P U B L I C I D A D E
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Documentos Eclesiais

Capitulo 2
A promoção Humana

157. "Entre evangelização e promoção humana - desenvolvimento, libertação - existem de fato laços profundos: laços de ordem antropológica, dado que o homem que há de ser evangelizado não é um ser abstrato, mas é sim um ser condicionado pelo conjunto dos problemas sociais e econômicos; laços de ordem teológica, porque não se pode nunca dissociar o plano da Criação do plano da Redenção, um e outro a abrangerem as situações bem concretas da injustiça que há de ser combatida e da justiça a ser restaurada; laços da ordem eminentemente evangélica, qual seja a ordem da caridade: como se poderia, realmente, proclamar o mandamento novo sem promover na justiça e na paz o verdadeiro e o autêntico progresso do homem?" (EN 31).

O sentido último do compromisso da Igreja com a promoção humana, reiteradamente pregado em seu magistério social, está na firme convicção de que "a verdadeira união social externa decorre da união dos espíritos e dos corações, isto é, da fé e da caridade" (G.S. 42). "Com a mensagem evangélica, a Igreja oferece uma força libertadora e criadora do desenvolvimento, exatamente porque leva à conversão do coração e da mentalidade, faz reconhecer a dignidade de cada pessoa, predispõe à solidariedade, ao compromisso e ao serviço dos irmãos" (RMi 59), "mantendo sempre firme a prioridade das realidades transcendentais e espirituais, premissas da salvação escatológica" (RMi 20). Assim procedendo, a Igreja oferece a sua participação específica à promoção humana, dever de todos.

158. A doutrina social da Igreja é o ensinamento do Magistério em matéria social e contém princípios, critérios e orientações para a atuação do crente na tarefa de transformar o mundo segundo o projeto de Deus. O ensino do pensamento social da Igreja "faz parte da missão evangelizadora" (SRS 41) e tem "o valor de um instrumento de evangelização" (CA 54), porque ilumina a vivên-cia concreta de nossa fé.

2.1. A promoção humana, dimensão privilegiada da Nova Evangelização

159. Jesus ordenou a seus discípulos que distribuíssem o pão multi-plicado à multidão necessitada, de modo que "todos comeram e ficaram saciados" (cf. Mc 6,34-44). Curou ou os enfermos, passou a vida fazendo o bem (At 10,38) . No final dos tempos, nos julgará no amor (cf. Mt 25).

Jesus é o bom samaritano (Lc 10, 25-37) que encarna a caridade e não só se comove, mas se transforma em ajuda eficaz, sua ação é motivada pela dignidade de todo homem, cujo fundamento está em Jesus Cristo como Verbo criador (Jo 1,3), encarnado (cf. Jo 1,14). Como indicava a Gaudium et Spes: "O mistério do homem só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encar-nado. Com efeito, Adão o primeiro homem era figura daquele que haveria de vir, isto é, de Cristo Senhor. Novo Adão, na mesma revelação do mistério do Pai e de seu amor Cristo manifesta Plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação" (GS 22).

Dignidade que não se perdeu pela ferida do pecado, mas que foi exaltada pela compaixão de Deus, que se revela no coração de Jesus Cristo (cf. Mc 6,34). A solidariedade cristã é certamente serviço aos necessitados, mas é, sobretudo, fidelidade a Deus. Isto fundamenta a relação entre a evangelização e a promoção humana (EN 31).

160. Nossa fé no Deus de Jesus Cristo e o amor aos irmãos têm de traduzir-se em obras concretas. O seguimento de Cristo significa comprometer-se a viver segundo seu estilo. Esta preocupação de coerência entre a fé e a vida sempre esteve presente nas comuni-dades cristãs.

Já o apóstolo Tiago escrevia: "Meus irmãos, se alguém disser que tem fé, mas não tem obras, que lhe aproveitará isso? Acaso a fé poderá salvá-1o? Se um irmão ou uma irmã não tiverem o que vestir e lhes faltar o necessário para a subsistência de cada dia, e alguém dentre vós lhes disser: "Ide em paz, aque-cei-vos e saciai-vos", e não lhes der o necessário para a sua manutenção, que proveito haverá nisso? Assim também a fé, se não tiver obras, está morta em seu isolamento. Com efeito, como o corpo sem o sopro da vida é morto, assim também é morta a fé sem obras" (Tg 2,14-17.26).

161. A falta de coerência entre a fé que se professa e a vida cotidiano é uma das várias causas que geram pobreza em nossos países, porque os cristãos não souberam encontrar na fé a força neces-sária para penetrar os critérios e as decisões dos setores respon-sáveis pela liderança ideológica e pela organização da convivência social, econômica e política de nossos povos. "Em povos de arraigada fé cristã impuseram-se estruturas geradoras de injustiça" (P 437).

162. A promoção, como indica a Doutrina Social da Igreja, deve levar o homem e a mulher a passar de condições menos humanas para condições cada vez mais humanas, até chegar ao pleno conhecimento de Jesus Cristo (Populorum Progressio 14-L5). Em sua raiz, descobrimos, pois, que se trata de um verdadeiro canto à vida, de toda vida, desde o não-nascido até o abandonado.

163. Maria, a mulher solicita ante a necessidade surgida nas bodas de Caná, é modelo e figura da Igreja ante toda forma de neces-sidade humana (cf. Jo 2,3ss). À Igreja, assim como a Maria, Jesus lhe recomenda preocupar-se pelo cuidado maternal da humani-dade, sobretudo dos que sofrem (cf. Jo 19,26-27).

2.2. Os novos sinais dos tempos no campo da promoção humana

2.2.1. Direitos humanos

164. A igualdade entre os seres humanos em sua dignidade, por serem criados à imagem e semelhança de Deus, se afirma e aperfeiçoa em Cristo. Desde a Encarnação, ao assumir o Verbo nossa natureza e sobretudo sua ação redentora na cruz, mostra o valor de cada pessoa. Por isso mesmo Cristo, Deus e homem, é a fonte mais profunda que garante a dignidade da pessoa e de seus direitos. Toda violação dos direitos humanos contradiz o Plano de Deus e é pecado.

