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Documentos eclesiais
INTRODUÇÃO ÀS CONCLUSÕES Igreja latino-americana, reunida na II Conferência Geral de seu Episcopado, situou no centro de sua atenção o homem deste continente, que vive um momento decisivo de seu processo histórico. Assim sendo, não se acha "desviada", mas "voltou-se para" o homem, consciente de que "para conhecer Deus é necessário conhecer o homem". Pois Cristo é aquele em quem se manifesta o mistério do homem; procurou a Igre-ja compreender este memento histórico do homem latino-americano à Luz da Palavra, que é Cristo. Procurou ser iluminada por esta palavra para tomar consciência mais profunda do serviço que lhe incumbe prestar neste mo-mento. Esta tomada de consciência do presente volta-se para o passado. Ao examiná-lo, vê com alegria a obra realiza-da com tanta generosidade: seria este o momento de exprimir o nosso reconhecimento a todos aqueles que traçaram o sulco do Evangelho em nossos países e que estiveram ati-va e caritativamente presentes nas diversas raças, espe-cialmente indígenas, do continente, àqueles que vêm continuando a tarefa educadora da Igreja em nossas cidades e nossos campos. Reconhece, também que «nem sempre», ao longo de sua história, foram todos os seus membros, clérigos ou leigos, fiéis ao Espírito de Deus; «também em nossos tempos, a Igreja não ignora quanto se distanciam entre si a mensagem que ela profere e a fraqueza humana daqueles aos quais o Evangelho foi confiado» (GS 43). Acatando o juízo da história sobre estas luzes e som-bras, quer assumir inteiramente a responsabilidade histó-rica que recai sobre ela no presente. Não basta, certamente, refletir, conseguir mais cla-rividência e falar. E necessário agir. A hora atual não deixou de ser a hora da «palavra», mas já se tornou, com dramática urgência, a hora da ação. Chegou o momento de inventar com imaginação criadora a ação que cabe realizar e que, principalmente, terá que ser levada a cabo com a audácia do Espírito e o equilíbrio de Deus. Esta Assem-bléia foi convidada "a tomar decisões e a estabelecer pro-jetos, somente com a condição de que estivéssemos dis-postos a executá-los como compromisso pessoal nosso, mesmo à custa de sacrifícios". A América Latina está evidentemente sob o signo da transformação e do desenvolvimento. Transformação que, além de produzir-se cem uma rapidez extraordinária, atin-ge e afeta todos os níveis do homem, desde o econômico até o religioso. Isto indica que estarmos no limiar de uma nova época da história do nosso continente. Época cheia de anelo de emancipação total, de libertação diante de qualquer servidão, de maturação pessoal e de integração coletiva. Per-cebemos aqui os prenúncios do parto doloroso de uma no-va civilização. E não podemos deixar de interpretar este gigantesco esforço por uma rápida transformação e desen-volvimento como um evidente signo do Espírito que con-duz a história dos homens e dos povos para sua vocação. Não podemos deitar de descobrir nesta vontade, cada dia mais tenaz e apressada de transformação, os vestígios da imagem de Deus no homem, como um poderoso dinamis-mo. Progressivamente, este dinamismo leva-o ao domínio cada vez maior da natureza, a uma mais profunda personalização e coesão fraterna e também a um encontro com aquele que ratifica, purifica e dá fundamento aos valores conquistados pelo esforço humano. O fato de a transfor-mação a que assiste nosso continente atingir com seu impacto todos os níveis da existência, apresenta-se como um signo e uma exigência. Nós, cristãos, não podemos, com efeito, deitar de pres-sentir a presença de Deus, que quer salvar o homem intei-ro, alma e corpo. No dia definitivo da salvação Deus res-suscitará também nossos corpos, por cuja redenção geme agora em nós o Espírito com gemidos indescritíveis. Deus ressuscitou a Cristo e, por conseguinte, todos os que crêem nele. Através de Cristo, ele está ativamente presente em nossa história e antecipa seu gesto escatológico não somen-te no desejo impaciente do homem para conseguir sua to-tal redenção, mas também naquelas conquistas que, coma sinais indicadores, com voz cada vez mais poderosa, do futuro, vai fazendo o homem através de uma atividade realizada no amor. Assim, como outrora Israel, o antigo Povo, sentia a presença salvífica de Deus quando ele o libertava da o-pressão do Egito, quando o fazia atravessar o mar e o conduzia à conquista da terra prometida, assim também nós: novo povo de Deus não podemos deixar de sentir seu passo que salva, quando se dá o "verdadeiro desenvolvi-mento, que é, para cada um e para todos, a passagem de condições de vida menos humanas para condições mais hu-manas. Menos humanas: as carências materiais dos que são privados do mínimo vital e as carências morais dos que são mutilados pelo egoísmo. Menos humanas: as estrutu-ras opressoras que provenham dos abusos da posse do po-der, das explorações dos trabalhadores ou da injustiça das transações. Mais humanas: a passagem da miséria para a posse do necessário, a vitória sobre as calamidades sociais, a ampliação dos conhecimentos, a aquisição da cultura. Mais humanas também: o aumento na consideração da dignidade dos demais, a orientação para o espirito de pobreza, a cooperação no bem comum, a vontade de paz. Mais humanas ainda: o reconhecimento, por parte do ho-mem, dos valores supremos e de Deus, que deles é a fonte e o fim. Mais humanas, finalmente, e em especial, a fé, dom de Deus acolhido pela boa vontade dos homens e a unida-de na caridade de Cristo, que nos chama a todos a parti-cipar como filhos na vida de Deus vivo, Pai de todos os homens". Nesta transformação, por trás da qual se anuncia o desejo de passar do conjunto de condições menos humanas para a totalidade de condições plenamente humanas e de integrar toda a escala de valores temporais na visão glo-bal da fé cristã, tomamos consciência da "vocação original" da América Latina: «vocação de unir em uma síntese nova e genial o antigo e o moderno, o espiritual e o temporal, o que outros nos legaram e nossa própria originalidade. Nesta Assembléia do Episcopado Latino-Americano renovou-se o mistério de Pentecostes. Em torno de Maria como Mãe da Igreja, que com seu patrocínio assistiu a este continente desde sua primeira evangelização, imploramos as luzes do Espírito Santo e perseverando na oração, ali-mentamo-nos do pão da Palavra e da Eucaristia. Esta Pa-lavra foi intensamente meditada. Nossa reflexão orientou-se para a busca de forma de presença mais intensa e renovada da Igreja na atual trans-formação da América Latina. Três grandes setores, sobre os quais recai nossa soli-citude pastoral, foram abordados em sua relação com o processo de transformação do continente. Em primeiro lugar, o setor da promoção do homem e dos povos do continente para os valores da justiça, da paz, da educação e do amor conjugal. Em seguida, nossa reflexão se dirigiu para os povos deste continente e suas elites, que por estarem num pro-cesso de profunda mutação de suas condições de vida e da seus valores, requerem uma adaptada evangelização e edu-cação na fé, através da catequese e da Liturgia. Finalmente, abordamos os problemas relativos aos membros da Igreja. E preciso intensificar sua unidade e ação pastoral através de estruturas visíveis, também adap-tadas às novas condições do continente. As conclusões seguintes são o fruto do trabalho realizado nesta conferência. |
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