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Documentos eclesiais Segunda
Parte O Santo Padre nos convocou para comprometer a Igreja da América latina e do Caribe numa Nova Evangelização e "traçar agora, para os próximos anos, uma nova estratégia evangelizado-ra, um plano global de evangelização" (DCAL, nº 4). Queremos apresentar alguns elementos que nos servirão de base para concretizar estas orientações nas Igrejas locais do Continen-te. A partir da Nova Evangelização, "o elemento englobante" ou "idéia central" que iluminou nossa Conferência, entenderemos, em sua verdadeira dimensão, a Promoção Humana, resposta à "delicada e difícil situação em que se encontram os países latino-americanos" (Carta do Cardeal Gantin, 12-12-90) e enfocaremos o desafio do diálogo entre o Evangelho e os distintos elementos que conformam nossas culturas para purificá-las e aperfeiçoá-las desde dentro, com o ensinamento e o exemplo de Jesus, até chegar a uma cultura crista.
Esta situação nova traz consigo também novos valores, a ânsia da solidariedade, de justiça, a busca religiosa e a superação de ideologias totalizantes. Destinatários da Nova Evangelização são também as classes médias, os grupos, as populações, os ambientes de vida e de trabalho, marcados pela ciência, pela técnica e pelos meios de comunicação social. A Nova Evangelização tem a tarefa de suscitar a adesão pessoal a Jesus Cristo e à Igreja de tantos homens e mulheres batizados que vivem sem energia o cristianismo, "tendo perdido o sentido vivo da fé, inclusive já não se reconhecendo como membros da Igreja e levando uma existência distanciada de Cristo e de seu Evangelho" (RMi, 33). 27. O conteúdo da Nova Evangelização é Jesus Cristo, Evangelho do Pai, que anunciou com gestos e palavras que Deus é miseri-cordioso para com todas as suas criaturas, que ama o homem com um amor sem limites e que quis entrar na sua história por meio de Jesus Cristo, morto e ressuscitado por nós, para libertar-nos do pecado e de todas as suas conseqüências e para fazer-nos participar de sua vida divina (c£ João Paulo II, Homilia em Veracruz, México, 7.5.90). Em Cristo tudo adquire sentido. Ele rompe o horizonte estreito em que o secularismo encerra o homem, devolve-lhe a verdade e dignidade de Filho de Deus e não permite que nenhuma realidade temporal, nem os estados nem a economia nem a técnica se convertam para os homens na realidade última a que devam submeter-se. Nas palavras de Paulo VI, evangelizar é anunciar "o nome, a doutrina, a vida, as pro-messas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus" (EN 22). Esta Evangelização terá força renovadora na fidelidade à Palavra de Deus, seu lugar de acolhida na comunidade eclesial, seu alento criador no Espírito Santo, que cria a unidade na diversidade, alimenta a riqueza carismática e ministerial, e se projeta ao mundo mediante o compromisso missionário. 28. Como deve ser esta Nova Evangelização? O Papa nos respon-deu: nova em seu ardor, em seus métodos e em sua expressão. Nova em seu ardor. Jesus Cristo nos chama a renovar nosso ardor apostólico. Para isso envia o seu Espírito que inflama hoje o coração da Igreja. O ardor apostólico da Nova Evangelização brota de uma radical conformação com Jesus Cristo, o primeiro evangelizador. Assim o melhor evangelizador é o santo, o homem das bem-aventuranças (RMi 90-91). Uma evangelização nova em seu ardor supõe uma fé sólida, uma caridade pastoral intensa e uma forte fidelidade que, sob a ação do Espírito, gere uma mística, um entusiasmo incontido na tarefa de anunciar o Evan-gelho e capaz de despertar a credibilidade para acolher a Boa Nova da Salvação. 29. Nova em seus métodos. Novas situações exigem novos caminhos para a evangelização. O testemunho e o encontro pessoal, a presença do cristão em todo o humano, assim como a confiança no anúncio salvador de Jesus (querigma) e na atividade do Espírito Santo, não podem faltar. F necessário empregar, sob a ação do Espírito criador, a imagi-nação e a criatividade para que, de maneira pedagógica e con-vincente, o Evangelho chegue a todos. Já que vivemos numa cultura da imagem, devemos ser audazes para utilizar os meios que a técnica e a ciência nos proporcionam, sem jamais depositar neles toda a nossa confiança. Por outro lado, é necessário utilizar aqueles meios que façam chegar o Evangelho ao centro da pessoa e da sociedade, às raízes mesmas da cultura, "não de uma maneira decorativa, como um verniz superficial" (EN 20). 30. Nova em sua expressão. Jesus Cristo nos pede proclamar a Boa Nova com uma linguagem que torne o Evangelho de sempre mais próximo das novas realidades culturais de hoje. A partir da riqueza inesgotável de Cristo, se hão de buscar as novas expres-sões que permitam evangelizar os ambientes marcados pela cul-tura urbana e inculturar o Evangelho nas formas de cultura adveniente. A Nova Evangelização tem que inculturar-se mais no modo de ser e de viver de nossas culturas, levando em conta as particularidades das diversas culturas, especialmente as indíge-nas e afro-americanas. (Urge aprender a falar segundo a menta-lidade e cultura dos ouvintes, de acordo com suas formas de comunicação e os meios em uso). Assim a Nova Evangelização continuará na linha da encarnação do Verbo. A Nova Evangeli-zação exige a conversão pastoral da Igreja. Tal conversão deve ser coerente com o concílio. Ela diz respeito a tudo e a todos: na consciência e na práxis pessoal e comunitária, nas rela es de igualdade e de autoridade; com estruturas e dinamismo que tornem a Igreja presente com cada vez mais clareza, enquanto sinal eficaz, sacramento de salvação universal. 1.1. A Igreja convocada à santidade Iluminação doutrinal 31. Durante nossa IV Conferência estivemos, como Maria, à escuta da Palavra, para comunicá-1a a nossos povos. Sentimos que o Senhor Jesus repetia o chamamento a uma vida santa (c£ Ef l, fundamento de toda nossa ação missionária. A Igreja, como mistério de unidade, encontra sua fonte em Jesus Cristo. Só n'Ele pode dar os frutos de santidade que Deus espera dela. Só participando de seu Espírito pode transmitir aos homens a autêntica Palavra de Deus. Somente a santidade de vida alimen-ta e orienta uma verdadeira promoção humana e cultura cristã. Só com Ele, por Ele e n'Ele se pode dar a Deus, Pai onipotente, a honra e a glória pelos séculos dos séculos. Chamado à santidade 32. A Igreja é comunidade santa (cf. 1Pd 2,9), em primeiro lugar, pela presença nela do Cordeiro que a santifica por seu Espírito (cf. Ap 21,22s; 22,1-5; Ef 1,18; lCor 3,16; 6,19; LG 4). Por isso, seus membros devem esforçar-se cada dia por viver, no segui-mento de Jesus e em obediência ao Espírito, "como santos e imaculados em sua presença pelo amor" (Et 1,4). Estes são os homens e mulheres novos de que a América Latina e o Caribe necessitam: os que escutaram com coração bom e reto (cf. Lc 8, 15) o chamado à conversão (cf. Mc 1,15) e renasceram pelo Espírito Santo segundo a imagem perfeita de Deus (cf. Cl 1,15; Rm 8,29), chamam a Deus "Pai" e expressam seu amor a Ele no reconhecimento de seus irmãos (cf. P 327). São bem-aventurados porque participam da alegria do Reino dos céus. São livres com a liberdade que dá a Verdade e solidários com todos os homens, especialmente com os que mais sofrem. A Igreja alcançou na Santíssima Virgem a perfeição em virtude da qual não tem mancha nem ruga. A santidade "é a chave do ardor renovado da Nova Evangelização" (João Paulo II, Homilia em Salto, Uruguai, 09-O5-88, 4). Convocada pela Palavra 33. A Igreja, comunidade santa, convocada pela Palavra, tem como uma de suas principais tarefas a de pregar o Evangelho (cf. LG 25). Os Bispos das Igrejas particulares que peregrinam na Amé-rica Latina e no Caribe e todos os participantes reunidos em Santo Domingo, queremos assumir com o renovado ardor que os tempos exigem, o chamado que o Papa, sucessor de Pedro, nos tem feito para empreender uma Nova Evangelização, muito conscientes de que evangelizar é necessariamente anunciar com alegria o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o Reino e o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus (cf. EN 22). Querigma e catequese. A partir da situação generalizada de muitos batizados na América Latina, que não deram sua adesão pessoal a Jesus Cristo pela conversão primeira, se impõe, no ministério profético da Igreja, de modo prioritário e fundamen-tal, a proclamação vigorosa do anúncio de Jesus morto e ressus-citado (querigma, cf. RMi 44), "raiz de toda a Evangelização, fundamento de toda promoção humana e princípio de toda autêntica cultura crista" (DI 25). Este ministério profético da Igreja compreende também a cate-quese que, atualizando incessantemente a revelação amorosa de Deus manifestada em Jesus Cristo, leva a fé inicial à sua maturi-dade e educa o verdadeiro discípulo de Jesus Cristo (cf. CT 19). Ela deve nutrir-se da Palavra de Deus, lida e interpretada na Igreja e celebrada na comunidade, para que, ao esquadrinhar o mistério de Cristo, ajude a apresentá-lo como Boa Nova nas situações históricas de nossos povos. Igualmente pertence ao ministério profético da Igreja o serviço que os teólogos prestam ao povo de Deus (cf. DI 7). Sua tarefa, enraizada na Palavra de Deus, realizada no diálogo aberto com os pastores, em plena fidelidade ao magistério, é nobre e neces-sária. Seu trabalho, assim realizado, pode contribuir para a inculturação da fé e a evangelização das culturas, como também para nutrir uma teologia que impulsione a pastoral, que promova a vida cristã integral, até a busca da santidade. Um trabalho teoló-gico assim compreendido impulsiona a ação em favor da justiça social, dos direitos humanos e da solidariedade com os mais pobres. Não esquecemos, sem embargo, que a função profética de Cristo é participada por todo o "povo santo de Deus" e que este a exerce, em primeiro lugar, "difundindo seu testemunho vivo sobretudo com a vida de fé e caridade" (LG 12). O testemunho doe vida crista é a primeira e insubstituível forma de evange-lização, como o fez presente vigorosamente Jesus em várias ocasiões (cf. Mt 7, 21-23; 25, 31-46; Lc 10, 37; 19, 1-10) e o ensinaram também os apóstolos (c£ Tg 2, 14-18). Celebração litúrgica 34. A Igreja santa encontra o sentido último de sua convocação na vida de oração, louvor e ação de graças que o céu e a terra dirigem a Deus por "suas obras grandes e maravilhosas" (Ap 15,3s; 7, 9-17). Esta é a razão pela qual a liturgia "é o cume ao qual tende a atividade da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte de onde emana a sua força" (SC 10). A liturgia é a ação do Cristo total, Cabeça e membros, e, como tal, deve expressar o sentido mais profundo de sua oblação ao Pai pelos homens. Assim como a celebração da Última Ceia está essencialmente unida à vida e ao sacrifício de Cristo na Cruz e o faz cotidianamente presente pela salvação de todos os homens, assim também, os que louvam a Deus reunidos em torno do Cordeiro, são os que mostram em suas vidas os sinais testemunhais da entrega de Jesus (cf. Ap 7,13s . Por isso, o culto cristão deve expressar a dupla vertente da obediência ao Pai (glorificação) e da caridade com os irmãos (redenção), pois a glória de Deus é que o homem viva. Com o qual longe de alienar aos homens, os liberta e os faz irmãos. 