I. Constatações
1.1. Em outros documentos, e de diferentes ângulos, assinalou-se
a presença dos leigos no processo de transfor-mação de
nosso continente.
Neste documento nos propomos rever a dimensão apostólica dessa
presença no momento histórico em que todos estamos vivendo na
América Latina.
1.2. Recordemos mais uma vez que o momento
his-tórico atual de nossos povos, se caracteriza na ordem so-cial e do
ponto de vista objetivo, por uma situação de sub-desenvolvimento,
revelada por fenômenos maciços de mar-ginalidade, alienação
e pobreza, e condicionada, em últi-ma instância, por estruturas
de dependência econômica, política e cultural em relação
às metrópoles industrializa-das, que detêm o monopólio
da tecnologia e da ciência (neocolonialismo, cf. PP n. 3) .
Do ponto de vista subjetivo, nosso continente se ca-racteriza pela tomada de
consciência dessa situação, que provoca em amplos setores
dos povos latino-americanos atitudes de protesto e aspirações
à libertação, ao desen-volvimento e à justiça
social.
Esta complexa realidade, historicamente, coloca os leigos latino-americanos
ante o desafio de um compromis-so libertador e humanizador.
1.3. Por um lado, a modernização
refletida nos se-tores mais dinâmicos da sociedade latino-americana, acom-panhada
pela crescente tecnização e aglomeração urbana,
manifestou-se em fenômenos de mobilidade, socialização e
divisão do trabalho, cujo efeito foi carrear importância crescente
aos grupos e ambientes funcionais - fundados sobre o trabalho, a profissão
ou a função - em relação às comunidades tradicionais
de caráter de vizinhança ou territorial.
Os ditos meios funcionais constituem em nossos dias os centros de decisão
mais importantes no processo de transformação social, e os focos
onde se condensa, ao má-ximo, a consciência da comunidade.
Estas novas condições de vida obrigam os movimen-tos leigos da
América Latina a aceitarem o desafio de um compromisso de presença,
de adaptação permanente e de criatividade.
1.4. A insuficiente resposta a estes desafios
e, muito especialmente, a inadequação às novas formas de
vida que caracterizam os setores dinâmicos de nossa sociedade, ex-plicam
em grande parte as diferentes formas de crises que afetam os movimentos leigos.
Muitos deles, com efeito, empreenderam um trabalho decisivo em seu tempo, mas,
por circunstâncias posterio-res, ou se fecharam em si mesmos, ou se aferraram
inde-vidamente a estruturas demasiado rígidas, ou não soube-ram
situar devidamente seu apostolado no contexto de um compromisso histórico
libertador.
Por outro lado, muitos destes movimentos não refle-tem um meio sociológico
compacto, ou talvez não tenham adotado a organização e
a pedagogia mais apropriadas a um apostolado de presença e compromisso
nos ambientes funcionais, onde, em grande parte, fermenta o processo de transformação
social.
1.5. Finalmente, entre os fatores que favorecem
a crise de muitos movimentos, assinalam-se também a pe-quena integração
do leigo latino-americano na Igreja, o freqüente desconhecimento, na prática,
de sua legítima autonomia e a falta de assessores devidamente preparados
para as novas exigências do apostolado dos leigos.
1.6. Finalmente, não é possível
desconhecer os valio-sos serviços que prestaram e continuam prestando
com re-novado vigor os movimentos leigos à promoção cristã
do homem latino-americano. Sua presença em muitos am-bientes, apesar
dos obstáculos e das dolorosas crises de crescimento, é cada vez
mais efetiva e notória. Por outro lado, na elaboração de
muitas renovações acolhidas e con-firmadas pelo Vaticano II, não
se pode deixar de ver o trabalho e a reflexão de muitas gerações
de militantes cristãos.
II. Critérios teológico-pastorais
2.1. No seio do Povo de Deus, que é a Igreja, há uni-dade
de missão e diversidade de carismas, serviços e fun-ções
«obra do único e mesmo Espírito» (1 Cor 12,11), de
sorte que todos, a seu modo, cooperem unanimemente na obra comum (cf. LG 32
e 33).
2.2. Os leigos, como membros da Igreja,
participam da tríplice função profética, sacerdotal
e real do Cristo, em vista da realização da sua missão
eclesial. Todavia, realizam especificamente esta missão no âmbito
do temporal, em vista da construção da história, «exercendo
fun-ções temporais e ordenando-as segundo Deus» (LG 31).
2.3. O que tipifica o papel do leigo é
seu compromisso com o mundo, entendido como quadro de solidariedade hu-mana,
como trama dos acontecimentos e fatos significa-tivos, em uma palavra, como
história.
Pois bem, comprometer-se é ratificar com ações a so-lidariedade
em que todo homem se encontra imerso, assu-mindo tarefas de promoção
humana na linha de um deter-minado projeto social.
O compromisso assim entendido, na América Latina, deve estar impregnado
pelas circunstâncias peculiares de seu momento histórico presente,
pelos signos da libertação, da humanização e do
desenvolvimento.
Nunca é demais dizer que o leigo goza de autonomia e responsabilidade
próprias para optar por seu compro-misso temporal. A Gandium et Spes
assim o reconhece, quando diz que os leigos «conscientes das exigências
da fé e vigorizados por suas próprias energias, empreendam, sem
vacilar e quando seja necessário, novas iniciativas e levem-nas a bom
termo (...) Não pensem que seus pas-tores estejam sempre em condições
de poder dar-lhes de imediato soluções concretas em todas as questões,
por mais graves que surjam. Não é esta sua missão. Cumpram
os leigos melhor suas missões específicas, à luz da sabe-doria
cristã e com a observância atenta da doutrina do magistério»
(GS 43).
E, como diz a Populorum Progressio em seu final: «Aos leigos, por sua
livre iniciativa e sem esperar passiva-mente ordens e diretrizes, pertence impregnar
de espírito cristão a mentalidade, os costumes, as leis e as estruturas
da comunidade em que vivem» (n. 81).
2.4. Por mediação da consciência,
a fé - que opera pela caridade - está presente no compromisso
temporal do leigo como motivação, iluminação e perspectiva
esca-tológica, e dá sentido integral aos valores baseados na dignidade
humana, na união fraternal e na liberdade, que «voltaremos a encontrar
limpos de toda a mancha, ilumi-nados e transfigurados, no Dia do Senhor»
(GS 39). "En-sina também a Igreja que a esperança escatológica
não diminui a importância das tarefas temporais, mas, pelo contrário,
proporciona novas motivações, para seu exer-cício"
(GS 21).
2.5. Pois bem, como a fé exige ser
compartilhada e por isso mesmo implica uma exigência de comunicação
ou de proclamação, compreende-se a vocação apostólica
dos leigos dentro, e não fora, de seu próprio compromisso tem-poral.
Mais ainda: ao ser assumido este compromisso no di-namismo da fé e da
caridade, ele adquire em si mesmo um valor de testemunho e se confunde com o
testemunho cristão. A evangelização do leigo, nesta perspectiva,
nada mais é que a explicação ou a proclamação
do sentido trans-cendente deste testemunho.
Vivendo "nas ocupações e nas condições
ordinárias de vida familiar e social, pelas quais sua existência
está como que tecida", os leigos são chamados por Deus ali
mesmo "para que, desempenhando sua própria profissão e guiados
pelo espírito evangélico, contribuam para santificação
do mundo, penetrando-o como fermento... A eles, pois, corresponde iluminar e
ordenar as realidades temporais, às quais estão estreitamente
vinculados" (LG 31).
2.6. O apostolado leigo terá maior
transparência de sinal e maior densidade eclesial, quando apoia seu teste-munho
em equipes ou comunidades de fé, nas quais o Cristo prometeu especialmente
estar presente (Mt 18,20). Deste modo, os leigos cumprirão mais cabalmente
sua missão de fazer com que a Igreja «aconteça» no
mundo, na tarefa humana e na história.
III. Recomendações
pastorais
Tendo em conta as numerosas recomendações pasto-rais já
desenvolvidas em outros documentos desta Confe-rência sobre o papel dos
leigos na América Latina, ate-mo-nos apenas às seguintes:
3.1. Atendendo às prioridades evidentes,
derivadas da situação latino-americana que descrevemos acima com
especial ênfase e urgência, deve ser promovida a criação
de equipes apostólicas ou de movimentos seculares nos lu-gares ou estruturas
funcionais, sobretudo naquelas onde se elabora e se decide o processo de libertação
e humani-zação da sociedade a que pertencem, dotando-os de uma
estrutura adequada e de uma pedagogia baseada no discer-nimento dos sinais dos
tempos, no cerne dos acontecimen-tos.
3.2. Reconhecendo a crescente interdependência
entre as nações e o peso das estruturas internacionais de domi-nação,
que condicionam de forma decisiva o subdesenvol-vimento dos povos periféricos,
os leigos devem assumir seu compromisso cristão ao nível dos movimentos
e orga-nismos internacionais para promover «o progresso dos po-vos mais
pobres e favorecer a justiça entre as nações (PP 5).
3.3. As equipes ou movimentos que já
existirem para tais tarefas devem ser apoiadas decididamente, e que não
se abandone seus militantes quando, pelas implicações so-ciais
do Evangelho, são levados a compromissos que oca-sionam dolorosas conseqüências.
3.4. Os movimentos de apostolado dos leigos,
situados no plano de uma mais estreita colaboração com a hierar-quia
e que tanto contribuíram para a ação da Igreja, con-tinuam
tendo vigência como apostolado organizado. Hão de ser, portanto,
promovidos, ainda que se deva evitar "ir para além do limite de
vida útil de associações e métodos antiquados"
(AA 19 d).
3.5. Deve ser fomentada uma espiritualidade
própria dos leigos, baseada em sua própria experiência de
com-promisso com o mundo, ajudando-os a se entregarem a Deus, entregando-se
aos homens. Ensinando-os a redesco-brir o sentido da oração e
da liturgia como expressão e alimento dessa dupla e recíproca
doação. «Seguindo o exemplo do Cristo, que exerceu o artesanato,
alegrem-se os cristãos de poder exercer todas as suas atividades tem-porais,
fazendo uma síntese vital do esforço humano, fami-liar, profissional,
científico ou técnico, com os valores re-ligiosos, tudo cooperando
para a glória de Deus» (GS 43).
3.6. Finalmente, que se preste o devido
reconhecimen-to e apoio a todos os movimentos internacionais de apos-tolado
dos leigos, que através de seus organismos de coor-denação
promovem e edificam com tanto sacrifício o apos-tolado neste continente,
atentos às exigências peculiares de sua problemática social.
11.
