|
Aborto AIDS ApologéticaBento XVI Bíblia Cardeais CatecismoDefensa da Vida Dereito
Canônico Documentação
eclesial Família Festas Litúrgicas Imagens Igreja João Paulo IIMaria MatrimônioOrações PersonagensSacramentosSantosTemas controversosTodo ACI
Corrente de OraçãoHistórias urbanasLinksMúsicaSolteiros Católicos artões Virtuais
|
Documentos Eclesiais
PROMOÇÃO HUMANA I. Fatos Existem muitos estudos sobre a situação do homem latino-americano. O documento de trabalho preparado para esta II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano não será certamente o último. Em todos eles se descreve a miséria que marginaliza grandes grupos humanos em nossos povos. Essa miséria, como fato coletivo, se qualifica de injustiça que clama aos céus. Entretanto, o que talvez não se esclareceu suficientemente é que os esforços que foram feitos, em geral, não foram capazes de assegurar que a justiça seja respeitada e realizada em todos os setores das respectivas comunidades nacionais. As famílias, muitas vezes, não encontram possibilidades concretas de educação para seus filhos; a juventude reclama seu direito de entrar nas universidades ou em centros superiores de aperfeiçoamento intelectual ou técnico-profissional; a mulher reivindica sua igualdade, de direito e de fato, com o homem; os camponeses pedem melhores condições de vida; os produtores, melhores preços e segurança na comercialização; a crescente classe média sente-se atingida pela falta de perspectivas. Iniciou-se um êxodo de profissionais e técnicos para países mais desenvolvidos; os pequenos artesãos e industriais da América Latina são pressionados por interesses maiores e não poucos grandes industriais vão passando progressivamente a depender das grandes empresas internacionais. Não podemos ignorar o fenômeno desta quase frustração universal de legítimas aspirações, que cria o clima de angústia coletiva que já estamos vivendo. A falta de integração sócio-cultural, na maioria de nossos países deu origem a superposição de culturas. No campo econômico implantaram-se sistemas que enca-ram só as possibilidades dos setores com alto poder aqui-sitivo. Esta falta de adaptação ao que é próprio e às pos-sibilidades de nossa população, origina, por sua vez, uma freqüente instabilidade política e a consolidação de insti-tuições puramente formais. A tudo isto deve-se acrescen-tar a falta de solidariedade, que provoca no campo indivi-dual e social, verdadeiros pecados, cuja cristalização apa-rece evidente nas estruturas injustas que caracterizam a situação da América Latina. II. Fundamentação doutrinária A Igreja Latino-Americana tem uma mensagem pa-ra todos os homens que neste continente têm "fome e sede de justiça". O mesmo Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança, criou a aterra e tudo o que nela existe para uso de todos os homens, e de todos os povos, de modo que os bens criados possam bastar a todos de maneira mais justa (GS 69), e dá poder ao homem para que solidaria-mente transforme e aperfeiçoe o mundo (Gên. 1,29) . É o mesmo Deus que, na plenitude dos tempos envia seu Filho para que feito carne, venha libertar todos os homens, de todas as escravidões a que o pecado os sujeita: a fome, a miséria, a opressão e a ignorância, numa palavra, a injustiça que tem sua origem no egoísmo humano (Jo. 8,32-34). Por isso, para nossa verdadeira libertação, todos os homens necessitam de profunda conversão para que chegue a nós o «Reino de justiça, de amor e de paz». A origem de todo desprezo ao homem, de toda injustiça, deve ser procurada no desequilíbrio interior da liberdade humana, que necessita sempre, na história, de um permanente esforço de retificação. A originalidade da mensagem cristã não consiste tanto na afirmação da necessidade de uma mu-dança de estruturas, quanto na insistência que devemos por na conversão do homem. Não teremos um continente novo, sem novas e renovadas estruturas, mas sobretudo, não haverá continente novo sem homens novos, que à luz do Evangelho saibam ser verdadeiramente livres e respon-sáveis. Somente a luz de Cristo esclarece o mistério do ho-mem. Sob essa luz, toda a obra divina, na história da salvação é uma ação de promoção e de libertação humana que tem como único objeto o amor. O homem é «criado em Cristo Jesus», feito nele «criatura nova» (2 Cor 5,17). Pe-la fé e pelo batismo, o homem é transformado, cheio do dom do Espírito, com um dinamismo novo, não de egoís-mo, mas de amor que o leva a buscar uma nova relação mais profunda com Deus, com os homens seus irmãos e com as coisas. O amor, «a lei fundamental da perfeição humana, e portanto da transformação do mundo» (GS 32), não é somente o mandamento supremo do Senhor, é tam-bém o dinamismo que deve mover os cristãos a realizarem a justiça no mundo, tendo como fundamento a verdade e como sinal a liberdade. Assim é que a Igreja quer servir ao mundo, irradiando sobre ele uma luz e uma vida que cura e eleva a dignidade da pessoa humana (GS 41), con-solida a unidade da sociedade (GS 42) e dá um sentido e um significado mais profundo a toda a atividade dos ho-mens. Certamente, para a Igreja, a plenitude e a perfeição da vocação humana se alcança com a inserção definitiva de cada homem na Páscoa ou triunfo de Cristo, porém a esperança de tal realização definitiva, antes de adormecer, deve "avivar a preocupação de aperfeiçoar esta terra on-de cresce o corpo da nova família humana, o que pode, de certa maneira, antecipar a visão do novo século". Não con-fundimos progresso temporal com Reino de Cristo; entre-tanto, o primeiro, «enquanto pode contribuir a ordenar melhor a sociedade humana, interessa em grande medida o Reino de Deus» (GS 39). A busca cristã da justiça é uma exigência do ensinamento bíblico. Todos os homens, somos apenas humildes administradores dos bens. Na bus-ca da salvação devemos evitar o dualismo que separa as tarefas temporais da santificação. Apesar de estarmos rodeados de imperfeições, somos homens de esperança. Cre-mos que o amor a Cristo e a nossos irmãos será não so-mente a grande força libertadora da injustiça e da opres-são, mas também e principalmente a inspiradora da justiça social, entendida como concepção de vida e como impulso para o desenvolvimento integral de nossos povos. III. Projeções da pastoral social Nossa missão pastoral é essencialmente um serviço de inspiração e de educação das consciências dos fiéis, para ajudar-lhes a perceber as exigências e responsabilidades de sua fé, em sua vida pessoal e social. Dentro dessa perspec-tiva, a Segunda Conferência Episcopal quer evidenciar as mais importantes para os países de nosso continente, ten-do em conta o juízo de valor que, sobre a situação econô-mica e social do mundo de hoje, emitiram os últimos do-cumentos do magistério da Igreja, e que no continente latino-americano tem plena vigência. l. Orientação da mudança social A Igreja latino-americana julga dever orientar-se pa-ra a formação de comunidades nacionais, que refletem uma organização global, onde toda a população, porém, espe-cialmente as classes populares, tenha, através de estrutu-ras territoriais e funcionais, uma participação receptiva e ativa, criadora e decisiva, na construção de uma nova so-ciedade. Essas estruturas intermediárias entre a pessoa e o Estado devem ser organizadas livremente, sem uma in-tervenção indevida da autoridade ou de grupos dominan-tes, no seu desenvolvimento e na sua participação concre-ta na realização do bem comum total. Constituem a trama vital da sociedade. São também a expressão real da liber-dade e da solidariedade dos cidadãos. a) A família Sem desconhecer o caráter insubstituível da família, como grupo natural, consideramo-la aqui como estrutura intermediária, posto que o conjunto de famílias deve as-sumir sua função no processo de transformação social. As famílias latino-americanas deverão organizar seu poten-cial econômico e cultural para que suas legitimas necessi-dades e aspirações sejam levadas em conta, dentro dos se-tores onde se tomam as decisões fundamentais, que podem ou promovê-las ou prejudicá-las. Deste modo, assumirão um papel representativo e de participação eficiente na vi-da de comunidade global. Além da dinâmica que lhes cabe desencadear no conjunto de famílias de cada país, é neces-sário que os governos estabeleçam uma legislação e uma sadia e atualizada política familiar. b) A organização profissional A II Conferência Episcopal Latino-Americana, dirige-se a todos aqueles que, com o esforço diário, vão criando os bens e serviços que permitem a existência e o desenvol-vimento da vida humana. Pensamos muito especialmente nos milhões de homens e mulheres latino-americanos, que constituem o setor camponês e operário. Eles, na sua maio-ria, sofrem, esperam e se esforçam por uma mudança que humanize e dignifique seu trabalho. Sem desconhecer a totalidade do significado humano do trabalho, aqui o consi-deramos como estrutura intermediária, enquanto consti-tui a função que dá origem à organização profissional no campo da produção. c) Empresas e economia No mundo de hoje, a produção encontra sua expressão concreta na empresa, tanto industrial como rural, que constituem a base fundamental e dinâmica do processo econômico global. O sistema empresarial latino-americano e, devido a ele, a economia atual, corresponde a uma concepção errada sobre o direito de propriedade dos meios de produção e sobre a finalidade mesma da economia. A em-presa, numa economia verdadeiramente humana, não se identifica com os donos do capital, porque é fundamental-mente uma comunidade de pessoas e unidade de trabalho que necessita de capital para a produção de bens. Uma pes-soa ou um grupo de pessoas não podem ser propriedade de um indivíduo, de uma sociedade ou do Estado. O sistema liberal capitalista e a tentação do sistema marxista, pare-ceriam esgotar em nosso continente, as possibilidades de transformar as estruturas econômicas. Ambos sistemas atentam contra a dignidade da pessoa humana; um porque tem como pressuposto a primazia do capital, seu poder e sua discriminatória utilização em função do lucro. O ou-tro, embora ideologicamente defenda um humanismo, vis-lumbra melhor o homem coletivo e na prática se transfor-ma numa concentração totalitária do poder do Estado. De-vemos denunciar que a América Latina se encontra fecha-da