35. O serviço litúrgico, assim realizado na Igreja, tem, por si mesmo, um valor evangelizador que a Nova Evangelização deve situar em lugar de grande destaque. Na liturgia se faz presente hoje Cristo Salvador. A liturgia é o anúncio e realização (cf. SC 6) dos feitos salvíficos que nos chegam a tocar sacramentalmente; por isso, convoca, celebra e envia. É exercício da fé, útil tanto para quem tem uma fé robusta como para quem tem fé débil, e inclusive para o não-crente (cf. 1Cor 14,24-25). Sustenta o compromisso com a promoção humana, enquanto orienta os fiéis a assumir sua res-ponsabilidade na construção do Reino, "para que se ponha de manifesto que os fiéis cristãos, sem ser deste mundo, são a luz do mundo" (SC 9). A celebração não pode ser algo separado ou paralelo à vida (c£ 1Pd 1,15). por último, é especialmente pela liturgia que o Evangelho penetra no coração mesmo das culturas. Toda a cerimônia litúrgica de cada sacramento tem também um valor pedagógico; a linguagem dos signos é o melhor veículo para que "a mensagem de Cristo penetre nas consciências das pessoas e (daí) se projete no ethos de um povo, em suas atitudes vitais, em suas instituições e em todas as suas estruturas" (DI 20 e; cf. João Paulo II, Disc. aos intelectuais, Medellín, O5-07-86, 2). Por isto as formas da celebração litúrgica devem ser aptas para expressar o mistério que se celebra e, por sua vez, ser claras e inteligíveis para os homens e mulheres ( João Paulo II, Discurso à UNESCO, 02-06-80, 6). Religiosidade popular 36. A religiosidade popular é uma expressão privilegiada da incul-turação da fé. Não se trata só de expressões religiosas mas também de valores, critérios, condutas e atitudes que nascem do dogma católico e constituem a sabedoria de nosso povo, forman-do-lhe a matriz cultural. Esta celebração da fé, tão importante na vida da Igreja da América Latina e do Caribe, está presente em nossa preocupação pastoral. As palavras de Paulo VI (EN 48), recebidas e desenvolvidas pela Conferência de Puebla, em pro-postas claras, são ainda hoje válidas (cf. Puebla, nº 444s). É necessário que reafirmemos nosso propósito de continuar os esforços por compreender cada vez melhor e acompanhar com atitudes pastorais, as maneiras de sentir e viver, compreender e expressar o mistério de Deus e de Cristo por parte de nossos povos, para que purificadas de suas possíveis limitações e desvios cheguem a encontrar seu lugar próprio em nossas Igrejas locais e em sua ação pastoral. Contemplação e compromisso 37. Queremos concluir estas palavras acerca da Igreja como mistério de comunhão que se realiza plenamente na santidade de seus membros, recordando e agradecendo a Deus a vida contem-plativa e monástica presente hoje na América Latina. A santida-de, que é desenvolvimento da vida de fé, de esperança e de caridade, recebida no batismo, busca a contemplação do Deus que ama e de Jesus Cristo, seu Filho. A oração profética não se entende, nem é verdadeira e autêntica, senão a partir de um real e amoroso encontro com Deus que atrai irresistivelmente (cf. Am 3,8; Jr 20,7-9; Os 2,16s). Sem uma capacidade de contemplação, a liturgia, que é acesso a Deus através de sinais, se converte em ação carente de profundidade. Agradecemos a Deus a presença de homens e mulheres consagrados à contemplação em uma vida segundo os conselhos evangélicos. São um sinal vivo da santidade de todo o povo de Deus e um chamado poderoso a todos os cristãos a crescer na oração, como expressão de fé ardente e comprometida, de amor fiel que contempla a Deus em sua vida íntima Trinitária e em sua ação salvífica na história, e de inque-brantável esperança naquele que há de voltar para introduzir-nos na glória de seu Pai, que é também nosso Pai (cf. Jo 20,17). Desafios pastorais 38. As considerações acima acerca da santidade da Igreja, de seu caráter profético e de sua vocação celebrativa, levam-nos a reco-nhecer alguns desafios que nos parecem fundamentais, aos quais é preciso responder para que a Igreja seja na América Latina e no Caribe plenamente o mistério da comunhão dos homens com Deus e entre si. Na Igreja se multiplicam os grupos de oração, os movimentos apostólicos, formas novas de vida e de espiritualidade contem-plativa, além de diversas expressões da religiosidade popular. Muitos leigos tomam consciência de sua responsabilidade pasto-ral em suas diversas formas. Cresce o interesse pela Bíblia, que exige uma pastoral bíblica adequada que dê aos fiéis leigos critérios para responder às insinuações de uma interpretação fundamentalista ou a um afastamento da vida na Igreja para refugiar-se nas seitas. 39. Entre nós, católicos, o desconhecimento da verdade sobre Jesus Cristo e das verdades fundamentais da fé é um fato muito freqüente e, em alguns casos, essa ignorância está vinculada a uma perda do sentido do pecado. Freqüentemente a religiosidade popular, apesar de seus imensos valores, não está purificada de elementos alheios à autêntica fé cristã, nem leva sempre à adesão pessoal a Cristo morto e ressuscitado. 40. Pregamos pouco a respeito do Espírito que atua nos corações e os converte, fazendo assim possível a santidade, o desenvolvi-mento das virtudes e o vigor para tomar, a cada dia, a cruz de Cristo (cf. Ml 10,38; 16,24). 41. Tudo isto nos obriga a insistir na importância do primeiro anúncio (querigma) e na catequese. Damos graças a Deus pelos esforços de tantas e tantos catequistas que cumprem seu serviço eclesial com sacrifício, selado, às vezes, com suas vidas. Contudo, devemos reconhecer como pastores que ainda há muito por fazer. Existe ainda muita ignorância religiosa, a catequese não chega a todos e muitas vezes chega em forma superficial, incom-pleta quanto a seus conteúdos, ou puramente intelectual, sem força para transformar a vida das pessoas e de seus ambientes. 42. É notória a perda da prática da "direção espiritual", que seria muito necessária para a formação dos leigos mais comprometi-dos, além de ser condição para que amadureçam vocações sacer-dotais e religiosas. 43. Quanto à liturgia muito resta a ser feito tanto para assimilar em nossas celebrações a renovação litúrgica desencadeada pelo Concílio Vaticano II, como para ajudar os fiéis a fazer da cele-bração eucarística a expressão de seu compromisso pessoal e comunitário com o Senhor. Ainda não se alcançou plena consci-ência do que significa a centralidade da liturgia como fonte e cume da vida eclesial. Perdeu-se para muitos o sentido do "dia do senhor" e da conseqüente exigência eucarística. Persiste a pouca participação da comunidade cristã, e surge quem queira se apropriar da liturgia sem considerar seu verdadeiro sentido eclesial. Descuidou-se da séria e permanente formação litúrgica segundo as instruções e documentos do magistério (cf. Carta apostólica Vicesimus quintos annus, 4), em todos os níveis. Ainda não se dá atenção ao processo de uma sã inculturação da liturgia. Isto faz com que as celebrações sejam ainda, para muitos, algo ritualista e privado a ponto de não se fazerem conscientes da presença transformadora de Cristo e de seu Espírito nem de traduzirem-na em um compromisso solidário para a trans-formação do mundo. 44. A conseqüência de tudo isto é uma falta de coerência entre a fé e a vida em muitos católicos, incluídos, às vezes, nós mesmos ou alguns de nossos agentes pastorais. A falta de formação doutrinal e de profundidade na vida de fé faz de muitos católicos presa fácil do secularismo, do hedonismo e do consumismo que invadem a cultura moderna e, em todo caso, os incapacita de evangelizá-la. Linhas pastorais 45. A Nova Evangelização exige uma renovada espiritualidade que, iluminada pela fé que se proclama, anime, com a sabedoria de Deus, a autêntica promoção humana e seja o fermento de uma cultura cristã. Pensamos que é preciso continuar a acentuar a formação doutrinal e espiritual dos fiéis cristãos, e, em primeiro lugar, do clero, religiosos e religiosas, catequistas e agentes pastorais, destacando claramente a primazia da graça de Deus que salva por Jesus Cristo na Igreja, por meio da caridade vivida e através da eficácia dos sacramentos. 46. É preciso anunciar de tal maneira a Jesus que o encontro com Ele leve ao reconhecimento do pecado na própria vida e à conversão, em uma experiência profunda da graça do Espírito recebido no batismo e na confirmação. Isto supõe uma revalorização do sacramento da penitência, cuja pastoral deveria prolon-gar-se na direção espiritual de quem mostra maturidade suficiente para aproveitá-la. 47. Devemos zelar para que todos os membros do povo de Deus assumam a dimensão contemplativa de sua consagração batismal e "aprendam a orar", imitando o exemplo de Jesus Cristo (cf. Lc 11,1), de maneira que a oração esteja sempre integrada com a missão apostólica da comunidade cristã e do mundo. Diante de muitos - inclusive cristãos - que buscam, em práticas alheias ao cristianismo, respostas às suas ânsias de vida interior, devemos saber oferecer a rica doutrina e a larga experiência que tem a Igreja. 