SACERDOTES
I. Observações sobre a situação atual
1. Motivação
As grandes mudanças do mundo de hoje na América
Latina afetam obrigatoriamente os presbíteros no seu mi-nistério
e em sua vida. Por isso nós, os bispos, tentamos refletir com o propósito
de contribuir para a orientação da renovação sacerdotal
nesta hora complexa do conti-nente.
2. Diversidade da situações concretas
As conseqüências das mudanças não são as mesmas
em todos os países, nem em todos os setores de cada país. Afetam
de modo particular as pessoas jovens e os sacer-dotes que estão comprometidos
nos pontos-chaves da pre-sente situação de mudança. Estas
conseqüências se carac-terizam de modo particular pela maior valorização
de al-guns aspectos do ministério e da vida sacerdotal e pelo menosprezo
de outros. Em ambos os casos existem elemen-tos positivos e negativos. A soma
desses elementos dá um total, em definitivo, construtivo e gerador de
esperança.
3. O quantitativo e o qualitativo em relação
aos sacerdotes.
Como causa global da insuficiência pastoral na Améri-ca Latina
leva-se muito em conta a escassez numérica dos sacerdotes, além
do crescimento demográfico. E isto é ver-dade: apesar da generosa
integração de presbíteros en-viados pelas Igrejas-irmãs
e apesar de não poucas famí-lias religiosas procurarem estabelecer
núcleos em zonas ainda não providas de clero diocesano. Reconhecemos,
con-tudo, que existem erros de ordem distributiva que influem na qualidade do
trabalho pastoral como por exemplo:
a) a primeira coisa que salta à vista
é o excessivo acúmulo de pessoas nas igrejas mais desenvolvidas
e a au-sência de elementos do clero em regiões que deles neces-sitam,
no mesmo país, e até na mesma diocese ou cidade;
b) existem igrejas com abundância
de clero paroquial mas carecem de pessoas especializadas. Existem regiões
e igrejas que se beneficiariam se recebessem - mesmo temporariamente - a ajuda
de sacerdotes especializados cujos serviços não são aproveitados
integralmente.
4. Consideração dos carismas sacerdotais
O sacerdócio hierárquico é enriquecido certamente pela
ação renovadora do Espírito Santo que provê sem-pre
de carismas a sua Igreja. É, sem dúvida, possível com-provar
que neste campo os superiores nem sempre prestam suficiente atenção
à diversidade carismática, o que afeta negativamente o ministério
sacerdotal. Por outro lado, não faltam sacerdotes que confundem os dons
do Espírito San-to com simples inclinações naturais ou
interesses indivi-duais sem levar em conta as perspectivas da comunidade, para
cujo exercício são outorgados os carismas.
5. Aspectos da crise pessoal
a) Existe, antes de tudo, um perigo para a própria fé
do presbítero de hoje e para isso contribui um conjunto de elementos
de especial complexidade. Cabe assinalar principalmente certa superficialidade
na formação mental e uma insegurança doutrinária,
ocasionada por um relati-vismo ideológico e por certa desorientação
teológica (cf. discurso de Paulo VI em Bogotá por ocasião
da abertura da II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano) e
também pelos atuais progressos, sobretudo das ciências antropológicas
e das ciências da Revelação de que muitos presbíteros
não possuem o necessário esclarecimento ou não chegaram
a assimilá-los suficientemente.
Percebe-se, além disso, neste momento de transição, uma
crescente desconfiança nas estruturas históricas da Igreja, que
chega, em alguns, ao menosprezo de tudo o que foi instituído, comprometendo
os próprios aspectos da ins-tituição divina. Parece-nos
que este perigo para a fé é, de-finitivamente, o elemento mais
pernicioso para o presbí-tero de hoje.
b) O sacerdote de hoje sente a necessidade
de uma ex-pressão mais vivencial em sua oração, de sua
ascese e consagração. A superação da dicotomia entre
a Igreja e o mundo e a necessidade de maior presença da fé nos
valo-res temporais exigem a adoção de novas formas de espi-ritualidade,
segundo as orientações do Vaticano II. Não poucos sacerdotes,
antes de assegurar a passagem vale-doura para novas formas, emancipam-se do
tradicional com o risco de cair em desastroso enfraquecimento de sua vida espiritual.
Este enfraquecimento da espiritualidade é particularmente perigoso porque
o sacerdote transfere fa-cilmente sua própria crise à comunidade
em que vive.
c) Em relação ao celibato
sacerdotal, um louvável aprofundamento do valor afetivo da pessoa humana
e uma exacerbação do erotismo no meio ambiente, unidos ao fre-qüente
descuido da vida espiritual e a outras causas mais, abriram caminho a uma nova
e variada problemática.
Alguns apoiam seus argumentos em razões do tipo pastoral ou psicológico
ou aduzem reflexões teológicas que delimitam a distinção
entre carisma e ministério, enquan-to outros pretenderiam diminuir a
força do próprio com-promisso assumido na consagração.
d) No ministério presbiterial é
fácil sentir hoje uma tensão entre as novas exigências da
missão e certo modo de exercer a autoridade, que pode implicar em crise
de obediência. A consciência mais viva da dignidade e res-ponsabilidade
da pessoa, a maior sensibilidade atual pela ordem dos valores mais do que pela
ordem das normas, a nova concepção do ministério hierárquico
como estrutura colegial, o sentido da autoridade como serviço, a distinção
da obediência específica do religioso, da obediência pró-pria
do sacerdote, (PC 14, comparado com PO 15) são indícios de um
novo clima muito positivo mas também portador de tensões: se a
isto aduzirmos as falhas natu-rais das pessoas, compreender-se-á facilmente
a presença de um conjunto de problemas delicados no exercício
do ministério sacerdotal.
Nesta ordem de coisas é preciso assinalar, sobretudo, um perigoso ofuscamento,
em alguns, do valor do magis-tério papal e episcopal, que pode levar
não só a uma falta de obediência mas também de fé.
e) Também surgem dúvidas no
que concerne à pró-pria vocação sacerdotal. Motivam
essas dúvidas vários fa-tores característicos desta hora
de renovação eclesial:
- a crescente valorização do papel do leigo no desen-volvimento
do mundo e da Igreja;
- a discussão moderna sobre o papel e a figura do sacerdote na sociedade;
- a superficialidade com que se encara e vive o pró-prio sacerdócio,
em serviços religiosos de rotina e em uma forma de vida aburguesada.
f) Há também uma crise entre
sacerdotes que por sua idade e formação recebida sentem-se como
que incapaci-tados para assumir as mudanças de renovação
promovidas pelo Concílio.
g) Muitos sacerdotes lamentam que a revisão
do re-gime de benefícios, lenta por sua própria complexidade,
mantenha ainda em suas igrejas um lamentável estado de
penúria e pedem a quantos sejam afetados pelas impres-cindíveis
reformas administrativas, que facilitem a pronta aplicação das
indicações conciliares.
II. Elementos de reflexão pastoral
1. Sacerdócio de Cristo
a) Na nova Aliança, Cristo Jesus, Senhor ressusci-tado, é
o único sacerdote, mediador sempre ativo ante o Pai em favor dos homens.
O ministério hierárquico da Igreja, sacramento na terra desta
única mediação, faz com que os sacerdotes atuem entre os
homens "in persona Christi". A eles tam-bém se aplica parcialmente
o que Paulo VI dissera de Cristo sumo e eterno Sacerdote « . . . não
és diafragma, mas passagem; não és obstáculo, mas
sim caminho; não és um profeta qualquer, mas o intérprete
único e neces-sário do mistério religioso . . . és
a ponte entre o reino da terra e o reino do céu. . . és necessário,
és suficiente para nossa salvação . . . » (Dist.
de 22-8-68, em Bogotá) .
b) Em seu sacerdócio Cristo unificou
a tríplice função de profeta, litúrgico e pastor,
estabelecendo com isso uma peculiar originalidade no ministério sacerdotal
de sua Igre-ja. Por isso os sacerdotes, embora dedicados a tarefas mi-nisteriais
nas quais se acentua alguns dos aspectos desta tríplice missão,
não devem esquecer os outros, nem enfra-quecer a intrínseca unidade
da ação total de seu ministé-rio, porque o sacerdócio
de Cristo é indivisível (of. PO 8) .
2. Caminhão hierárquica
a) No corpo místico de Cristo, os bispos e os presbí-teros
são consagrados pelo sacramento da Ordem para exercer o sacerdócio
ministerial como um conjunto orgâ-nico, que manifesta e torna presente
a Cristo Cabeça (cf. LG 21). Os presbíteros são incorporados
a este conjunto orgânico para serem cooperadores da Ordem episcopal. De-duz-se
daí, como conseqüência inevitável, a íntima
união de amizade, amor, preocupações, interesses e trabalhos
entre bispos e presbíteros de modo que não se possa con-ceber
um bispo desligado ou alheio a seus presbíteros, nem um presbítero
desligado do ministério de seu bispo. Todos os sacerdotes vinculados
entre si por uma verdadei-ra "fraternidade sacramental" (PO 4), devem
saber con-viver e atuar unidos na solidariedade de uma mesma consagração.
b) Em vista da comunhão hierárquica
do ministério sacerdotal sugere-se assegurar uma forma institucionaliza-da
da adequada co-responsabilidade dos presbíteros com a ordem episcopal.
Encarece-se, assim, antes de mais nada, a criação ou eficiente
funcionamento do Conselho Pres-biteral em cada diocese. Além disso achamos
importante, hoje, maior representação dos presbíteros nos
organis-mos episcopais de nível supradiocesano.
3. Comunidads eclesial
Os bispos, com os presbíteros, receberam "o minis-tério da
comunidade" (of. LG 20), pelo qual devem dedicar-se a edificar e a guiar
a comunidade eclesial como sinais e instrumentos de sua unidade (of. PO 6).
Os presbíteros atuam na comunidade como membros específicos que
compartilham com todo o povo de Deus o mesmo ministério e a mesma e única
missão salvadora. Os leigos, por seu sacerdócio comum, gozam na
comunida-de do direito e têm o dever de contribuírem com uma in-dispensável
colaboração para a ação pastoral (of. AA 3) . Por
isso, é dever dos sacerdotes dialogar com eles não de maneira
ocasional, mas de maneira constante e institucio-nal. O mesmo diga-se a respeito
das religiosas e dos reli-giosos não-presbíteros.
4. Serviço ao mundo
a) Todo sacerdote ministerial é tomado de entre os homens
e constituído em favor dos homens no que se re-fere a Deus (cf Hebr 5,1).
