EVANGELIZAÇÃO E CRESCIMIENTO DA FÉ
6.
PASTORAL DAS MASSAS
I. Situação
Na América Latina, na grande
massa de batizados, as condições de fé, crenças
e práticas cristãs são muito diver-sas, não só
de um país para outro, como entre
regiões de uma mesma nação, e ainda entre os diversos níveis
sociais.
Encontram-se também grupos
étnicos semi-pagãos; massas camponesas que conservam uma profunda
religio-sidade e massas de marginalizados com sentimentos reli-giosos, mas de
pouca prática cristã.
Há um processo de transformação
cultural e religiosa. A evangelização do continente experimenta
sérias dificul-dades que se vêm agravando face à explosão
demográfica, às migrações internas, às modificações
sócio-culturais, à escassez de pessoal apostólico e à
deficiente adaptação das estruturas eclesiais.
Até agora a Igreja contou principalmente
com uma pastoral conservadora, baseada numa sacramentalização
com pouca ênfase numa prévia evangelização. Pastoral
apta, sem dúvida, para uma época em que as estruturas sociais
coincidiam com as estruturas religiosas, em que os métodos de comunicação
dos valores (família, escola...) estavam impregnados de valores cristãos
e onde a fé se transmitia quase pela própria força da tradição.
Hoje, entretanto, as próprias
transformações do con-tinente exigem uma revisão dessa
pastoral, a fim de que se adapte à diversidade e pluralidade culturais
do povo latino-americano.
A expressão da religiosidade
popular é fruto de uma evangelização realizada desde o
tempo da conquista, com características especiais. É uma religiosidade
de votos e promessas, de peregrinações e de um número infinito
de devoções, baseada na recepção dos sacramentos,
especial-mente do batismo e da primeira eucaristia, recepção que
tem mais conseqüências sociais que um verdadeiro influ-xo no exercício
da vida cristã.
Embora a conduta moral deixe muito
a desejar, obser-va-se, entre nossos povos, uma enorme reserva de virtudes autenticamente
cristãs, especialmente no que diz respeito à caridade. Sua participação
na vida cultural oficial é qua-se nula e sua adesão à organização
da Igreja é muito es-cassa.
Esta religiosidade, mais do tipo cósmico,
em que Deus é resposta a todas as incógnitas e necessidades do
homem, pode entrar em crise e, de fato, já começou a entrar com
o conhecimento científico do mundo que nos rodeia.
Ante esta religiosidade se apresenta
à Igreja um dile-ma: ou continua a ser Igreja universal ou converte-se
em seita e, portanto, não os incorpora a si. Por ser Igreja e não
seita, deverá oferecer sua mensagem de salvação a todos
os homens, correndo, talvez, o risco de que nem to-dos a aceitem da mesma forma
e com a mesma intensidade.
Como em toda sociedade humana os diversos
grupos de pessoas captam de modo diferente os objetivos da or-ganização,
respondem igualmente de formas diversas aos valores e normas que o grupo professa,
os graus de participação são diversos; as lealdades, o
sentido de solidarieda-de nem sempre são expressos do mesmo modo.
Há, além disso, na sociedade
contemporânea, uma ten-dência aparentemente contraditória;
tendência às mani-festações grupais no comportamento
humano e, simulta-neamente, uma tendência para as pequenas comunidades
onde existe melhor possibilidade de realização como pes-soas.
Do ponto de vista da vivência
religiosa, sabemos que nem todos os homens aceitam e vivem a mensagem reli-giosa
da mesma maneira. No nível pessoal um mesmo ho-mem experimenta fases
distintas em sua resposta a Deus, e no nível social, nem todos manifestam
sua religiosida-de nem sua fé de um modo unívoco. O povo precisa
mani-festar sua fé de uma forma simples, emocional, coletiva.
Ao julgar a religiosidade popular,
não podemos par-tir de uma interpretação cultural ocidentalizada
das clas-ses médias e alta urbanas e sim do significado que essa religiosidade
tem no contexto da sub-cultura dos grupos rurais e urbanos marginalizados.
Suas expressões podem estar
deformadas e mescla-das, em certa medida, com um patrimônio religioso
an-cestral, onde a tradição exerce um poder quase tirânico;
correm o perigo de serem facilmente influenciadas por práticas mágicas
e supersticiosas, de revelarem um cará-ter mais utilitário e um
certo temor ao divino, que necessita da intervenção de seres mais
próximos ao homem e de ex-pressões mais plásticas e concretas.
Esses tipos de religiosidade podem
ser, entretanto, balbucios de uma autêntica religiosidade, expressa com
os elementos culturais de que dispõe.
É mister recordar aos pastores
que no fenômeno re-ligioso existem motivações distintas
que, por serem huma-nas, são mistas e podem corresponder ao desejo de
segu-rança, impotência e, simultaneamente, à necessidade
de adoração, gratidão para com o Ser supremo. Motivações
que se plasmam e se expressam em símbolos diversos. A fé chega
ao homem envolta sempre numa linguagem cul-tural; e na religiosidade natural
do homem há germens de um chamado de Deus.
Para responder a cada situação
na qual o homem se encontra em seu caminho para Deus, há necessidade
de reafirmar a diversidade de respostas que devem ser dadas ao homem contemporâneo
e não esquecer a urgência em exigir, na medida do possível,
uma aceitação mais pes-soal e comunitária da mensagem da
revelação.
II. Princípios
teológicos
Uma pastoral popular pode ser baseada
nos seguintes critérios teológicos :
1. A fé, e, por conseguinte, a Igreja, nascem e cres-cem em religiosidade
culturalmente diversificada nos dis-tintos povos. Fé, que embora imperfeita,
pode encontrar-se ainda nos níveis culturais mais inferiores.