165. A Igreja, ao proclamar o evangelho, raiz profunda dos direitos humanos, não se arroga uma tarefa alheia à sua missão, mas, ao contrário, obedece ao mandato de Jesus Cristo ao fazer da ajuda ao necessitado um exigência essencial de sua missão evangelizadora. Os estados não conseguem estes direitos; a eles compete protege-los e desenvolve-los, pois pertencem por sua natureza ao homem

faltam nº 166, 167, 168, 169.

moral utilitarista e individualista. Postula a aceitação do princí-pio do destino universal dos bens da criação e a promoção da justiça e solidariedade como valores indispensáveis.
Linhas pastorais:

Os cristãos, como integrantes da sociedade, não estão isentos de responsabilidade em relação aos modelos de desenvolvimento, que provocaram os atuais desastres ambientais e sociais.

- Partindo das crianças e dos jovens, empreender uma tarefa de reeducarão de todos diante do valor da vida e da interde-pendência dos diversos ecossistemas.

- Cultivar uma espiritualidade que recupere o sentido de Deus, sempre presente na natureza. Explicitar a nova relação estabele-cida pelo mistério da encarnação, pela qual Cristo assumiu tudo o que foi criado.

- Valorizar a nova plataforma de diálogo que a crise ecológica criou, e questionar a riqueza e o desperdício.

- Aprender dos pobres a viver com sobriedade e a partilhar e valorizar a sabedoria dos povos indígenas no tocante à preserva-ção da natureza como ambiente de vida para todos.

170. - Aprofundar as mensagens do Santo Padre por ocasião da jornada mundial da paz, especialmente dentro de uma configu-ração de "ecologia humana".

- Levar os cristãos a assumir o diálogo com o Norte através dos canais da Igreja católica, assim como de outros movimentos ecológicos e ecumênicos.

- São Francisco de Assis, em seu amor aos pobres e à natureza, pode inspirar este caminho de reconciliação com a criação e com todos os homens entre si, caminho de justiça e de paz.

2.2.3. A terra: dom de Deus

171. Os cristãos não olham o universo, somente como natureza considerada em si mesma, mas como criação e primeiro dom do amor do Senhor por nós.

"De Iahweh é a terra e o que nela existe, o mundo e seus habitantes" (S1 24,1) é a afirmação de fé que percorre toda a Bíblia e confirma a crença de nossos povos de que a terra é o primeiro sinal da Aliança de Deus com o homem. De fato, a revelação bíblica nos ensina que, quando Deus criou o homem, o colocou no jardim do Éden para que o cultivasse e o cuidasse (Gn 2,15) e dele fizesse uso (Gn 2,16), indicando-lhe alguns limites (Gn 2,17) que recordariam sempre ao homem que Deus é o Senhor e criador, e dele é a terra e tudo que nela existe" e que ele a pode usar, não como dono absoluto, mas como adminis-trador.

Estes limites no uso da terra buscam preservar a justiça e o direito de todos de aceder aos bens da criação, que Deus destinou ao serviço de todo homem que vem a este mundo.

172. Em nosso continente deve-se considerar duas mentalidades opostas com relação à terra, ambas distintas da visão cristã:

a) A terra, dentro do conjunto de elementos que formam a comunidade indígena, é vida, é lugar sagrado, centro integrador de vida da comunidade. Nela vivem e com ela convivem, através dela se sentem em comunhão com seus antepassados e em har-monia com Deus; por isso mesmo a terra, sua terra, forma parte substancial de sua experiência religiosa de seu próprio projeto histórico. Nos indígenas existe um sentido natural de respeito pela terra; ela é a mãe terra, que alimenta a seus filhos, por isso há que cuidá-1a, pedir permissão para cultivá-1a e não matá-1a.

b) A visão mercantilista: considera a terra numa relação exclusiva com a exploração e o lucro, chegando até ao desalojamento e à expulsão de seus legítimos donos.

Esse mesmo mercantilismo leva à especulação do solo urbano, tornando a terra inacessível à habitação dos pobres, cada vez mais numerosos em nossas grandes cidades. Além dos tipos anteriores, não podemos esquecer a situação dos camponeses que trabalham sua terra e ganham o sustento de sua família com tecnologias tradicionais.

173. A mentalidade própria da visão cristã tem seu fundamento na Sagrada Escritura que considera sempre a terra e os elementos da natureza antes de tudo como aliados do povo de Deus e instrumentos de nossa salvação. A ressurreição de Jesus Cristo ressitua a humanidade, em face da missão de libertar toda a criação, que há de ser transformada em novo céu e em nova terra, onde a justiça tenha sua morada (cf. 2Pd 3,13).

Desafios pastorais

174. - Desafia-nos a situação problemática da terra na América Latina e no Caribe, já que "cinco séculos de presença do Evan-gelho... não instauraram ainda uma eqüitativa distribui o dos bens da terra", que "infelizmente ainda está nas mãos de uma minoria". Os antigos aborígenes foram, em geral, despojados de suas terras e os afro-americanos tiveram dificuldades por causa da legislação que dá acesso à propriedade da terra. Os atuais camponeses sofrem o peso da desordem institucional e as conse-qüências das crises econômicas.

- Nos últimos anos esta crise se fez sentir com mais força onde a modernização de nossas sociedades trouxe a expansão do comér-cio agrícola internacional, a crescente integração de países, o maior uso da tecnologia e a presença transnacional. Isto, não poucas vezes, favorece os setores econômicos fortes, mas à custa dos pequenos produtores e trabalhadores.

175. A situação da apropriação, administração e utilização da terra na América Latina e no Caribe é um dos apelos mais urgentes à Promoção Humana.

Linhas pastorais

176. - Promover transformação da mentalidade sobre o valor da terra com base na cosmovisão cristã, que se liga às tradições culturais dos setores pobres e camponeses.