48. Uma tal evangelização de Cristo e de sua vida divina em nós deve mostrar a exigência iniludível de acomodar a conduta ao modelo que Ele nos oferece. A coerência da vida dos cristãos com sua fé é condição da eficácia da Nova Evangelização. Para isso é neces-sário conhecer bem as situações concretas vividas pelo homem contemporâneo para oferecer-lhe a fé como elemento ilumina-dor. Isto supõe também uma clara pregação da moral crista que abrange tanto a conduta pessoal e familiar quanto a social. A prática de pequenas comunidades pastoralmente bem assistidas constitui um bom meio para aprender a viver a fé em estreita comunhão com a vida e com a perspectiva missionária. Neste campo é muito significativamente, também, a contribuição dos movi-mentos apostólicos. 49. A Nova Evangelização deve acentuar uma catequese querigmá-tica e missionária. Requerem-se, para a vitalidade da comuni-dade eclesial, mais catequistas e agentes pastorais, dotados de sólido conhecimento da Bíblia, que os capacite para lê-la, à luz da Tradição e de Magistério da Igreja e para iluminar, a partir da Palavra de Deus, sua própria realidade pessoal, comunitária e social. Eles serão instrumentos especialmente eficazes da inculturação do Evangelho. Nossa catequese tem de ter um itinerário contínuo que vá desde a infância até à idade adulta, utili-zando os meios mais adequados para cada idade e situação. Os catecismos são subsídios muito importantes para a catequese. São, ao mesmo tempo, caminho e fruto de um processo de inculturação da fé. O Catecismo da Igreja católica, já anunciado pelo Papa João Paulo II, orientará a elaboração de nossos futuros catecismos. 50. A função profética da Igreja, que anuncia Jesus Cristo, deve mostrar sempre os sinais da verdadeira "valentia" (parresía: cf. At 4,13; 1Ts 2,2) em total liberdade diante de qualquer poder deste mundo. Parte necessária de toda pregação e de toda cate-quese deve ser a Doutrina Social da Igreja, que constitui a base e o estímulo da autêntica opção preferencial pelos pobres. 51. Nossas Igrejas locais, que se expressam plenamente na liturgia e em primeiro lugar na Eucaristia, devem promover uma séria e permanente formação litúrgica do povo de Deus em todos os seus níveis, a fim de ele que possa viver a liturgia espiritual, consciente e ativamente. Esta formação deverá ter em conta a presença viva de Cristo na celebração, seu valor pascal e festivo, o papel ativo que cabe à Assembléia e seu dinamismo missionário. Uma preo-cupação especial deve ser promover e dar uma séria formação a quem esteja encarregado de dirigir a oração e a celebração da Palavra na ausência do sacerdote. Parece-nos, enfim, que é urgente dar ao domingo, aos tempos litúrgicos e à celebração da Liturgia das Horas todo seu sentido e força evangelizadora. 52. A celebração comunitária deve ajudar a integrar em Cristo e em seu mistério os acontecimentos da própria vida, deve fazer cres-cer na fraternidade e na solidariedade, deve atrair a todos. 53. Temos de promover uma liturgia, que em total fidelidade ao espírito que o Concílio Vaticano II quis recuperar em toda sua pureza, busque, dentro das normas dadas pela Igreja, a adoção das formas, sinais e ações próprios das culturas da América Latina e Caribe. Nesta tarefa dever-se-á dar uma especial atenção à valorização da piedade popular, que encontra sua expressão especialmente na devoção à Santíssima Virgem, nas peregrinações aos santuários e nas festas religiosas, iluminadas pela Palavra de Deus. Se nós, os pastores, não nos empenhamos a fundo em acompanhar as expressões de nossa religiosidade popular, purificando-as e abrindo-as a novas situações, o secu1arismo impor-se-á mais fortemente em nosso povo latino-americano e a inculturação do Evangelho será mais difícil. 1.2. Comunidades eclesiais vivas e dinâmicas 54. "Que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em Ti, que eles estejam em Nós, para que o mundo creia que Tu me enviaste" (Jo 17, 21). Esta é a oração de Jesus Cristo por sua Igreja. Ele pediu para ela que viva a unidade, segundo o modelo da unidade trinitária (cf. GS 24). Assim procuraram viver os primeiros cristãos em Jerusalém. Conscientes de que o momento histórico que vivemos exige que delineemos "o rosto de uma Igreja viva e dinâmica que cresce na fé, se santifica, ama, sofre, se compromete e espera em seu Senhor" (João Paulo II, DI 25), queremos voltar a descobrir o Senhor Ressuscitado que hoje vive em sua Igreja, se entrega a ela, santifica-a (cf. Ef 5, 25-26) e a faz sinal da união de todos os homens entre si e destes com Deus (cf. LG 1). Queremos refletir este "rosto" em nossas Igrejas particulares, paróquias e demais comunidades cristas. Buscamos dar impulso evangelizador a nossa Igreja a partir de uma vivência de comu-nhão e participação que já se experimenta em diversas formas de comunidades existentes em nosso continente. 55. As Igrejas particulares têm como missão prolongar para as diversas comunidades "a presença e a ação evangelizadora de Cristo" (P 224) já que estão "formadas à imagem da Igreja universal nas quais e, a partir das quais, existe uma só e única Igreja Católica (LG 23). A Igreja particular e chamada a viver o dinamismo de comunhão-missão, "a comunhão e a missão estão profundamente unidas entre si; se compenetram e se implicam mutuamente, ao ponto de a comunhão representar, ao mesmo tempo, a fonte e o fruto da missão... sempre o único e idêntico Espírito o que convoca e une a Igreja e o que a envia a pregar o Evangelho até os confins da terra (ChL 32). A Igreja particular igualmente "comunhão orgânica... caracte-rizada pela simultânea presença da diversidade e da complemen-taridade das vocações e condições de vida, dos mistérios, dos carismas e das responsabilidades" (ChL 20). "Na unidade da Igreja local, que tem origem na Eucaristia, se encontra todo o Colégio episcopal com o Sucessor de Pedro à frente, como pertencendo à própria essência da Igreja particular. Em torno do Bispo e em perfeita comunhão com ele, devem florescer as paróquias e as comunidades cristãs como células vivas e pujantes de vida eclesial" (João Paulo II, DI 25). A Igreja particular, conforme o seu ser e a sua missão, por congregar o povo de Deus de um lugar ou região, conhece de perto a vida, cultura, os problemas de seus integrantes e é cha-mada a gerar ali com todas as forças, sob a ação do Espírito, a Nova Evangelização, a promoção humana, a inculturação da fé (cf. RMi 54). 56. Em geral, nossas dioceses carecem de suficientes e qualificados agentes de pastoral. Muitas delas ainda não possuem um claro e verdadeiro planejamento pastoral. É urgente avançar no cami-nho da comunhão e participação, que, muitas vezes, é dificultado pela falta do sentido de Igreja e do autêntico espírito missionário. 57. Por isso é indispensável: - Promover o aumento e a adequada formação dos agentes para os diversos campos da ação pastoral, conforme a eclesiologia do Vaticano II e o Magistério posterior. - Impulsionar processos globais, orgânicos e planificados que facilitem e promovam a integração de todos os membros do povo de Deus, das comunidades e dos diversos carismas, e os oriente à Nova Evangelização, inclusive a missão ad gentes. 58. A paróquia, comunidade de comunidades e movimentos, acolhe as angústias e esperanças dos homens, anima e orienta a comunhão, participação e missão. "Não é principalmente uma estru-tura, um território, nem edifício, é a família de Deus, como uma fraternidade animada pelo Espírito de unidade"... "A paróquia se funda sobre uma realidade teológica porque ela é uma comu-nidade eucarística"... "A paróquia é comunidade de fé e uma comunidade orgânica... na qual o pároco, que representa o bispo diocesano, é o vínculo hierárquico com toda a Igreja particular" (ChL 26). Se a paróquia é a Igreja que se encontra entre as casas dos homens, então ela vive e trabalha profundamente inserida na sociedade humana e intimamente solidária com suas aspirações e dificuldades. A paróquia tem a missão de evangelizar, de celebrar a liturgia, de fomentar a promoção humana, de fazer progredir a incultu-ração da fé nas famílias, nas CEBs, nos grupos e movimentos apostólicos, e através deles em toda a sociedade. A paróquia, comunhão orgânica e missionária, é assim uma rede de comunidades. 59. Mas ainda é lento o processo de renovação
da paróquia em seus agentes de pastoral e na participação
dos fiéis leigo. para que estas possam respon-der aos desafios da Nova Evangelização. Há defasagem entre o ritmo da vida moderna e os critérios que ordinariamente animam a paróquia. 60. Temos que pôr em prática estas grandes linhas: - Renovar as paróquias a partir de estruturas que permitam setorial a pastoral, mediante pequenas comunidades eclesiais nas quais apareça a responsabilidade dos fiéis leigos. - Qualifica a formação e participação dos leigos, capacitando-os para encarnar o Evangelho nas situações específicas onde vivem ou atuam. - Nas Paróquias urbanas, se devem privilegiar planos de conjunto em zonas homogêneas para organizar serviços ágeis que facilitem a Nova Evangelização. - Renovar sua capacidade de acolhida e seu dinamismo
missio-nário com os fiéis marginalizados e multiplicar a presença
física da paróquia mediante a criação de capelas