Pertence precisamente à tarefa
evangelizadora da Igreja descobrir nessa religiosidade a «secreta presença
de Deus» (AG 9) e a luz da verdade que ilumina a todos (NA 2), a luz do
Verbo presente, mesmo antes da encar-nação ou da pregação
apostólica, e fazer frutificar essa se-mente.
Sem extinguir a mecha fumegante (cf.
Mt 12,20), a Igreja aceita com alegria e respeito, purifica e incorpora à
fé os diversos "elementos religiosos" (GS 92) que estão
presentes nessa religiosidade como "semente oculta do Verbo (AG 11) e que
constituem ou podem constituir uma preparação evangélica"
(LG 16).
2. Os homens aderem à fé e participam de diversas maneiras.
Ainda que não se possa supor
sem mais nem menos a existência da fé e por trás de qualquer
expressão religio-sa aparentemente cristã tampouco se pode negar,
arbitra-riamente, o caráter de verdadeira adesão fiel e de participação
eclesial real, embora fraca, a toda expressão que apresente elementos
espúrios ou motivações temporais e egoístas. Com
efeito, mesmo na fé, como ato de uma hu-manidade peregrina no tempo,
o homem depende da im-perfeição das motivações mistas.
3. É igualmente próprio da fé, embora incipiente e dé-bil,
um dinamismo e exigência que a levam a superar cons-tantemente suas motivações
inautênticas para firmar-se em outras mais autênticas.
Pertence, pois, ao ato de fé,
sob o impulso do Espírito Santo, o dinamismo interior que tende constantemente
a aperfeiçoar o momento de apropriação salvífica
transfor-mando-o em ato de doação e entrega absoluta de si.
4. Conseqüentemente, longe de tranqüilizar-se com a idéia de que
o povo latino-americano, em seu conjunto, possui já fé; longe
de estar satisfeita com a tarefa de con-servar a fé do povo em seus níveis
inferiores, fracos e ameaçados, a Igreja, na América Latina, se
propõe a esta-belecer e a seguir uma linha de pedagogia pastoral, que
a) Assegure uma séria re-evangelização das diversas áreas
humanas do continente;
b) Promova constantemente uma reconversão e uma educação de
nosso povo na fé em níveis cada vez mais profundos e maduros,
seguindo o critério de uma pastoral dinâmica, que em consonância
com a natureza da fé, im-pulsione o povo fiel para a dupla dimensão
personalizante e comunitária.
5. Segundo a vontade de Deus, os homens devem san-tificar-se e salvar-se não
individualmente, mas constituí-dos em comunidade (LG 9; GS 32). Esta
comunidade é convocada e congregada em primeiro lugar pelo anúncio
da Palavra de Deus vivo (PO 2 e 4) . Entretanto, não se edifica nenhuma
comunidade cristã se ela não tiver como raiz e centro a celebração
da Santíssima Eucaristia (PO 6), mediante a qual a Igreja continuamente
vive e cresce (LG 26) .
III. Recomendações
pastorais
1. Pedir que se realizem estudos sérios e sistemáticos sobre a religiosidade
popular e suas manifestações, seja em universidades católicas,
seja em outros centros de investigação sócio-religiosa.
2. Estudar e realizar uma pastoral litúrgica e catequética adequada,
não só destinada a pequenos grupos, mas sim à totalidade
do povo de Deus, partindo-se de um estudo das subculturas próprias, das
exigências e das as-pirações dos homens.
3. Impregnar as manifestações populares, como ro-marias, e peregrinações,
devoções diversas, da palavra evangélica. Rever muitas
das devoções aos santos, para que não sejam tomados apenas
como intercessores, mas também como modelos de vida, de imitadores de
Cristo. Tratar das devoções e dos sacramentos de maneira que não
levem o homem a uma aceitação semifatalista e sim que o eduquem
para se tornar administrador com Deus, de seu destino.
4. Procurar a formação do maior número de comuni-dades eclesiais
nas paróquias, especialmente nas zonas ru-rais ou entre os marginalizados
urbanos. Comunidades que se devem basear na Palavra de Deus e realizar-se, enquan-to
seja possível, na celebração eucarística, sempre
em co-munhão e sob a dependência do bispo.
5. A comunidade se formará na medida em que seus membros adquirirem um sentido
de pertença que os leve a ser solidários numa missão comum,
e consigam uma par-ticipação ativa, consciente e frutificante,
na vida litúrgi-ca e na convivência comunitária. Para isso,
se torna mister fazê-los viver como comunidade, inculcando-lhes um obje-tivo
comum: alcançar a salvação mediante a vivência de
fé e de amor.
6. Para a necessária formação dessas comunidades, colocar
em vigência, o quanto antes, o diaconato perma-nente e convidar a uma
participação mais ativa os reli-giosos, religiosas e leigos.
7. A pastoral das massas deverá adotar uma exigên-cia cada vez maior
para conseguir personalização e vida comunitária, de modo
pedagógico, respeitando as etapas diversas no caminho para Deus. Respeito
que não signi-ficará apenas aceitação e imobilismo,
mas também um con-vite a uma vivência mais plena do Evangelho e
a uma con-versão reiterada. Para este fim, se torna necessária
a estruturação de organismos pastorais (nacionais, diocesa-nos,
paroquiais) e a utilização dos meios adequados, como os de comunicação
social, para uma catequese apropriada, missões baseadas sobretudo em
núcleos familiares ou de bairros etc., que dêem um sentido de vida
mais de acordo com as exigências do Evangelho.
7.
PASTORAL DAS ELITES
I. Situação
a) Fatos
l. As elites são, em nosso contexto:
a) De
modo geral: os grupos dirigentes mais adian-tados, dominantes no plano da cultura,
da profissão, da economia e do poder;
b) De modo especial: dentro desses mesmos grupos, as minorias comprometidas que
exercem uma influência atual ou potencial nos distintos níveis
de decisão cultural, profissional, econômica, social ou política
.
