac me vere tecum flere,
Crucifixo condolere,
donec ego vixero.
DÉCIMA QUARTA
ESTAÇÃO
O CORPO DE JESUS É SEPULTADO
V. Adoramus te, Christe,
et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.
"Foi crucificado, morto
e sepultado..."
O corpo sem vida de Cristo foi depositado no sepulcro. Mas, a pedra sepulcral
não é o sigilo definitivo da sua obra.
A última palavra não pertence à falsidade, ao ódio
e à prepotência.
A última palavra será pronunciada pelo Amor, que é mais
forte do que a morte.
"Se o grão de
trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer,
dá muito fruto" (Jo 12, 24).
O sepulcro é a última etapa deste morrer de Cristo ao longo de
toda a sua vida terrena; é sinal do seu supremo sacrifício por
nós e pela nossa salvação.
Bem depressa, este sepulcro
tornar-se-á o primeiro anúncio de louvor e exaltação
do Filho de Deus na glória do Pai.
"Foi crucificado, morto e sepultado, (...) ao terceiro dia ressuscitou
dos mortos".
Com a deposição
do corpo sem vida de Jesus no sepulcro, aos pés do Gólgota, a
Igreja começa a vigília de Sábado Santo.
Maria guarda no fundo do seu coração e medita a paixão
do Filho;
as mulheres põem-se de acordo para, na manhã a seguir do sábado,
irem ungir com aromas o corpo de Cristo;
os discípulos recolhem-se, no esconderijo do Cenáculo, até
que passe o sábado.
Esta vigília terminará
com o encontro no sepulcro,
o sepulcro vazio do Salvador.
Então o sepulcro, testemunha muda da ressurreição, falará.
A pedra rolada, o interior vazio, as ligaduras por terra,
eis o que verá João, quando chegar ao sepulcro juntamente com
Pedro:
"Viu e acreditou" (Jo 20, 8).
E com ele acreditou a Igreja,
que, desde então, não se cansa de transmitir ao mundo esta verdade
fundamental da sua fé:
"Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram"
(1 Cor 15, 20).
O sepulcro vazio é
sinal da vitória definitiva
da verdade sobre a mentira,
do bem sobre o mal,
da misericórdia sobre o pecado,
da vida sobre a morte.
O sepulcro vazio é sinal da esperança que "não nos
deixa confundidos" (Rom 5, 5).
"A nossa esperança está cheia de imortalidade" (cf.
Sab 3, 4).
ORAÇÃO
Senhor Jesus Cristo,
que o Pai conduziu, pela força do Espírito Santo,
das trevas da morte
à luz duma vida nova na glória,
fazei que o sinal do sepulcro vazio
nos fale a nós e às gerações futuras
e se torne fonte de fé viva,
de caridade generosa
e de esperança inabalável.
Jesus, presença escondida e vitoriosa na história do mundo, a
Vós
honra e glória para sempre.
R. Amen.
Todos:
Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.
Quando corpus morietur,
fac ut animæ donetur
paradisi gloria. Ame.
O Santo Padre fala
aos presentes.
No final do discurso, o
Santo Padre dá a Bênção Apostólica:
V. Dominus vobiscum.
R. Et cum spiritu tuo.
V. Sit nomen Domini benedictum.
R. Ex hoc nunc et usque in sæculum.
V. Adiutorium nostrum in
nomine Domini.
R. Qui fecit cælum et terram.
V. Benedicat vos omnipotens
Deus,
Pater X et Filius X et Spiritus X Sanctus.
R. Amen