entre essas duas opções e permanece dependente dos centros de poder que canalizam sua economia. Fazemos, por isso, um apelo urgente aos empresários, às suas organizações e às autoridades políticas, para que modifiquem radicalmente a valorização, as atitudes e as medidas relativas à finalidade, organização e funciona-mento das empresas. Merecem encorajamento todos aque-les empresários que individualmente ou através de suas organizações fazem esforços para integrar suas empresas nas orientações do magistério social da Igreja. Disso tudo dependerá fundamentalmente a mudança social e econô-mica na América Latina, para uma economia verdadeira-mente humana. Por outro lado, esta transformação será fundamental para o desencadeamento do verdadeiro processo de desen-volvimento e integração latino-americanos. Muitos de nos-sos trabalhadores, se bem que venham adquirindo cons-ciência da necessidade desta transformação, experimentam, simultaneamente, uma situação de dependência ante os sis-temas e instituições econômicas inumanas, situação que, para muitos deles, aproxima-se da escravidão não apenas física, mas também profissional, cultural, cívica e espi-ritual. om a lucidez que surge do conhecimento do homem e de suas aspirações, devemos reafirmar que nem a acumulação de capitais, nem a implantação das mais moder-nas técnicas de produção, nem os planos econômicos serão eficazes, para os trabalhadores e para o serviço do homem, se os trabalhadores não tiverem a "unidade necessária de direção" e não estiverem incorporados, com todo o empe-nho do ser humano, mediante a «ativa participação de to-dos, na gestão da empresa, segundo formas estabelecidas com acerto» (GS 68), assim como nos níveis da macroeco-nomia, decisivos no âmbito nacional e internacional. Organização dos trabalhadores Por isso, na estrutura intermediária profissional,
a organização sindical rural e operária deverá adquirir
a força e a presença suficiente a que os trabalhadores têm
direito. Assim deverão exercer, igualmente, o direito
de se fazerem representar política, social, e economicamente, onde quer
que sejam adotadas decisões relativas ao bem comum. Unidade de ação A socialização compreendida como processo sócio-cultural de personalização e de solidariedade crescente, nos induz a pensar que todos os setores da sociedade, mas, nesse caso, principalmente o setor econômico-social, deverão superar, pela justiça e fraternidade, os antagonismos, para se transformarem em agentes do desenvolvimento na-cional e continental. Sem esta unidade, a América Latina não conseguirá livrar-se do neocolonialismo a que está sub-metida, nem, em conseqüência, realizar-se com liberdade, com suas características próprias, no campo cultural, sócio-político e econômico. Transformação do campo A II Conferência Episcopal não pretende deixar de expressar sua preocupação pastoral pelo amplo setor cam-ponês, que embora compreendido implicitamente em tudo o que foi dito, requer, por suas características especiais no continente, uma atenção imediata. Embora se deva considerar a diversidade de situações e recursos em países diferentes, não há dúvida de que exis-te um denominador comum em todas elas: a necessidade de uma promoção humana para as populações campone-sas e indígenas. Esta promoção não será viável se não for realizada uma autêntica e urgente reforma das estruturas e da política agrárias. Esta transformação estrutural e suas políticas correspondentes não podem limitar-se a uma simples distribuição de terras. Torna-se necessário fazer um estudo profundo das mesmas, segundo determinadas condições que legitimam sua ocupação e seu rendimento, tanto para as famílias camponesas como para sua contribuição à economia do país. Isso exigirá, além dos aspectos jurídicos e técnicos, cuja responsabilidade não é de nossa competência, a orga-nização dos camponeses em estruturas intermediárias efi-cazes, principalmente em forma de cooperativas e estímulo para a criação de centros urbanos nos meios rurais, que permitam o acesso da população camponesa aos bens de sua cultura, da saúde, desenvolvimento espiritual e de sua participação nas decisões locais e naquelas que incidam sobre a economia e a política nacional. Esta elevação do meio rural contribuirá para o pro-cesso necessário de industrialização e para a participação da massa camponesa nas vantagens de uma civilização urbana. d) Industrialização Não há dúvida de que o processo de industrialização é irreversível e necessário à independência econômica e para que possamos nos integrar na moderna economia mundial. A industrialização será um fator decisivo à eleva-ção dos níveis de vida de nossos povos e para que se possa proporcionar-lhes melhores condições para o desenvolvi-mento integral. Para isso é indispensável que se revejam os planos e as macroeconomias nacionais, salvando-se a legítima au-tonomia de nossos países, as justas reivindicações das na-ções mais fracas e a almejada integração econômica do continente, respeitando-se sempre os inalienáveis direitos das pessoas e das estruturas intermediárias, como prota-gonistas deste processo. 2. A reforma política Em face da necessidade de uma transformação glo-bal nas estruturas latino-americanas, julgamos que esta transformação tem como requisito a reforma política. O exercício da autoridade política e suas decisões têm como única finalidade o bem comum. Na América Latina tal exercício e decisões freqüentemente aparecem favore-cendo sistemas que atentam contra o bem comum ou favo-recem grupos privilegiados. A autoridade deverá assegurar eficaz e permanente-mente, através de normas jurídicas, os direitos e liberda-des inalienáveis dos cidadãos e o livre funcionamento das estruturas intermediárias. A autoridade política tem a missão de proporcionar e fortalecer a criação de mecanismos de participação e de legítima representatividade da população, ou o estabeleci-mento de novas formas de participação do povo se isso se tornar necessário. Queremos insistir na necessidade de vitalizar e fortale-cer a organização municipal e comunal como ponto do partida para a vida departamental, provincial, regional o nacional. A carência de uma consciência política em nossos paí-ses torna imprescindível a ação educadora da Igreja, com vistas a que os cristãos considerem sua participação na vida política da nação como um dever de consciência e como o exercício da caridade em seu sentido mais nobre e eficaz para a vida da comunidade. 3. Informação e conscientização Desejamos afirmar que é indispensável a formação da consciência social e a percepção realista dos problemas da comunidade e das estruturas sociais. Devemos despertar a consciência social e hábitos comunitários em todos os meios e grupos profissionais, seja no que se refere ao diá-logo e à vivência comunitária dentro do mesmo grupo, se-ja no que se refere a suas relações com grupos sociais maiores (operários, camponeses, profissionais liberais, clero, religiosos, funcionários etc.). A tarefa de conscientizar e educar socialmente, deverá ser parte integrante dos planos de Pastoral de Conjunto, em seus diversos níveis. O sentido de serviço e realismo exige da hierarquia de hoje uma maior sensibilidade e objetividade sociais. Para isso se torna imprescindível o contato direto com grupos distintos, social e profissionalmente, em encontros que proporcionem a todos uma visão mais completa da di-nâmica social. Tais encontros podem ser considerados co-mo instrumentos capazes de facilitar ao Episcopado uma ação colegiada, útil para a garantia da harmonização do pensamento e das atividades numa sociedade em trans-formação. As conferências episcopais proporcionarão a organi-zação de cursos, encontros etc., como meio de integração dos responsáveis pelas atividades sociais, vinculadas à Pastoral. Além de sacerdotes, religiosos e leigos, poder-se-ia também. convidar líderes que trabalhassem em programas nacionais e internacionais de promoção dentro do país. Os institutos destinados ao preparo de pessoal apostólico de outros países, coordenarão suas atividades de pastoral so-cial com os respectivos organismos nacionais; além disso, promover-se-á principalmente, a realização de semanas sociais para elaboração da doutrina social a ser aplicada a nossos problemas. Isso permitirá formar a opinião pú-blica a respeito. Merecem especial atenção os homens-chave, ou seja, aquelas pessoas que estão em postos de decisão e comando e cujas atitudes repercutam nas estruturas básicas da vida nacional e internacional. As conferências episcopais, por isso mesmo, através de suas comissões de ação ou Pastoral social, promoverão, junto com outros organismos interessados, a organização de cursos para técnicos, políticos, dirigentes, operários, cam-poneses, empresários e homens de cultura em todos os níveis. É necessário que as pequenas comunidades socioló-gicas de base se desenvolvam para o estabelecimento de um equilíbrio diante dos grupos minoritários, que são grupos que detêm o poder. Isso só se tornará possível mediante a ativação das mesmas comunidades e dos seus próprios elementos natu-rais e atuantes, em seus respectivos meios. A Igreja - Povo de Deus - prestará sua ajuda aos desamparados de qualquer tipo e ambiente social, para que tomem consciência de seus próprios direitos e saibam fazer uso deles. Para tanto a Igreja utilizará sua força moral e procurará a colaboração de profissionais e instituições competentes. A "Comissão de Justiça e Paz" deverá ser promovida em todos os países, pelo menos em nível nacional. Deverá ser integrada por pessoas de alto nível moral, qualificação profissional e de representatividade nos dife-rentes setores sociais; deverá ser capaz de estabelecer um diálogo eficaz com pessoas e instituições mais diretamen-te responsáveis pelas decisões relativas ao bem comum, deverá denunciar tudo o que possa lesar a justiça e colocar em perigo a paz interna e externa das comunidades na-cionais e internacionais; ajudará a buscar os meios con-cretos para conseguir as soluções adequadas a cada situa-ção. Para o exercício de sua missão pastoral, as conferên-cias episcopais constituirão sua comissão de ação ou pas-toral social para a elaboração doutrinária e para assumir as iniciativas na área de atuação da Igreja, como estimula-dora da ordem temporal, numa autêntica atitude de ser-viço. O mesmo vale para os níveis diocesanos. Além disso, as conferências episcopais e as organiza-ções católicas devem promover a colaboração, em âmbito continental e nacional, com as igrejas e instituições cris-tãs não-católicas, dedicadas à tarefa de instaurar a justiça nas relações humanas. "Caritas", que é um organismo da Igreja (cf. PP 46) integrado na pastoral de Conjunto, não será apenas uma instituição beneficente, mas um organismo que deve in-serir-se mais operativamente no processo de desenvolvi-mento da América Latina, como uma instituição verdadei-ramente promocional. A Igreja reconhece que as instituições de ação temporal pertencem à esfera específica da sociedade civil, ainda quando criadas e dirigidas por cristãos. Nas atuais situa-ções concretas esta Conferência Episcopal sente o dever de atribuir um estímulo especial às organizações que têm como objetivo a promoção humana e a aplicação da justiça. A força moral e animadora da Igreja estará