2. Conscientes da dificuldade em apresentar uma clas-sificação adequada,
assinalamos, entretanto, como perten-centes à elite cultural: os artistas,
homens de letras e uni-versitários (professores e estudantes); à
elite profissional: os médicos, os advogados, educadores (profissões
liberais); engenheiros, agrônomos, planificadores, economistas, so-ciólogos,
técnicos em comunicação social (tecnólogos); à
elite econômico-social: os industriais, banqueiros, líderes sindicais
(operários e camponeses), empresários, comer-ciantes, fazendeiros...
; à elite dos poderes políticos e mili-tares: os políticos,
os que exercem o poder judiciário, os militares...
3. Partindo do ponto de vista de que se trata, em geral, de círculos específicos
e compactos, convém examinar, em primeiro lugar, suas atitudes, mentalidades
e indicações em vista da transformação social, para
considerar, poste-riormente, as manifestações de sua fé,
seu espírito eclesial e social, em confronto com a pastoral atual da
Igreja, propondo, finalmente, algumas recomendações pastorais.
4. A experiência mostra que é difícil realizar uma aná-lise
exata e profunda do assunto por carência de dados precisos, nestes diferentes
setores.
Para uma análise deste tipo,
seria necessário ouvir mais os técnicos e os leigos. Entretanto
apresentamos as seguintes observações:
b)
Tipos
Por questões de método
e levando-se em conta o ca-ráter relativo de toda tipologia - que comporta
necessa-riamente matizes e simplificações - e tratando-se de uma
classificação em função da transformação
social, assinala-remos os seguintes grupos: os tradicionalistas ou conser-vadores;
os progressistas ou revolucionários, que podem ser marxistas, esquerdistas
não-marxistas, ou ideologica-mente indefinidos .
1. Os tradicionais ou conservadores manifestam pou-ca ou nenhuma consciência
social, têm mentalidade bur-guesa e por isso não discutem o problema
das estruturas sociais. Em geral se preocupam com a manutenção
de seus privilégios, que eles identificam com a «ordem estabele-cida».
Sua atuação na comunidade possui um caráter pater-nalista
e assistencial, sem nenhuma preocupação em modi-ficar o status
quo.
Entretanto, alguns conservadores atuam,
muitas ve-zes, sob o influxo do poder econômico nacional ou interna-cional,
com alguma preocupação desenvolvimentista.
Trata-se de uma mentalidade que freqüentemente
se destaca em alguns meios profissionais, em setores econômico-sociais
e do poder estabelecido. Isto faz com que cer-tos setores governamentais atuem
em benefício dos gru-pos tradicionalistas ou conservadores, o que dá
lugar à corrupção e ausência de um benéfico
processo de perso-nalização e socialização das classes
populares. Em diver-sas regiões as forças militares apoiam esta
estrutura, e, às vezes, intervêm para reforçá-la.
2. Os progressistas se ocupam preferencialmente dos meios de produção
que, segundo eles, devem ser modifica-dos em qualidade e quantidade. Atribuem
grande valor à tecnização e ao planejamento da sociedade.
Acham que o povo marginalizado deve ser integrado na sociedade como produtor
e consumidor. Dão mais ênfase ao progresso eco-nômico que
à promoção social do povo que vise à participação
de todos nas decisões que interessem à ordem eco-nômica
e política.
É essa a mentalidade que se
observa, freqüentemente, entre os tecnólogos e os vários
organismos que procuram o desenvolvimento dos países.
3. Os revolucionários contestam a estrutura econômico-social. Desejam
a transformação radical da mesma, tanto de seus objetivos como
de seus meios. Para eles o povo é ou deve ser o sujeito dessa transformação,
de modo a par-ticipar das decisões para o ordenamento de todo o pro-cesso
social.
Esta atitude pode ser observada com
maior freqüên-cia entre os intelectuais, pesquisadores, cientistas
e uni-versitários.
c) Atitudes na fé
Reconhecendo que em todos estes ambientes
muitos vivem sua fé conforme sua consciência e ainda realizam um
trabalho positivo de conscientização e promoção
hu-mana, notamos, do ponto de vista da mudança social as seguintes manifestações
desta fé:
l. No grupo dos conservadores ou tradicionalistas
se encontra, com maior freqüência, a separação entre
fé e responsabilidade social. A fé é mais a adesão
a um credo e a princípios morais. A pertença à Igreja é
mais de estilo tradicional, e, às vezes interesseira. Dentro desses grupos,
mais que verdadeira crise de fé, se verifica uma crise de re-ligiosidade.
2. Entre os progressistas podem ser encontradas
di-versas gamas de fé, desde o indiferentismo até a vivência
pessoal. Têm tendência a considerar a Igreja instrumento mais ou
menos favorável ao desenvolvimento. Nestes gru-pos se percebe mais claramente
o impacto da dessacraliza-ção devida à mentalidade técnica.
Nota-se também em alguns desses grupos, especial-mente entre universitários
e os profissionais jovens, uma tendência que leva ao indiferentismo religioso
ou a uma visão humanística que exclui a religião, devido,
sobretudo, à sua preocupação com os problemas sociais.
3. Os revolucionários tendem a identificar
unilateralmente a fé com a responsabilidade social.
Possuem um sentido muito agudo do serviço ao próximo e, ao mesmo
tempo, experimentam dificuldades no relacionamento pes-soal com Deus transcendente
na expressão litúrgica da fé.
Dentro destes grupos ocorre mais freqüentemente uma crise real de fé.
Quanto à Igreja, criticam determina-das formas históricas e algumas
manifestações dos repre-sentantes oficiais da Igreja, em sua atitude
e vivência con-cretas, frente ao social.
II. Princípios
l. Em todos esses ambientes a evangelização deve orientar-se
para formação de uma fé pessoal, adulta, in-teriormente
formada, operante e constantemente em con-fronto com os desafios da vida atual,
nesta fase de tran-sição.