A consagração sacramental da Ordem situa o sacer-dote no mundo
a serviço dos homens. É de particular im-portância sublinhar
que a «consagração sacerdotal é con-ferida por Cristo
para a «missão» de salvação do homem. Isto
exige de todo sacerdote uma especial solidariedade de serviço humano,
que seja expressa em uma viva dimensão missionária, que o faça
colocar suas preocupações ministe-riais a serviço do mundo
com seu grandioso futuro e seus humilhantes pecados, e um contato inteligente
e constan-te com a realidade, de tal maneira que sua consagração
resulte num modo especial de presença no mundo, e não em uma segregação
dele.
b) O mundo latino-americano encontra-se
empenhado em um gigantesco esforço para acelerar o processo de de-senvolvimento
no continente.
Nesta tarefa cabe ao sacerdote um papel específico e indispensável.
Ele é meramente um promotor do pro-gresso humano. Descobrindo o sentido
dos valores tempo-rais, deverá procurar conseguir «unindo o esforço
huma-no, familiar, profissional, científico e técnico, uma sínte-se
vital com os valores religiosos, sob cuja altíssima hie-rarquia tudo
coopera para a glória de Deus» (GS 43) . Mas para isso deve esforçar-se,
pela palavra e pela ação apostó-lica não só
sua mas também da comunidade eclesial, para que todo o trabalho temporal
adquira seu pleno sentido de liturgia espiritual, incorporando-o de maneira
vital na celebração da Eucaristia.
c) Para promover o desenvolvimento integral
do ho-mem deverá formar e incentivar entre os leigos a partici-pação
ativa, com consciência cristã, na técnica e elabora-ção
do progresso. Mas acontece que na ordem econômica e social e principalmente
na ordem política, onde se apre-sentam diversas opções
concretas, ao sacerdote não cabe diretamente a decisão, nem a
liderança e nem tampouco a estruturação de soluções.
II. Algumas conclusões orientadoras
l. Espiritualidade
a) A adequada co-responsabilidade ser uma vivência pessoal
intrinsecamente vinculada à ação ministerial (of. PO 13)
.
Dentre as exigências desta espiritualidade nenhuma é superior nem
mais necessária que a de uma profunda e permanente vida de fé.
Por ela o sacerdote deve tornar clara a perfeita unidade de Cristo com o Pai
«quem me vê, vê ao Pai» (Jo 14,9) ; e poder testemunhar
com São Paulo «sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo»
(1 Cor 11,1).
O que importa, pois, antes de mais nada, é que o sa-cerdote seja homem
de oração por antonomásia. Um sa-cerdote, cuja vida não
for testemunha deste espírito de fé, jamais poderá ser
reconhecido como digno ministro de Cristo Senhor.
b) A caridade pastoral infundida pelo sacramento
da ordem deve impulsionar, hoje, os sacerdotes a trabalha-rem mais do que nunca
pela união entre os homens até dar a vida por eles, como o fez
o Bom Pastor.
No exercício desta caridade que une o sacerdote in-timamente com a comunidade,
encontrar-se-á o equilíbrio da personalidade humana, feita para
o amor, e se re-descobrirão as grandes riquezas contidas no carisma do
celi-bato, em toda sua visão cristológica, eclesiológica,
esca-tológica e pastoral (of. Encíclica: Sacerdotahs coelibatus).
2. Ministério
Uma clara conseqüência da orientação conciliar é
a superação da uniformidade da figura do presbítero; os
sa-cerdotes «...quer exerçam o ministério paroquial ou su-praparoquial,
quer se dediquem às investigações ou ao en-sino, quer trabalhem
manualmente, compartilhando da sorte dos próprios operários .
. . quer, enfim, levem a cabo outras obras apostólicas ou relacionadas
com o apostolado» (PO 8), exercerão seu ministério em consonância
com a exigência pastoral das diferenças carismáticas.
É mister, entretanto, lembrar com respeito aos ca-rismas, que compete
aos que presidem a Igreja julgar da autenticidade e ordenado exercício
de tais dons (of. LG 12 e AA 3) . Neste campo é preciso que haja uma
planifica-ção pastoral para melhor distribuição
dos sacerdotes tan-to quantitativa quanto qualitativamente.
3. Diálogo e cooperação
a) A adequada co-responsabilidade entre bispos e presbíteros
pede o exercício de um diálogo no qual haja mútua liberdade
e compreensão, tanto com respeito aos assuntos a tratar quanto à
maneira de discuti-tos. Isto aju-dará muito a compreender melhor a missão
comum do sacerdócio ministerial e trará um clima novo, no qual
será mais fácil superar certas tensões de obediência
pela bus-ca em comum da vontade de Deus.
b) É de extraordinária importância
dar vida aos «Conselhos Pastorais» que são inegavelmente
uma das ins-tituições mais originais sugeridas pelo Concílio
e um dos mais eficientes instrumentos da renovação da Igreja em
sua ação de pastoral de conjunto.
c) É contrário ao profundo
sentido de união do pres-bitério o isolamento em que vivem muitos
sacerdotes.
Para que possa realmente ser compartilhada a responsabilidade comum na igreja
local, recomendamos vivamente que se fomente a vida das equipes sacerdotais
em suas diversas formas. É preciso estabelecer centros sacerdotais onde
possam reunir-se, em um ambiente fraternal e de contato freqüente com o
bispo, todos os presbíteros que tenham em mente seu aperfeiçoamento
pessoal.
4. Valores culturais
É hoje urgente tornar possível a atualização cultural
dos presbíteros, proporcionando-lhes tempo e meios adequados.
Em primeiro lugar, será necessário ajudá-los a assimilarem
com a devida profundeza as grandes metas de orientação teológica
do Concílio e os principais progressos das ciências da revelação.
Além disso, é preciso maior adaptação a todo o progresso
humano; a missão do presbítero, na verdade, exige uma cultura
autêntica e dinâmica, contentemente atualizada e aprofundada, que
não se reduza a mero cultivo intelectual, mas que abranja todo o sentido
da "humanitas" enriquecida pelos valores vividos sacerdotalmente (cf
PO 3).
5. Modo de vida
Uma das características indispensáveis da espiritualidade sacerdotal,
especialmente requerida por nossa situação continental, é
a pobreza evangélica.
Os presbíteros devem ser testemunhas do Reino, sendo pobres pelo espírito
e imitando Jesus Cristo, mas valorizando e usando de maneira pastoral os bens
econômicos em favor de Cristo pobre, presente todos os dias na pessoa
dos necessitados. A pobreza evangélica, que é vivida na Igreja
de acordo com as diferentes vocações, terá que concretizar-se,
para os presbíteros diocesanos, num modo de vida que lhes dê as
possibilidades econômicas, condizentes com um ministério de especial
situação comunitária.
Deverá ser preocupação dos bispos com seu presbité-rio
cuidar da realização concreta de um sistema de sustentação
dos presbíteros que, por um lado, evite toda a apa-rência de lucro
com relação ao sagrado e, por outro lado, distribua eqüitativamente
as rendas diocesanas reunidas de maneira solidária por todas as paróquias
(of. PO 21). Em particular as Conferências Episcopais consigam quan-to
antes o funcionamento de uma previdência social ade-quada para o clero.
IV. Saudação fraternal
1. A nossos presbíteros
Nós, bispos, sentimo-nos unidos a todos os queridos irmãos que,
na serenidade e na paz, vêm enfrentando pro-blemas e inquietude que põem
em relevo a riqueza de seu amor pela Igreja e pelos homens. Unidos procuramos
dar nossa resposta aos problemas do homem atual. Pensare-mos juntos, apoiando-nos
no dom de Deus para discernir os sinais dos tempos. Encontraremos no Evangelho
a ima-gem mais nítida de Cristo Senhor. Contamos com sua aju-da para
levar a cabo este serviço em uma Igreja que em-preende com prazer e confiança
a tarefa de conduzir com Cristo, Pastor eterno, todos os homens à casa
do Pai.
É de justiça, em particular, manifestar nosso reconhe-cimento
a todos os sacerdotes que, em passado remoto ou próximo viveram, trabalharam
e se entregaram aos povos da América Latina.
Não podemos tampouco deixar de testemunhar nos-so íntimo reconhecimento
aos numerosos sacerdotes e re-ligiosos das Igrejas irmãs que, deixando
pátria, tradições e amigos, vieram juntar-se à tarefa
apostólica que sozi-nhos não poderíamos consumar.
2. Aos que estão em crise
Dirigimo-nos, além disso, aos nossos queridos cooperados que estão
padecendo as angústias de muitas e va-riadas crises depois de anos vividos
na fidelidade e abnegação. Reconhecemos que sua situação
é fruto, às vezes e em parte, de sinceridade e autenticidade.
Que exista en-tre nós uma recíproca confiança e apesar
de nossas defi-ciências e até possíveis, embora não
intencionais, falhas, acreditem com espírito elevado que nós,
por disposição di-vina, somos também com respeito a tudo
isso, responsá-veis perante Deus.
Permitam que os ajudemos e, na convivência com os irmãos presbíteros,
que vivem e sofrem na senda do Se-nhor, procurem amparo e solidariedade. Acima
de tudo, não se afastem do contato íntimo e confiante com Cristo,
que não os considera servos, mas sim amigos. Saibam tam-bém que
por eles oramos ao Pai das luzes.
3. Aos que se afastaram
Aos presbíteros que, com ou sem consentimento da autoridade competente,
como resultado de uma crise, que em última instância só
a Deus cabe julgar, afastaram-se do presbitério, dizemos que os reconhecemos
marcados com o caráter do sacerdócio e que os respeitamos como
ir-mãos, amando-os como filhos.
Encontrarão sempre nosso coração aberto para pres-tar-lhes
ajuda, na medida de nossas possibilidades para que, conservando ou recuperando
o vínculo visível da união essencial da Igreja de Cristo,
dêem testemunho do Reino para o qual foram consagrados.
12. RELIGIOSOS
América Latina
1. A caridade com que amamos a Deus e ao
próximo é a única santidade cultivada por todos aqueles
que, guia-dos pelo Espírito de Deus, seguem o Cristo em qualquer estado
de vida e profissão a que foram chamados (LG 41 e 42) .
Na Igreja, todos são chamados à santidade (LG 39), tanto os que
pertencem à hierarquia como os leigos e os religiosos. Essa santidade
se realiza mediante a imitação do Senhor, no amor. Pelo batismo
o cristão inaugura sua configuração com o Cristo (LG 7)
que, em seguida, pela ação de Deus e pela fidelidade do homem,
irá crescendo até chegar à idade perfeita da plenitude
de Cristo (LG 7) . Cada qual procura alcançar a santidade pela vivência
da caridade, segundo as características próprias de seu esta-do
de vida.
2. Nestes momentos de revisão, muitos
se perguntam qual é o lugar do religioso na Igreja e em que consiste
sua vocação especial no seio do Povo de Deus.