e pequenas comuni-dades. 61. A Comunidade Eclesial de Base é célula viva da paróquia entendida esta como comunhão orgânica e missionária. A CEB, em si mesma, ordinariamente integrada por poucas famílias, é chamada a viver como comunidade de fé, de culto e de amor, será animada por leigos, homens e mulheres adequa-damente preparados no mesmo processo comunitário; os anima-dores estarão em comunhão com o pároco respectivo e o bispo. "As Comunidades Eclesiais de Base devem caracterizar-se, sem-pre, por uma decidida projeção universal e missionária que lhes inspire um renovado dinamismo apostólico" (João Paulo II, DI 25). "São sinal da vitalidade da Igreja, instrumento de formação e de evangelização, um ponto de partida válido para uma nova sociedade fundada sobre a civilização do amor" (RM 51). 62. Quando não existe uma clara fundamentação eclesiológica e uma busca sincera de comunhão, estas comunidades deixam de ser eclesiais e podem ser vítimas de manipulação ideológica e política. 63. Consideramos necessário: - Ratificar a validade das Comunidades Eclesiais de Base, fo-mentando nelas um espírito missionário e solidário, e buscando sua integração com a paróquia, com a diocese e com a Igreja universal, em conformidade com os ensinamentos da Evangelii Nuntiandi (58). - Elaborar planos de ação pastoral que assegurem a preparação dos animadores leigos que assistem a estas comunidades, em íntima comunhão com o pároco e o bispo. 64. A família cristã é a "igreja doméstica", primeira comunidade evangelizadora. "Apesar do problemas que em nossos dias afligem o matrimônio e a instituição familiar, esta, como célula primeira e vital da sociedade, pode gerar grandes energias que são necessárias para o bem da humanidade" (DI 18). É necessá-rio fazer da pastoral familiar uma prioridade básica, sentida, real e atuante. Básica, como fronteira da Nova Evangelização. Senti-da, isto é, acolhida e assumida por toda a comunidade diocesana. Real, porque será respaldada, concreta e decididamente no acompanhamento do bispo diocesano e seus párocos. Atuante significa que deve estar inserida numa pastoral orgânica. Esta pastoral deve estar em sincronia com instrumentos pastorais e científicos. Necessita ser acolhida a partir de seus próprios caris-mas pelas comunidades religiosas e os movimentos em geral. 1.3. Na unidade do Espírito e com diversidade de ministérios e carismas 65. O batismo nos constitui povo de Deus, membros vivos da Igreja. Pela ação do Espírito Santo participamos de todas as riquezas da graça que o Ressuscitado nos doa. É o espírito que nos dá a possibilidade de reconhecer Jesus como Senhor e nos leva a construir a unidade da Igreja, a partir de distintos carismas que Ele nos confia para "proveito comum" (cf. lCor 12,3-11). Eis nossa grandeza e nossa responsabilidade. Ser portadores da mensagem salvadora para os demais. 66. Assim, o ministério salvífico de Cristo (cf. Ml 20,28; Jo 10,10) se atualiza através do serviço de cada um de nós. Existimos e servimos a uma Igreja rica em ministérios. 1.3.1. Os ministérios ordenados 67. O ministério dos bispos, em comunhão com o sucessor de Pedro, e o dos presbíteros e diáconos é essencial para que a Igreja responda ao desígnio salvífico de Deus pelo anúncio da palavra, pela celebração dos sacramentos e pela guia pastoral. O minis-tério ordenado é sempre um serviço à humanidade com vistas ao Reino. Recebemos "a força do Espírito Santo" (c£ At 1,8) para sermos testemunhas de Cristo e instrumentos de vida nova. Voltemos a escutar hoje a voz do Senhor que, com os desafios do momento atual, nos chama e envia; queremos permanecer fiéis ao Senhor e aos homens e mulheres, sobretudo os mais pobres, para cujo serviço fomos consagrados. a) O desafio da unidade 68. O Concílio nos recordou a dimensão comunitária de nosso ministério: colegialidade episcopal, comunhão presbiteral, uni-dade entre os diáconos. A nível continental e em cada uma de nossas Igrejas particulares, já existem organismos de integração e coordenação. É notório o esforço de unidade com os religiosos que partilham os esforços pastorais em cada diocese. Reconhecemos, sem dúvida, causas de preocupação em nossas Igrejas particulares: divisões e conflitos que nem sempre refletem a unidade querida pelo Senhor. Por outro lado, a escassez de ministros e a sobrecarga de trabalho que o exercício do ministério impõe a alguns fazem com que muitos permaneçam isolados. Faz-se portanto necessário viver a reconciliação na Igreja, per-correr ainda o caminho de unidade e de comunhão de nós, os pastores, entre nós e com as pessoas e comunidades a nós con-fiadas. 69. Por isso nos propomos: - Manter as estruturas a serviço da comunhão entre os ministros ordenados, prestando especial atenção aos respectivos papéis subsidiários, sem detrimento das competência próprias, em conformidade com o direito da Igreja. Segundo as necessidades e o que ensina a experiência, tais estruturas podem ser revistas e redimensionadas pelo esclarecimento de sua competência e na-tureza. Entre estas instâncias estão as conferências episcopais, as províncias e regiões eclesiásticas, os conselhos presbiterais e, em nível continental, o CELAM. - Na formação inicial dos futuros pastores e na formação perma-nente dos bispos, presbíteros e diáconos queremos impulsionar, muito especialmente, o espírito de unidade e comunhão. b) A exigência de uma vida espiritual profunda 70. O sacerdócio procede da profundidade do inefável mistério de Deus. Nossa existência sacerdotal nasce do amor do Pai, da graça de Jesus Cristo e da ação santificadora e unificante do Espírito Santo; esta mesma existência se vai realizando para o serviço de uma comunidade, a fim de que todos se façam dóceis à ação salvadora de Cristo (cf. Ml 20,28, PDV 12). O Sínodo Episcopal de 1990 e a exortação pós-sinodal Pastores dobo vobis, delinearam claramente as notas características de uma espiritualidade sacerdotal, insistindo profundamente sobre na caridade pastoral (cf. PDV, cap 3). 71. Por estas razões nos propomos: - Buscar em nossa oração litúrgica e particular e em nosso ministério uma permanente e profunda renovação espiritual para que nos lábios, no coração e na vida de cada um de nós Jesus Cristo esteja sempre presente. - Crescer no testemunho de santidade de vida a que somos chamados com a ajuda dos meios que já temos em nossas mãos: "Os encontros de espiritualidade sacerdotal, como os exercícios espirituais, os dias de retiro ou de espiritualidade" (PDV 80) e outros recursos assinalados no Documento Pontifício pós-sino-dal. c) A urgência da formação permanente 72. São Paulo recomenda a seu discípulo que reavive o dom que recebeu pela imposição das mãos (c£ 2Tm 1,6). João Paulo II nos lembrou que a Igreja necessita apresentar modelos fidedignos de sacerdotes que sejam ministros convencidos e fervorosos da Nova Evangelização (cf. PDV 8 e cop. 6). Há uma consciência crescente de necessidade e integralidade da formação permanente, entendida e aceita como caminho de conversão e meio para a fidelidade. As implicações concretas desta formação para o compromisso do sacerdote com a Nova Evangelização exigem criar laços concretos que a possam asse-gurar. Cada vez aparece com mais clareza a necessidade de acompanhar o processo de crescimento, tentando fazer com que os desafios, que o secularismo e a injustiça suscitam possam ser assimilados e respondidos a partir da caridade pastoral. Igual atenção temos de prestar aos sacerdotes idosos ou enfermos. 73. Consideramos importante: - Elaborar projetos e programas de formação permanente para bispos, sacerdotes e diáconos, as comissões nacionais do clero e os conselhos presbiterais. - Motivar e apoiar todos os ministros ordenados para uma formação permanente estruturada conforme as orientações do magistério pontifício. d) A indispensável aproximação a nossas comunidades 74. O Bom Pastor conhece suas ovelhas e por elas é conhecido (cf. Jo 10,14). Servos da comunhão, queremos velar por nossas co-munidades com entrega generosa, sendo modelos para o rebanho (cf. 1Pd 5,1-5). Queremos que nosso serviço humilde faça sentir a todos que fazemos presente a Cristo Cabeça, Bom Pastor e Esposo da Igreja (cf. PDV 10). A aproximação com cada uma das pessoas permite aos pastores partilhar com elas as situações de dor e ignorância, de pobreza e marginalização, as aspirações de justiça e libertação. É todo um programa para viver melhor nossa condição de ministros da reconciliação (cf. 2Cor 5,18), dando a cada um motivos de espe-rança (cf. 1Pd 3,15), pelo anúncio salvador de Jesus Cristo (cf. G1 5,1). 75. - Nós, bispos, nos propomos organizar melhor uma pastoral de acompanhamento de nossos presbíteros e diáconos, para apoiar os que se encontram em ambientes especialmente difíceis. Todos os ministros queremos conservar uma presença humilde e acessível no meio de nossas comunidades, para que todos possam sentir a misericórdia de Deus. Queremos ser testemu-nhas de solidariedade com nossos irmãos. e) A atenção aos diáconos permanentes 76. O ministério dos diáconos é de importância para o serviço de comunhão na América Latina. Eles são, de forma muito privilegiada, sinais do Senhor Jesus "que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Ml 20,28). Seu serviço será o testemunho evangélico diante de uma história em que a iniqüidade se faz presente cada vez mais e se esfria a caridade (cf. Mt 24,12). Para uma Nova Evangelização que, pelo serviço da Palavra e a Doutrina Social da Igreja, responda às necessidades de promoção humana e vá gerando uma cultura de solidariedade, o diácono permanente, por sua condição de ministro ordenado e inserido nas complexas situações humanas, tem um amplo campo de serviço em nosso Continente. 77. - Queremos reconhecer nossos diáconos mais pelo que são do que pelo que fazem. - Queremos acompanhar a nossos diáconos no discernimento para que tenham uma formação inicial e permanente, adequada a sua condição. - Continuaremos nossa reflexão sobre a espiritualidade própria dos diáconos, fundamentada em Cristo servo, para que vivam com profundo sentido de fé sua entrega à Igreja e sua integração com o presbitério diocesano. - Queremos ajudar aos diáconos casados para que sejam fiéis a sua dupla sacramentalidade: a do matrimônio e a da ordem e para que suas esposas e filhos vivam e participem com eles na diaconia. A experiência de trabalho e seu papel de pais e esposos, constituem-nos colaboradores muito qualificados para abordar diversas realidades urgentes em nossas Igrejas particulares. - Propomo-nos criar os espaços necessários para que os diáconos colaborem na cação dos serviços na Igreja, detectando e promovendo lideres, estimulando a co-responsabilidade de to-dos para uma cultura da reconciliação e solidariedade. Há situa-ções e lugres, principalmente nas zonas rurais distantes, e nas grandes áreas urbanas densamente povoadas, onde só através do diácono o ordenado se faz presente. 