consa-grada, particularmente, a estimular aqueles objetivos e se propõe
a atuar, neste campo, a título supletivo e em si-tuações
impostergáveis. Em vista disso, nas tarefas de promoção humana, con-clama sobretudo os leigos a seu adequado cumprimento. Primeira parte A situação latino-americana e a paz «Se o desenvolvimento é o novo nome da paz», o sub-desenvolvimento latino-americano, com características próprias nos diversos países, é uma injusta situação pro-motora de tensões que conspiram contra a paz. Sintetizamos estas tensões em três grandes grupos, destacando em cada caso aquelas variáveis que, por ex-primir uma situação de injustiça, constituem uma ameaça positiva contra a paz em nossos países. Ao falar de uma situação de injustiça fazemos refe-rência àquelas realidades que exprimem uma situação de pecado; isto não significa de conhecer que, por vezes, a miséria em nossos países pode ter causas naturais difíceis de superar. Ao realizar esta análise não ignoramos nem deixamos de valorizar os esforços positivos que se realizam em dife-rentes níveis para a construção de uma sociedade mais justa. Não os incluímos aqui porque nossa intenção é a de chamar a atenção, precisamente, para aqueles aspectos que constituem uma ameaça ou negação da paz. I. Tensões entre classes e colonialismo interno 1) As diversas formas de marginalização: sócio-eco-nômicas, políticas, culturais, raciais, religiosas, tanto nas zonas urbanas como nas rurais. 2) Desigualdades excessivas entre as classes sociais: especialmente, embora não de forma exclusiva, naqueles países que se caracterizam por um acentuado biclassismo: poucos têm muito (cultura, riqueza, poder, prestígio) en-quanto muitos nada têm. O Santo Padre descreve esta rea-lidade ao dirigir-se aos camponeses colombianos: «Sabe-mos que o desenvolvimento econômico e social foi desi-gual no grande continente da América Latina; e embora tenha favorecido os que o promoveram, em princípio, des-cuidou da massa das populações nativas, quase sempre abandonadas a um ignóbil nível de vida e por vezes trata-das e exploradas duramente» (Em Mosquera, 23-8-68). 3) Frustrações crescentes: o fenômeno universal das expectativas crescentes assume na América Latina uma dimensão particularmente agressiva. A razão é óbvia: as desigualdades excessivas impedem sistematicamente a sa-tisfação das legítimas aspirações dos setores postergados. Geram-se assim frustrações crescentes. Semelhante estado de espírito constata-se também nas classes médias que, diante de graves crises, entram em um processo de desintegração e proletarização. 4) Formas de opressão de grupos e setores dominan-tes: sem excluir uma eventual vontade de opressão elas se exprimem mais freqüentemente numa forma de insensi-bilidade lamentável dos setores mais favorecidos perante a miséria dos setores marginalizados. Daí as palavras do papa aos dirigentes: «Que vosso ouvido e vosso coração sejam sensíveis às vozes daqueles que pedem paz, interesse, justiça...» (Celebração eucarística no Dia do Desenvolvi-mento no Congresso de Bogotá). Não é raro comprovar que estes grupos ou setores, com exceção de algumas minorias lúcidas, qualificam de ação subversiva toda tentativa de modificar um sistema social que favorece a permanência de seus privilégios. 5) Poder exercido injustamente por certos setores dominantes: como uma conseqüência normal das atitudes mencionadas, alguns membros dos setores dominantes recorrem, por vezes, ao uso da força para reprimir drasticamente toda tentativa de reação. Será muito fácil para eles encontrar aparentes justificativas ideológicas (anticomunismo) ou práticas (conservação da «ordem») para coonestar este procedimento. 6) Crescente tomada de consciência dos setores opri-midos: tudo o que ficou dito torna-se cada vez mais intole-rável diante da progressiva tomada de consciência que os setores oprimidos fazem de sua situação. A isto se referia o Santo Padre quando dizia aos camponeses: «Mas hoje o problema se agravou porque tomastes consciência de vos-sas necessidades e de vossos sofrimentos e não podeis to-lerar que estas condições perdurem sem apresentar-lhes so-lícito remédio» (Em Mosquera, idem). A visão estática des-crita nos parágrafos precedentes agrava-se quando se projeta para o futuro: a educação de base e a alfabetiza-ção aumentarão a tomada de consciência e a explosão de-mográfica multiplicará os problemas e tensões. Não se de-ve esquecer, tampouco, a existência de movimentos de to-do tipo, interessados, cada vez mais, em aproveitar e exa-cerbar estas tensões. Portanto, se hoje a paz já é vista se-riamente ameaçada, o agravamento automático dos pro-blemas provocará conseqüências explosivas. II. Tensões internacionais e neocolonialismo externo Referimo-nos aqui, particularmente, às conseqüências que traz para nossos países sua dependência de um centro de poder econômico em torno do qual gravitam. Daí resul-ta que nossas nações, cpm freqüência, não são donas de seus bens e de suas decisões econômicas. Como é óbvio, isto não deixa de ter suas incidências no plano político, dada a interdependência que existe entre os dois campos. Para nós interessa assinalar especialmente dois aspec-tos deste fenômeno: a) ASPECTO ECONÔMICO - Analisamos somente aqueles fatores que mais influem no empobrecimento glo-bal e relativo de nossos países, constituindo uma fonte de tensões internas e externas. 1) Distorção crescente do comércio internacional - -Por causa da perda de preço relativa aos termos de troca, as matérias-primas valem cada vez menos em relação ao custo dos produtos manufaturados. Isso significa que os países produtores de matérias-primas - sobretudo em se tratando de monocultores - permanecem sempre pobres, enquanto os países industrializados enriquecem cada vez mais. Esta injustiça, denunciada claramente pela Populorum Progressio (56-61), anula o eventual efeito positivo das ajudas externas; constitui, além disso, uma ameaça per-manente para a paz, porque nossos países percebem que «uma mão tira o que a outra dá». 2) Fuga de capitais econômicos e humanos - A bus-ca de segurança e o critério do lucro individual leva mui-tos membros dos setores abastados de nossos países a in-verter seus lucros no estrangeiro. A injustiça desse pro-cedimento já foi denunciada categoricamente pela Populorum Progressio (24). A isso se acrescenta a fuga de téc-nicos e pessoal competente, fato tanto ou mais grave quan-to a fuga de capitais, devido ao alto custo de sua formação e valor multiplicador de sua ação. 3) Evasão de impostos e envio de lucros e dividendos - Diversas companhias estrangeiras que atuam em nossos meios (também algumas nacionais) costumam burlar com sutis subterfúgios os sistemas tributários vigentes. Cons-tatamos também que por vezes enviam ao estrangeiro os lucros e os dividendos sem contribuir com adequadas reversões para o progressivo desenvolvimento de nossos países. 4) Endividamento progressivo - Não é raro consta-tar que, no sistema de créditos internacionais, nem sempre são levadas em conta as verdadeiras necessidades e possi-bilidades de nossos países. Corremos assim o risco de afun-darmo-nos em dívidas, cujo pagamento absorve a maior parte de nossos lucros (PP 54) . 5) Monopólios internacionais e o imperialismo internacional do dinheiro - Com isso queremos sublinhar que os principais culpados da dependência econômica de nossos países são aquelas forças que, inspiradas no lucro sem freios, conduzem à ditadura econômica e ao «imperialismo internacional do dinheiro» condenado por Pio XI na Quadragésimo Ano e por Paulo VI na Populorum Pro-gressio. b) ASPECTO POLÍTICO - Denunciamos aqui o im-perialismo de qualquer matiz ideológico, que se exerce na América Latina, em forma indireta e até com intervenções diretas. III. Tensões entre os países da América Latina Denunciamos aqui um fenômeno especial de origem histórico-política, que perturba as relações cordiais entre alguns países e levanta obstáculos a uma colaboração real-mente construtiva: sem dúvida, o processo de integração apresenta-se como uma necessidade imperiosa para a Amé-rica Latina. Sem pretender ditar normas sobre os aspectos técnicos, realmente complexos desta necessidade, julgamos oportuno destacar seu caráter pluridimensional. A integra-ção, com efeito, não é um processo exclusivamente econô-mico; apresenta-se antes com amplas dimensões, que abrangem o homem total, considerado em sua totalidade: dimensão social, política, cultural, religiosa, racial etc. Entre os fatores que favorecem as tensões entre os nossos países, salientamos: 1 - Um nacionalismo
exacerbado em alguns países - -Já a Populorum Progressio (62)
denunciou o que de noci-vo tem esta atitude, precisamente onde a fraqueza das
eco-nomias das nações exige a cooperação comum de
esforços, de conhecimentos, de meios financeiros etc. Segunda parte I. Concepção cristã da paz A realidade descrita constitui uma negação