No transcorrer da história da Igreja, a vida religiosa teve sempre, e
agora com maior razão, uma missão pro-fética, a de ser
um testemunho da escatologia. Todo cristão, seja religioso ou leigo,
deve buscar o Reino de Deus iden-tificando-se, por amor, com Cristo na sua encarnação
e na sua morte e ressurreição, que culmina na escatologia; todavia,
o que é próprio do religioso, o que mais o carac-teriza é
viver a caridade mediante uma peculiar consagra-ção que se funda
na do batismo e a exprime com maior plenitude (PC 5). Esta consagração
peculiar é um com-promisso a viver com mais intensidade o aspecto escato-lógico
do cristianismo, para ser dentro da Igreja, de um modo especial, «testemunha
da Cidade de Deus».
3. Isto quer dizer, de uma parte, que o
religioso deve encarnar-se no mundo real, e hoje com maior audácia que
em outros tempos: não podendo alhear-se dos problemas sociais, do sentido
democrático, da mentalidade pluralis-ta etc., dos homens que vivem a
seu lado. E assim, nas cir-cunstâncias concretas da América Latina
(nações em via de desenvolvimento, com escassez de sacerdotes
etc.), exi-gem dos religiosos uma especial disponibilidade, segundo seu próprio
carisma, para inserirem-se nas linhas de uma pastoral efetiva. Por outra parte,
em meio a um mundo que marcha para a secularização e o esfriamento
da fé e da caridade, o religioso deve ser o sinal de que o Povo de Deus
não tem uma cidadania permanente neste mundo, mas que busca a futura
mediante o estado religioso «que deixa seus seguidores mais livres dos
cuidados terrenos, manifesta melhor aos fiéis os bens celestiais - já
presentes nesta vida - e, sobretudo, dá um testemunho da vida nova e
eterna conquistada pela redenção do Cristo, prenuncia a ressurreição
futura e a glória do reino celestial» (LG 44) . Ou, conforme expressa
a Lumem Gentium em outra pas-sagem: «Os religiosos, por seu estado, dão
claro e exímio testemunho de que o mundo não pode ser transfigurado
nem oferecido a Deus sem o espírito das bem-aventuran-ças».
Se é verdade que o religioso se coloca à certa distân-cia
das realidades do mundo presente, não o faz por des-prezo ao mundo, mas
com o propósito de recordar seu ca-ráter transitório e
relativo.
4. Seu testemunho não é algo
abstrato mas existen-cial, sinal da santidade transcendente da Igreja: quer-se
viver com maior plenitude, por meio desta especial consa-gração,
aquela identificação pessoal com Cristo, que se iniciou com o
batismo. Ela se expressa principalmente pelo voto de castidade através
do qual o religioso se une ao
Senhor com um amor indivisível (0T 10) , e pela caridade da vida em comunidade
é um prenúncio da união perfeita no reino futuro.
Nas congregações de vida ativa, a ação apostólica,
como atividade missionária, não é um trabalho de desa-gregação
da vida religiosa, mas uma manifestação do desí-gnio de
Deus na história da salvação que «também tende
à plenitude escatológica» (AG 9) .
O testemunho do mundo futuro se manifesta de modo especial na vida religiosa
contemplativa que é uma mediação e uma presença
do mistério de Deus no mundo. A ela corresponde um grande papel, especialmente
na situação latino-americana, já que, com sua vida de fé
e abnegação, os contemplativos convidam a uma visão mais
crista do homem e do mundo.
5. Tanto na vida ativa como na contemplativa
requer-se, para que esse testemunho seja autêntico, um contato ín-timo
com Deus na oração pessoal e um aprofundamento no sentido da caridade
que tem sua melhor expressão na celebração eucarística.
6. Colocados esses princípios e orientando-se
este do-cumento especialmente para o desenvolvimento e pastoral na América
Latina, insistiremos somente naqueles aspec-tos da vida religiosa que têm
relação direta com estes temas.
Aggioramento
7. As mudanças provocadas no mundo
latino-america-no pelo processo de desenvolvimento e, por outro lado, os planos
de pastoral de conjunto, através dos quais a Igreja da América
Latina quer encarnar-se em nossas concretas realidades de hoje, exigem uma revisão
séria e metódica da vida religiosa e da estrutura da comunidade.
Esta é uma condição indispensável para que os religiosos
sejam um sinal inteligível e eficaz dentro do mundo atual.
8. Algumas vezes a separação
entre a vida religiosa e o mundo é interpretada equivocamente e há
comunidades que mantém ou criam barreiras artificiais, esquecen-do-se
que a vida comunitária deve abrir-se para o ambien-te humano que a cerca,
a fim de irradiar a caridade e abranger todos os valores humanos.
9. A verdadeira caridade tem como efeito
a flexibi-lidade de espírito para adaptar-se a toda sorte de circuns-tâncias.
Ao religioso cabe ter uma perfeita disponibilidade para seguir o ritmo da Igreja
e do mundo atual, dentro dos limites que lhe marca a obediência religiosa.
Deve adaptar-se às condições culturais, sociais e econômicas
ainda que isto suponha a reforma de costumes e constituições ou
a supressão de obras que hoje perderam sua eficácia. Os cos-tumes,
os horários, a disciplina devem facilitar as tarefas apostólicas.
10. É necessário levar em
conta as inquietações e in-terrogações da juventude,
que revelam em geral uma atitude de generosidade e compromisso com o ambiente.
11. Por outro lado, é preciso abordar
seriamente o «conflito de gerações», que se caracteriza
não somente como conflito entre um sistema de normas, de um lado, e de
valores, de outro, mas também porque a certos valores não se lhes
dá o caráter de absolutos, e este «relativismo» produz
na juventude, e mais ainda nos adultos, um estado de insegurança que
chega a afetar os valores da vida re-ligiosa e da própria fé.
É necessário, portanto, dar uma educação personalizadora,
que os leve a realizarem-se através de graduais opções
sociais, que tenham por meta a vivência autêntica dos valores evangélicos.
12. Também notamos que por causa
desta transfor-mação de mudança e insegurança registram-se
numero-sas deserções nos institutos religiosos. Nestes casos é
ne-cessário um espírito de compreensão fraterna que facilite
ao máximo o reajustamento psicológico e social dos que deixam
a vida religiosa.
Participação no desenvolvimento da vida religiosa
13. O amor fraternal a todos os membros
do Corpo místico terá que nascer da «vida escondida com
Cristo em Deus» e há de ser a fonte de todo apostolado (PC 6),
e o apostolado terá que conduzir à unidade da caridade (PO 9)
. Para os religiosos de vida ativa a ação apostólica não
pode ser considerada como algo secundário; muito ao contrá-rio,
ela «integra a própria natureza da vida religiosa»; toda
a vida religiosa de seus membros há de estar satura-da do espírito
apostólico, e toda a ação apostólica enfor-mada
do espírito religioso» (PC 8; LG 44) .
14. A integração da vida apostólica
(em todas as suas manifestações) na própria vida das instituições
re-ligiosas está se apresentando na América Latina como um problema
de características dramáticas, especialmente en-tre os jovens,
mais sensibilizados pelos condicionamentos do processo de humanização
do continente.
15. No entender desses jovens há
uma dissociação prá-tica entre o conjunto de observância
a que se dá o nome de «vida regular» e a participação
no desenvolvimento do homem latino-americano.
16. Isto provoca uma crítica severa
a seus próprios institutos e comunidades, acusando a vida religiosa,
assim entendida, de alienação fundamental relativamente à
vida cristã, e a inadaptação ao mundo de hoje.
17. As crises nas comunidades religiosas
tomam gran-des proporções, enquanto diminui o número dos
que nelas ingressam.
18. a) Por isso recomendamos aos religiosos:
desen-volver e aprofundar uma teologia e uma espiritualidade da vida ativa.
É necessário adquirir uma mentalidade que va-lorize sobrenaturalmente
os elementos de penitência que o apostolado encerra e que realce o exercício
das virtudes teologais e morais que ele implica.
b) É preciso tomar consciência
dos graves problemas sociais de vastos setores do povo em que vivemos.
19. A situação atual não
pode deixar inativos os re-ligiosos que, embora não tenham que intervir
no sentido de dirigir o que é temporal, hão de trabalhar diretamente
com as pessoas em um duplo aspecto: no de fazê-las viver sua fundamental
dignidade humana e no de servi-las em vista dos bens da redenção
(CELAM, Conclusões de Mar del Plata, p. 39) .
20. Consideramos que a colaboração
do religioso para o desenvolvimento integral é algo vital e inerente
à sua própria vocação. Cada um deve aceitar generosamente
seu papel, sobretudo os que, por sua educação, sua situação
e sua influência, têm maiores possibilidades (PP 32) .
21. A este respeito recordamos aos religiosos
a neces-sidade de:
a) Insistirem em uma séria formação
espiritual, teo-lógica, profunda e continuada, harmonizada com o culti-vo
e apreciação dos valores humanos.
b) Valorizar o apostolado e suas exigências
como ele-mento essencial da vida religiosa. A fidelidade a este as-pecto essencial
exige dos religiosos a renovação constante de seus métodos
dentro da continuidade com seu próprio patrimônio, para assimilar
tudo o que de melhor for sur-gindo na Igreja e adaptar seus sistemas aos novos
proces-sos e novas necessidades e, em nosso caso, a Igreja da Amé-rica
Latina, em cumprimento de sua missão salvadora vá ao encontro
do problema do desenvolvimento.
c) Considerar que o desenvolvimento se conecta
ne-cessariamente com dimensões de justiça e caridade; a teo-logia
deve intervir para ponderá-las no sentido de uma pastoral que cada vez
mais carece de maior atualização, dado o dinamismo do progresso
humano.
d) Rever sinceramente a formação
que se dá no cam-po social aos religiosos, dando especial importância
às ex-periências vitais ordenadas à aquisição
de uma mentali-dade social.
e) Atender, educar, evangelizar e promover
as clas-ses sociais marginalizadas sobretudo, com um espírito eminentemente
missionário, preocupar-se com os numero-sos grupos indígenas do
continente (PC 20).
f) Promover um autêntico espírito
de pobreza que se traduza efetivamente em colocar a serviço dos outros
os bens de que se disponha (PC 13).
g) Realizar o pedido de Paulo VI referente
à reforma agrária no caso de possuírem terras não
necessárias à obra apostólica.
Pastoral de conjunto
22. É necessário que em nossos
planos de Pastoral de Conjunto possam as congregações religiosas
integrar-se de acordo com o carisma, as finalidades específicas de cada
instituto e as prioridades pastorais, ainda que para isso seja necessário,
às vezes, abandonar certas obras para atender a outras que se considerem
mais urgentes e neces-sárias.