1.3.2. As vocações ao ministério presbiteral e os seminários 78. "Naqueles dias, ele foi à montanha para orar e passou a noite inteira em oração a Deus. Depois que amanheceu, chamou os discípulos e dentre eles escolheu doze, aos quais deu o nome de apóstolos" (Lc 6,12-13; Mc 3,13-14). "Ao ver a multidão teve compaixão dela, porque estava cansada e abatida como ovelhas sem pastor" (Ml 9,36-38). No marco de uma Igreja "comunhão para a missão", o Senhor, que nos chia todos à santidade, chama todos à santidade, chama alguns para o serviço sacerdotal. a) A pastoral vocacional uma prioridade 79. Estamos diante de fatos inegáveis: há um aumento das vocações sacerdotais, cresceu o interesse por uma pastoral que apresente aos jovens, com clareza, a possibilidade de um chamado do Senhor. Mas os jovens chamados não podem escapar às mudanças fami-liares, culturais, econômicos e sociais do momento. A desintegra-ção familiar pode impedir uma experiência de amor que prepara para a entrega generosa de toda a vida. O contágio de uma sociedade lesiva" e consumiste não favorece uma vida de austeridade e sacrifício. Pode acontecer que a motivação voca-cional esteja, sem que o candidato o queira, viciada por razões não evangélicas. 80- Por isso apoderamos muito importante: - Estruturar uma pastoral vocacional inserida na pastoral orgâ-nica da diocese, em estreita vinculação com a pastoral familiar e a da juventude. É agente preparar agentes e encontrar recursos para este campo de pastoral e apoiar o compromisso dos leigos na promoção de vocações consagradas. - Fundamentar a pastoral vocacional na oração, na freqüência dos sacramentos da Eucaristia e da Penitência, na catequese da confirmação, na devoção mariana no acompanhamento com a direção espiritual e num compromisso missionário concreto: estes são os principais meios que auxiliarão os jovens em seu discernimento. - Procurar estimular as vocações provenientes de todas as cultu-ras presentes em nossas Igrejas particulares. O Papa nos convi-dou a prestar atenção de vocações indígenas (Mensagem aos indígenas, 6) e (Mensagem aos afro-americanos, 5). 81. Mantêm sua validade os seminários menores e centros afins devidamente adaptados às condições da época atual para os jovens dos últimos anos do curso médio, nos quais começa a manifestar-se um forte desejo de optar pelo sacerdócio. Em alguns países e em ambientes familiares deteriorados, são neces-sárias estas instituições para que os jovens cresçam em sua vivência cristã e possam fazer uma opção vocacional mais dura-doura. 82. Ante o ressurgimento de vocações entre os adolescentes, é tarefa nossa uma adequada promoção, discernimento e formação. - Em nossa pastoral vocacional teremos muito em conta as palavras do Santo Padre: "Condição indispensável para a Nova Evangelização é poder contar' com evangelizadores numerosos e qualificados. Por isso, a promoção das vocações sacerdotais e religiosas... há de ser uma prioridade dos bispos e um compro-misso de todo o povo de Deus" (DI 26). b) Os seminários 83. Sinal de alegria e de esperança é o nascimento de seminários maiores em nosso continente e o aumento do número de alunos neles. Em geral, trabalha-se por um ambiente favorável à direção espi-ritual e procura-se atualizar a formação, especialmente pastoral, dos futuros sacerdotes. Preocupa, no entanto, a dificuldade para reunir a equipe de formadores adequada às necessidades de cada seminário, em detrimento da qualidade da formação. Em muitos casos, o meio social do qual provêm os candidatos "os marca" com modos de vida muito secularizados ou os faz chegar ao seminário com limitações em sua formação humana ou inte-lectual quando não nos fundamentos de sua fé cristã. 84. Diante destas realidades nos propomos: - Assumir plenamente as diretrizes da exortação pós-sinodal Pastores dobo vobis e rever, a partir dela, nossas "Normas básicas para a formação sacerdotal" (Ratio fundamentalis) em cada país. - Selecionar e preparar formadores, aproveitando os cursos oferecidos pelo CELAM e outras instituições. Antes de abrir um seminário é necessário assegurar a presença da equipe de forma-dores. - Rever a orientação da formação oferecida em cada um dos nossos seminários para que corresponda às exigências da Nova Evangelização, com suas conseqüências para a promoção huma-na e a inculturação do Evangelho. Sem atenuar as exigências de uma séria formação integral, dispensar particular interesse ao desafio representado pela formação sacerdotal daqueles candi-datos provindos de culturas indígenas e afro-americanas. - Procurar uma formação integral que desde o seminário dispo-nha para a formação permanente do sacerdote. 85. A vida consagrada, que como dom do Espírito Santo, pertence à vida íntima e santa da Igreja (LG 44; EN 69), é manifestada pelo testemunho heróico de muitos religiosos e religiosas que a partir de sua singular aliança com Deus fazem presente, em todas as situações, até as mais difíceis, a força do Evangelho. Pela vivência fiel dos conselhos evangélicos, participam do mis-tério e da missão de Cristo, irradiam os valores do Reino, glori-ficam a Deus, animam a própria comunidade eclesial e interpelam à sociedade (cf. Lc 4,14-21; 9,1-6). Os conselhos evangélicos têm uma profunda dimensão pascal, já que supõem uma identificação com Cristo, em sua morte e ressurreição (João Paulo II, Os caminhos do Evangelho, n. 7). Por sua experiência testemunhal, a vida religiosa "há de ser sempre evangelizadora para que os necessitados da luz da fé acolham com alegria a Palavra da Salvação; para que os pobres e mais desprezados sintam a proximidade da solidariedade fra-terna; para que os marginalizados e abandonados experimentem o clamor de Cristo; para que os sem voz se sintam escutados; para que os tratados injustamente encontrem defesa e ajuda" (João Paulo II, Homilia na Catedral de Santo Domingo, 10.10.92, n. 8). A Virgem Maria, que pertence tão profundamente à identidade cristã de nossos povos latino- americanos (cf. Puebla 283), é modelo de vida para os consagrados e apoio seguro de sua fidelidade. Na base do Concílio Vaticano II e sob o impulso de Medellín e Puebla, houve um esforço de renovação dos religiosos, uma "volta às fontes" e à primitiva inspiração dos institutos (cf. Perfectae Caritatis, n. 2). As conferências de Superiores Maiores desempenham importante papel para a vida consagrada; respei-tando o fim e o espírito de cada instituto, tratam de assuntos comuns e estabelecem a conveniente cooperação com os pasto-res da Igreja (cf. CIC 708). A vida consagrada, dom peculiar de Deus à sua Igreja, é neces-sariamente eclesial e enriquece as Igrejas particulares. Os reli-giosos da América Latina renovam sua adesão ao Papa. A partir das disposições de Mutuae relationes, é preciso um esforço de maior conhecimento recíproco entre as diversas formas de vida consagrada nas Igrejas particulares. 86. De singular fecundidade evangelizadora e missionária é a vida contemplativa; ela dá testemunho com toda a sua vida da prima-zia do absoluto de Deus. Com alegria constatamos o aumento de suas vocações e o envio a outros países. 87. A experiência dos institutos seculares é significativa e eles estão em crescimento. Por sua consagração buscam harmonizar os valores autênticos do mundo contemporâneo com o seguimento de Jesus vivido a partir da secularidade; hão de ocupar, pois, um lugar de destaque no trabalho da Nova Evangelização para a promoção humana e a inculturação do Evangelho. 88. As sociedades de vida apostólica também contribuem generosa-mente com esta tarefa de evangelização e são chamadas a manter suas características específicas de vida apostólica. 89. Outra forma de consagração é a das virgens consagradas a Deus pelo bispo diocesano, esposas místicas de Jesus Cristo, que se entregam ao serviço da Igreja (cf. CIC 604,1). 90. A mulher consagrada contribui para impregnar de Evangelho nossos processos de promoção humana integral e dinamiza a pastoral da Igreja. Ela é freqüentemente encontrada nos lugares de missão que oferecem maior dificuldade e é especialmente sensível ao clamor dos pobres. Por isto é necessário dar-lhe mais responsabilidade na programação da ação pastoral e caritativa. 91. "A obra de evangelização (disse o Papa) na América Latina tem sido, em grande parte, fruto do vosso serviço missionário... Tam-bém em nossos dias, os religiosos e religiosas representam uma força evangelizadora e apostólica primordial no continente lati-no-americano" (João Paulo II, Os caminhos do Evangelho, 29.6.90, n. 2.3). Em sua carta aos religiosos da América Latina (29.6.90), o Santo Padre lhes apresenta os seguintes pontos: seguir "na vanguarda da pregação, dando sempre testemunho do Evangelho da Salva-ção" (n. 24). "Evangelizar a partir de uma profunda experiência de Deus " (n. 25). "Manter vivos os carismas dos fundadores" (n. 26). "Evangelizar em estreita colaboração com os bispos, com os sacerdotes e com os leigos, dando exemplo de renovada comu-nhão" (n. 27). Estar na vanguarda da evangelização das culturas (n. 28). Responder à necessidade de evangelizar para além de nossas fronteiras. Linhas pastorais 92. A respeito da vida consagrada, esta IV Conferência assinala os seguintes compromissos e linhas de ação pastoral: - Reconhecer a vida consagrada como um dom para nossas Igrejas particulares. - Fomentar a vocação à santidade nas religiosas e religiosos, valorizando sua vida por sua própria existência e testemunho. Por isso queremos respeitar e fomentar a fidelidade a cada carisma fundacional como contribuição à Igreja. - Dialogar nas comissões mistas e em outros organismos previs-tos no Documento da Santa Sé Mutuae relationes para responder às diversas tensões e conflitos a partir da comunhão eclesial. Queremos que em nossos seminários se fomente o conhecimento da teologia da vida religiosa e que, nas casas de formação dos religiosos, se dê especial importância à teologia da Igreja parti-cular presidida pelo bispo e, além disso, o conhecimento da espiritualidade específica do sacerdote diocesano. - Queremos apoiar as iniciativas dos Superiores Maiores em favor de uma formação inicial e permanente e de um acompa-nhamento espiritual dos religiosos e religiosas para que estes possam responder aos desafios da Nova Evangelização. Tratare-mos de estimular um espírito missionário que desperte nos reli-giosos o desejo de servir para além de "nossas fronteiras." - Apoiar e assumir o ser e a presença missionária dos religiosos na Igreja particular sobretudo quando sua opção pelos pobres os leva a postos de vanguarda de maior dificuldade ou de inserção mais comprometida. 