- Recordar aos fiéis leigos que devem influir nas políticas agrá-rias dos governos (sobretudo nas de modernização) e nas orga-nizações de camponeses e indígenas, visando formas justas, mais comunitárias e participativas no uso da terra.

177.-Apoiar todas as pessoas e instituições que estão buscando seja da parte dos governos, seja dos que possuem os meios de produção, a criação de uma justa e humana reforma e política agrária, que legisle, programe e acompanhe uma distribuição mais justa da terra e sua utilização eficaz.

- Dar apoio solidário às organizações de camponeses e indígenas que lutam, por meios justos e legítimos, para conservar ou readquirir suas terras.

- Promover progressos técnicos indispensáveis para que a terra produza, tendo em conta também as condições do mercado, e para tanto, a necessidade de fomentar a consciência da impor-tância da tecnologia.

- Favorecer uma reflexão teológica em torno da problemática da terra, dando ênfase à inculturação e a uma presença efetiva dos agentes de pastoral nas comunidades de camponeses.

- Apoiar a organização de grupos intermédios, por exemplo, cooperativas, que sejam instância de defesa dos direitos huma-nos, de participação democrática e de educação comunitária.

2.2.4. Empobrecimento e solidariedade

178. Evangelizar é fazer o que Jesus Cristo fez, quando mostrou na sinagoga que veio para "evangelizar" os pobres (cf. Lc 4,18-19). Ele "se fez pobre, embora fosse rico, para nos enriquecer com sua pobreza" (2 Cor 8,9). Ele nos desafia a dar testemunho autêntico de pobreza evangélica em nosso estilo de vida e em nossas estruturas eclesiais, tal qual Ele fez.

Esta é a fundamentação que nos compromete numa opção evan-gélica e preferencial pelos pobres, firme e irrevogável, mas não exclusiva e nem excludente, tão solenemente afirmada nas Con-ferências de Medellín e Puebla. Sob a luz desta opção prefe-rencial, a exemplo de Jesus, nos inspiramos para toda ação evangelizadora comunitária e pessoal (cf. SRS 42; RM 14; João Paulo II, Santo Domingo, 16). Com o "potencial evangelizador dos pobres" (P 1147), a Igreja pobre quer impulsionar a evange-lização de nossas comunidades.

Descobrir nos rostos sofredores dos pobres o rosto do Senhor (Ml 25,31-46) é algo que desafia todos os cristãos a uma profunda conversão pessoal e eclesial. Na fé encontramos os rostos desfi-gurados pela fome, conseqüência da inflação, da dívida externa e das injustiças sociais; os rostos desiludidos pelos políticos que prometem, mas não cumprem; os rostos humilhados por causa de sua própria cultura, que não é respeitada, quando não despre-zada; os rostos angustiados dos menores abandonados que cami-nham por nossas ruas e dormem sob nossas pontes; os rostos sofridos das mulheres humilhadas e desprezadas; os rostos can-sados dos migrantes que não encontram digna acolhida; os rostos envelhecidos pelo tempo e pelo trabalho dos que não têm o mínimo para sobreviver dignamente (cf. CECAM, DT 163). O amor misericordioso é também voltar-se para os que se encon-tram em carência espiritual, moral, social e cultural.

Desafios pastorais

179.-O crescente empobrecimento a que estão submetidos milhões de irmãos nossos, que chega a intoleráveis extremos de miséria, é o mais devastador e humilhante flagelo que vive a América Latina e Caribe. Assim o denunciamos tanto em Medellín como em Puebla e hoje voltamos a fazê-1o com preocupação e angústia.

- As estatísticas mostram com eloqüência que na última década as situações de pobreza cresceram tanto em números absolutos como em relativos. A nós, pastores, comove-nos até as entranhas ver continuamente a multidão de homens e mulheres, crianças e jovens e anciãos que sofrem o insuportável peso da miséria assim como diversas formas de exclusão social, étnica e cultural; são pessoas humanas concretas e irredutíveis que vêem seus horizon-tes cada vez mais fechados e sua dignidade desconhecida.

- Vemos o empobrecimento de nosso povo não só como um fenômeno econômico e social, registrado e quantificado pelas ciências sociais. Nós o vemos dentro da experiência de muita gente com quem compartilhamos, como pastores, sua luta coti-diana pela vida.

- A política de corte neoliberal que predomina hoje na América Latina e no Caribe aprofunda ainda mais as conseqüências ne-gativas destes mecanismos. Ao desregular indiscriminadamente o mercado, eliminar partes importantes da legislação trabalhista e despedir empregados, ao reduzir os gastos sociais que prote-giam as famílias dos trabalhadores, foram aumentadas ainda mais as distâncias na sociedade.

- Temos de aumentar a lista dos rostos sofridos que já havíamos assinalado em Puebla (cf. P 31-39), todos eles desfigurados pela fome, aterrorizados pela violência, envelhecidos por condições de vida infra-humanas, angustiados pela sobrevivência familiar. O Senhor nos pede que saibamos descobrir seu próprio rosto nos rostos sofridos dos irmãos.

- Por outro lado, comprovamos com alegria os múltiplos esforços que diversos grupos e instituições da América Latina e do Caribe estão fazendo a fim de transformar esta realidade. A Igreja, chamada a ser cada vez mais fiel à sua opção preferencial pelos pobres, tem tido crescente participação nos mesmos. Damos graças a Deus por isto e convocamos a alargar o caminho já aberto, porque muito mais são os que ainda têm de caminhar por ele.

Linhas pastorais

180. - Assumir com decisão renovada a evangélica opção prefe-rencial pelos pobres, seguindo o exemplo e as palavras do Senhor Jesus, com plena confiança em Deus, austeridade de vida e partilha de bens.

- Privilegiar o serviço fraterno aos mais pobres entre os pobres e ajudar as instituições que cuidam deles: os deficientes, enfer-mos, idosos solitários, crianças abandonadas, presos, aidéticos e todos aqueles que requerem a proximidade misericordiosa do "bom samaritano".