23. Esta íntima participação
dos religiosos terá que realizar-se a partir da fase de reflexão
e planificação até a fase de realização,
sem esquecer que a integração real só se obtém quando
as próprias comunidades religiosas (ao nível provincial e local)
tomarem consciência da respon-sabilidade pastoral colegial e refletirem
em sintonia com os demais grupos e membros do Povo de Deus.
125
24. Temos consciência do indispensável
trabalho apos-tólico que realizam religiosos e religiosas; eles continuarão
sendo, junto ao clero das dioceses, a base da evangelização da
América Latina.
Sugerimos, sem embargo, que os reli-giosos
se esforcem por integrar os leigos nos trabalhos apostólicos, respeitando
sinceramente sua competência na ordem temporal e reconhecendo-lhes sua
responsabilidade própria dentro da Igreja.
25. Finalmente, já que o trabalho
de evangelização supõe permanência e estabilidade,
esta II Conferência Ge-ral do Episcopado Latino-americano pede encarecidamente
aos superiores que dêem estabilidade ao pessoal religioso que desempenha
funções apostólicas na América Latina, de acordo
com convênios firmados com os bispos da região.
Leigos consagrados na Vida Religiosa e nos Institutos Seculares
26. A consciência mais clara que os
leigos vão toman-do do lugar que lhes cabe dentro da Igreja por força
de seu batismo, leva-nos a ver e apreciar de maneira especial o enorme potencial
que representam para a América Latina os numerosos homens e mulheres
que, conservando sua condição leiga, se consagraram ao Senhor
na vida religio-sa ou nos institutos seculares.
27. Recordamos antes de tudo que «a
vida religiosa leiga, tanto para os homens como para as mulheres, cons-titui
em si mesma um estado completo de profissão dos conselhos evangélicos»
(PC 10) .
28. Todavia, para que os religiosos leigos
possam cum-prir sua missão específica na América Latina
de hoje, é necessário que valorizem seu papel de «leigos
consagrados» e consigam uma inserção mais profunda no laicato
do Po-vo de Deus. Por meio de diversas formas de presença em
126
pequenas comunidades que vivem do próprio trabalho, os religiosos leigos
serão o «fermento na massa». Por suas tarefas apostólicas
e profissionais, comunitárias ou pes-soais, eles hão de ser um
apoio eficaz para os leigos que trabalham nas mesmas atividades.
29. No campo da promoção humana,
os institutos lei-gos deveriam partir para uma diversificação
à luz de uma presença bem compreendida da Igreja em um mundo em
desenvolvimento.
30. Os religiosos leigos poderão
prestar freqüentemen-te um apoio valioso ao ministério hierárquico.
Deste modo é que adquire especial importância, na situação
atual, o trabalho que realizam as religiosas encarregadas de paró-quias
nos lugares em que a presença do padre não é per-manente.
31. Toda essa atualização
exige uma preparação es-merada que obriga as comunidades religiosas
a uma pro-funda reflexão crista sobre as condições humanas
encon-tradas na América Latina e a uma aptidão profissional nos
diversos setores (GE 3) .
32. Os trabalhos domésticos necessários
e meritórios não devem ser, para os religiosos e religiosas de
institui-ções de apostolado direto, um impedimento para seu tra-balho
específico.
33. Uma atenção especial deve
ser prestada à formação espiritual e ao aggiornamento dos
religiosos leigos para que eles possam ser um sinal inteligível que manifeste
ao homem latino-americano sua vocação.
Necessidade de centros regionais de decisão
(Cir. CLAR, ap. cif., p. 48)
34. Por ser a situação da
América Latina muito dife-rente da de outras regiões, em todos
os planos, é muito 127 importante que as decisões para aplicação
concreta das normas gerais dadas pelos institutos religiosos sejam to-madas
pelos responsáveis latino-americanos de cada país. De outra maneira,
corre-se o risco de interpretar mal a situação regional e local,
com grave dano para a vida e a atividade das comunidades religiosas.
Os Religiosos na vida do Povo de Deus sob a coordenação da Hierarquia
35. A característica dos religiosos
só é compreensível relacionando-a com os outros membros,
funções e minis-térios do Povo de Deus.
36. Os religiosos sacerdotes têm uma
situação espe-cial: estão unidos com os bispos no sacerdócio,
são consa-grados para ser cooperadores da ordem episcopal, perten-cem
ao clero da diocese enquanto participam em obras de apostolado sob a autoridade
dos bispos (PO 7; CD 34) .
37. Religiosos e religiosas se integram
à pastoral hie-rárquica em diversos níveis: no sacerdócio,
no conselho pastoral, em organismos supradiocesanos.
38. A diversidade de níveis de integração
supõe para os superiores religiosos a missão de coordenar e alimen-tar
as diferentes participações; cabe-lhes desenvolver e manter o
sentido de comunidade que deve ligar a vida re-ligiosa, em suas diversas funções
e ministérios, com o Povo de Deus. Em conseqüência, a missão
dos superiores, so-bretudo dos superiores de grau mais elevado, deverá
in-tegrar-se muitas vezes em níveis que ultrapassam os da Igreja local.
39. Para o bem da pastoral diocesana e nacional,
é indispensável que os bispos se reúnem periodicamente
com os superiores religiosos e que as Conferências Episcopais convidem
para suas assembléias a Conferência de Religio-sos e Religiosas
e vice-versa, para tratar, em um ambiente de compreensão e cordialidade,
do que se relaciona com a participação dos religiosos na pastoral
de conjunto (CD 5, 6, 35).
40. Um exemplo desta coordenação
tão necessária encontramo-lo muito bem retratado no plano continental,
graças às relações institucionalizadas já
existentes entre a CELAM e a Confederação Latino-americana de
Religio-sos - CLAR. Que seja esta a oportunidade para pedir a todos os religiosos
e religiosas do continente que secun-dem a atividade de suas conferências
nacionais e da CLAR, a fim de que todos esses organismos sejam para o Episco-pado
interlocutores cada vez mais válidos e mais eficazes veículos
de nosso interesse pela vida religiosa.
41. De outra parte, esta II Conferência
considera de extrema conveniência que religiosos e religiosas de diver-sas
regiões da América Latina participem nas Congrega-ções
Romanas e, em particular, na dos Religiosos.
13. FORMAÇÃO DO CLERO
I. Realidade da Igreja na América Latina
«A América Latina apresenta uma sociedade em mo-vimento, sujeita
a transformações rápidas e profundado (exortação
de Paulo VI ao CELAM, 24 de novembro de 1965, IV 8) . Isto repercute na Igreja
e exige dela uma to-mada de posição. A Igreja latino-americana
deve exprimir seu testemunho e seu serviço neste continente, que enfren-ta
problemas angustiosos como os de integração, desenvol-vimento,
profundas modificações e miséria.
Por outro lado, diante dos múltiplos problemas de ti-po estritamente
religioso, a Igreja está com um número cada vez mais escasso de
sacerdotes, com estruturas mi-nisteriais insuficientes e às vezes inadequadas
para um real trabalho apostólico.
Neste contexto colocamos a formação do clero,
que deve ser instrumento fundamental de renovação de nossa Igreja
e resposta às exigências religiosas e humanas de nosso continente.
1.2. Estado atual da formação ao clero
A restauração do diaconato permanente e os problemas particulares
suscitados pela existência do sacerdó-cio nos leva ao estudo da
situação atual da formação do clero.
1.2.1. Diaconato permanente
Em alguns países da América Latina já se desenvol-vem experiências
de formação de diáconos. É cedo para emitir um juízo,
porque sendo iniciativas incipientes, ain-da não alcançaram o
suficiente grau de maturidade.
Contudo, nota-se que a promoção do diaconato surgiu devido a determinadas
exigências pastorais. Isso vem dan-do lugar a uma relativa pluralidade
de formas na conce-pção, preparo e realização da
ação dos candidatos ao dia-conato, de acordo com os ambientes
regionais.
1.2.2. Formação sacerdotal
1.2.2.1, Seminaristas
- Aspectos positivos: a juventude de nossos seminá-rios participa das
inquietudes e dos valores dos jovens de hoje. Nota-se neles um desejo de autenticidade
e sensibi-lidade aos problemas sociais, desejo de justiça e de participação
nas responsabilidades nas transformações de hoje, maior desejo
de vida comunitária, diálogo e sentido de Igreja como catolicidade;
anelo de pobreza e busca de va-lores evangélicos; respeito à pessoa
humana; espírito de iniciativa pastoral; sentido de liberdade e autonomia;
de-sejo de trabalhar para inserir-se no ambiente e auxiliar em sua formação;
apreço aos valores essenciais.
- Aspectos negativos: da mesma forma, a crise vivi-da hoje pela juventude e
pela sociedade se refletem na vida do seminário : tensões entre
a autoridade e a obediência; ânsia de total independência;
falta de equilíbrio para dis-cernir entre o positivo e o negativo das
novidades que sur-gem dentro da vida da Igreja; rejeição de certos
valores religiosos tradicionais; exagerado ativismo que leva a des-cuidar sua
vida de relação pessoal com Deus; desconfian-ça dos adultos.
1.2.2.2. Seminários
- Aspectos negativos: nota-se uma crise nos semi-nários, que se manifesta
principalmente numa baixa no-tável na perseverança e no ingresso
cada vez menor de se-minaristas. Há, aqui, algumas causas reveladoras
desta si-tuação: educadores insuficientemente preparados; falta
de unidade de critérios na equipe de formadores e de seguran-ça
entre os mesmos, para defender certos valores funda-mentais dentro da formação;
deficiência de uma orientação segura e pessoal no que se
relaciona com o crescimen-to na fé e na vocação específica
sacerdotal nos candidatos; abertura às vezes muito brusca dos seminários,
sem graduá-la e sem preparar e assistir os seminaristas; falhas de formação
para uma maturidade humana plena; carência em alguns seminários
de um espírito autêntico de famí-lia; relaxamento na direção
espiritual do seminário. Cer-tos fatores externos como a crise da atual
figura do sa-cerdote, a valorização do leigo e do matrimônio
como pos-sibilidades de participação na missão da Igreja
e maiores oportunidades para a promoção social etc.
- Aspectos positivos: nota-se uma ardente busca de soluções. As
principais tentativas atualmente desenvolvi-das, entre outras, são :
Em geral se verifica que há maior integração na equi-pe
de educadores, atualização deste nível pessoal, através
de cursos e encontros de reflexão, esforços de uma forma-ção
mais pessoal dos seminaristas num ambiente de famí-lia; integração
do seminário na comunidade eclesial e na comunidade humana, em maior
contato com o bispo e os párocos com os seminários; maior sensibilidade
para as realidades do mundo atual e da família; renovação
dos mé-todos pedagógicos; aplicação de uma sã
psicologia no dis-cernimento e orientação dos candidatos.