93. Procurar que os religiosos e religiosas que se encontram traba-lhando pastoralmente na Igreja particular o façam sempre em perfeita comunhão com o bispo e os presbíteros. 1.3.4. Os fiéis leigos na Igreja e no mundo 94. O Povo de Deus está constituído em sua maioria por fiéis leigos. Eles são chamados por Cristo como Igreja, agentes e destinatá-rios da Boa Nova da Salvação, a exercer no mundo, vinha de Deus, uma tarefa evangelizadora indispensável. A eles se dirigem hoje as palavras do Senhor "Ide também vós para a vinha" (Ml 20, 3-4) e estas outras: "Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura" (Mc 16,15; cf. ChL 33). Como conseqüência do batismo os fiéis estão inseridos em Cristo e são chamados a viver o tríplice ministério sacerdotal, profético e real. Esta vocação deve ser fomentada constan-temente pelos pastores das Igrejas particulares. a) Os leigos hoje em nossas Igrejas 95. Hoje, como sinal dos tempos, vemos um grande número de leigos comprometidos com a Igreja que exercem diversos ministérios, serviços e funções nas comunidades eclesiais de base ou ativida-des nos movimentos eclesiais. Cresce sempre mais a consciência de sua responsabilidade no mundo e na missão ad gentes. Os pobres evangelizam os pobres. Os fiéis leigos comprometidos manifestam uma sentida necessi-dade de formação e de espiritualidade. 96. Comprova-se, porém, que a maior parte dos batizados ainda não tomou plena consciência de sua pertença à Igreja. Sentem-se católicos, mas não Igreja. Poucos assumem os valores cristãos como elemento de sua identidade cultural, não sentindo a neces-sidade de um compromisso eclesial e evangelizador. Como con-seqüência disto, o mundo do trabalho, da política, da economia, da ciência, da arte, da literatura e dos meios de comunicação social não são guiados por critérios evangélicos. Assim se explica a incoerência entre a fé que dizem professar e o compromisso real na vida (cf. Puebla 783). Também se comprova que os leigos nem sempre são adequa-damente acompanhados pelos Pastores no descobrimento e amadurecimento de sua própria vocação. A persistência de certa mentalidade clerical nos numerosos agentes de pastoral, clérigos e inclusive leigos (cf. Puebla 784), a dedicação preferencial de muitos leigos a tarefas intra-eclesiais e uma deficiente formação, privam-nos de dar respostas eficazes aos desafios atuais da sociedade. b) Os desafios para os leigos 97. As urgências do momento presente na América Latina e no Caribe reclamam: Que todos os leigos sejam protagonistas da Nova Evangelização, da Promoção Humana e da Cultura Cristã. É necessária a cons-tante promoção do laicado, livre de todo clericalismo e sem redução ao intra-eclesial. Que os batizados não evangelizados sejam os principais destina-tários da Nova Evangelização. Esta só será efetivamente levada a cabo se os leigos, conscientes de seu batismo, responderem ao chamado de Cristo a que se convertam em protagonistas da Nova Evangelização. No marco da comunhão eclesial, urge um esforço de favorecer, a busca de Santidade dos leigos e o exercício de sua missão. c) Principais linhas pastorais 98. Incrementar uma vivência da Igreja-comunhão, que nos leve à co-responsabilidade na ação da Igreja. Fomentar a participação dos leigos nos Conselhos Pastorais, nos diversos níveis da estru-tura eclesial. Evitar que os leigos reduzam sua ação ao âmbito intra-eclesial, impulsionando-os a penetrar os ambientes sócio- culturais e a serem eles os protagonistas da transformação da sociedade à luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja. Promover os conselhos de leigos, em plena comunhão com os pastores e adequada autonomia, como lugares de encontro, diá-logo e serviço, que contribuam ao fortalecimento da unidade, da espiritualidade e da organização do laicato. Estes conselhos de leigos também são espaços de formação e podem estabelecer-se em cada diocese na Igreja de cada pais e abarcar tanto os movimentos de apostolado como os leigos que, estando compro-metidos com a Evangelização, não estão integrados em grupos apostólicos. 99. Incentivar uma formação integral, gradual e permanente dos leigos mediante organismos que facilitem "a formação de forma-dores" e programem cursos e escolas diocesanas e nacionais, dispensando particular atenção à formação dos pobres (cf. ChL 63). Os pastores procuraremos, como objetivo pastoral imediato, fomentar a preparação de leigos que se sobressaiam no campo da educação, da política, dos meios de comunicação social, da cultura e do trabalho. Estimularemos uma pastoral específica para cada um destes campos, de maneira que os que nelas estiverem presentes sintam todo o respaldo de seus pastores. Estarão incluídos também os militares a quem corresponde sem-pre estar a serviço da liberdade, da democracia e da paz dos povos (cf. GS 79). Tendo presente que a santidade é um chamado a todos os cristãos, os pastores procurarão os meios adequados que favore-çam aos leigos uma autêntica experiência de Deus. Incentivarão também publicações específicas de espiritualidade laical. 100. Favorecer a organização dos leigos em todos os níveis da estrutura pastoral, baseada nos critérios de comunhão e partici-pação, respeitando "a liberdade de associação dos fiéis leigos na Igreja" cf. ChL 29-30) d) Ministérios conferidos aos leigos 101· O documento de Puebla recolheu a experiência do Continente no que diz respeito aos ministérios conferidos aos leigos e deu orientações claras para que, de acordo com os carismas de cada pessoa e as necessidades de cada comunidade, se fomentasse "uma especial criatividade no estabelecimento de ministérios e serviços que possam ser exercidos por leigos, de acordo com as necessidades da evangelização" (P 833; cf. 804-805; 811-817). O Sínodo dos Bispos em 1987 e a Exortação apostólica Christifi-deles laici têm insistido na importância de mostrar que estes ministérios "têm seu fundamento sacramental no batismo e na confirmação" (ChL 23). Fiéis às orientações do Santo Padre, queremos continuar fomen-tando estas experiências que dão ampla margem de participação aos leigos (cf. ChL 21-23) e respondem às necessidades de muitas comunidades que, sem esta valiosa colaboração, careceriam de todo acompanhamento na catequese, na oração e na animação de seus compromissos sociais e caritativos. Consideramos que "novas expressões e novos métodos" para nossa missão evangelizadora encontram amplos campos de rea-lização em "ministérios, oficias e funções" (ChL 23) que possam desempenhar alguns leigos cuidadosamente escolhidos e prepa-rados. Uma forma adequada poderia ser que a uma família completa se entregasse à tarefa pastoral de animar outras famí-lias, preparando-se devidamente para este ofício. e) Os movimentos e associações de Igreja 102. Como resposta às situações de secularismo, ateísmo, indife-rença religiosa e como fruto da aspiração e necessidade do religioso (cf. ChL 4), o Espírito Santo tem impulsionado o nasci-mento de movimentos e associações de leigos que já têm produ-zido muitos frutos em nossas Igrejas. Os movimentos dão importância fundamental à Palavra de Deus, à oração em comum e atenção especial à ação do Espírito. Há casos também em que a experiência de uma fé compartilhada segue sempre como uma necessidade de comunhão cristã de bens como primeiro passo para uma economia de solidariedade. As associações de apostolado são legítimas e necessárias (cf. AA 18); seguindo a orientação do Concílio, confere-se um lugar especial para a ação católica por sua vinculação profunda à Igreja particular (cf. AA 20; ChL 31). Ante os riscos de alguns movimentos e associações que possam chegar a fecharem-se sobre si mesmos, é particularmente urgente ter em conta os "critérios de eclesialidade" indicados na exorta-ção pós-sinodal Christifideles Iaici n.30. É necessário acompa-nhar os movimentos em um processo de inculturação mais defi-nido e alentar a formação de movimentos com perfil mais latino-americano. "A Igreja espera muito de todos os leigos que com entusiasmo e eficácia evangélica agem através dos novos movimentos apostó-licos, que estejam sendo coordenados na pastoral de conjunto e que respondam "à necessidade de uma maior presença da fé na vida social" (João Paulo II, DI 27). f) Leigos, Linha pastoral prioritária 103. A importância da presença dos leigos na tarefa da Nova Evan-gelização que conduz à promoção humana e chega a informar todo o âmbito da cultura com a força do Ressuscitado, nos permite afirmar que uma linha prioritária de nossa pastoral, fruto desta IV Conferência, há de ser a de uma Igreja na qual os fiéis cristãos leigos sejam protagonistas. Um laicato, bem estruturado com uma formação permanente, maduro e comprometido, é o sinal de Igrejas particulares que têm tomado muito a sério 0 compromisso da Nova Evangelização. 104. Em Cristo, plenitude dos tempos, a igualdade e complementa-ridade com que o homem e a mulher foram criados (cf. Gn 1,27) se faz possível, já que "não há homem nem mulher, porque todos vós sois um em Cristo Jesus"(Gl 3, 26-29). Jesus acolheu as mulheres, lhes devolveu a dignidade e lhes confiou, depois de sua ressurreição, a missão de anunciá-1o. (cf. MD 16). Cristo, "nas-cido de mulher" (G1 4,4) nos dá Maria que "precede a Igreja mostrando em forma eminente e singular o modelo de virgem e de mãe" (LG 63). Ela é protagonista da história por sua coope-ração livre, levada à máxima participação com Cristo (cf. P 283). Maria tem representado um papel muito importante na evange-lização das mulheres latino-americanas e tem feito delas evange-lizadoras eficazes, como esposas, mães, religiosas, trabalhadoras, camponesas, profissionais. Continuamente lhes inspira a fortale-za para dar a vida, debruçar-se ante a dor, resistir e dar esperança quando a vida está mais ameaçada, encontrar alternativas quan-do os caminhos se fecham, como companheira ativa, livre e animadora da sociedade. 