da paz, tal como a entende a tradição cristã. 1 - A paz é, antes de mais nada, obra da justiça (GS 73); ela supõe e exige a instauração de uma ordem justa (PT 167; PP 76) na qual todos os homens possam realizar-se como homens, onde sua dignidade seja respei-tada, suas legítimas aspirações satisfeitas, seu acesso à verdade reconhecido e sua liberdade pessoal garantida. Uma ordem na qual os homens não sejam objetos, senão agentes de sua própria história. Portanto, onde existem injustiça, desigualdade entre os homens e as nações, aten-ta-se contra a paz (Mensagem de Paulo VI, 1-1-1968). A paz na América Latina, não é, portanto, a simples ausência de violências e de derramamento de sangue. A opressão exercida pelos grupos de poder pode dar a im-pressão de que a paz e a ordem estão sendo mantidas, mas na realidade, não se trata senão do "germe contínuo e ine-vitável de rebeliões e guerras"(Mensagem de Paulo VI, 1-1-1968). Não se consegue a paz senão criando uma ordem nova que «comporte uma justiça mais perfeita entre os homens» (PP 76). Nesse sentido, o desenvolvimento integral do ho-mem, a passagem de condições menos humanas para con-dições mais humanas é o nome novo da paz. 2 - A paz é, em segundo lugar, uma tarefa perma-nente (GS 78). A comunidade humana realiza-se no tempo e está sujeita a um movimento que implica contentemente em mudanças de estrutura, transformações de atitudes, conversão de corações. A "tranqüilidade da ordem", segundo a definição agostiniana da paz, não é, portanto, passividade nem con-formismo. Não é, tampouco, algo que se adquira de uma vez por todas, é o resultado de um contínuo esforço de adaptação às novas circunstâncias, às exigências e desa-fios de uma história em mutação. Uma paz estática e apa-rente pode ser alcançada com o emprego da força; uma paz autêntica implica luta, capacidade inventiva, conquis-ta permanente (Cf. Paulo VI, Mensagem de Natal, 1967) . A paz não se acha, há que construí-la. O cristão é um artesão da paz (Mt 5,9). Esta tarefa, dada a situação des-crita acima, reveste-se de um caráter especial, em nosso continente; por isso, o Povo de Deus na América Latina, seguido o exemplo de Cristo, deverá enfrentar com audá-cia e valentia o egoísmo, a injustiça pessoal e a coletiva. 3 - A paz é, finalmente, fruto do amor (GS 78), expressão de uma real fraternidade entre os homens. Fra-ternidade trazida por Cristo, príncipe da paz, ao reconci-liar todos os homens com o Pai. A solidariedade humana não pode ser realizada senão em Cristo, que dá a paz que o mundo não pode dar (cf. Jo 14,27). O amor é a alma da justiça. O cristão que trabalha pela justiça social deve cultivar sempre a paz e o amor em seu coração. A paz com Deus é o fundamento último da paz interior e da paz social... Por isso mesmo, onde a paz social não existe, onde há injustiças, desigualdades sociais, políticas, econômicas e culturais, rejeita-se o dom da paz do Senhor; mais ainda, rejeita-se o próprio Senhor (Mt 25,31-46) . II. O problema da violência na América Latina A violência constitui um dos problemas mais graves da América Latina. Não se pode abandonar aos impulsos da emoção e da paixão numa decisão da qual depende todo o futuro dos países do continente. Faltaríamos a um grave dever pastoral se não recordássemos em termos de cons-ciência, neste dramático dilema, os critérios que derivam da doutrina cristã do amor evangélico. Ninguém se surpreenderá se reafirmarmos firmemen-te nossa fé na fecundidade da paz. Esse é nosso ideal cris-tão. "A violência não é nem cristã nem evangélica" (Dis-curso de Paulo VI em Bogotá, na Celebração eucarística do Dia do Desenvolvimento, 23-8-68). O cristão é pacífico e não se envergonha disso. Não é simplesmente pacifista, porque é capaz de lutar (ver Mensagem de Paulo VI de 1-1-1968). Mas prefere a paz à guerra. Sabe que «as mu-danças bruscas e violentas das estruturas seriam falhas, ineficazes em si próprias, e certamente em desacordo com a dignidade do povo, a qual exige que as transformações necessárias se realizem de dentro, isto é, mediante uma conveniente tomada de consciência, uma adequada preparação e efetiva participação de todos. A ignorância e as condições de vida, por vezes infra-humanas, impedem ho-je que seja assegurada» (Discurso de Paulo VI em Bogotá, na Celebração eucarística do Dia do Desenvolvimento, 23 de agosto de 1968) . Se o cristão acredita na fecundidade da paz como meio de chegar à justiça, acredita também que a justiça é uma condição imprescindível para a paz. Não deixa de ver que a América Latina se acha, em muitas partes, em face de uma situação de injustiça que pode ser chamada de violên-cia institucionalizada, porque as atuais estruturas violam os direitos fundamentais, situação que exige transforma-ções globais, audaciosas, urgentes e profundamente reno-vadoras. Não é de estranhar, portanto, que nasça na Amé-rica Latina, "a tentação da violência" (PP 30). Não se deve abusar da paciência de um povo que suporta durante anos uma condição que dificilmente aceitaria os que têm maior consciência dos direitos humanos. Em face de uma situação que atenta tão gravemente contra a dignidade do homem e, portanto, contra a paz, di-rigimo-nos, como pastores, a todos os membros do povo cristão, para que assumam sua grave responsabilidade na promoção da paz na América Latina. Desejaríamos dirigir nosso apelo, em primeiro lugar, aos que têm uma maior participação na riqueza, na cul-tura ou no poder. Sabemos que existem na América Lati-na dirigentes que são sensíveis às necessidades e procuram remediá-las. Reconhecem eles que os privilegiados, em seu conjunto, exercem muitas vezes pressão sobre os governan-tes, com todos os meios de que dispõem, impedindo as mu-danças necessárias. Em algumas ocasiões, esta resistência chega a adotar formas drásticas, com destruição de vidas e de bens. Dirigimo-lhes, pois, um apelo urgente a fim de que a posição pacífica da Igreja não seja invocada pela oposi-ção, passiva ou ativa, para opor-se às transformações pro-fundas que são necessárias. Se mantiverem zelosamente seus privilégios e sobretudo, se os defenderem com o em-prego de meios violentos, tornam-se responsáveis, peran-te a história, por provocar as «revoluções nascidas do de-sespero» (Discurso de Paulo VI, em Bogotá, na Celebração eucarística do Dia do Desenvolvimento, 23 de agosto de 1968). De sua atitude depende, portanto, em grande par-te, o pacífico porvir dos países da América Latina. São também responsáveis pela injustiça todos os que não agem em favor da justiça na medida dos meios de que dispõem, e ficam passivos por temerem os sacrifícios e ris-cos pessoais que implica toda ação audaciosa e realmente eficaz. A justiça e conseqüentemente a paz conquista-se por uma ação dinâmica de conscientização e de organi-zação dos setores populares, capaz de urgir os poderes pú-blicos, muitas vezes, impotentes nos seus projetos sociais, sem o apoio popular. Finalmente, aos dirigimos aos que, diante da gravidade da injustiça e da reação ilegítima às mudanças, colocam suas esperanças na violência. Reco-nhecemos que sua atitude, como diz Paulo VI, "tem fre-qüentemente sua última motivação em nobres impulsos de justiça e solidariedade" (Discurso de Paulo VI, em Bogotá, Celebração eucarística do Dia do Desenvolvi-mento, 23 de agosto de 1968). Não falamos, aqui, por puro verbalismo que não implica em nenhuma responsabilida-de pessoal e afasta as ações pacíficas e fecundas imediata-mente realizáveis... É verdade que a insurreição revolu-cionária pode ser legítima no caso «de tirania evidente e prolongada que ofendesse gravemente os direitos funda-mentais da pessoa e danificasse perigosamente o bem co-mum do país» (PP 31) - provenha esta tirania de uma pessoa ou de estruturas evidentemente injustas, - tam-bém é certo que a violência ou "revolução armada" geral-mente «acarreta novas injustiças, introduz novos desequi-líbrios e provoca novas ruínas: não se pode combater um mal real ao preço de um mal maior» (PP 31). Se conside-rarmos, então, o conjunto das circunstâncias de nossos paí-ses e levarmos em conta a preferência dos cristãos pela paz, a enorme dificuldade da guerra civil, sua lógica de violência, os males cruéis que provoca, o perigo de atrair a intervenção estrangeira - por mais ilegítima que seja, - a dificuldade de construir um regime de justiça e de li-berdade, através de um processo de violência, ansiamos que o dinamismo do povo conscientizado ponha-se a servi-ço da justiça e da paz. Fazemos nossas, finalmente, as pa-lavras do Santo Padre, dirigidas aos sacerdotes e diáconos em Bogotá, quando referindo-se a todos os que sofrem, lhes disse: «Seremos capazes de compreender suas angús-tias e transformá-las não em ódio e violência, mas em energia forte e pacífica para obras construtivas». III. Conclusões pastorais Diante das tensões que ameaçam a paz, chegando in-clusive a insinuar a tentação da violência; diante da con-cepção cristã da paz que ficou descrita acima, cremos que o Episcopado latino-americano não pode deixar de assumir responsabilidades bem concretas, porque criar uma ordem social justa, sem a qual a paz é ilusória, é uma tarefa emi-nentemente cristã. A nós, pastores da Igreja, cumpre edu-car as consciências, inspirar, estimular e ajudar a orien-tar todas as iniciativas que contribuem para a formação do homem. Cumpre-nos também denunciar todos aqueles que ao irem contra a justiça, destroem a paz. . Neste espírito cremos oportuno avançar as seguintes linhas pastorais: 1) Despertar nos homens e nos povos, principalmente através dos meios de comunicação social, uma viva cons-ciência da justiça, inspirando-lhes um sentido dinâmico de responsabilidade e solidariedade. 2) Defender segundo o mandato evangélico o direito dos pobres e oprimidos, urgindo nossos governos e classes dirigentes que eliminem tudo quanto destrói a paz social: injustiça, inércia, venalidade, insensibilidade. 3) Denunciar energicamente os abusos e as injusti-ças, conseqüências das desigualdades excessivas entre ri-cos e pobres, entre poderosos e fracos, favorecendo a integração. 4) Fazer com que nossa pregação, catequese e litur-gia tenham em conta a dimensão social e comunitária do cristianismo, formando homens comprometidos na constru-ção de um mundo de paz. 5) Procurar que em nossos colégios, seminários e universidades se forme um sadio espírito crítico da situa-ção social e se fomente a vocação do serviço. Consideramos ainda de grande eficácia as campanhas de nível diocesano e nacional que mobilizem a todos os fiéis e organizações levando-os a uma reflexão similar. 6) Convidar também as diversas confissões e comuni-dades cristas e não-cristãs a colaborarem nesta fundamen-tal tarefa de nossos tempos. 