Quanto ao semi-nário menor, maior incorporação do pessoal
leigo, inclusi-ve feminino; abertura para uma formação fundamental-mente
humana e cristã e uma orientação vocacional plu-ralista;
criação de formas novas de seminários menores, tais como
semi-internatos, externatos, assistência a clas-ses de colégios
estatais, particulares, etc.
No que respeita ao seminário maior: uma formação pessoal
à base de equipes e pequenas comunidades, sobre o que a Santa Sé
deu orientações precisas. No campo da formação intelectual:
tendência a unir o pessoal de várias dioceses e comunidades em
centros de estudos comuns e a freqüentar universidades católicas
ou estatais, sobretudo para o estudo da filosofia (Carta do Cardeal Garrone,
maio de 1968) .
2. Pressuposto teológico
A razão de ser do seminário devemos colocá-la dentro da
perspectiva bíblica do chamado e resposta. Como centro de formação
sacerdotal deverá partir, o seminário, da visão bíblica
«Ex Hominibus Assumptuso «Pra Hominibus cons-titutos», para
lograr aquela maturidade humana nos can-didatos que os capacite a tornarem-se
guias de homens. Mais ainda que aos simples batizados, pede-se aos semi-naristas
aquela maturidade cristã indispensável para serem idôneos
do carisma sacerdotal, pelo qual são chamados a configurar-se com Cristo,
Cabeça do Corpo Místico. Esta configuração com o
sacerdócio ministerial de Cristo os si-tua num nível especificamente
distinto do sacerdócio co-mum dos fiéis.
3. Orientações pastorais
De acordo com o que ficou dito e tendo em conta a situação latino-americana,
e sem pretender esgotar todos os aspectos de formação contidos
nos documentos do Con-cílio Vaticano II e da Santa Sé, permitimo-nos
destacar os seguintes pontos:
3.1. Formação espiritual
Considerando o papel específico do sacerdote na Amé-rica Latina
e as tarefas da pastoral que esta Conferência destacou, julga que a formação
específica dos seminários deve insistir particularmente sobre
algumas atitudes e vir-
134
rudes sem pretender que elas sejam nem as únicas nem as principais.
3.1.1. Capacidade para ouvir fielmente a
Palavra de Deus
Exige-se do sacerdote de hoje saber interpretar, ha-bitualmente, à luz
da fé, situações e exigências da comu-nidade. Esta
tarefa profética, por um lado, exige a capa-cidade de compreender, com
a ajuda do laicato, a realida-de humana; exige, por outro, como carisma específico
do sacerdote em união com o bispo, saber julgar as realidades que estão
em conexão com o plano de salvação. Para che-gar a esta
capacidade necessita-se de:
3.1.1.1. Uma profunda e continuada purificação
inte-rior que dê capacidade ao homem para captar as autênti-cas
exigências da Palavra de Deus (sentido da direção es-piritual)
.
3.1.1.2. Um «sensos fidei» que
é aprofundado particu-larmente pela Sagrada Escritura, assimilada vitalmente
pela oração pessoal, por uma ativa, consciente, frutuosa participação
na liturgia e pelo estudo sério da mensagem; por um constante confronto
com o ensino do magistério da Igreja. Com o mesmo fim parece necessário
desenvol-ver uma forte paixão pela verdade e uma disposição
habi-tual para defender-se da unilateralidade com uma busca e verificação
comunitárias.
3.1.2. Uma espiritualidade marcada pelos
conselhos evangélicos
3.1.2.1. No período em que a pastoral
latino-americana se acha comprometida com a promoção humana, a
fim de que cada homem se realize a si mesmo e goze dos bens da natureza, é
necessário que o sacerdote dê a seus irmãos, de maneira
convincente, o testemunho de saber viver com
135
equilíbrio e liberdade a renúncia daqueles bens da nature-za,
sem lhes dar um valor absoluto, evitando assim que se repitam os erros de outros
países.
3.1.2.2. O Concílio Vaticano II e
o Sumo Pontífice rea-firmaram recentemente a vigência do celibato
para os sa-cerdotes. Sendo o motivo central do celibato a entrega a Cristo,
e por ele à Igreja, e constituindo ao mesmo tem-po uma forma de caridade
pastoral que se confunde com a consagração total e é um
testemunho escatológico para os homens, é necessário que
se dêem aos seminaristas ba-ses muito sólidas para garantir seu
cumprimento. Assim pois, dadas as circunstâncias concretas em que freqüente-mente
o sacerdote latino-americano vive, é de particular importância
uma cuidadosa formação dos seminaristas nesse sentido. Principalmente
isso exige uma formação gradual, de acordo com o desenvolvimento
físico e psico-lógico; capacidade para que realize uma escolha
madura, consciente e livre; capacidade de amor e de entrega sem reserva, que
exige uma fé forte, que o capacite a respon-der ao chamado de Deus; disciplina
ascética e vida de ora-ção que o leve a uma maturidade
no relacionamento com 0 outro sexo; uma realização do sentido
da amizade e a capacidade para trabalhar em equipe com seus irmãos sa-cerdotes.
3.1.3. Espírito de serviço
O sacerdote está posto ao serviço do povo como Cristo. Isto exige
que ele aceite sem limitações as exigên-cias e as conseqüências
do serviço aos irmãos e, em pri-meiro lugar, saber assumir as
realidades e "o sentido do povo" em suas situações e
em sua mentalidade.
Ele, com espírito de humildade e espírito de pobreza, antes de
ensinar deve aprender, fazendo-se tudo para to-dos a fim de leva-los a Cristo.
3.1.4. Experiência pessoal e amor
a Cristo
Assim como a Pedro, Cristo pede ao seminarista de hoje um serviço de
entrega total, como resultado de amor pessoal a ele e ao Pai, pelo Espírito,
já que Cristo não quer servos, mas amigos.
3.2. Disciplina
A disciplina é indispensável, não somente para a boa ordem,
mas sobretudo para a formação da personalidade. É necessário
que a disciplina seja objeto de uma adesão interior para o seminarista,
o que só é possível se os jo-vens perceberem seu valor
e se tiverem por objeto metas essenciais (tudo isto dentro das orientações
do Concílio e de Paulo VI. Cf. 11; Paulo VI no Seminário Lombardo
1966).
3.3. Formação intelectual
3.3.1. Hoje mais do que nunca é urgente
atualizar os estudos de acordo com as orientações do Concílio,
insistindo naqueles aspectos que mais particularmente se relacionam com a situação
atual do continente.
3.3.1.2. Nesse sentido cuide-se da pureza
doutrinal, ante uma tendência de novidades não suficientemente
fundamentadas (of. Discurso de Paulo VI na abertura da II Assembléia
do CELAM) . Insista-se, além disso, em aprofundar-se de tal modo que
se alcance um alto nível intelectual com vistas sobretudo à sua
condição de pastor.
3.3.1.3. Dê-se uma importância
particular ao estudo e investigação de nossas realidades latino-americanas
em seus aspectos religioso, social, antropológico e sociológico.
3.3.1.4. Quanto ao professorado, constatada
a capacitação dos futuros professores, há que procurar
atualizá-los, por meio de encontros, cursos e institutos de alcance nacional
e latino-americano, buscando ainda a colaboração de professores
especializados que possam prestar serviços nos diferentes centros.
3.4. Formação pastoral
3.4.1. Há que cuidar que os professores
de seminários tenham experiência pastoral e, ademais, que o clero
este-ja convenientemente atualizado para que assim possa co-laborar eficazmente
para a formação dos futuros sacerdo-tes.
3.4.2. Numa forma mais concreta e em conformidade
com sua futura atividade pastoral, providencie-se melhor preparação
dos seminaristas em alguns aspectos de par-ticular importância de nosso
ambiente latino-americano: formação básica sobre pastoral
de conjunto, preparação para a iniciação e assistência
às comunidades de base, con-veniente formação e treinamento
da dinâmica de grupos e relações humanas e adequada informação
para utilizar os meios de comunicação social.
3.4.3. Por outro lado, deve-se procurar
que partici-pem de atividades pastorais de forma gradual, progressi-va e prudente,
especialmente na época de férias.
3.5. Pastoral vocacional
3.5.1. Sendo a pastoral vocacional a ação
da comuni-dade eclesial sob a orientação da hierarquia para levar
to-dos os homens a fazerem sua parte na Igreja, toda a co-munidade cristã,
unificada e guiada pelo bispo, é responsá-vel solidamente pelo
desenvolvimento vocacional, tanto no seu aspecto fundamental cristão,
«a vocação», quanto em seus aspectos específicos:
vocações sacerdotais, religiosas e leigas.
3.5.2. Note-se que o sacerdote, por sua
própria mis-são, deve ser o mediador mais direto nos chamados
de Deus, pelo ideal que deve encarnar para a juventude, e porque, sendo fiel
à sua vocação, será mais sensível aos chamados
de Deus nos outros.
3.5.3. Dado o fenômeno de um número
cada vez mais crescente de jovens e mesmo de adultos, tenha-se cuidado especial
na promoção e cultivo dessas vocações. Para isso
é necessário uma pastoral juvenil que, para ser plenamen-te autêntica,
deve levar os jovens a um amadurecimento pessoal e comunitário, e assim
assumirem um compromis-so concreto ante a comunidade eclesial em alguns dos
men-cionados estilos de vida.
3.6. Pontos diversos
3.6.1. Procure-se promover no seminário, uma reflexão
contínua sobre a realidade em que vivemos, a fim de que se saiba interpretar
os sinais dos tempos e se criem atitudes e mentalidade pastoral adequadas.
3.6.2. Todos os que participam da vida do
seminário, sejam quais forem os seus graus, devem-se considerar co-mo
educadores.
3.6.3. Verifica-se, na América Latina,
uma busca de novas formas de preparação de sacerdotes. Tenha-se
em con-ta que, para que tais experiências sejam fecundas, devem ser preparadas
refletidamente, aprovadas pelas autorida-des competentes, bem compreendidas
pelos interessados, acompanhadas, controladas e avaliados os seus resultados,
tendo sempre em conta sua reversibilidade. Ademais, se-ria desejável
que, uma vez demonstrada sua validade, fos-se comunicada às Conferências
Episcopais dos distintos países, para utilização comum.
3.6.4. Por razões óbvias,
é conveniente que a formação dos seminaristas, em geral,
seja realizada no seu próprio ambiente.
3.6.5. Julga-se conveniente que os sacerdotes
de outros países designados para trabalhar na formação
do clero, sigam cursos de adaptação em centros nacionais ou internacionais
e que completem um período prudencial de trabalho pastoral.