- Corrigir atitudes e comportamentos pessoais e comunitários, bem como as estruturas e métodos pastorais, a fim de que não afastem os pobres, mas que propiciem a proximidade e a partilha com eles.

-Promover a participação social junto ao Estado, pleiteando leis que defendam os direitos dos pobres.

181. - Fazer de nossas paróquias um espaço para a solidariedade.

- Apoiar e estimular as organizações de economia solidária com as quais nossos povos tratam de responder às angustiantes situa-ções de pobreza.

- Urgir respostas dos Estados para as difíceis situações agrava-das pelo modelo econômico neoliberal, que afeta principalmente os mais pobres. Entre estas situações é importante destacar os milhões de latino-americanos que lutam para sobreviver na eco-nomia informal.

2.2.5. O trabalho

182. Uma das realidades que mais nos preocupa em nossa ação pastoral é o mundo do trabalho, por sua significação humaniza-dora e salvífica, que tem sua origem na vocação co-criadora do homem como "filho de Deus" (Gn 1,26) e que foi resgatado e elevado por Jesus, trabalhador e "filho de carpinteiro" (Ml 13,55 e Mc 6,3).

A Igreja como depositária e servidora da mensagem de Jesus, , sempre via o homem como sujeito que dignifica o trabalho realizando-se a si mesmo e aperfeiçoando a obra de Deus, para fazer dela um louvor ao Criador e um serviço aos irmãos.

O permanente ensino do magistério da Igreja sobre o trabalho como "chave da questão social" tem sido confirmado e desenvol-vido nas recentes encíclicas sociais de João Paulo II (LE; SRS; CA). E de modo especial sublinha "a dimensão subjetiva do trabalho" (LE 6) que é a expressão mais eloqüente da dignidade do trabalhador.

Desafios pastorais

183. - A realidade desafia uma cultura do trabalho e da solidarie-dade, partindo da fé em Deus Pai, que nos faz irmãos em Jesus Cristo. No que se refere ao mundo dos trabalhadores, alerta-se para uma deteriorização em suas condições de vida e no respeito aos seus direitos; um escasso ou nulo cumprimento de normas estabelecidas para os setores mais débeis (p.ex. crianças, aposen-tados...); uma perda de autonomia por parte das organizações de trabalhadores devido a dependências ou autodependências de diversos gêneros; abuso do capital que desconhece ou nega a primazia do trabalho; poucas ou nulas oportunidades de trabalho para os jovens. Alerta-se para a alarmante falta de trabalho ou desemprego com toda a insegurança econômica e social que isso implica. O mundo do trabalho reclama o crescimento da econo-mia e o aumento da produtividade, de modo a tornar possível, mediante uma justa e eqüitativa distribuição, o maior bem-estar do homem e de sua família.

184. Os direitos do trabalhador são um patrimônio moral da socie-dade que deve ser tutelado por uma adequada legislação social e sua necessária instância judicial, que assegure a continuidade confiável nas relações de trabalho.

Linhas pastorais

185. - Impulsionar e sustentar uma pastoral do trabalho em todas as nossas dioceses, a fim de promover e defender o valor humano do trabalho.

- Apoiar as organizações próprias dos homens do trabalho para a defesa de seus legítimos direitos, em especial de um salário suficiente e de uma justa proteção social para a velhice, a doença e o desemprego (cf. CA 34 e 35).

- Favorecer a formação de trabalhadores, empresários e gover-nantes em seus direitos e em seus deveres, e propiciar espaços de encontro e mútua colaboração.

2.2.6. A mobilidade humana

186. O Verbo de Deus se faz carne para reunir em um só povo os que andavam dispersos e para fazer deles cidadãos do céu (F1 3,20; Hb 11,13-16).

Assim o Filho de Deus se faz peregrino, passa pela experiência dos que não têm lugar (cf. Ml 2,13-23), como migrante radicado numa insignificante aldeia (cf. Jo 1,46). Educa a seus discípulos para serem missionários, fazendo-os passar pela experiência do que migra a fim de confiar somente no amor de Deus, de cuja boa nova são portadores (cf. Mc 6,6b-12).

Desafios pastorais

187. - Tem havido, nos últimos anos, um forte incremento da migração para os grandes países no Norte, e também- ainda que em menor escala - para outros países latino-americanos mais ricos. Surgem também fenômenos como a repatriação voluntária e a deportação dos que não obtêm visto de permanência. O auge das viagens e o turismo, e inclusive as peregrinações religiosas e dos que vivem do mar, interpelam a solicitude especial da Igreja. - Nos países com especiais problemas de migração por causas sócio-econômicas existe em geral ausência de medidas sociais para detê-1a; e nos países receptores, uma tendência a impedir seu ingresso.

Isto traz graves conseqüências de desintegração familiar e dispersão de forças produtivas em nossos povos, junto com o desenraizamento, a insegurança, a discriminação e a de-gradação moral e religiosa dos migrantes. Não obstante, em alguns casos, conseguem inserir-se em comunidades católicas e ainda as revitalizam.

Linhas pastorais:

188.-Reforçar a pastoral da mobilidade humana reunindo esforços entre dioceses e conferências episcopais das regiões afetadas, e cuidando que, na acolhida e demais serviços em favor dos mi-grantes, se respeitem suas riquezas espirituais e religiosas.

- Conscientizar os setores públicos sobre o problema das migra-ções, tendo em vista a eqüidade das leis sobre o trabalho e a seguridade social, e o cumprimento de convênios internacionais.

189.-Oferecer aos migrantes uma catequese adaptada a sua cultura e assessoria legal para proteger seus direitos.

- Apresentar alternativas aos camponeses para que não se sintam obrigados a migrar para a cidade.