7) Encorajar e favorecer todos os esforços do povo para criar e desenvolver suas próprias organizações de ba-se, para a reivindicação e consolidação de seus direitos na busca de uma verdadeira justiça. 8) Pedir o aperfeiçoamento da administração judicial cujas deficiências freqüentemente causam sérios males. 9) Empenhar-se para que em muitos de nossos países se detenha e reveja a atual política armamentista, que constitui às vezes uma carga excessivamente despropor-cionada em face às legítimas exigências do bem comum, em detrimento de urgentes necessidades sociais. A luta contra a miséria é a verdadeira guerra que devem travar nossas nações. 10) Convidar os Bispos, os responsáveis das diversas confissões religiosas e os homens de boa vontade das na-ções desenvolvidas para que promovam nas suas respecti-vas esferas de influência, especialmente entre os dirigen-tes políticos e econômicos, uma consciência de maior so-lidariedade com as nossas nações subdesenvolvidas, fazen-do com que sejam reconhecidos, entre outras coisas, pre-ços justos para nossas matérias-primas. 11) Por ocasião do vigésimo aniversário da declara-ção solene dos direitos humanos, interessar as universida-des da América Latina na realização de investigações pa-ra se verificar sua aplicação em nossos países. 12) Diante da ação injusta que, em escala mundial intentam as nações poderosas contra a autodeterminação dos povos fracos, que têm de sofrer os efeitos sangrentos da guerra e da invasão, denunciar o fato, pedindo aos or-ganismos internacionais competentes, ação eficaz e deci-dida. 13) Alentar e aplaudir as iniciativas e trabalhos de todos aqueles que nos diversos setores da ação contribuem para a criação de uma ordem nova que assegure a paz no seio de nossos povos. Nesta tomada de consciência da Igreja a respeito de si mesma, enquanto inserida na realidade latino-americana, é-lhe indispensável a reflexão sobre a realidade da família. Esta reflexão não é fácil, por várias razões. Porque a idéia da família encarna-se em realidades sociológicas sumamente diversas. Porque a família tem sofrido, talvez mais que outras instituições, os impactos das mudanças e transformações sociais. Porque na América Latina a famí-lia sofre de modo especialmente grave as conseqüências «dos círculos viciosos» do subdesenvolvimento: más condi-ções de vida e cultura, baixo nível de salubridade, baixo poder aquisitivo etc., transformações que nem sempre se podem captar adequadamente. I. A família em situação de transformação - na América Latina 1) A família sofre, na América Latina, como também em outras partes do mundo, a influência de quatro fenô-menos sociais fundamentais: a) Passagem de uma sociedade rural a uma socieda-de urbana, o que leva uma família de tipo patriarcal a um novo tipo de família, de maior intimidade, com melhor distribuição de responsabilidades e maior dependência de outras micro-sociedades. b) O processo de desenvolvimento implica em abun-dantes riquezas para algumas famílias, insegurança para outras e marginalidade social para as restantes. c) O rápido crescimento demográfico, que não deve ser tomado como a única variável demográfica e muito menos como a causa de todos os males da América Latina, engendra vários problemas tanto de ordem sócio-econômica como de ordem ético-religiosa. d) O processo de socialização, que subtrai à família alguns aspectos de sua importância social e de suas zonas de influência, mas deixa intactos seus valores essenciais e sua condição de instituição básica de sociedade global. 2) Estes fenômenos produzem na família concreta da América Latina algumas repercussões que se traduzem em problemas de certa gravidade. Na impossibilidade de catalogá-los todos, apontamos os que parecem ter maior transcendência, incidência mais freqüente ou maior reper-cussão sócio-pastoral. a) Baixíssimo índice de casamento. A América Latina registra os mais baixos índices de casamentos em relação à sua população. Isto indica uma alta porcentagem de uniões ilegais, aleatórias e quase sem estabilidade, com todas as conseqüências que derivam de tal situação. b) A alta porcentagem de nascimentos ilegítimos e de uniões ocasionais é um fator que pesa fortemente sobre a explosão demográfica. c) Crescente e alto índice de desagregação familiar, seja pelo divórcio tão facilmente aceito e legalizado em não poucas regiões, seja por abandono do lar (quase sem-pre por parte do pai), seja pelas desordens sexuais nas-cidas de uma falsa noção de masculinidade. d) Acentuação do hedonismo e do erotismo como re-sultante da asfixiante propaganda propiciada pela civilização de consumo. e) Sérios problemas de moradia por causa de insufi-ciente e defeituosa política a respeito desse problema. f) Desproporção entre os salários e as condições reais da família. g) Má distribuição dos bens de consumo e de civilização, como: alimentação, vestuário, trabalho, meios de co-municação, descanso, diversões, cultura etc. h) Impossibilidade material e moral para muitos jo-vens de constituir dignamente uma família, o que provoca o surgimento de muitas células familiares deterioradas. Nosso dever pastoral é fazer um premente apelo aos que governam e a todos os que possuem alguma responsa-bilidade a respeito, para que dêem à família o lugar que lhe corresponde na construção de uma cidade temporal digna do homem, ajudando-a a superar os graves males que a afligem e impedem sua plena realização. II. Papel da família na América Latina «A força e o vigor da instituição matrimonial e fami-liar se evidenciam igualmente: as profundas mudanças so-ciais contemporâneas, não obstante as dificuldades a que dão origem, manifestam muitas vezes, de várias maneiras, a verdadeira índole dessa instituição» (GS 47). É portanto necessário ter em conta os valores funda-mentais que a doutrina da Igreja atribui à família cristã para que a ação pastoral leve as famílias latino-americanas a conservar ou a adquirir esses valores que as capacitem a cumprir sua missão. Entre eles, dentro das linhas de reflexão desta confe-rência, queremos assinalar três especificamente: a famí-lia formadora de pessoas, educadora na fé, promotora do desenvolvimento. l. Formadora de pessoas "A família recebeu diretamente de Deus a missão de ser célula primeira e vital da sociedade" (AA 11,3). «É, pois, dever dos pais, criar um ambiente de famí-lia animado pelo amor, pela piedade para com Deus e para com os homens que promova a educação íntegra, pessoal e social dos filhos». «Continua impor-se a cada homem o dever de salvar a integridade de sua personalidade, no qual sobressaem os valores de sua inteligência, vontade, consciência e frater-nidade... Como mãe e alimentadora desta educação acha-se em primeiro lugar a família» (GS 61) . Essa doutrina do Concílio Vaticano II nos faz ver a urgência de a família cumprir sua tarefa de formar perso-nalidades integrais, e para tanto conta com muitos ele-mentos. Realmente a presença e influência dos modelos dis-tintos e complementares do pai e da mãe (masculino e fe-minino), o vínculo do afeto mútuo, o clima de confiança, intimidade, respeito e liberdade, o quadro de vida social com uma hierarquia natural mas matizada pelo clima de afeto, tudo converge para que a família se torne capaz de plasmar personalidades fortes e equilibradas para a so-ciedade. 2. Educadora na fé "Os esposos cristãos são para si mesmos, para seus filhos e demais familiares, cooperadores da graça e tes-temunhas da fé. São para seus filhos os primeiros prega-dores e educadores na fé" (AA 11) e devem «inculcar a doutrina crista e as virtudes evangélicas aos filhos amo-rosamente recebidos de Deus» (LG 41, 5), e realizar esta missão «mediante a palavra e o exemplo» (LG 11), de tal maneira que «graças aos pais, que precederão com o exem-plo e a oração na família, os filhos e ainda os demais que vivem no círculo familiar, encontrarão mais facilmente o caminho do sentido humano, da salvação e da santidade». Sabemos que muitas famílias da América Latina fo-ram incapazes de se tornarem educadoras na fé, ou por não estarem bem constituídas, ou por estarem desintegra-das e outras, ainda, porque vêm dando esta educação em termos de mero tradicionalismo, às vezes até com aspectos míticos e supersticiosos. Daí a necessidade de se dotar a família atual de elementos que lhe restituam a capacidade evangelizadora, de acordo com a doutrina da Igreja. 3. Promotora do desenvolvimento «A família é a primeira escola das virtudes sociais necessárias às demais sociedades... É aí que os filhos fa-zem a primeira experiência de uma sã sociedade huma-na... É através dela que os filhos vão sendo introduzidos gradativamente na sociedade civil e na Igreja (GS 3) . Além disso, «a família é a escola do mais rico huma-nismo» (GS 52), e o «humanismo completo é o desenvolvi-mento integral». E considerando que «na família convivem diversas ge-rações que se ajudam mutuamente para adquirir uma sa-bedoria mais completa e estabelecer os direitos das pessoas com as demais exigências da vida social, sabemos que ela constitui o fundamento da sociedade» (GS 2). «Nela, os filhos, num clima de amor, aprendem, jun-tos, com maior facilidade a reta hierarquia dos valores, ao mesmo tempo em que se imprime, de modo natural, na alma dos adolescentes, à medida que vão crescendo for-mas aprovadas de cultura» (GS 61) . «Aos pais cabe preparar, no seio da família, os filhos para conhecerem o amor de Deus para com todos os ho-mens; ensinar-lhes, gradativamente, sobretudo pelo exem-plo, a solicitude pelas necessidades materiais e espirituais do próximo» (AAEE), e assim a família cumprirá sua missão e promoverá a justiça e demais boas obras a ser-viço de todos os irmãos que padecem necessidade (AA) . Por isso, «o bem-estar da pessoa e da sociedade humana está ligado estreitamente a uma situação favorável da comunidade conjugal e familiar» (GS 47), pois ela é um fator importantíssimo no desenvolvimento. «Por isso todos os que têm influência nas comunidades e grupos sociais devem trabalhar eficazmente para a promoção do matrimônio e da família» (GS 52) . III. Problemas de demografia na América Latina, A questão demográfica em nosso continente reveste-se de uma complexidade e delicadeza peculiares: é certo que existe um rápido crescimento da população, devido, menos ao índice de nascimento, que ao índice de mortali-dade infantil, baixo mas não satisfatório, ao mesmo tempo que ao crescente índice de longevidade. Mas é certo, tam-bém, que a maioria de nossos países sofre de sub-população e precisa de um aumento demográfico como fator de de-senvolvimento; também é certo que as condições sócio-econômico-culturais, excessivamente baixas, se mostram adversas a um crescimento demográfico pronunciado. Como pastores, sensíveis aos problemas de nossa gen-te, fazendo nossas suas dores e angústias, julgamos neces-sário enunciar os seguintes pontos sobre esta matéria: l. Todo enfoque unilateral, como toda solução simplis-ta a respeito desses problemas são incompletos e, portanto, equívocos. Aparece como particularmente daninha a ado-ção de uma política demográfica anti-natalista que tende a suplantar, substituir ou relegar ao esquecimento uma polí-tica de desenvolvimento mais exigente, mas a única acei-tável. «Trata-se, com efeito, não de suprimir os comensais e sim de multiplicar o pão» (Paulo VI) . 