3.6.6. Para uma maior economia de forças
e melhora-mento do ensino, recomendam-se iniciativas como: semi-nários
regionais e internacionais, cuidando que haja simul-taneamente uma integração
dos bispos responsáveis e que, na medida do possível, abranjam
zonas humana e pasto-ralmente homogêneas. Igualmente recomendam-se institu-tos
e faculdades de filosofia e teologia comuns para os can-didatos ao clero diocesano
e religioso. Isto ajudará a pro-mover maior integração
no futuro trabalho pastoral e me-lhor inserção na realidade do
mundo atual.
3.6.7. Considera-se de muita utilidade que
se intensi-fique a colaboração mútua e as relações
entre o CELAM e OSLAM (Organização de Seminários latino-americanos)
com as Comissões Episcopais de Seminários e com as Conferências
Nacionais de Religiosos, havendo uma in-formação mútua
sobre os problemas de cada um.
3.7. Diaconato
Em seguida assinalamos algumas orientações gerais no que se refere
à formação dos diáconos permanentes.
3.7.1. Fator indispensável na formação
do futuro diá-cono será a colaboração recíproca
entre este e a comuni-dade. Quer dizer que o candidato amadurece sua formação
atuando na comunidade e esta também contribui para formá-lo. Além
disso, os métodos de formação terão de le-var em
conta a psicologia do adulto, excluindo todo tipo de formação
massificadora e utilizando os métodos ativos.
3.7.2.
A primeira preocupação dos responsáveis da formação
do futuro diácono será a de prepará-lo para que seja capaz
de criar novas comunidades cristãs e ativar as existentes, para que o
ministério da Igreja possa realizar-se nelas com maior plenitude.
3.7.3. Em vista do que acima ficou dito,
é necessário despertar nos candidatos uma espiritualidade diaconal
pró-pria, que nos casados se una a uma autêntica espirituali-dade
conjugal.
3.7.4. Considerando-se as diversas tarefas
que o mi-nistério diaconal terá de realizar na América
Latina, será necessário que a formação intelectual
seja ao mesmo tem-po adequada às funções que terão
de cumprir e ao nível cultural do ambiente.
3.7.5. Ademais, de acordo com as condições
da Igreja na América Latina, na formação do diácono,
cuidar-se-á também de capacitá-1o para uma ação
efetiva no terreno da evangelização e do desenvolvimento integral.
3.7.6. Recomenda-se que haja nas dioceses,
região ou país, equipes responsáveis pela formação
dos candidatos que poderão ser integradas por presbíteros, diáconos,
re-ligiosos e leigos.
14.
POBREZA DA IGREJA
I. Realidade Latino-americana
l. O Episcopado Latino-americano não pode ficar indiferente
ante as tremendas injustiças sociais existentes na América Latina,
que mantêm a maioria de nossos povos numa dolorosa pobreza, que em muitos
casos chega a ser miséria desumana.
2. Um surdo clamor nasce de milhões
de homens, pedindo a seus pastores uma libertação que não
lhes chega de nenhuma parte. «Agora nos estais escutando em silêncio,
mas ouvimos o grito que sobe de vosso sofrimento», disse o papa aos camponeses
colombianos. E chegam igualmente até nós as queixas de que a hierarquia,
o clero e os religiosos, são ricos e aliados dos ricos.
Sobre isso devemos esclarecer que com muita freqüência se confunde
a aparência com a realidade. Muitos fatores têm contribuído
para a formação desta imagem de uma Igreja hierárquica
rica. Os grandes edifícios, as residências dos párocos e
religiosos, quando são superiores às dos bairros em que vivem;
os veículos próprios, às vezes luxuosos; a maneira de vestir
herdada de outras épocas, são alguns desses fatores.
O sistema de espórtulas e pensões escolares para o sustento do
clero e para a manutenção das obras educacionais, tornam-se mal
vistos e até têm contribuído para a formação
de uma opinião exagerada sobre o montante das somas percebidas.
Acrescentamos a isso o exagerado sigilo em que se tem mantido o movimento econômico
de colégios, paróquias e dioceses, ambiente de mistério
que agiganta as sombras e ajuda a criar fantasias; e casos isolados de condenável
enriquecimento que foram generalizados.
Tudo isso tem levado à convicção de que a Igreja, na América
Latina, é rica.
3. Na realidade, muitíssimas paróquias
e dioceses vi-vem tremendamente pobres. Há casos de muitos bispos, sa-cerdotes
e religiosos que vivem cheios de privações e que se entregam com
grande abnegação ao serviço dos pobres. Isso escapa, em
geral, à apreciação de muitos e não conse-gue dissipar
a imagem deformada que persiste.
No contexto de pobreza e até de miséria em que vive a grande maioria
do povo latino-americano, os bispos, sa-cerdotes e religiosos temos o necessário
para a vida e certa segurança, enquanto os pobres carecem do indispen-sável
e se debatem entre a angústia e a incerteza. E não faltam casos
em que os pobres sentem que seus bispos, párocos e religiosos, não
se identificam realmente com eles, com seus problemas e angústias, e
que nem sempre apoiam os que trabalham com eles ou defendem sua sorte.
II. Motivação doutrinária
4. Devemos distinguir:
l. A pobreza coco carência dos bens deste mundo, ne-cessários
para uma vida humana digna é um mal em si. Os profetas a denunciam como
contrária à vontade do Senhor e, muitas vezes, como fruto da injustiça
e do peca-do dos homens.
2. A pobreza espiritual, que é o
tema dos pobres de Javé (of. Sof 2,3; Magnificat) . A pobreza espiritual
é a atitude de abertura para Deus, a disponibilidade de quem tudo espera
do Senhor (of. Ml 5). Embora valorize os bens deste mundo, não se apega
a eles e reconhece o valor superior dos bens do Reino (of. Am 2,6-7; 4,1; 5,7;
Jer 5,28; Miq 6,12-13; Is 10,2 etc).
3. A pobreza como compromisso, assumida
voluntaria-mente e por amor à condição dos necessitados
deste mun-do, para testemunhar o mal que ela representa e a liber-dade espiritual
frente aos bens do Reino. Continua, nisto, o exemplo de Cristo, que fez suas
todas as conseqüências da condição pecadora dos homens
(of. Flp 2) e que sendo «rico se fez pobre» (2 Cor 8,9) para salvar-nos.
Neste contexto, uma Igreja pobre:
- Denuncia a carência injusta dos bens deste mun-do e o pecado que a engendra.
- Prega e vive a pobreza espiritual como atitude de infância espiritual
e abertura para o Senhor.
- Compromete-se ela mesma com a pobreza material. A pobreza da Igreja é,
com efeito, uma constante na história da salvação.
5. Todos os membros da Igreja são
chamados a viver a pobreza evangélica. Mas nem todos da mesma maneira,
pois nela há diversidade de vocações, que comportam di-versos
estilos de vida e diversas formas de agir. Entre os próprios religiosos,
que têm a missão especial de dar tes-temunho da pobreza, há
diferenças segundo os carismas mais próprios.
6. Dito tudo isso, é necessário
salientar que o exem-plo e o ensinamento de Jesus, a situação
angustiosa de milhões de pobres na América Latina, as incisivas
exor-tações do papa e do Concílio, põem a Igreja
latino-ameri-cana ante um desafio e uma missão a que não pode
fugir e à qual deve responder com a diligência e audácia
ade-quadas à urgência dos tempos. Cristo, nosso Salvador, não
só amou aos pobres, mas também, «sendo rico se fez po-bre»,
viveu na pobreza, centralizando sua missão no anún-cio da libertação
aos pobres e fundou sua Igreja como sinal dessa pobreza entre os homens.
A Igreja sempre tem procurado cumprir essa voca-ção,
não obstante «tantas debilidades e fracassos nossos, no passado"
(ES 50). A Igreja da América Latina, dadas às condições
de pobreza e subdesenvolvimento do conti-nente, sente a urgência de traduzir
esse espírito de pobre-za em gestos, atitudes e normas, que a tornem
um sinal mais lúcido e autêntico do Senhor. A pobreza de tantos
irmãos clama por justiça, solidariedade, testemunho, compromisso,
esforço e superação para o cumprimento pleno da missão
salvífica confiada por Cristo.
A situação atual exige, pois, dos bispos, sacerdotes, religiosos
e leigos o espírito de pobreza que «rompendo as amarras da posse
egoísta dos bens temporais, estimu-la o cristianismo a dispor organicamente
da economia e do poder em benefício da comunidade (Paulo VI, 23-7-68)
.
«A pobreza da Igreja e de seus membros na América Latina deve ser
sinal e compromisso. Sinal do valor ines-timável do pobre aos olhos de
Deus; compromisso de so-lidariedade com os que sofrem». (ibid.)
III. Orientações pastorais
7. Por tudo isso queremos que a Igreja da América Latina seja
evangelizadora e solidária com os pobres, tes-temunha do valor dos bens
do Reino e humilde servido-ra de todos os homens de nossos povos. Seus pastores
e demais membros do Povo de Deus hão de dar à sua vida, suas palavras,
suas atitudes e sua ação, a coerência neces-sária
com as exigências evangélicas e as necessidades dos homens latino-americanos.
8. Preferência
e solidariedade
O mandato particular do Senhor, que prevê a evangelização
dos pobres, deve levar-nos a uma distribuição tal de esforços
e de pessoal apostólico, que deve visar, preferencialmente, os setores
mais pobres e necessitados e os povos segregados por uma causa ou outra, estimu-lando
e acelerando as iniciativas e estudos que com esse fim se realizem.
Queremos, como bispos, nos aproximar cada vez com maior simplicidade e sincera
fraternidade, dos pobres, tor-nando possível e acolhedor o seu acesso
até nós.
Devemos tornar mais aguda a consciência do dever de solidariedade para
com os pobres; exigência da cari-dade. Esta solidariedade implica em tornar
nossos seus problemas e suas lutas e em saber falar por eles.
Isto há de se concretizar na denúncia da injustiça e da
opressão, na luta contra a intolerável situação
supor-tada freqüentemente pelo pobre, na disposição de dialo-gar
com os grupos responsáveis por essa situação, para faz-los
compreender suas obrigações.
Expressamos nosso desejo de estar sempre bem perto dos que trabalham no abnegado
apostolado dos pobres, para que sintam nosso estímulo e saibam que não
ouvire-mos vozes interessadas em denegrir seu trabalho.
A promoção humana há de ser a linha de nossa ação
em favor do pobre, respeitando sua dignidade pessoal, ensinando-lhe a ajudar-se
a si mesmo. Com esse fim, reco-nhecemos a necessidade da estruturação
racional de nos-sa pastoral e da integração de nosso esforço
com os esfor-ços de outras entidades.