2.2.7. A ordem democrática

190. - Cristo, o Senhor, enviado pelo Pai para a redenção do mundo, veio para anunciar a boa notícia e iniciar o Reino e, mediante a conversão das pessoas, obter uma nova vida segundo Deus e um novo tipo de convivência e relação social. À Igreja, fiel à missão que lhe outorgou seu fundador, corresponde constituir a comu-nidade dos filhos de Deus e ajudar na construção de uma socie-dade onde primam os valores cristãos evangélicos.

- A Igreja respeita a legítima autonomia da ordem temporal e não tem um modelo específico de regime político. "A Igreja encara com simpatia o sistema da democracia, à medida que assegura a participaçâo dos cidadãos nas opções políticas e garante aos governados a possibilidade quer de eleger e controlar os próprios governantes, quer de os substituir pacificamente, quando tal se torne oportuno" (CA 46).

- Durante os últimos anos deste processo, a Igreja tem desempe-nhado na América Latina um papel de protagonista. Em muitos países sua ação assentou as bases para uma convivência baseada no diálogo e no respeito à pessoa humana. Apoiada no magistério de sua doutrina social, a Igreja vem acompanhando o povo em suas lutas e anseios de uma maior participação e pelo estado de direito.

191.-A liberdade, inerente à pessoa humana e posta em relevo pela modernidade, vem sendo conquistada pelo povo em nosso con-tinente e tem possibilitado a instauração da democracia como o sistema de governo mais aceito, ainda que seu exercício seja mais formal que real.

Desafios pastorais

192. - A convivência democrática, que se afirmou depois de Puebla, em alguns países, vem-se deteriorando, entre outros fatores, pelos seguintes: corrupção administrativa, distanciamento das lideranças partidárias com relação aos interesses das bases e às reais necessidades da comunidade; vazios programáticos e desa-tenção do social e ético-cultural da parte das organizações par-tidárias; governos eleitos pelo povo que não se orientam eficaz-mente para o bem comum; muito clientelismo político e populismo, porém pouca participaçâo.

Linhas pastorais

193.-Proclamar insistentemente à sociedade civil os valores de uma genuína democracia pluralista, justa e participativa.

- Iluminar e animar o povo para um real protagonismo.

- Criar as condições para que os leigos se formem segundo a Doutrina Social da Igreja, em ordem a uma atuação política dirigida ao saneamento e ao aperfeiçoamento da democracia, e ao serviço efetivo da comunidade.

- Orientar a família, a escola e as diversas instâncias eclesiais, para que eduquem nos valores que fundam uma autêntica demo-cracia: responsabilidade, corresponsabilidade, participação, res-peito da dignidade das pessoas, diálogo, bem comum.

2.2.8. Nova ordem econômica

194. Consciente da gestação de uma nova ordem econômica mun-dial que afeta a América Latina, a Igreja a partir de sua perspec-tiva é obrigada a fazer um sério esforço de discernimento. Temos de nos perguntar: até onde deve chegar a liberdade de mercado? Ove características deve ter para que sirva ao desenvolvimento das grandes maiorias?

195. Segundo o recente ensinamento de João Paulo II (cf. CA), é licita a livre atividade dos indivíduos no mercado. Isto não significa que o mercado possa oferecer todos os bens que requer a sociedade nem que esta possa pagar muitos bens necessários. A economia de mercado deve ter em conta estes limites.

Por isso os ensinamentos do Santo Padre assinalam a necessidade de ações concretas dos poderes públicos para que a economia de mercado não se converta em algo absoluto ao qual se sacrifique tudo, acentuando a desigualdade e a marginalizado das grandes maiorias. Não pode haver uma economia de mercado criativa e ao mesmo tempo socialmente justa, sem um sólido compromisso de toda a sociedade e seus atores com a solidariedade através de um marco jurídico que assegure o valor da pessoa, a honra, o respeito à vida e a justiça distributiva, e a preocupação efetiva com os mais pobres.

196. Os ajustes econômicos, ainda que possam ser benéficos a longo prazo, ao frear a inflação e estabilizar a economia, costumam produzir uma grave deterioração do nível de vida dos pobres.

Por isso, o Estado é obrigado, na medida do possível, porém sincera e generosamente, a compensar os custos sociais dos mais pobres.

197. O problema da dívida externa não é só, nem principalmente, econômico, mas humano, porque leva a um empobrecimento cada vez maior e impede o desenvolvimento e retarda a promo-ção dos mais pobres. Perguntamo-nos por sua validade quando por seu pagamento a sobrevivência dos povos corre sério perigo, quando a população não foi consultada antes de contrair a dívida, e quando esta foi usada para fins nem sempre licitas. Por isso, como pastores, fazemos nossa a preocupação de João Paulo II quando afirma que "é necessário encontrar modalidades para mitigar, reescalonar ou até cancelar a dívida, compatíveis com o direito fundamental dos povos à subsistência e o progresso" (CA 35).

Desafios pastorais

198. - Os anos oitenta se caracterizaram pelo flagelo da inflação agravado pelo déficit fiscal, pelo peso da dívida externa e pela desordem monetária, pela destruição das economias estatais em razão da perda de recursos fiscais, da inflação e da corrupção, pela queda das inversões tanto nacionais quanto estrangeiras, entre outros fenômenos.

- A relação dos preços, em nível internacional, entre as matérias-primas e os produtos manufaturados, tornou-se cada vez mais desigual e discriminatória, afetando muito desfavoravelmente a economia de nossos países. Esta situação persiste e tende a se agravar.

199. - O empobrecimento e a agudização da brecha entre ricos e pobres golpeiam de modo grave as grandes maiorias de nossos povos devido à inflação, à redução dos salários reais e à falta de acesso a serviços básicos, ao desemprego e ao aumento da eco-nomia informal e da dependência científico-tecnológica.

- Difunde-se uma mentalidade e um estilo de vida consumiste e egoísta, amplamente divulgados pelos meios de comunicação social. Isto dificulta ou impede uma organização social mais justa e digna.