2. Neste sentido a encíclica Humanae Vitae, com o ca-ráter social que nela ocupa um lugar proeminente e que a coloca ao lado da Populorum Progressio tem para nosso continente uma importância especial, pois ante nossos pro-blemas e aspirações a Humanae Vitae: a) Acentua a necessidade imperiosa de sair ao encon-tro do desafio dos problemas demográficos com uma resposta integral e orientada para o desenvolvimento. b) Denuncia toda política fundada num controle in-discriminado da natalidade, isto é, a qualquer preço e de qualquer maneira, sobretudo quando se torna condição de ajuda econômica. c) Ergue-se como defensora dos valores inalienáveis como: o respeito à pessoa humana, especialmente dos po-bres e dos marginalizados, o valor da vida, o amor conjugal. d) Contém um apelo e um estímulo à formação inte-gral das pessoas mediante uma auto-educação dos casais, cujos elementos principais são: o autodomínio, a rejeição de soluções fáceis, mas perigosas por serem alienantes e deformadoras, a necessidade da graça de Deus para o cum-primento da lei, a fé como estimuladora da existência e um humanismo novo, livre do erotismo da civilização burguesa etc. 3. A aplicação da Encíclica na parte a que se refere à ética conjugal, como o reconhece o próprio papa: «apa-recerá facilmente aos olhos de muitos como difícil e até impossível na prática" (n. 20). Conscientes dessas dificuldades e sentindo na alma as indagações e angústias de todos os nossos filhos e empe-nhados em oferecer nosso apoio a todos indistintamente, mas de modo particular àqueles que escutam a palavra do papa e procuram viver o ideal que ela propõe, indicamos os seguintes pontos: a) O ensinamento do magistério na Encíclica é claro e inequívoco a respeito da exclusão dos meios artificiais para tornar voluntariamente infecundo o ato conjugal (HV). b) Mas o próprio Santo Padre reafirmou, ao inaugu-rar esta conferência: «Esta norma não constitui uma cega corrida para a superpopulação nem diminui a responsabi-lidade, nem a liberdade dos cônjuges, a quem não se proí-be uma honesta e razoável limitação da natalidade, nem impede os meios terapêuticos legítimos, nem o progresso das investigações científicas" (Discurso ao inaugurar a II Conferência Episcopal Latino-americana). c) A vida sacramental, sobretudo como caminho para uma progressiva maturidade humana e cristã do matri-mônio, é um direito e, mais ainda, um dever, e corresponde a nós, pastores, facilitar esse caminho aos casais cristãos. d) A ajuda mútua que os casais se proporcionam ao reunirem-se, apoiados por peritos em ciências humanas e sacerdotes imbuídos do espírito pastoral, pode ser inesti-mável aos que, apesar de suas dificuldades, procuram al-cançar o ideal visado. e) Formulamos o propósito, e procuraremos cumpri-lo, não só de prestar «nosso serviço às almas que lutam com essas dificuldades, com o coração de bom pastor (HV, e discurso de abertura da II Conferência), mas também, e de modo especial, de hipotecar nossa solidariedade aos casais que sofrem, por meio do exemplo de nossa própria abnegação pessoal e coletiva, na pobreza real, no celibato assumido com sinceridade e vivido com seriedade e ale-gria, na paciência e dedicação aos homens, na obediência à palavra de Deus e, sobretudo, na caridade elevada até ao heroísmo. IV. Recomendações para uma pastoral familiar Por vários fatores históricos, étnicos, sociológicos e até caracterológicos, a instituição familiar sempre teve, na América Latina, uma importância global muito grande. É certo que nas grandes cidades perde parte de sua importância. Nas áreas rurais, que formam ainda maior parte do continente, apesar de todas as transformações ex-ternas, a família continua a desempenhar um papel primor-dial tanto no campo social, quanto no cultural, no ético ou no religioso. or isso e ainda mais por sua condição de formadora de pessoas, educadora na fé e promotora do desenvolvi-mento, mas também a fim de sanar todas as carências de que ela padece e que tem graves repercussões, julgamos necessário dar à pastoral familiar uma prioridade na pla-nificação da pastoral de conjunto; sugerimos que esta seja planejada em diálogo com os casais que, por sua experiên-cia humana e pelos carismas próprios do sacramento do matrimônio, podem auxiliar eficazmente em sua elaboração. Esta pastoral familiar deve conter, entre outras coi-sas, as seguintes metas e orientações fundamentais: 1. Procurar, desde os anos da adolescência, uma sóli-da educação para o amor que integre e ao mesmo tempo sobrepasse a simples educação sexual, inculcando nos jo-vens de ambos os sexos a sensibilidade e a consciência dos valores essenciais: amor, respeito, dom de si mesmo etc. 2. Difundir a idéia e facilitar, na prática, uma preparação para o matrimônio, acessível a todos os que vão se casar e tão integral quanto possível: física, sociológica, ju-rídica, moral e espiritual. 3. Elaborar e difundir uma espiritualidade matrimo-nial baseada simultaneamente numa clara visão do leigo no mundo e na Igreja, e numa teologia do matrimônio co-mo sacramento. 4. Inculcar nos jovens em geral e sobretudo nos ca-sais jovens a consciência e a convicção de uma paternida-de realmente responsável (noção esta de primeiríssima im-portância neste continente tão marcado pela praga dos nascimentos ilegítimos) . 5. Despertar nos esposos a necessidade do diálogo con-jugal que os leve à unidade profunda e a um espírito de co-responsabilidade e colaboração. 6. Facilitar o diálogo entre pais e filhos que ajude a superar, no seio da família, o conflito de gerações e torne o lar "um lugar onde se realize o encontro das gerações" (GS). 7. Fazer com que a família seja verdadeiramente uma «igreja doméstica»: comunidade de fé, de oração, de amor, de ação evangelizadora, escola de catequese etc. 8. Levar todas as famílias a uma generosa abertura para as outras famílias, inclusive de concepções cristãs di-ferentes; e sobretudo para as famílias marginalizadas ou em processo de desintegração; abertura para a sociedade, para o mundo e para a vida da Igreja. Queremos, finalmente, estimular os casais que se es-forçam por viver a santidade conjugal e realizam o aposto-lado familiar, bem como os que, «de comum acordo, de forma bem ponderada, aceitam com magnanimidade uma prole mais numerosa para educá-la condignamente» (GS 50) . Bem planejada e bem executada mediante os movi-mentos familiares, tão meritórios, ou mediante outras for-mas, a pastoral familiar contribuirá, certamente, para fa-zer de nossas famílias uma força viva (e não, como poderia acontecer, um peso morto) a serviço da construção da Igreja, do desenvolvimento e da realização das necessá-rias transformações em nosso continente. Introdução Esta Conferência do Episcopado Latino-americano, que teve o propósito de entrosar a Igreja no processo de transformação dos povos latino-americanos, fixa muito es-pecialmente sua atenção na educação, como um fator bá-sico e decisivo no desenvolvimento do continente. I. Características da educação na América, Latina Devemos reconhecer, antes de mais nada, que têm si-do feitos esforços consideráveis em quase todos os nossos países para estender a educação em seus diversos níveis e são grandes os méritos que, neste esforço, correspondem tanto aos governos como à Igreja e aos demais setores responsáveis pela educação. Contudo, o panorama geral da educação apresenta-se a nós, ao mesmo tempo, com características de drama e de repto. Ao dizer isto, não nos anima um espírito pessi-mista, mas um desejo de superação. Considerando a urgência do desenvolvimento integral do homem e de todos os homens na grande comunidade latino-americana, os esforços educativos padecem de sé-rias deficiências e inadequações. Existe, em primeiro lugar, o vasto setor dos homens «marginalizados» da cultura, os analfabetos e especialmen-te os analfabetos indígenas, privados por vezes até do be-nefício elementar da comunicação por meio de uma lín-gua comum. Sua ignorância é uma escravidão inumana. Sua liberação, uma responsabilidade de todos os homens latino-americanos. Devem ser libertados de seus preconcei-tos e superstições, de seus complexos e inibições, de seus fanatismos, de sua tendência fatalista, de sua incompreen-são temerosa do mundo em que vivem, de sua desconfian-ça e de sua passividade. A tarefa de educação destes irmãos nossos não con-siste propriamente em incorporá-los nas estruturas cultu-rais que existem em torno deles, e que podem ser também opressoras, mas sim em algo muito mais profundo. Consis-te em capacitá-los para que, eles próprios, como autores de seu próprio progresso, desenvolvam de uma maneira cria-dora e original, um mundo cultural, em acordo com sua própria riqueza e que seja fruto de seus próprios esforços, especialmente no caso dos indígenas, devem-se respeitar os valores próprios de sua cultura. A educação formal ou sistemática se estende cada vez mais para as crianças e os jovens latino-americanos, em-bora grande número deles fique ainda fora dos sistemas escolares. Qualitativamente, está longe de corresponder àquilo que exige nosso desenvolvimento, considerando-se o futuro. Sem esquecer as diferenças que existem relativamen-te aos sistemas educativos nos diversos países do continen-te, parece-nos que o seu conteúdo programático é em ge-ral demasiado abstrato e formalista. Os métodos didáticos estão mais preocupados com a transmissão dos conheci-mentos do que com a criação de um espírito crítico. Do ponto de vista social, os sistemas educativos estão orien-tados para a manutenção das estruturas sociais e econômicas imperantes, mais do que para sua transformação. É uma educação uniforme, em um momento em que a co-munidade latino-americana despertou para a riqueza de seu pluralismo humano; é passiva, quando já soou a hora para nossos povos de descobrirem seu próprio ser, pleno de originalidade; está orientada no sentido de sustentar uma economia baseada na ânsia de «ter mais», quando a juventude latino-americana exige "ser mais", na posse de sua auto-reaIização pelo serviço e no amor. Em especial, a formação profissional de nível médio e superior sacrifica com freqüência a profundidade humana, em nome do pragmatismo e do imediatismo, para ajustar-se às exigências do mercado de trabalho. Este tipo de edu-cação é responsável pela colocação do homem a serviço da economia e não desta a serviço do homem. Neste momento aflora também uma preocupação