2. Esta evangelização deve
ser relacionada com os «sinais dos tempos».
Não pode ser atemporal nem a-histórica. Com efeito, os "sinais
dos tempos", observados em nosso continente sobretudo na área social,
constituem um "dado teológico" e interpelação
de Deus.
3. Por outro lado, esta evangelização
deve ser reali-zada através do testemunho pessoal e comunitário,
que se expressará de forma especial no contexto do próprio com-promisso
temporal.
4. A evangelização de que
estamos falando deve tor-nar explícitos os valores de justiça
e fraternidade, conti-dos nas aspirações de nossos povos, numa
perspectiva es-catológica.
5. A evangelização precisa,
como suporte, de uma Igreja-sinal.
III. Recomendações Pastorais
a) De caráter geral:
1. É necessário animar, dentro
das elites, as minorias comprometidas, criando - enquanto possível -
equipes de base que façam uso da pedagogia da revisão da vida,
fazendo-as compreender que são, simultaneamente, após-tolos de
seu próprio ambiente, e estimulando, além disso, contatos com
os demais grupos na vida paroquial, dioce-sana e nacional. Esta pastoral das
elites não deve ser sepa-rada da pastoral geral da Igreja.
2. Procuremos que os sacramentos e a vida
litúrgica, com base numa relação pessoal com Deus e com
a comu-nidade, adquiram o sentido de apoio e desenvolvimento, o amor de Deus
e do próximo, como expressão da comuni-dade cristã.
3. Na formação do clero, é
preciso dar maior atenção a este tipo de pastoral especializada,
preparando-se tam-bém mediante estudos profissionais e técnicos
quando for preciso assessores especializados para estes grupos.
b) De caráter especial:
1. Artistas e homens
de letras
a) Levando-se em conta o importante papel
que os artistas e homens de letras estão chamados a desempenhar em nosso
continente, especialmente em relação a sua auto-nomia cultural,
como intérpretes naturais de suas angús-tias e de suas esperanças,
como promotores de valores au-tótones que configuram a imagem nacional,
a II Conferência considera particularmente importante a presença
ani-madora da Igreja nestes setores.
b) Esta presença deverá revestir-se
de um caráter de diálogo, longe de toda preocupação
moralizante ou con-fessional, em atitude de profundo respeito à liberdade
cria-dora, sem detrimento da responsabilidade moral.
c) A Igreja latino-americana deve dar ao
homem de letras e aos artistas o seu devido lugar, requerendo sua ajuda para
a expressão estética de sua palavra litúrgica, de sua música
sacra e de seus lugares de culto.
2. Universitários
(estudantes)
a) Ante a urgente necessidade de uma efetiva
presen-ça da Igreja no meio universitário, esta II Conferência
pe-de que se levem em conta as recomendações práticas do
encontro episcopal sobre pastoral universitária realizada em Buga, em
fevereiro de 1967.
b) Da mesma forma, pede às hierarquias
locais maior compreensão dos problemas próprios dos universitários,
procurando valorizar antes de condenar indiscriminada-mente, as nobres motivações
e as justas aspirações, muitas vezes contidas em suas inquietudes
e protestos, tratando de canalizá-las devidamente através de um
diálogo aberto.
c) Levando-se em conta o fato de que milhares
de jovens latino-americanos estudam na Europa e América do Norte, o CELAM
procurará, de acordo com as hierar-quias desses países, dar a
devida atenção pastoral aos mes-mos, cuidando, simultaneamente,
de manter viva, neles, a consciência do compromisso de serviço
para com seus países de origem.
3. Grupos econômicas-sociais
a) A experiência demonstra que no ambiente dessas elites é
possível a constituição de grupos e organizações
especializadas, cujas metas e metodologia devem manter-se em constante revisão
à luz do contexto latino-americano e da pastoral social da Igreja.
b) Sem subestimar as formas assistenciais
de ação social, a pastoral da Igreja deve orientar preferencialmen-te
esses grupos para um compromisso no plano das estru-turas sócio-econômicas
e que conduza às necessárias refor-mas das mesmas.
c) A Igreja deve prestar uma atenção
especial às mi-norias ativas (líderes sindicais e cooperativas)
que nos ambientes rural e operário estão realizando um importan-te
trabalho de conscientização e promoção humana, apoian-do
e acompanhando pastoralmente suas preocupações com a transformação
social.
4. Poderes militares
Com relação às forças armadas, a Igreja deve incul-car-lhes
a idéia de que, além de suas funções normais es-pecíficas,
elas têm a missão de garantir as liberdades po-líticas dos
cidadãos, em vez de lhes pôr obstáculos. Por outro lado,
as forças armadas têm a possibilidade de edu-car, dentro de seus
próprios quadros, os jovens recrutas para a futura participação,
livre e responsável, na vida po-lítica do país.
5. Poderes políticos
a) Promovam-se contatos e diálogos entre a Igreja e o poder
constituído sobre exigências da moral social, não se excluindo,
onde se torne necessário, a denúncia, enérgi-ca e prudente,
das injustiças e dos excessos do poder.
b) A ação pastoral da Igreja
estimulará todas as ca-tegorias de cidadãos a colaborarem nos
planos construti-vos dos governos e a contribuírem também por
meio de uma crítica sadia, numa oposição responsável,
para pro-gresso do bem comum.
c) A Igreja deverá manter sempre
sua independência diante dos poderes constituídos e dos regimes
que os as-seguram, renunciando, se for preciso, às formas legítimas
de presença que, por causa do contexto social, a tornam suspeita de aliança
com o poder constituído e são, por isso mesmo, um contra-sinal
pastoral (cf. GS 76).
d) A Igreja, entretanto, deverá colaborar
na formação política das elites, através de seus
movimentos e insti-tuições educativas.
e) Note-se, finalmente, que também
na América La-tina «com o desenvolvimento cultural, econômico
e social, se consolida na maioria o anseio de participar mais ple-namente da
ordenação da comunidade política... A cons-ciência
mais viva da natureza humana fez com que «sur-gisse o propósito
de se estabelecer uma ordem político-jurídica destinada a proteger
melhor a vida pública e os direitos da pessoa humana, como o direito
de livre reunião, de livre associação, de expressar suas
próprias opiniões e de professar, particular e publicamente, a
religião» (cf. GS 73).