- Diante da crise de sistemas econômicos que conduziram a fracassos e frustrações, costuma apresentar-se como solução uma economia de livre mercado, assumida por não poucos sob o rótulo de neoliberalismo e com um alcance que vai além do puro campo econômico, e que parte de interpretações estreitas ou reducionistas da pessoa e da sociedade.

Linhas pastorais

200. - Robustecer o conhecimento, difusão e prática da Doutrina Social da Igreja nos distintos ambientes.

- Impulsionar nos diversos níveis e setores da Igreja uma pastoral social que parta da opção evangélica preferencial pelos pobres, atuando nas frentes do anúncio, da denúncia e do testemunho, promovendo iniciativas de cooperação, no contexto de uma economia de mercado.

- Educar nos valores da laboriosidade e da partilha, da honestidade e da austeridade, do sentido ético-religioso da vida, para que desde a família - primeira escola - se formem homens novos para uma sociedade mais fraterna, onde se viva a destinação universal dos bens em contexto de desenvolvimento integral.

201. - Assentar as bases de uma economia solidária, real e eficiente, sem esquecer a correspondente criação de modelos sócio-econômicos em nível local e nacional.

- Fomentar a busca e implementação de modelos sócio-econômicos que conjuguem a livre iniciativa, a criatividade de pessoas e grupos, a função moderadora do Estado, sem deixar de dar atenção especial aos setores mais necessitados. Tudo isto, orientado para a realização de uma economia da solidariedade e da participação, expressa em diversas formas de propriedade.

202. - Promover relações econômicas internacionais que facilitem a transferência da tecnologia em um ambiente de reciprocidade social.

- Denunciar os mecanismos da economia de mercado que prejudicam fundamentalmente os pobres. Não podemos estar ausentes numa hora na qual não há quem vele por seus interesses.

203. - Constatar que a economia informal obedece a uma necessi-dade de sobrevivência, ainda que seja susceptível de naufrágio em caso de enfermidades, inflação, etc.

- Recordar aos fiéis leigos que devem influir para que o Estado alcance uma maior estabilidade das políticas econômicas, elimi-ne a corrupção administrativa e aumente a descentralização administrativa, econômica e educacional.

- Reconhecer o papel fundamental da empresa, do mercado, da propriedade privada e da conseqüente responsabilidade para com os meios de produção, da criatividade humana, no marco jurídico de uma justiça social (CA 42).

2.2.9. Integração latino-americana

204. A experiência nos tem mostrado que nenhuma nação pode viver e desenvolver-se com solidez de maneira isolada. Todos sentimos a urgência de integrar o disperso e de unir esforços para que a interdependência se torne solidariedade e esta possa trans-formar-se em fraternidade. Por isto destacamos estes valores ao falar da realidade econômica e social do mundo e dos anseios de humanização nelas latentes.

Os cristãos encontram motivações muito profundas para continuar este esforço. Jesus Cristo tornou presente o Reino de Deus, um reino de justiça, de amor e de paz. Realizou a fraternidade de todos fazendo-se irmão nosso e ensinando-nos a nos reconhe-cermos como filhos de um mesmo Pai (cf. Mc 14,36). Ele mesmo nos chamou à unidade: "Que todos sejam um como Eu e o Pai somos um" (Jo 17,21).

A Igreja tem consciência de seu singular protagonismo e de seu papel orientador quanto à formação de uma mentalidade de pertença à humanidade e ao fomento de uma cultura solidária e de reconciliação.

205. A necessária interdependência das pessoas e das nações para uma autêntica solidariedade são características humanas. Tam-bém constatamos o dinamismo mundial das nações, que se asso-ciam, como sinal dos tempos, ainda na América Latina e Caribe.

206. João Paulo II tem insistido na necessidade de transformar as estruturas que não respondem às necessidades dos ovos e antes.

" P de tudo em que as nações mais fortes devem oferecer às mais débeis oportunidade de inserção na vida internacional" (CA 35). Ante o espetáculo de países cada vez mais ricos junto a outros cada vez mais pobres, expressou: "São necessárias soluções em nível mundial, instaurando uma verdadeira economia de comu-nhão e participação de bens, tanto na ordem internacional como nacional. A este respeito, um fato que pode contribuir notavel-mente para superar os problemas angustiantes que afetam hoje este continente é a integração latino-americana. É grave respon-sabilidade dos governantes favorecer o já iniciado processo de integração de alguns povos cuja mesma geografia, a fé cristã, a língua e a cultura uniram definitivamente no caminho da história (DI 15).

Desafios pastorais

207. - Experimentam-se um isolamento e uma fragmentação de nossas nações, ao mesmo tempo em que se incrementa uma globalização da economia planetária junto à formação e/ou re-formulação de grandes blocos.

208. - A formação de grandes blocos que ameaçam deixar isolado a todo o continente, enquanto não responde a seus interesses econômicos.

- Dá-se uma desintegração no interior de nossos países como efeito de discriminações raciais ou grupais e do predomínio econômico-politico-cultural de interesses particulares, que difi-cultam também uma abertura a espaços mais amplos.

- A própria falta de comunhão entre as Igrejas particulares de uma nação com as de outra, ou entre nações vizinhas do conti-nente, debilita a força integradora da própria Igreja.

Linhas pastorais

209. - Fomentar e acompanhar os esforços em prol da integração latino-americana como "pátria grande", partindo de uma perspectiva de solidariedade que exige, além disso, uma nova ordem mternacional.

- Promover a justiça e a participação no interior de nossas nações, educando nestes valores, denunciando situações que os contradizem e dando testemunho de relação fraterna. Animar iniciativas e fortalecer as estruturas e organismos de colaboração intra-eclesial que sejam necessários ou úteis, respeitando as diversas competência. Assumir neste sentido a suges-tão do Santo Padre relativa a um encontro dos Episcopados de todo o continente americano.