1. Situação 105. Em nosso tempo, a sociedade e a Igreja têm crescido em consciência da igual dignidade e missão da mulher e do homem. Ainda que teoricamente se reconheça esta igualdade, na prática freqüentemente é ela desconhecida. A Nova Evangelização deve ser promotora decidida e ativa da dignidade da mulher. Isto supõe aprofundar o papel da mulher na Igreja e na Pastoral. Hoje se difundem diversas posições reducionistas sobre a natu-reza e missão da mulher: nega-se sua específica dimensão femi-nina, reduz-se a mulher em sua dignidade e direitos, converte-se a mulher em objeto de prazer, com um papel secundário na vida social. Ante isto queremos propor a doutrina evangélica sobre a dignidade e vocação da mulher, sublinhando seu papel "como mãe, defensora da vida e educadora do lar" (cf. P 846). 106. Na família e na construção do mundo, hoje, ganha terreno uma maior solidariedade entre homens e mulheres, mas fazem falta passos mais concretos rumo à igualdade real e à descoberta de que ambos se realizam na reciprocidade. Tanto na família como nas comunidades eclesiais e nas diversas organizações de um país, as mulheres são quem mais se comuni-cam, sustentam e promovem a vida, a fé e os valores. Elas têm sido durante séculos "o anjo da guarda da alma cristã do conti-nente" (João Paulo II, Homilia em S. Domingo, 11.10.92 n.9). Este reconhecimento se choca escandalosamente com a freqüente realidade de sua marginalização, dos perigos aos quais se submete sua dignidade, da violência da qual muitas vezes é objeto. Àquela que dá e defende a vida é negada uma vida digna. A Igreja se sente chamada a estar do lado da vida e defendê-1a na mulher. 2. Compromissos pastorais 107. Consideramos urgentes estas linhas de ação: Denunciar abertamente as violações às mulheres latino-america-nas e caribenhas, sobretudo as camponesas, indígenas, afro-ame-ncanas, migrantes e operárias, inclusive as violências que se cometem pelos meios de comunicação social contra sua dignida-de. Promover a formação integral para que haja verdadeira conscientização da dignidade comum do homem e da mulher. Anunciar profeticamente o ser verdadeiro da mulher, retirando do Evangelho a luz e a esperança do que ela é em plenitude, sem reduzi-1a a modalidades culturais transitórias. Criar espaços para que a mulher possa descobrir seus próprios valores, apreciá-los e oferecê-los abertamente à sociedade e à Igreja. 108. Desenvolver a consciência dos sacerdotes e dirigentes leigos para que aceitem e valorizem a mulher na comunidade eclesial e na sociedade, não só pelo que elas fazem, mas, sobretudo, pelo que elas são. Fomentar uma atitude de análise crítica ante as mensagens dos meios de comunicação sobre os estereótipos que tais meios apresentam sobre a feminilidade. Discernir à luz do Evangelho de Jesus os movimentos que lutam pela mulher par-tindo de distintas perspectivas, para potenciar seus valores, ilu-minar o que pode parecer confuso e denunciar o que resulta contrário à dignidade humana. Ao ler as escrituras, anunciar com força o que o Evangelho significa para a mulher e desenvolver uma leitura da Palavra de Deus que descubra os traços que a vocação feminina confere ao plano da salvação. 109. Criar na educação novos símbolos e linguagens que não redu-zam ninguém à categoria de objeto, mas que resgatem o valor de cada um como pessoa, e evitar nos programas educativos conteú-dos que discriminem a mulher, reduzindo sua dignidade e iden-tidade. É importante pôr em prática programas de educação para o amor e educação sexual na perspectiva cristã, buscar caminhos para que se dêem entre o homem e a mulher relações interpessoais baseadas no mútuo respeito e apreço, o reconhe-cimento das diferenças, o diálogo e a reciprocidade. É preciso incorporar as mulheres no processo de decisões responsáveis em todos os âmbitos: na fama e na sociedade. Urge contar com a liderança feminina e promover a presença da mulher na organi-zação e animação da Nova Evangelização da América Latina e do Caribe. É necessário estimular uma pastoral que promova as mulheres indígenas no campo social, educativo e político. 110. Denunciar tudo aquilo que atentando contra a vida afete a dignidade da mulher como o aborto, a esterilização, os progra-mas antinatalistas, a violência nas relações sexuais; favorecer os meios que garantam uma vida digna para as mulheres mais expostas: empregadas domésticas, migrantes, camponesas, indí-genas, afro-americanas, trabalhadoras humildes e exploradas; intensificar e renovar o acompanhamento pastoral a mulheres em situações difíceis: separadas, divorciadas, mães solteiras, meni-nas e mulheres prostituídas por causa da fome, do engano e do abandono. 1.3.6. Os adolescentes e os jovens 111. Jesus percorreu as etapas da vida de toda pessoa humana: infância, adolescência, juventude, idade adulta. Ele se revela como o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,S). Ao nascer assumiu a condição de menino pobre e submisso a seus pais, recém-nas-cido foi perseguido (Ml 2,13). Jesus, revelação do Pai que quer a vida em abundância (cf. Jo 10,10), devolve a vida a seu amigo Lázaro (Jo 11), ao jovem filho da viúva de Naim (cf. Lc 7,17) e à jovem filha de Jairo (cf. Mc 5,21-43). Ele continua hoje chamando os jovens para dar sentido a suas vidas. A missão dos adolescentes e jovens na América Latina "que caminham para o terceiro milênio cristão é preparar-se para ser os homens e mulheres do futuro, responsáveis e ativos nas estru-turas sociais, culturais e eclesiais, para que incorporados pelo Espírito de Cristo e por seu talento em conseguir soluções origi-nais, contribuam para a conquista de um desenvolvimento cada vez mais humano e mais cristão" (cf. Discurso do Papa em Higuey, 4). 1. Situação 112. Muitos jovens são vítimas do empobrecimento e da margina-lização social, do desemprego e do subemprego, de uma educa-ção que não responde às exigências de suas vidas, do narcotráfico, da guerrilha, das gangues, da prostituição, do al-coolismo, de abusos sexuais. Muitos vivem adormecidos pela propaganda dos meios de comunicação social e alienados por imposições culturais, e pelo pragmatismo imediatista que tem gerado novos problemas no processo de amadurecimento afetivo dos adolescentes e dos jovens. Por outro lado, constatamos que há adolescentes e jovens que reagem ao consumismo imperante e se sensibilizam com as fra-quezas das pessoas e com a dor dos mais pobres. Buscam inse-rir-se na sociedade, repudiando a corrupção e gerando espaços de participação genuinamente democráticos. Cada vez são mais os que se reúnem em grupos, movimentos e comunidades ecle-siais para orar e realizar distintos serviços de ação missionária e apostólica. Os adolescentes e os jovens estão povoados de inter-rogações vitais e representam o desafio de montar um projeto de vida pessoal comunitário que dê sentido a suas vidas, para assim lograr a realização de suas capacidades. Encarnam o desafio de ser acompanhados em seus caminhos de crescimento na fé e trabalho eclesial e preocupações de transformação necessária da sociedade por meio de uma pastoral orgânica. 113. Na Igreja da América Latina, os jovens católicos organizados em grupos, pedem aos pastores acompanhamento espiritual e apoio em suas atividades, mas necessitam sobretudo em cada país de linhas pastorais claras que contribuam para uma pastoral juvenil orgânica. 2. Compromissos pastorais 114. Nós nos propomos executar as seguintes ações pastorais: - Reafirmar a "opção preferencial" pelos jovens proclamada em Puebla, não só de modo afetivo mas também efetivamente; isto deve significar uma opção concreta por uma pastoral juvenil orgânica, onde haja um acompanhamento e apoio real com diálogo mútuo entre jovens, pastores e comunidades. A efetiva opção pelos jovens exige maiores recursos pessoais e materiais por parte das paróquias e das dioceses. Esta pastoral juvenil deve ter sempre uma dimensão vocacional. 115. Para cumpri-1a propomos uma ação pastoral: - Que responda às necessidades de amadurecimento afetivo e à necessidade de acompanhar os adolescentes e jovens em todo 0 processo de formação humana e crescimento da fé. Será preciso dar especial importância ao sacramento da Confirmação, para que sua celebração leve os jovens ao compromisso apostólico e a ser evangelizadores de outros jovens. - Que capacite para conhecer e responder criticamente aos impactos culturais, sociais que recebem e os ajude a comprome-ter-se na pastoral da Igreja, nas necessárias transformações da sociedade. 116. - Que dinamize uma espiritualidade do seguimento de Jesus que propicie o encontro entre a fé e a vida, que seja promotora da justiça, da solidariedade e que anime um projeto promissor e gerador de uma nova cultura de vida. 117. - Que assuma as novas formas celebrativas da fé, próprias da cultura dos jovens; fomente a criatividade e a pedagogia dos sinais, respeitando sempre os elementos essenciais da liturgia. 118. - Que anuncie nos compromissos assumidos e na vida cotidiano que o Deus da vida ama aos jovens e quer para eles um futuro diferente sem frustrações nem marginalizações, onde a vida plena seja fruto acessível a todos. 