8.
CATEQUESE
I. Necessidade
de uma renovação
l. Diante de um mundo em transformação, e conside-rando o atual processo
de maturação da Igreja na Amé-rica Latina, o movimento
catequético sente a necessidade de uma profunda renovação
que expresse a vontade da Igreja e de seus responsáveis de levar avante
sua mis-são fundamental: educar eficazmente a fé dos jovens e
dos adultos, em todas as camadas. Falhar neste ponto se-ria trair, ao mesmo
tempo, a Deus, que confiou à Igreja sua mensagem, e ao homem, que necessita
dela para sal-var-se.
2. A renovação catequética
não pode ignorar um fa-to: que nosso continente vive, em grande parte,
de uma tradição cristã, e que esta impregna, simultaneamente,
a existência dos indivíduos e o contexto social e cultural. A religiosidade
popular, embora se observe um crescimen-to no processo de secularização,
é um elemento válido na América Latina. Não se pode
prescindir dela, dada a importância, seriedade e autenticidade com que
é vivida por muitas pessoas, sobretudo nos meios populares. A re-ligiosidade
popular pode ser a ocasião ou ponto de partida para um anúncio
da fé. Não obstante, impõe-se uma revisão e um estudo
científico dessa religiosidade, para puri-ficá-la de elementos
que a tornem inautêntica e para valo-rizar seus elementos positivos. Evitar-se-á,
assim, uma es-tagnação em formas do passado, algumas das quais
pare-cem hoje, além de ambíguas, inadequadas e até nocivas.
3. Como conseqüência, os responsáveis
pela cateque-se encontram-se diante de uma série de tarefas comple-xas
e difíceis de conjugar:
Promover a evolução de formas tradicionais de fé, próprias
de uma grande parte do público cristão, e tam-bém suscitar
formas novas.
Evangelizar e catequizar massas incontáveis de pes-soas simples, freqüentemente
analfabetas, e, ao mesmo tempo, responder às necessidades dos estudantes
e dos inte-lectuais, que são as parcelas mais vivas e dinâmicas
da sociedade.
Purificar, quando necessário, formas tradicionais de presença
e, ao mesmo tempo, descobrir uma nova manei-ra de estar presente às formas
contemporâneas de expres-são e comunicação numa sociedade
que se seculariza.
Assegurar, finalmente, o conjunto dessas tarefas, uti-lizando todos os recursos
atuais da Igreja e, ao mesmo tempo, renunciar a formas de influência e
atitudes de vida que não sejam evangélicas.
II. Características
da renovação
4. Ao apresentar sua mensagem renovada, a cateque-se deve manifestar
a unidade do plano de Deus.
Sem cair em confusões ou em identificações simplis-tas,
deve-se expressar sempre a unidade profunda que exis-te entre o plano divino
de salvação, realizado em Cristo, e as aspirações
do homem; entre a história da salvação e a história
humana; entre a Igreja, povo de Deus, e as co-munidades temporais; entre a ação
reveladora de Deus e a experiência do homem; entre os dons e carismas
sobre-naturais e os valores humanos.
Excluindo assim toda dicotomia ou dualismo no cris-tão, a catequese prepara
o desenvolvimento progressivo do povo de Deus para a sua realização
escatológica, que tem agora sua expressão na liturgia.
5. Por outro lado, a catequese deve conservar
sempre seu caráter dinâmico e evolutivo.
A tomada de consciência da mensagem cristã se faz aprofundando
cada vez mais a compreensão autêntica da verdade revelada. Essa
tomada progressiva de consciên-cia, porém, cresce na medida do
surgimento das experiên-cias humanas, individuais e coletivas. Por isso,
a fidelida-de da Igreja à Revelação tem que ser e é
dinâmica.
A catequese não pode, pois, ignorar em sua renovação as
mudanças econômicas, demográficas, sociais e cul-turais
sofridas na América Latina.
III. Prioridades na renovação catequética
6. De acordo com esta teologia da Revelação, a cate-quese
atual deve assumir totalmente as angústias e espe-ranças do homem
de hoje, para oferecer-lhe as possibili-dades de uma libertação
plena, as riquezas de uma salva-ção integral em Cristo, o Senhor.
Por isso, deve ser fiel à transmissão, não somente da mensagem
bíblica em seu conteúdo intelectual, mas também à
sua realidade vital en-carnada nos fatos da vida do homem de hoje.
As situações históricas e as aspirações autenticamen-te
humanas são parte indispensável do conteúdo da cate-quese.
E devem ser interpretadas seriamente, dentro de seu contexto atual, à
luz das experiências vivenciais do povo de Israel, de Cristo, e da comunidade
eclesial, na qual o Espírito de Cristo ressuscitado vive e opera continua-mente.
7. A América Latina vive hoje um
momento histó-rico, que a catequese não pode ignorar: o processo
da transformação social, exigido pela atual situação
de necessidade e injustiça em que se encontram marginalizados grandes
setores da sociedade. As formas desta evolução global e profunda
poderão ser diversas: progressivas e mais ou menos rápidos. E
cabe à catequese ajudar na evolução integral do homem,
dando-lhe seu autêntico sentido cris-tão, promovendo sua motivação
nos catequizados e orien-tando-a para que seja fiel ao Evangelho.