9. Testemunho
Desejamos que nossa habitação e estilo de vida se-jam modestos;
nossa indumentária, simples; nossas obras e instituições
funcionais, sem aparato nem ostentação.
Pedimos aos sacerdotes e fiéis que nos dêem um tra-tamento que
convenha à nossa missão de padres e pasto-res, pois desejamos
renunciar a títulos honoríficos pró-prios de outras épocas.
Com o auxílio de todo o povo de Deus, esperamos su-perar o sistema de
espórtulas, substituindo-o por outras formas de cooperação
econômica, desligadas da adminis-tração dos sacramentos.
A administração dos bens diocesanos ou paroquiais deverá
ser integrada por leigos competentes e dirigida, da melhor forma possível,
para o bem de toda a comuni-dade (PO 17) .
Em nossa missão pastoral, confiaremos antes de tudo na força da
Palavra de Deus; quando tivermos que em-pregar meios técnicos buscaremos
os mais adequados ao ambiente em que devam ser usados e os colocaremos a serviço
da comunidade (GS 69) .
a) Exortamos os sacerdotes a darem, também,
tes-temunho de pobreza e desprendimento dos bens materiais como o fazem tantos,
particularmente, em regiões rurais e em bairros pobres. Com empenho,
procuraremos fazer com que tenham um justo, embora modesto, susten-to e a necessária
assistência social. Para isso, procurare-mos criar um fundo comum levantado
de todas as paró-quias e da própria diocese e das dioceses de
todo o país (PO 21).
Estimularemos os que se sentem chamados a com-partilhar da sorte dos pobres,
vivendo com eles e traba-lhando com suas próprias mãos, de acordo
com o decreto Presbyterorum Ordinis (n. 8) .
b) As comunidades religiosas, por especial
vocação, devem dar testemunho da pobreza de Cristo. Recebam nosso
estímulo as que se sintam chamadas a formar, en-tre seus membros, pequenas
comunidades, encarnadas real-mente nos ambientes pobres; serão um chamado
contínuo à pobreza evangélica dirigido a todo o Povo de
Deus.
Esperamos, também, que possam cada vez mais fa-zer participar de seus
bens os outros, especialmente os mais necessitados, repartindo com eles não
só o supér-fluo, mas também o necessário e dispostos
a colocar a serviço da comunidade humana os prédios e instrumen-tos
de suas obras (GS 68).
A distinção entre o que pertence à comunidade e o que pertence
às obras, permitirá a realização de tudo isto com
maior facilidade. Igualmente, permitirá buscar no-vas formas para essas
obras, da qual participem também outros membros da comunidade crista,
em sua adminis-tração ou propriedade.
c) Estes exemplos autênticos de desprendimento
e liberdade de espírito, fará com que os demais membros do Povo
de Deus dêem testemunho análogo de .pobreza. Uma sincera conversão
terá que modificar a mentalidade índividualista em outra de sentido
social e preocupação pelo bem comum. A educação
da infância e da juventude, em todos os níveis, começando
pelo lugar, deve ser in-cluída neste aspecto fundamental da vida cristã.
Este sentimento de amor ao próximo é efetivo quan-do se estuda
e se trabalha tendo em vista a preparação ou a realização
de um serviço para a comunidade; quan-do se trata de render e produzir
mais para maior bene-fício da comunidade; quando se dispõe organicamente
a economia e o poder em benefício da comunidade.
10. Serviço
A Igreja não é impulsionada por nenhuma ambição
terrena. O que ela quer é ser humilde servidora de todos os homens (GS
3; Paulo VI, 7-12-65).
Precisamos acentuar esse espírito em nossa América Latina.
Queremos que nossa Igreja latino-americana esteja livre de peias temporais,
de conveniências indevidas e de prestígio ambíguo; que livre
pelo espírito dos vínculos da riqueza (Paulo VI, 24-8-68), seja
mais transparente e for-te sua missão de serviço; que esteja presente
na vida e nas tarefas temporais, refletindo a luz de Cristo, presen-te na construção
do mundo.
Queremos reconhecer todo o valor e autonomia le-gítima das tarefas temporais;
servindo-nos delas, não que-remos desvirtuá-las nem desviá-las
de seus próprios fins (GS 38). Desejamos respeitar sinceramente a todos
os ho-mens, escutando-os para servi-tos em todos os seus pro-blemas e angústias
(GS 1,3) . Assim, a Igreja, continua-dora da obra de Cristo, «que sendo
rico se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza"
(2 Cor 8,9), apresentará ao mundo um sinal claro e inequívoco
da po-breza do Senhor.
15. COLEGIALIDADE
I. Constatações
l. Continentais
1. Em nosso continente, milhões de homens se en-contram marginalizados
da sociedade e impedidos de al-cançar a plena dimensão de seu
destino, ou em virtude da existência de estruturas inadequadas e injustas,
ou por outros fatores, como o egoísmo e a insensibilidade das classes
dirigentes; de outro lado, nossos povos estão to-mando consciência
da necessidade de desencadear um pro-cesso de integração em todos
os níveis: desde a integra-ção dos marginalizados nos benefícios
da vida social, até a integração econômica e cultural
de nossos países.
2. Eclesiais
2. A Igreja deve, pois, fazer face a esta situação
com estruturas pastorais aptas, marcadas pelo sinal da orga-nicidade e da unidade.
Nesse sentido, quando se examina a realidade latino-americana, constata-se alguns
fatores de ordem positiva e outros de ordem negativa.
a) Fatores positivos
a) Entre os primeiros, podemos mencionar:
- A consciência bastante difundida, ainda que às vezes imprecisa
e vaga, das idéias de «Pastoral de Con-junto» e de «Planificação
Pastoral», como também diver-sas realizações efetivas
nesta linha.
- A vitalização dos vicariatos forâneos, a criação
de zonas, e a constituição de equipes sacerdotais, por exi-gências
da ação pastoral conjunta.
- A celebração de Sínodos e a constituição,
já ini-ciada em vários lugares, dos Conselhos presbiterais e de
pastoral, incentivados pelo Concílio.
- O desejo dos leigos de participar das estruturas pastorais da Igreja.
- A importância adquirida pelas Conferências Epis-copais e a própria
existência da Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e
do CELAM.
b) Fatores negativos
b) Entre os fatores de ordem negativa, figuram
os seguintes:
- Inadequação da estrutura tradicional em muitas paróquias
para proporcionar uma vivência comunitária. - Sensação
bastante generalizada de que as Cúrias diocesanas são organismos
burocráticos e administrativos. - Falta de gosto de muitos sacerdotes,
proveniente do fato de não encontrarem um lugar claro e satisfató-rio
na estrutura pastoral; falta de gosto que amiúde foi o fator decisivo
em algumas crises sacerdotais, tal como foi - por analogia de situações
- nas crises de um nú-mero considerável de religiosos e leigos.
- Atitudes particularistas de pessoas ou instituições, em situações
que exigem coordenação.
- Casos de aplicação incorreta da Pastoral de Con-junto ou da
Planificação, seja por improvisação ou incom-petência
técnica, seja pela excessiva valorização dos «plano",
seja por uma concepção demasiado rígida e autori-tária
de sua realização.
II. Orientações doutrinais
l. Toda revisão e renovação das estruturas eclesiais
no que têm de reformável, deve evidentemente ser fei-ta para atender
as exigências de situações históricas con-cretas,
mas não perdendo de vista a própria natureza da Igreja. A revisão
que hoje se deve levar a cabo em nossa situação continental há
de ser inspirada e orientada pe-las idéias diretivas muito sublinhadas
no Concílio: a da COMUNHÃO e a da CATOLICIDADE (of. LG 13).
2. Com efeito, a Igreja antes de tudo é
um mistério de = comunhão católica, pois no seio de sua
comunidade visí-vel, pela vocação da Palavra de Deus e
pela graça de seus sacramentos, particularmente a Eucaristia, todos os
ho-mens podem participar fraternalmente da comum digni-dade de filhos de Deus
(LG 32), e todos também, com-partilhar a responsabilidade e o trabalho
para realizar a missão comum de dar testemunho do Deus que os salvou
e os fez irmãos em Cristo (LG 17; AA 3) .
3. Esta comunhão que une a todos
os batizados, longe de impedir, exige que dentro da comunidade eclesial exis-ta
multiplicidade de funções específicas, pois para que ela
se construa e possa cumprir sua missão, o mesmo Deus sus-cita em seu
seio diversos ministérios e outros carismas que determinam a cada qual
um papel peculiar na vida e na ação da Igreja. Entre os ministérios,
ocupam um lugar particular os que estão vinculados com um «caráter»
sacramental; estes introduzem na Igreja uma dimensão estrutural de direito
divino. Os diversos ministérios não só devem estar a serviço
da unidade de comunhão, mas também, por sua vez, devem constituir-se
e atuar de for-ma solidária. Em especial, os ministérios que trazem
ane-xa a função pastoral - episcopado e presbiterato - de-vem
exercer-se sempre em espírito colegial, e assim bis-pos e presbíteros,
por terem de atuar sempre como mem-bros de um corpo (colégio episcopal
ou presbitério, res-pectivamente) são chamados a constituir na
comunidade p
uma realização «exemplara de comunhão: «forma
facti gregiso («feitos modelo do rebanho) (Pdr 5, 3).
4. É essencial
que todas as comunidades eclesiásticas se mantenham abertas à
dimensão da comunhão católica, de tal forma que nenhuma
se feche sobre si mesma. Asse-gurar o cumprimento desta exigência é
tarefa que incum-be particularmente aos ministros da hierarquia, e em for-ma
essencialíssima aos bispos, os quais, colegialmente uni-dos ao Pontífice
Romano, sua cabeça, são o princípio da catolicidade das
Igrejas. Para que a mencionada abertu-ra seja efetiva e não puramente
jurídica, é necessário ha-ver uma comunicação
real, ascendente e descendente, en-tre a base e a cúpula.
5. De todo o exposto, se depreende que a
ação pasto-ral da comunidade eclesial, destinada a levar o homem
todo e a todos os homens à plena comunhão de vida com Deus na
comunhão visível da Igreja, deve ser necessaria-mente global,
orgânica e articulada. Disto se infere que as estruturas eclesiais devem
ser periodicamente revistas e reajustadas, de tal forma que se possa desenvolver
har-moniosamente o que se chama uma Pastoral de Conjun-to: quer dizer, toda
essa obra salvífica comum exigida pe-la missão da Igreja em seu
aspecto global, «como que o fermento e alma da sociedade humana a ser
renovada em Cristo e transformada em família de Deus» (GS 40).
III. Orientações pastorais
A) Renova&cced