no-va pela educação assistemática, de crescente importância:
meios de comunicação social, movimentos juvenis e tudo quanto
contribui para a criação de uma certa cultura po-pular e para
o aumento do desejo de mutação. A universidade permaneceu muitas vezes com cursos tradicionais, quase sem currículos de duração intermediária, aptos à nossa situação sócio-econômica. Nem sempre e em todo lugar esteve devidamente aberta para a investigação ou para o diálogo interdisciplinar, indispensável ao progresso da cul-tura e ao desenvolvimento integral da sociedade. Particularmente quanto à Universidade católica, assi-nalamos uma insuficiência na instauração do diálogo en-tre a teologia e os diversos ramos do saber, diálogo capaz de respeitar a devida autonomia das ciências e de trazer a luz do Evangelho para a convergência dos valores huma-nos em Cristo. A educação latino-americana, numa palavra, é cha-mada a dar uma resposta ao repto do presente e do futuro em nosso continente. Somente assim será capaz de liber-tar nossos homens das servidões culturais, sociais, econô-micas e políticas que se opõem ao nosso desenvolvimento. Quando falamos assim não perdemos de vista a dimensão sobrenatural que se inscreve no próprio desenvolvimento o qual condiciona a plenitude da vida cristã. II. Sentido humanista e cristão da educação 1. A educação libertadora como resposta a nossas necessidades Nossa reflexão sobre este panorama conduz-nos a propor uma visão da educação mais conforme com o desen-volvimento integral que propugnamos para nosso conti-nente; chamá-la-íamos de «educação libertadora», isto é, que transforma o educando em sujeito de seu próprio de-senvolvimento. A educação é efetivamente o meio-chave para libertar os povos de toda servidão e para fazê-los as-cender «de condições de vida menos humanas para condi-ções mais humanas" (PP) , tendo-se em conta que o homem é o responsável e «o artífice principal de seu êxito e de seu fracasso» (PP 15). Para tanto, a educação em todos os seus níveis deve chegar a ser criadora, enquanto deve antecipar o novo ti-po de sociedade que buscamos na América Latina; deve basear seus esforços na personalização das novas gerações, aprofundando a consciência de sua dignidade humana, fa-vorecendo sua livre autodeterminação e promovendo seu sentido comunitário. Deve ser aberta ao diálogo, para se enriquecer com os valores que a juventude intui e descobre como válidos pa-ra o futuro e assim promover a compreensão dos jovens entre si e com os adultos. Isto permitirá aos jovens reco-lher ao melhor do exemplo e dos ensinamentos de seus pais e mestres e formar a sociedade de amanhã» (Mensagem do Concílio aos Jovens). A educação deve, além disso, afirmar, com sincero apreço, as peculiaridades locais e nacionais e integrá-las na unidade pluralista do continente e do mundo. Finalmen-te, deve capacitar as novas gerações para a mudança permanente e orgânica que o desenvolvimento supõe. Esta é a educação libertadora de que a América Lati-na necessita para redimir-se das servidões injustas e, antes de tudo, do seu próprio egoísmo. Esta é a educação recla-mada por nosso desenvolvimento integral. 2. A educação libertadora e a missão da Igreja Como toda libertação já é uma antecipação da plena redenção de Cristo, a Igreja na América Latina sente-se particularmente solidária com todo esforço educativo ten-dente a libertar nossos povos. "O Espírito do Senhor está sobre mim, por isso me enviou para evangelizar os pobres" (Isaías). Cristo pascal, "imagem do Deus invisível", é a meta que o desígnio de Deus estabelece para o desenvolvi-mento do homem, para que «alcancemos todos a estatu-ra do homem perfeito" (Ef 1,4-13). Por isso, todo «crescimento em humanidade» (PP) capacita-nos a «reproduzir a imagem do Filho, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos» (Rom 8,29). A Igreja, no que se refere à sua missão específica, recomendada por seu divino fundador, deve promover e fomentar a educação cristã a que todos os batizados têm direito, para que alcancem a maturidade de sua fé. En-quanto servidora de todos os homens, a Igreja busca por meio de seus membros, especialmente pelos leigos, colabo-rar nas tarefas de promoção cultural humana sob todas as formas que interessam à sociedade. No exercício deste di-reito e serviço, juntamente com os demais setores respon-sáveis, a obra educadora da Igreja não deve ser obstaculi-zada por discriminações de qualquer espécie. Esta é a visão alentadora que, sobre a educação na América Latina, apresenta hoje a Igreja. Ela, isto é, todos os cristãos, empregarão seus esforços, com humildade, de-sinteresse e desejo de servir, na tarefa de criar a nova educação exigida pelos nossos povos, neste despertar de um novo mundo. III. Orientações pastorais 1. Linhas gerais A Conferência Episcopal Latino-americana recomen-da os seguintes critérios e orientações: 1.1. Reconhecendo a transcendência da educação sis-temática para a promoção do homem, em escolas ou colé-gios, convém não identificar a educação com qualquer dos instrumentos concretos. Dentro do conceito educativo mo-derno, esta transcendência é enorme, pois a educação é a maior garantia para o desenvolvimento das pessoas e do progresso social; já que conduzida corretamente para os autores do desenvolvimento; e é também ela a melhor dis-tribuidora dos frutos do progresso, que são as conquis-tas culturais da humanidade, constituindo-se no elemento mais rentável da nação. 1.2. Este conceito ultrapassa a mera institucionalida-de dos centros docentes e projeta sua dinâmica apostólica em outros setores que reclamam urgentemente a presença e o compromisso da Igreja. Por isso, a Conferência Epis-copal faz um apelo aos responsáveis pela educação para que ofereçam oportunidades educativas a todos os homens, em vista da posse sempre maior de seu próprio talento e de sua própria personalidade, a fim de que, através dela, consigam alcançar, por si próprios, a sua integração na so-ciedade, com plenitude de participação social, econômica, cultural, política e religiosa. Exorta, portanto, os educadores ao cumprimento de seus deveres e à guarda de seus direitos. A Igreja, de seu lado, por sua missão de serviço, compromete-se a utilizar todos os meios a seu alcance. 1.3. Dirige-se em primeiro lugar aos pais de família, «os primeiros e principais educadores». Não podem ficar marginalizados do processo educativo. É urgente auxiliá-los a tomarem consciência de seus deveres e direitos e fa-cilitar-lhes a participação direta nas atividades e na or-ganização dos centros docentes, através das Associações de Pais de Família, que devem ser criadas ou encoraja-das onde existirem, ao nível local, nacional e internacional. 1.4. No que se refere aos educandos, insiste para que se leve em conta sua problemática. A juventude pede para ser ouvida com relação à sua própria formação. É preciso não esquecer que o aluno tende para seu auto-aperfeiçoa-mento, e por isso é preciso apresentar-lhe os valores, a fim de que ele adote uma atitude de aceitação pessoal em face deles. A auto-educação, que deve ser ordenada com sabe-doria, é requisito indispensável para alcançar a verdadeira comunidade de educandos. 1.5. Quanto aos educadores é preciso antes de mais na-da valorizar sua missão decisiva na transformação da so-ciedade e chegar a uma decisão consciente e corajosa na preparação, seleção e promoção do professorado. A seleção e a promoção deverão insistir fundamental-mente nos dotes humanos de personalidade e atitude de serviço em permanente evolução; e para a preparação deve a Igreja latino-americana apoiar os institutos de formação do pessoal docente, confessional ou não. A Igreja deve, além disso, trabalhar para que todas as tarefas sociais lhes sejam retribuídas convenientemen-te, colaborando com eles em suas justas reivindicações. 1.6. Dentro da comunidade educacional ocupam hoje lugar prioritário os grupos juvenis, que vencem a distân-cia crescente entre o mundo adulto e o mundo dos jovens. Por isso, a Conferência Episcopal recomenda a formação de movimentos juvenis que realizem toda sorte de ativi-dades, de acordo com seus próprios interesses e com uma direção suficiente, gradual e cada vez maior dos próprios jovens. Além disso, aos que tiverem qualidades humanas apropriadas devem ser dadas oportunidades de se forma-rem como líderes. 1.7. A Igreja toma consciência da suma importância da educação de base. Em atenção ao grande número de analfabetos e marginalizados na América Latina, a Igreja, sem poupar sacrifício algum, se comprometerá a promo-ver a educação de base, que não visa somente alfabetizar mas também capacitar o homem para convertê-lo em agente consciente de seu desenvolvimento integral. 2. Relativamente à escola 2.1. A Igreja, servidora da humanidade, tem-se preo-cupado, ao longo de sua história, com a educação, não só catequética, mas integral do homem. A II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano reafirma esta atitude de serviço e continuará preocupando-se, por meio de seus Ins-titutos Educacionais, aos quais reconhece plena validez, em prosseguir nesta tarefa adaptada às mudanças histó-ricas. Assim, incentiva todos os educadores católicos e con-gregações docentes a prosseguirem incansavelmente em sua abnegada função apostólica e exorta-os à sua renovação e atualização, dentro da linha proposta pelo Concílio e por esta Conferência. 