8. É necessário ressaltar,
também, as exigências do pluralismo numa pastoral latino-americana.
As situações em que se desenvolve a catequese são muito
diversas: des-de as de tipo patriarcal, em que as formas tradicionais são
ainda aceitas, até as mais avançadas formas da civili-zação
urbana contemporânea. Convém, por isso, desta-car a riqueza que
deve existir na diversidade de pontos de vista e de formas que se dão
na catequese. Tanto mais quanto esta deve adaptar-se à diversidade de
línguas e de mentalidade e à variedade de situações
e culturas huma-nas.
É impossível, em vista disso, querer impor moldes fi-xos e universais.
Com um sincero intercâmbio de colabo-rações, devemos guardar
a unidade da fé na diversidade de formas.
9. Apesar deste pluralismo de situações,
nossa cate-quese tem um ponto comum em todos os meios: tem que ser eminentemente
evangelizadora, sem pressupor uma realidade de fé, senão após
oportunas constatações.
Já o fato de se batizarem as crianças pequenas, con-fiando na
fé da família, torna necessário uma «evangelização
dos batizados», como uma etapa na educação de sua fé.
E esta necessidade é mais urgente, quando se conside-ra a desintegração
que a família tem sofrido em muitas regiões, a ignorância
religiosa dos adultos e a escassez de comunidades cristãs de base.
Esta evangelização dos batizados tem um objetivo concreto: levá-los
a um compromisso pessoal com Cristo e a uma entrega consciente à obediência
da fé. Daí, a importância de uma revisão da pastoral
da confirmação, assim como de novas formas de catecumenato na
cateque-se de adultos, insistindo na preparação para os sacramentos.
Devemos rever, também, tudo aquilo que em nossa vi-da ou em nossas instituições
possa ser um obstáculo para a re-evangelização dos adultos,
purificando assim a face da Igreja diante do mundo.
10. Para os cristãos, tem particular
importância a forma comunitária de vida, como testemunho de amor
e de unidade.
Não pode, portanto, a catequese limitar-se às dimen-sões
individuais da vida. As comunidades cristãs de base, abertas ao mundo
e inseridas nele, têm que ser o fruto da evangelização,
assim como sinal que confirma com fatos a mensagem de salvação.
Nesta catequese comunitária deve-se ter em conta a família, como
primeiro ambiente natural onde se desen-volve o cristão. Ela deve ser
objeto da ação catequética, para que seja dignificada e
se torne capaz de cumprir sua missão. E, ao mesmo tempo, a família
se converte em agente eficaz da renovação catequética.
11. Deve-se fazer ressaltar o aspecto totalmente
posi-tivo do ensinamento catequético com seu conteúdo de amor.
Assim, fomentar-se-á um são ecumenismo, evitan-do toda polêmica,
e criar-se-á um ambiente propício à jus-tiça e à
paz.
12. A catequese encontra-se diante de um
fenômeno que está incluindo profundamente nos valores, nas atitu-des
e na vida mesma dos homens: os meios de comunicação social.
Este fenômeno constitui um fato histórico irreversí-vel
que, na América Latina, avança rapidamente e con-duz em breve
prazo a uma cultura universal: "cultura da imagem". Este é
um sinal dos tempos, que a Igreja não pode ignorar.
Da situação criada por este fenômeno, deve partir a catequese
para uma apresentação eficaz da mensagem cristã. É
urgente, pois, uma séria investigação sobre o efei-to dos
meios de comunicação social e uma pesquisa da for-ma mais adequada
de dar uma resposta, utilizando-os na tarefa evangelizadora, e uma séria
avaliação das realiza-ções atuais.
IV. Meios para
a renovação catequética
13. Para a realização do
trabalho catequético, impõe-se um mínimo de organização
que, partindo da ordem na-cional e diocesana, chegue às distantes comunidades
pri-márias. A organização de tipo nacional, com suas óbvias
relações internacionais, facilitará evidentemente e dará
agilidade ao trabalho nas dioceses e outros meios, com maior e eficaz aproveitamento
das técnicas, pessoal espe-cializado e possibilidades econômicas.
14. Esta renovação exige pessoal
adequado, para for-mar a comunidade cristã.
Conseqüentemente, admitido o necessário testemunho da própria
vida, sugerem-se os seguintes pontos:
- A preparação de dirigentes e orientadores cate-quistas com dedicação
exclusiva;
- A formação de catequistas com um conhecimento básico
e uma visão ampla das condições psico-sociológicas
do meio humano em que terão de trabalhar, bem como das religiões
primitivas, em alguns lugares, e dos recursos de evangelização
que tenham sido empregados;
- A promoção de catequistas leigos, preferentemen-te originários
de cada lugar, e a formação, no ministério da Palavra,
dos diáconos permanentes.
15. A linguagem falada pela Igreja reveste-se
de im-portância particular. Trata-se tanto das formas de ensino simples
- catecismos, homilia etc. - nas comunidades lo-cais, como das formas mais universais
da palavra do ma-gistério. Impõe-se um trabalho permanente, de
maneira que seja possível fazer perceber como a mensagem de sal-vação
contida nas Escrituras, na liturgia, no magistério e no testemunho é
hoje palavra de vida. Não basta, pois, re-petir ou explicar a mensagem.
Ao contrário, cumpre re-expressar incessantemente por novas maneiras,
o Evangelho em relação com as formas de existência do homem,
tendo em conta os meios humanos étnicos e culturais e guardando sempre
a fidelidade à palavra revelada.
16. Para que a renovação seja
eficaz, necessita-se de um trabalho de reflexão, orientação
e avaliação nos dife-rentes aspectos da catequese. Há que
multiplicar por toda parte os institutos catequéticos, as equipes de
trabalho, nos quais pastores, catequistas, teólogos especialistas em
ciên-cias humanas, dialoguem e trabalhem conjuntamente a partir da experiência,
a fim de propor formas novas de pa-lavras e ação, de elaborar
o material pedagógico corres-pondente e de verificar e avaliar, em cada
caso, sua va-lidade. É mister que essas equipes sejam dotadas de meios
de trabalho adequados e da indispensável liberdade de ação.