119. - Que abra aos adolescentes e jovens espaços da participação na Igreja. Que o processo educativo se realize através de uma pedagogia experiencial, participativa e transformadora. Que promova o protagonismo através da metodologia do ver, julgar, agir, revisar e celebrar. Tal pedagogia tem de integrar o cresci-mento da fé no processo de crescimento humano, tendo em conta os diversos elementos, como o esporte, a festa, a música, o teatro. - Esta pastoral deve pretender fortalecer todos os processos orgânicos válidos e definidamente analisados pela Igreja, desde Puebla até hoje. Cuidará especialmente de dar relevância à pastoral juvenil de meios específicos, onde vivem e atuam os adolescentes e os jovens: camponeses, indígenas, afro-america-nos, trabalhadores, estudantes, habitantes de periferias urbanas marginalizados, militares e jovens em situações críticas. - A Igreja, com sua palavra e seu testemunho, deve antes de tudo apresentar Jesus Cristo aos adolescentes e aos jovens de modo atrativo e motivador, de modo que seja para eles o caminho, a verdade e a vida que responda a seus anseios de realização pessoal e a suas necessidades de encontrar sentido na mesma vida. 120. Para responder à realidade cultural atual, a pastoral juvenil deverá apresentar, com força e de um modo atraente e acessível à vida dos jovens, os ideais evangélicos. Deverá favorecer a criação e animação de grupos, comunidades juvenis vigorosas e evangélicas, que assegurem a continuidade e perseverança dos processos educativos dos adolescentes e jovens, e os sensibilizem e comprometam a responder aos desafios da promoção humana, da solidariedade e da construção da civilização do amor. 1.4. Para anunciar o Reino a todos os povos 121. Cristo nos revela o Pai e nos introduz no Mistério da vida trinitária pelo Espírito. Tudo passa por Cristo, que se faz cami-nho, verdade e vida. Pelo batismo recebemos a filiação divina. Tendo sido feitos filhos de Deus, todos os povos da América Latina fomos feitos também irmãos entres nós. Fomos introduzidos no Mistério da comunhão trinitária, porque Cristo se fez um de nós, assumindo a condição de servo e tudo o que a nossa condição humana implica, menos o pecado, para transformá-1a, vivificá-1a, fazê-la cada vez mais humana e divina. Desta maneira, Cristo agora entra no coração de nossos povos, assume-os e transforma-os. Ao incorporar-nos a Ele, comunica-nos sua vida amorosa, como a videira aos ramos, infundindo-nos seu Espírito, que nos faz capazes de perdoar, de amar a Deus sobre todas as coisas e a todos os irmãos sem distinção de raça, nação ou situação econômica. Jesus Cristo é assim a semente de uma nova humanidade reconciliada. 122. Na América Latina, são muitos os que vivem na pobreza, que com freqüência desce a níveis escandalosos. Entretanto, inseridos em situações-limite, somos capazes de amar-nos, de viver unidos apesar de nossas diferenças e de comunicar ao mundo inteiro nossa acendrada experiência de fraternidade. 123. Com alegria testemunhamos que em Jesus Cristo temos a libertação integral para cada um de nós e para nossos povos; libertação do pecado, da morte e da escravidão feita de perdão e reconciliação. Jesus Cristo nos convoca em sua Igreja, que é sacramento de comunhão evangelizadora. Nela devemos viver a unidade de nossas Igrejas na caridade, comunicando e anunciando essa comunhão a todo o mundo com a Palavra, com a Eucaristia e com os demais sacramentos. A Igreja vive para evangelizar, sua vida e vocação se realizam quando se faz testemunho, quando provoca a conversão e conduz os homens e as mulheres à salvação (cf. EN 15). "Assim, pois, desde o dia em que os Apóstolos receberam o Espírito Santo, a Igreja recebeu a tarefa de evangelização (DI2). 124. Jesus Cristo nos dá a vida para comunicá-1a a todos. Nossa missão exige de nós, que, unidos a nossos povos, estejamos abertos para receber esta vida em plenitude, para comunicá-la abundantemente às Igrejas a nós encomendadas, e também além de nossas fronteiras. Pedimos perdão por nossas fragilidades e imploramos a graça do Senhor, para cumprir, mais eficazmente, a missão que recebemos. Convidamos a todos para que, renovados no Espírito, anunciem também a Jesus Cristo e se convertam em missionários da vida e da esperança para todos nossos irmãos. A Nova Evangelização tem que ser capaz de despertar um novo fervor missionário em uma Igreja cada vez mais arraigada "na força e no poder perene de Pentencostes" (cf. EN 41). 1.4.1. Que se lance à missão "ad gentes" 125. Nascida do amor salvífico do Pai, a missão do Filho com a força do Espírito Santo (cf. Lc 4,18), essência da Igreja (cf. AG 2) e objeto fundamental desta IV Conferência, é para nós nosso principal objetivo. João Paulo II, em sua encíclica missionária, levou-nos a discernir três modos de realizar essa missão: a atenção pastoral em situa-ções de fé viva, a Nova Evangelização e a ação missionária "ad gentes" (cf. RMi 33). Renovamos este último sentido da missão, sabendo que não pode haver Nova Evangelização sem projeção para o mundo não cristão, pois, como nota o Papa: "A Nova Evangelização dos povos cristãos encontrará inspiração e apoio no compromisso pela missão universal" (RMi 2). Podemos dizer com satisfação que o desafio da missão "ad gentes", proposta por Puebla, foi assumido a partir de nossa pobreza, compartilhando a riqueza da fé com que o Senhor nos tem abençoado. Reconhecemos, porém, que a consciência mis-sionária "ad gentes" ainda é insuficiente ou frágil. Os Congressos Missionários Latino-americanos (COMLAS), os Congressos missionários nacionais, os grupos e movimentos mis-sionários e a ajuda de Igrejas irmãs, têm sido um incentivo para tomar consciência desta exigência evangélica. Desafios pastorais 126. - Não se tem insistido o suficiente
em que sejamos melhores evangelizadores. 127. Causa do que se descreveu é a carência de um explícito progra-ma de formação missionária na maioria dos seminários e casas de formação. Linhas pastorais 128. Convidamos cada Igreja particular do continente latino-ameri-cano para que: - Introduza em sua pastoral ordinária a animação missionária, apoiada em um centro missionário diocesano, sustentado por uma equipe missionária, movido por uma espiritualidade viva para uma ação missionária, criativa e generosa. - Estabeleça uma relação positiva com as Obras Missionárias Pontifícias, que devem ter um responsável eficaz e o apoio da Igreja particular. - Promova a cooperação missionária de todo o Povo de Deus, traduzida em oração, sacrifício, testemunho de vida cristã e ajuda econômica. - Integre nos programas de formação sacerdotal e religiosa cursos específicos de missiologia e instrua os candidatos ao sacerdócio sobre a importância da inculturação do Evangelho. - Forme agentes de pastoral autóctones, com espírito missio-nário na linha assinalada pela Encíclica Redemptoris Missio. - Assuma com valentia o envio missionário, tanto de sacerdotes como de religiosos e leigos. Coordene os recursos humanos e materiais que fortaleçam os processos de formação, envio, acom-panhamento e reinserção dos missionários. 1.4.2. Que vivifique a fé dos batizados afastados 129. Nosso Deus é o Pai rico em misericórdia. Ele respeita a liberdade de seus filhos e filhas e espera o tempo do retorno saindo ao encontro daqueles que se afastaram de sua casa (cf. Lc 15). Desafios pastorais 130. Na América Latina e no Caribe, numerosos batizados não orientam sua vida segundo o Evangelho. Muitos deles se afastam da Igreja, ou não se identificam com ela. Entre esses, ainda que não exclusivamente, há muitos jovens e pessoas mais críticas da ação da Igreja. Há outros que, tendo imigrado de suas regiões de origem, se desenraízam de seu ambiente religioso. Linhas pastorais 131. Como pastores da Igreja isto nos preocupa. Ao mesmo tempo nos dói ver como muitos de nossos fiéis não são capazes de comunicar aos demais a alegria de sua fé. Jesus Cristo nos pede que sejamos o sal da terra , o fermento na massa. Por isso, a Igreja, pastores e fiéis, sem descuidar da atenção aos mais próxi-mos, deve sair ao encontro dos que estão afastados. Muitas portas destes irmãos afastados esperam o chamado do Senhor (cf. Ap 3,20) através dos cristãos que, assumindo missio-nariamente seu batismo e confirmação, saem ao encontro daqueles que se afastaram da casa do Pai. Por isso sugerimos: - Promover um novo impulso missionário em direção a estes fiéis, indo-lhes ao encontro. A Igreja não deve ficar tranqüila com os que a aceitam e a seguem com maior facilidade. - Pregar-lhes o querigma de uma forma viva e alegre. - Organizar campanhas missionárias que descubram a novidade sempre atual de Jesus Cristo, dentre as quais podem-se destacar as visitas domiciliares e as missões populares. - Aproveitar os momentos de contato que os batizados mantêm com a Igreja, tais como o batismo de seus filhos, a primeira comunhão, a confirmação, a enfermidade, o matrimônio, as exé-quias, para manifestar-lhes a novidade sempre atual de Jesus Cristo. - Buscar através dos meios de comunicação social proximidade com aqueles que não podem ser alcançados diretamente. - Motivar e animar as comunidades e movimentos eclesiais para que redobrem seu serviço evangelizador dentro da orientação pastoral da Igreja local. 1.4.3. Que reúna a todos os irmãos em Cristo 132. "Pai, que todos sejam um como Tu e eu somos um, para que o mundo creia que Tu me enviaste" (Jo 17,21). Esta súplica de Cristo justifica a denúncia do concílio Vaticano II, ao apontar o escândalo da divisão dos cristãos (cf. UR 1), e exige que encon-tremos os caminhos mais eficazes para alcançar a unidade na verdade. Desafios pastorais 133. - O grande desafio em que nos encontramos é a divisão entre os cristãos, divisão que se agravou por diversos motivos ao longo da história. - A existência de uma confusão sobre este tema, fruto de uma deficiente formação religiosa e de outros fatores. - O fundamentalismo proselitista de grupos cristãos sectários que dificultam o são caminho do ecumenismo. 134. Em situação similar à dos cristãos separados, podemos situar todo o povo judeu. Também com eles o diálogo é desafio para a nossa Igreja. Linhas pastorais 135. - Por isso também nós, com o Papa João Paulo II, dizemos: "O ecumenismo é uma prioridade na pastoral da Igreja do nosso tempo". Para dar uma resposta adequada a este desafio sugeri-mos: - Consolidar o espírito e o trabalho ecumênico na verdade, na justiça e na caridade. Aprofundar as relações de convergência e diálogo com as Igrejas que rezam conosco o Credo Niceno-Cons-tantinopolitano, partilham dos mesmos sacramentos e da veneração por Santa Maria, a Mãe de Deus, ainda que não reconheçam o primado do Romano Pontífice. - Intensificar o diálogo teológico ecumênico. - Avivar a oração em comum pela unidade dos cristãos e, de modo particular, a semana de oração pela unidade dos que crêem. - Promover a formação ecumênica em cursos de formação para agentes de pastoral, principalmente nos seminários. - Estimular o estudo da Bíblia entre os teólogos e estudiosos da Igreja e das denominações cristãs. - Manter e reforçar programas e iniciativas de cooperação con-junta no campo social e na promoção dos valores comuns. - valorizar a seção de Ecumenismo do CELAM (SECUM) e colaborar com suas iniciativas. 1.4.4. Diálogo com as religiões não-cristãs 136. "Deus, num diálogo que dura ao longo dos séculos, ofereceu e continua oferecendo a salvação à humanidade. Para ser fiel à inicia |