2.2. Recomenda, portanto, a obtenção dos títulos correspondentes ao exercício de sua profissão educadora. 2.3. Procure-se aplicar a recomendação do Concílio, relativa a uma efetiva democratização da escola católica, a fim de que todos os setores sociais, sem discriminação alguma, tenham acesso a ela e nela adquiram uma autên-tica consciência social que enforme sua vida. 2.4. A escola católica deverá: a) Ser uma verdadeira comunidade formada por to-dos os elementos que a integram; b) Integrar-se na comunidade local e estar aberta à comunidade nacional e latino-americana; c) Ser dinâmica, viva e estar em contínua experimentação franca e leal; d) Estar aberta ao diálogo ecumênico; e) Partir da escola para a comunidade, transforman-do a mesma escola em centro cultural, social e espiritual da comunidade; partir dos filhos para chegar aos pais e à família; partir da educação escolar para chegar aos demais ambientes educacionais. 2.5. A fim de conseguir uma escola católica, aberta e democrática, esta Conferência Episcopal apoia o direito que os pais e os alunos têm de escolherem sua própria es-cola e de obter os meios econômicos necessários, dentro das exigências do bem comum. 3. Relativamente à universidade católica A II Conferência Geral do Episcopado Latino-ameri-cano lembra às Universidades católicas: 3.1. Que devem ser antes de tudo universidades; isto é, órgãos superiores, onde a investigação e a procura da verdade seja um trabalho comum entre professores e alu-nos e, desta forma, se crie a cultura em suas diversas ma-nifestações. 3.2. Para alcançar este objetivo as Universidades ca-tólicas devem estabelecer o diálogo entre as disciplinas hu-manas e o saber teológico, em íntima conexão com as exi-gências mais profundas do homem e da sociedade. Para isso o ensino teológico deve estar em todos os setores da universidade, em harmônica integração. Para este fim procurarão ter sua própria faculdade de teologia, ou, pelo menos, um instituto superior de formação teo-lógica ( GE 2). 3.3. De acordo com o Concílio Vaticano II e a PP, as Universidades católicas devem esforçar-se por integrar ativamente seus professores, alunos e graduados na co-munidade universitária, suscitando sua respectiva respon-sabilidade e participação na vida e atividade universitária, na medida em que as circunstâncias concretas o aconse-lhem. 3.4. A universidade deve estar integrada na vida na-cional e poder responder com espírito criador e coragem às exigências do próprio país. Deverá auscultar as neces-sidades reais, para o estabelecimento de suas faculdades e institutos e para estabelecer, simultaneamente, as carrei-ras intermediárias de capacitarão técnica, tendo em vista o desenvolvimento da comunidade, do país e do continente. 3.5. Para a constante renovação das tarefas univer-sitárias, é importante promover uma permanente avaliação dos métodos e estruturas de nossas universidades. 4. Relativamente ao planejamento 4.1. Dada a complexidade atual dos problemas educa-cionais nos países latino-americanos, a pastoral educacio-nal não pode ser concebida como uma série de atividades e normas desconexas, mas sim como resultado de um ver-dadeiro planejamento, sempre renovado e composto dos seguintes elementos : a) Reconhecimento das urgências na pastoral de con-junto; b) Elaboração das metas educacionais, fixando as prioridades; c) Censo e ordenação dos recursos humanos disponíveis; d) Censo dos instrumentos e meios institucionais, financeiros e outros; e) Elaboração das etapas do plano. 4.2. Nos assuntos de pastoral educacional, é conveniente que se procure gradualmente, dentro do respeito às pessoas e grupos, uma adequada articulação entre os organismos episcopais de educação e os organismos correspondentes das Conferências de Religiosos e das Federações de Colégios católicos. 4.3. Compete aos cristãos estar presentes em todas as possíveis iniciativas do campo educacional e da cultura e informá-las para que a todos chegue o plano divino da salvação. 4.4. Para atender ao grande número de alunos das universidades e escolas não-católicas será necessário organizar equipes de sacerdotes, de religiosos ou de leigos educadores, responsáveis pelas tarefas apostólicas dessas instituições. 4.5. A atitude da Igreja no campo da educação não pode ser a de contrapor a escola confessional à não-confessional, a escola particular à escola oficial, e sim, a de colaboração aberta e franca entre escola e escola, universidade e universidade, entre as escolas e as iniciativas extra escolares de formação e de educação, entre os planos de educação da Igreja e os do Estado; colaboração essa exigida em benefício da comunidade universal dos homens (GM 12). Esta coordenação não só está isenta de perigo para o caráter confessional das escolas católicas, mas é antes um dever pós-conciliar das mesmas, segundo o novo conceito da presença da Igreja no mundo de hoje. 4.6. A Igreja deve procurar prioritariamente a me-Ihoria das Universidades católicas existentes, antes que promover a criação de novas instituições. 4.7. Procure-se ainda uma coordenação efetiva entre as instituições educacionais da Igreja e os organismos na-cionais e internacionais interessados na educação. 1. Situação da juventude 1.1. A juventude, tema «digno do máximo interesse e de grandíssima atualidade» , constitui hoje não somente o grupo mais numeroso da sociedade latino-americana, como também uma grande força nova de pressão. Ela se apresenta, em grande parte do continente, como um novo corpo social (com perigo de detrimento na relação com os outros corpos sociais), portador de idéias próprias e va-lores inerentes ao seu próprio dinamismo interno. Procu-ra participar ativamente, assumindo novas responsabilida-des e funções, dentro da comunidade latino-americana. Freqüentemente, sua impossibilidade de participação na vida da sociedade, provoca na juventude uma certa marginalidade forçada. 1.2. Vive numa época de crises e mudanças que são causas de conflito entre as diversas gerações . Conflitos que estão exigindo um sincero esforço de compreensão e diálogo, tanto da parte dos jovens como da parte dos adul-tos. Trata-se de uma crise que atinge todos os níveis, e ao mesmo tempo que produz um efeito purificador, traz tam-bém freqüentemente, a negação dos grandes valores. 1.3. Enquanto um setor da juventude aceita passiva-mente as formas burguesas da sociedade (deixando-se le-var, às vezes, pelo indiferentismo religioso), outro rejeita com marcado radicalismo o mundo que seus pais construí-ram, por considerar seu estilo de vida carente de autenti-cidade; rejeita igualmente uma sociedade de consumo que massifica e desumaniza o homem. Esta insatisfação cresce de momento a momento. A juventude, particularmente sensível aos problemas sociais, reclama as mudanças profundas e rápidas que as-segurem uma sociedade mais justa: exigência que, cons-tantemente, sente tentação de expressar por meio da violência . É um fato constatável que o excessivo idealismo dos jovens os coloca facilmente sob a ação de grupos de diversas tendências extremistas . 1.4. Os jovens são mais sensíveis do que os adultos aos valores positivos do processo de secularização. Esforçam-se por construir um mundo mais comunitário, que vislum-bram, talvez, com mais clareza do que os antepassados. Estão mais abertos a uma sociedade pluralista e a uma di-mensão mais universal da fraternidade. A atitude religiosa da juventude se caracteriza por recusar uma imagem desfigurada de Deus, que, às vezes, lhe tem sido apresentada, e pela busca de autênticos va-lores evangélicos. 1.5. Freqüentemente os jovens identificam a Igreja com os bispos e os sacerdotes. Por não terem sido chama-dos a uma plena participação na comunidade eclesial, não se consideram como integrantes da Igreja. A linguagem comum da transmissão da palavra (pregação, documen-tos pastorais etc.), são-lhes muitas vezes estranhos e por isso não têm influência em suas vidas. Esperam dos pas-tores que não somente divulguem princípios doutrinais, mas que os provem com atitudes e realizações concretas. Dá-se o caso de jovens que condicionam a aceitação dos pastores à coerência de suas atitudes com a dimensão so-cial do Evangelho: («...o mundo, disse Paulo VI, nos observa hoje de modo particular com relação à pobreza e à simplicidade de vida...») . 1.6. A tendência a reunir-se em grupos ou comunida-des juvenis, mostra-se cada vez mais forte dentro da dinâ-mica dos movimentos de juventude na América Latina. Os jovens rejeitam as organizações demasiado institucionaliza-das, as estruturas rígidas e as formas de agrupamentos massificados. As comunidades juvenis acima referidas se caracterizam, geralmente, por serem grupos naturais (com «dimensão humana») de reflexão evangélica e revi-são de vida, em torno de um compromisso cristão am-biental. 1.7. Sem desconhecer o significado das ações de massa entre os jovens, o excessivo valor que a hierarquia atribui por vezes a seus resultados (resultados que muitas vezes é de importância numérica), dificulta a tarefa daqueles movimentos educativos e apostólicos que se esforçam por manter uma presença de fermento e irradiação. 1.8. Os movimentos juvenis esperam da hierarquia da Igreja um maior apoio moral, quando se comprometem na aplicação concreta dos princípios da doutrina social enun-ciada pelos pastores. 1.9. Em síntese: a juventude oferece inegavelmente um conjunto de valores, acompanhados, entretanto, de as-pectos negativos. Mencionemos em primeiro lugar, uma tendência à personalização, consciência de si mesmo, cria-tividade, que por contraste os leva a rejeitar os valores da tradição. Possuem um idealismo excessivo que os leva a desconhecer realidades inegáveis que terão de ser acei-tas, e adotam um inconformismo radical, cujas manifes-tações características ocorrem em quase todos os países que os impulsionam a pretender construir um mundo novo com negação absoluta do passado. Também é carac-terística da juventude a espontaneidade que a leva a me-nosprezar nem sempre com razão as formas institucionais, as normas, a autoridade e o formalismo. Finalmente apresenta um conjunto de valores no pla-no da relação comunit& |