V. Conclusões
a) Renovar a catequese, promovendo a evolução das formas
tradicionais da fé, insistindo na catequese perma-nente dos adultos (nn.
1, 2, 3).
b) Evitar toda dicotomia ou dualismos entre
o natu-ral e o sobrenatural (n. 4).
c) Guardar fidelidade à mensagem
revelada, encarna-da nos fatos atuais (n. 8).
d) Orientar e promover, através da
catequese, a evo-lução integral do homem e as transformações
sociais (n.7).
e) Respeitar na unidade a pluralidade de
situação (n. 8).
f) Promover a evangelização
dos batizados: na confirmação, para adolescentes e jovens; em
um novo catecu-menato, para os adultos (n. 9).
g) Dar todo o valor catequético à
família (n. 10) .
h) Empregar os meios de comunicação
social (n.12).
i) Fomentar a organização
da catequese em nível na-cional e diocesano (n. 13) .
j) Formar catequistas leigos, preferentemente
autó-tones (n. 14).
k) «Adaptar a linguagem eclesiástica
ao homem de ho-je, resguardando a integridade da mensagem».
1) Impulsionar trabalhos de reflexão
e experimentação em institutos e equipes de trabalho, com a suficien-te
amplitude e liberdade (n. 16) .
9.
LITURGIA
I. Dados gerais sobre a situação
na América Latina
A pluralidade de situação na renovação litúrgica
é um fato; enquanto em algumas regiões esta aplicação
se realiza com crescentes esforços, em outras sua aplicação
é feita de forma ainda débil. Em geral é insuficiente.
Falta uma mentalidade sobre o conteúdo da reforma, a qual é especialmente
importante para o clero, cujo papel na reno-vação litúrgica
é básico. Além disso, é necessário reconhe-cer
que a variedade de culturas provoca difíceis problemas de aplicação
(línguas, sinais).
Tem-se a impressão de que o bispo nem sempre exer-ce de forma eficaz
seu papel litúrgico, de promotor, regu-lador e orientador do culto.
As traduções litúrgicas significaram um passo no avanço
da Igreja; mas os critérios que têm sido adotados não permitiram
ainda chegar ao grau de adaptação neces-sária.
A liturgia não está integrada organicamente na educação
religiosa, nem a ela vinculada em mútua compenetração.
São insuficientes os estudiosos capacitados para de-senvolver a renovação
litúrgica.
II. Fundamentação
teológica e pastoral
a) Elementos doutrinários: a presença
do mistério da salvação, enquanto a humanidade peregrina
até sua plena realização na parusia do Senhor, culmina
na celebração da liturgia eclesial .
A liturgia é ação de Cristo, Cabeça e de seu Corpo,
que é a Igreja . Contém, portanto, a iniciativa salvadora que
vem do Pai, pelo Verbo e no Espírito Santo, e a res-posta da humanidade
nos que se ligam pela fé e pela cari-dade no Cristo, recapitulador de
todas as coisas .
Como não vivemos ainda a plenitude do Reino , toda celebração
litúrgica está essencialmente marcada pela ten-são entre
o que já é uma realidade e o que ainda não se verifica
plenamente ; é a imagem da Igreja, ao mesmo tempo santa e necessitada
de purificação ; tem um senti-do de alegria e uma dolorosa consciência
do pecado. Nu-ma palavra, vive na esperança .
A liturgia, momento em que a Igreja é mais perfei-tamente ela própria,
realiza, indissoluvelmente unidas, a comunhão com Deus e entre os homens
, e de tal modo, que aquela é a razão desta .
Busca-se, antes de tudo, o louvor da glória da graça . É
certo, também, que todos os homens precisam da glória de Deus
para serem verdadeiramente homens. E por isso mesmo o gesto litúrgico,
não é autêntico se não implica um compromisso de
caridade, um esforço sempre reno-vado por ter os sentimentos de Cristo
Jesus , e para uma contínua conversão.
A instituição divina da liturgia jamais pode ser consi-derada
como um adorno contingente da vida eclesial, já que «nenhuma»
comunidade cristã se edifica se não tem sua raiz na celebração
da Santíssima Eucaristia, pela qual se inicia toda a educação
do espírito da comunidade. Esta celebração, para ser sincera
e plena, deve conduzir tanto às várias obras de caridade e mútua
ajuda como à ação missionária e às várias
formas de testemunho cristão .
No momento atual da América Latina, como em to-dos os tempos, a celebração
litúrgica comporta e coroa um compromisso com a realidade humana , com
o desenvol-vimento e com a promoção, precisamente porque toda
a criação está envolvida pelo desígnio salvador
que abrange a totalidade do homem .
b) Princípios pastorais. No momento
atual de nosso continente, certos estados de vida e certas atividades hu-manas
representam uma importância vital para o futuro. Entre os primeiros cabe
destacar a família, a juventude, a vida religiosa e o sacerdócio;
entre as segundas, a promo-ção humana e tudo o que está
ou pode ser colocado a seu serviço: a educação, a evangelização
e as diversas formas de ação apostólica.
Sendo a sagrada liturgia a presença do mistério da sal-vação,
visa em primeiro lugar à glória do Pai . Mas essa mesma glória
comunica-se aos homens e por isso a cele-bração litúrgica,
mediante o conjunto de sinais com que expressa a fé, apresenta:
l. Um conhecimento e uma vivência
mais profunda da fé ;
2. Um sentido da transcendência da
vocação humana ;
3. Um fortalecimento do espírito
da comunidade ;
4. Uma mensagem cristã de alegria
e esperança ;
5. A dimensão missionária
da vida eclesial ;
6. A exigência postulada pela fé,
de comprometer-se com as realidades humanas ;
Todas essas dimensões devem estar presentes onde quer que cada estado
de vida realize alguma atividade hu-mana.