2.3. A Família e a Vida: desafios de especial urgência na Promoção Humana

2.3.1. A Família santuário da vida

210. A Igreja anuncia com alegria e convicção a Boa Nova sobre a família na qual se forja o futuro da humanidade e se concretiza a fronteira decisiva da Nova Evangelização. Assim o proclamamos, aqui na América Latina e no Caribe, num momento histórico em que a família é vítima de muitas forças que buscam destruí-1a ou deformá-1a.

É certo que o lugar mais indicado para falar da família é aquele em que se trata da Igreja particular, paróquia e comunidades eclesiais, uma vez que a família é a Igreja doméstica. Porém, por causa dos tremendos problemas que hoje afetam a vida humana, incluímos este tema na parte que trata da Promoção Humana. Evidentemente reconhecemos a diversidade de famílias rurais e urbanas, cada uma dentro de seu contexto cultural; mas em todas as partes a família é fermento e sinal do amor divino e da Igreja e, portanto, deve estar aberta ao plano de Deus.

211. O matrimônio e a família no projeto original de Deus são instituições de origem divina e não produtos da vontade humana. Quando o Senhor disse "no começo não foi assim" (Ml 19,8) se refere à verdade sobre o matrimônio, que, segundo o plano de Deus, exclui o divórcio.

212. O homem e a mulher, sendo imagem e semelhança de Deus (Gn 2,16), que é amor, são chamados a viver no matrimônio, o misté-rio da comunhão e relação trinitária. "Deus inscreve na pessoa humana a vocação e consequentemente a capacidade e a respon-sabilidade do amor e da comunhão" (FC 11). Homem e mulher são chamados ao amor na totalidade de seu corpo e espírito.

213. Jesus Cristo é a Nova Aliança, nele o matrimônio adquire sua verdadeira dimensão. Por sua Encarnação e por sua vida em família por Maria e José no lar de Nazaré se constitui um modelo de toda família. O amor dos esposos por Cristo chega a ser como o dele: total, exclusivo, fiel e fecundo. A partir de Cristo e por sua vontade, proclamada pelo Apóstolo, o matrimônio não só volta à perfeição primeira mas se enriquece com novos conteúdos (Ef 5,25-33). O matrimônio cristão é um sacramento em que o amor humano é santificante e comunica a vida divina por obra de Cristo; um sacramento em que os esposos significam e realizam o amor de Cristo e de sua Igreja, amor que passa pelo caminho da cruz, das limitações, do perdão e dos defeitos para chegar à alegria da ressurreição. É necessário ter presente que "entre batizados não pode haver contrato matrimonial válido, senão por esse mesmo sacramento" (CIC 1055,2).

214. No plano de Deus Criador e Redentor a família descobre não só sua identidade senão também sua missão: cuidar, revelar e comunicar o amor e a vida, através de quatro atos fundamentais (FC 17):

a) A missão da família é viver, crescer e aperfeiçoar-se como comunidade de pessoas que se caracteriza pela unidade e indissolubilidade. A família é o lugar privilegiado para a realização pessoal junto com os seres amados.

b) Ser "como o santuário da vida" (CA 39), serva da vida, já que o direito à vida é a base de todos os direitos humanos. Este serviço não se reduz só à procriação, é antes auxilio eficaz para transmitir e educar em valores autenticamente humanos e cristãos.

c) Ser "célula primeira e vital da sociedade" (FC 42). Por sua natureza e vocação, a família deve ser promotora do desenvolvimento, protagonista de uma autêntica política familiar.

d) Ser "Igreja doméstica" que acolhe, vive, celebra e anuncia a Palavra de Deus, é santuário onde se edifica a santidade e a partir de onde a Igreja e o mundo podem ser santificados (FC 55).

Não obstante as graves crises da família, constatamos que muitas famílias latino-americanas e do Caribe se esforçam e vivem cheias de esperança e com fidelidade o projeto de Deus Criador e Redentor, a fidelidade, a abertura à vida, a educação cristã dos filhos e o compromisso com a Igreja e o mundo.

215. Deus é o Senhor da vida. A vida é dom seu. O homem não é, nem pode ser árbitro ou dono da vida. O filho deve ser responsavelmente acolhido na família como dom preciosíssimo e irrepetível de Deus. A criança, concebida, não nascida é o ser mais pobre, vulnerável e indefeso que se há de defender e tutelar. Vê-se hoje, com maior clareza, a relação tão estreita, subjetiva e objetiva entre anticoncepção e aborto. Separa-se de modo drástico o significado unitivo do procriativo no ato conjugal, o que vem a ser traição do próprio sentido da vida.

2.3.2 Os desafios da família e à vida hoje

216. A mudança histórico-cultural tem causado impacto na imagem tradicional da família. Cada vez são mais numerosas as uniões consensuais livres, os divórcios e os abortos. A novidade é que estes problemas familiares se tornaram um problema de ordem ético-Política, e uma mentalidade "laicizante" e os meios de comunicação social têm contribuído para isto.

217. Com demasiada freqüência, se desconhece que o matrimônio e a família são um projeto de Deus, que convida o homem e a mulher criados por amor a realizar seu projeto de amor em fidelidade até a morte, devido ao secularismo reinante, à imaturidade psicológica e a causas sócio-econônicas e políticas, que levam a quebrantar os valores morais e éticos da família. Disso resultam a dolorosa realidade de famílias incompletas, casais em situação irregular e o crescente matrimônio civil sem celebração sacramental e uniões consensuais.

218. Um número crescente de famílias da América Latina e do Caribe interpela governos, sociedade e organismos internacionais, partindo de sua situa o de miséria e fome em razão do desemprego, da carência da vida digna, de serviços educativos e sanitários, de salários baixos; a partir do abandono das idosos e do crescente número de mães solteiras.

219. A cultura da morte nos desafia. Com tristeza humana e preocupação cristã, somos testemunhas das campanhas antivida, que se difundem na América Latina e no Caribe, perturbando a mentalidade do nosso povo com uma cultura da morte. O egoísmo, o medo ao sacrifício e à cruz unidos às dificuldades da vida moderna geram uma rejeição do filho que não é responsável e alegremente acolhido na família, mas considerado como um agressor. Atemorizam-se as pessoas com um verdadeiro "terrorismo demográfico" que exagera o perigo que pode representar o crescimento da população &ente à qualidade de vida.