Para que a liturgia possa realizar, em plenitude, esses objetivos, necessário
se faz:
l. Uma catequese prévia sobre o mistério
cristão e sua expressão litúrgica ;
2. Adaptar-se ao gênio das diversas
culturas e encar-nar-se nele ;
3. Acolher, portanto, positivamente, a pluralidade
na unidade, evitando erigir, a priori, a uniformidade como princípio
;
4. Manter-se numa situação
dinâmica que acompa-nhe tudo o que houver de são no processo de
evolução da humanidade ;
5. Conduzir a uma experiência vital
da união entre a fé, a liturgia e a vida cotidiana, em virtude
da qual che-gue o cristão ao testemunho de Cristo .
Não obstante, a liturgia, que interpela o homem, não pode reduzir-se
a mera expressão de uma realidade hu-mana freqüentemente unilateral
ou marcada pelo pecado .
III. Recomendações
a) Referentes aos bispos. O Concílio
Vaticano II reco-nhece ao bispo o direito de regulamentar a liturgia e apon-ta-lhe
o dever de promovê-la no seio da Igreja local . A ele cumpre:
1. Com toda a responsabilidade pastoral,
promover singular ou coletivamente a vida litúrgica;
2. Celebrar freqüentemente como «grande
sacerdote de sua grei», cercado por seu presbitério e ministros
no meio de seu povo ;
3. Uma função moderadora «ad
normam juris» e se-gundo o espírito da Constituição
da Sagrada Liturgia ;
4. Valer-se da comissão diocesana
ou interdiocesana, recomendadas pelo Concílio, compostas de estudiosos
da liturgia, Bíblia, pastoral, música e arte sacra .
b) Referentes às conferências
episcopais. A renova-ção comunitária e hierárquica
necessita, além disso, da integração de «diversas
assembléias territoriais» de bis-pos legitimamente constituídas
. A elas cabe uma função regulamentadora e coordenadora, dentro
dos limites es-tabelecidos que assegurem a fidelidade da imagem eclesial que
cada comunidade cristã deve oferecer da Igreja uni-versal.
Para conseguir melhor estas finalidades, a II Confe-rência Geral do Episcopado
Latino-americano:
l. Deseja que se confiram às Conferências
Episcopais faculdades mais amplas em matéria litúrgica, a fim
de que possam realizar melhor as adaptações necessárias,
levan-do em conta as exigências de cada assembléia;
2. Recomenda que, dadas as peculiaridades
circuns-tanciais dos territórios de missão, seus ordinários
se reúnam para estudar as adaptações necessárias
e para que possam ser apresentadas à autoridade competente .
c) Serviços do CELAM. A coincidência
de problemas comuns e a necessidade de contar com grupos de técnicos
devidamente preparados, aconselha, além disso, o incre-mento dos serviços
que possa proporcionar o Departamen-to de Liturgia do CELAM. Tais são:
1° - Um serviço de informação,
documentação biblio-gráfica e coordenação
prestado pelo secretário executi-vo do Departamento, que se propõe
manter em permanen-te comunicação os Episcopados latino-americanos.
2° - Um serviço de investigação
e formação que já co-meçou a prestar o Instituto
de Liturgia Pastoral de Medel-lin, com vistas à adaptação
mais profunda da liturgia às necessidades e culturas da América
Latina . Para isso se torna necessário que se considere e se facilite
o agrupa-mento de técnicos em liturgia, Sagradas Escrituras e Pas-toral,
como em ciências antropológicas, cujos trabalhos abram caminho
a um progresso legítimo .
3° - Um escritório de coordenação
dos musicólogos, artistas e compositores numa união de esforços
que se este-jam realizando em nossos países, de forma a proporcionar
uma música digna dos sagrados mistérios .
4° - Um serviço de assessoramento
técnico, tanto pa-ra a conservação do patrimônio
artístico como para a promoção de novas formas artísticas
.
5º - Um serviço editorial para
diversas publicações que sirvam de instrumento valioso para a
pastoral litúrgica, sem que isso interfira no âmbito de outras
publicações.
Os serviços mencionados pressupõem a existência de bibliotecas
especializadas e suficientemente providas.
d) Sugestões particulares
1º - A celebração da
Eucaristia em pequenos grupos e comunidades de base pode ter verdadeira eficácia
pastoral; aos bispos cabe permití-la, tendo em conta as circuns-tâncias
de cada lugar.
2° - A fim de que os sacramentos alimentem
e forta-leçam a fé na situação atual da América
Latina, aconselha-se o estabelecimento, planificação e intensificação
de uma pastoral sacramental comunitária mediante preparações
sérias, graduais e adequadas para o batismo (os pais e padrinhos), confirmação,
primeira eucaristia e matrimônio .
É recomendável a celebração comunitária da
penitência, mediante uma celebração da Palavra em observância
a legislação vigente, porque isso contribui para ressaltar a dimensão
eclesial desse sacramento e torna mais frutuosa, a participação
no mesmo.
3° - Incremente-se as sagradas celebrações da Palavra, conservando
sua relação com os sacramentos nos quais ela alcança sua
máxima eficácia e particularmente com a Eucaristia .
Promovam-se as celebrações ecumênicas da palavra, segundo
o teor do decreto sobre o ecumenismo, n. 8, e seguindo as normas do Diretório
n. 33.35.
4º - Sendo tão arraigadas em
nosso povo certas devo-ções populares, recomenda-se buscar formas
mais adequa-das, que lhes dêem conteúdo litúrgico, de modo
que se tor-nem veículos da fé e de compromisso com Deus e com
os homens.