Existe uma distribuição massiva de anticoncepcionais, em sua grande maioria abortivos. Imensos setores de mulheres são vítimas de programas de esterilizações massivas. Também os homens sucumbem ante estas ameaças. Nosso continente sofre as causa do "imperialismo contraceptivo, que consiste em impor a povos e culturas toda forma de contracepção, esterilização e aborto, que se considera efetiva sem respeito às tradições religio-sas, étnicas e familiares de um povo ou cultura" (Carta da Santa Sé à Reunião da OMS em Bangcoc).

Cada dia é maior o massacre do aborto que produz milhões de vítimas em nossos povos latino-americanos. A mentalidade antivida, além da eutanásia pré-natal, leva à eliminação de crianças recém-nascidas e dos anciãos e enfermos estimados como inú-teis, defeituosos, ou "carga" para a sociedade. Outras expressões de anticultura da morte são a eutanásia, a guerra, a guerrilha, o seqüestro, o terrorismo, o narcotráfico.

220. Os cristãos fiéis se sentem perplexos ante as contradições e falta de coerência dos agentes de pastoral familiar, quando não se-guem o Magistério da Igreja (Humanae vitae; Familiaris consortio; Reconciliatio et poenitentia).

221. A América Latina e o Caribe têm uma população infantil crescente. As crianças, adolescentes e jovens são mais da metade da população do continente (55%). Esta "emergência silenciosa" vivida pela América Latina e Caribe é desafiante não só do ponto de vista numérico mas muito especialmente do ponto de vista humano e pastoral. Com efeito, em muitas cidades têm aumen-tado os "meninos de rua" que perambulam dia e noite sem lugar nem futuro. Em alguns países têm sido vítimas de campanhas de extermínio, realizadas por organismos policiais e privados; crian-ças sem família, sem amor, sem acesso à educação, isto é, crianças em extrema miséria física e moral, muitas vezes conseqüência da desintegração familiar. Detecta-se, inclusive, um aberrante co-mércio de meninos e meninas, tráfico de órgãos e até utilização de crianças em cultos satânicos. Do ponto de vista da educação da fé, se percebe um forte descuido quanto à recepção de sacra-mentos e à catequese.

2.3.3. Linhas pastorais

222. 1. Enfatizar a prioridade e centralidade da pastoral familiar na Igreja diocesana. Para isto é necessário capacitar agentes. Os movimentos apostólicos que têm por objetivo o matrimônio e a família podem oferecer apreciável cooperação às Igrejas parti-culares, dentro de um plano orgânico integral.

- A pastoral familiar não pode limitar-se a uma atitude meramen-te protetora, deve ser provisora, audaz e positiva. Há de discernir com sabedoria evangélica os desafios que as mudanças culturais apresentam à família. Há de denunciar as violações contra a justiça e a dignidade da família. Ha de acompanhar às famílias dos setores mais pobres, rurais e urbanos, promovendo a solidariedade.

- A pastoral familiar há de cuidar da formação dos futuros esposos e o acompanhamento dos cônjuges, sobretudo, nos pri-meiro anos de sua vida matrimonial. Como preparação imediata têm reconhecido valor os cursos para noivos antes da celebração sacramental.

223. 2. Proclamar que Deus é o único Senhor da vida, que o homem não é, nem pode ser amo ou árbitro da vida humana. Condenar e rejeitar qualquer violação exercida por autoridades em favor da anticoncepção, a eutanásia, a esterilização e o aborto provo-cado. Igualmente, as políticas de alguns governos e organismos internacionais que condicionam a ajuda econômica aos progra-mas contra a vida.

224. Buscar, seguindo o exemplo do Bom Pastor, caminhos e formas para conseguir uma pastoral orientada a casais em situações irregulares, especialmente os divorciados e pessoas que de novo se casaram civilmente.

225. Fortalecer a vida da Igreja e da sociedade a partir da família: enriquecê-1a a partir da catequese familiar, a oração no lar, a Eucaristia, a participação no sacramento da Reconciliação, o conhecimento da Palavra de Deus, para ser fermento na Igreja e na sociedade.

226. 3. Convidar os teólogos, cientistas e casais cristãos a colaborar com o magistério hierárquico para iluminar melhor os fundamen-tos bíblicos, as motivações éticas e as razões científicas para a paternidade responsável, para a decisão livre, de acordo com uma consciência bem formada, segundo os princípios da moral, q to no que tange ao número de filhos que se pode educar, quanto aos métodos segundo uma autêntica paternidade respon-sável. O fruto desses trabalhos será a promoção de programas e serviços que difundem os métodos naturais de planejamento e elaborem manuais de educação para a sexualidade e o amor, dirigidos a crianças, adolescentes e jovens.

- Ante os equívocos de alguns programas "demográficos", temos de recordar as palavras do Papa no seu Discurso inaugural dessa Conferência: "O que é preciso é aumentar os meios e distribuir com maior justiça a riqueza, para que todos possam participar eqüitativamente dos bens da criação" (n. 15).

227. 4. Exercer o ministério profético da Igreja: denunciando toda violação contra as crianças nascidas e não-nascidas. Difundir e exigir o cumprimento da "convenção dos direitos da criança" com as observações da Santa Sé, e ainda a carta da Santa Sé sobre os direitos da família.

Orientar os leigos para que promovam nos diversos países legislações que tutelem os direitos das crianças e urgir seu cumprimento. Acompanhar e apoiar efetivamente os pais de família, educadores, catequistas e institutos religiosos que se dedicam à educação da infância, prestando especial atenção ao crescimento na fé. Fomentar a mística pelo trabalho a favor das crianças e promover a pastoral da infância, através de ações proféticas e caritativas que testemunhem o amor de Cristo pelas crianças mais pobres e abandonadas.

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